Setembro Recomeço #4 — Cuidar de mim sem transformar o autocuidado em mais uma obrigação

Mulher a fazer uma pausa tranquila, representando um autocuidado simples e sem obrigação

Escolher menos, mas melhor. Porque cuidar de mim não pode significar acrescentar mais dez coisas à lista de tudo aquilo que já tenho para fazer.

Setembro tem qualquer coisa de recomeço.

Regressam as rotinas.
Os horários reorganizam-se.
Há decisões para tomar, coisas para retomar, outras para deixar para trás.

E, no meio disso, surge muitas vezes uma intenção bonita:

“Quero voltar a cuidar de mim.”

Eu própria a tenho.

Quero mexer-me mais.

Quero cuidar melhor da alimentação.

Quero dormir melhor.

Quero descansar.

Quero escrever.

Quero ter algum tempo só para mim.

Quero voltar a algumas coisas que sei que me fazem bem.

O problema começa quando este:

“quero cuidar de mim”

se transforma rapidamente em:

“tenho mais dez coisas que tenho de cumprir.”

E talvez seja precisamente aqui que precisamos de parar.

Porque se cuidar de mim se transforma em mais uma lista interminável, mais uma fonte de culpa e mais uma área da minha vida onde sinto que nunca faço o suficiente, alguma coisa deixou de fazer sentido.

Se o autocuidado me deixa exausta, talvez precise de voltar a perguntar o que significa realmente cuidar de mim.

Quando até o autocuidado se transforma numa obrigação

É muito fácil acontecer.

Decidimos que está na altura de cuidar mais de nós.

Então fazemos planos.

Ir ao ginásio três ou quatro vezes por semana.

Caminhar todos os dias.

Comer melhor.

Preparar as refeições.

Beber mais água.

Dormir oito horas.

Deitar mais cedo.

Ler.

Escrever.

Fazer pausas.

Meditar.

Ter tempo para nós.

Reduzir o telemóvel.

Organizar a casa.

E, de repente, aquilo que devia ajudar-nos a viver melhor começa a parecer um segundo emprego.

O autocuidado entrou na agenda.

Mas nós continuamos cansadas.

Talvez até mais.

Não porque alguma destas coisas seja má.

Pelo contrário.

Mexermo-nos faz bem. Alimentarmo-nos melhor faz bem. Dormir, descansar, ter momentos de silêncio, escrever ou fazer qualquer coisa que nos devolva a nós próprias pode ser profundamente importante.

Mas há uma diferença entre uma prática que nos cuida e uma prática que sentimos que temos de cumprir para provar que estamos a cuidar de nós.

O ginásio também não pode ser um castigo

Quero cuidar do meu corpo.

E sei que o movimento é importante.

Mas também tenho percebido que existe uma linha fina entre criar um compromisso comigo e transformar esse compromisso numa nova forma de culpa.

Se fui ao ginásio, fiz bem.

Se não fui, falhei.

Se consegui treinar três vezes, ótimo.

Se naquela semana a vida se complicou e fui apenas uma, parece que já não conta.

Mas conta.

Talvez o verdadeiro desafio não seja fazer tudo perfeitamente.

Seja continuar.

Encontrar uma forma de mexer o corpo que seja sustentável na vida que temos — não na vida ideal que imaginamos que devíamos ter.

Às vezes será o ginásio.

Outras vezes uma caminhada.

Outras vezes descansar porque o corpo está a pedir descanso.

Cuidar do corpo também é aprender a escutá-lo.

Comer melhor não devia significar viver em guerra com a comida

Com a alimentação acontece algo semelhante.

Podemos querer fazer escolhas melhores sem transformar cada refeição num teste.

Sem pensar permanentemente no que “podemos” ou “não podemos” comer.

Sem considerar que um alimento menos saudável destruiu tudo aquilo que fizemos antes.

Alimentação saudável também precisa de caber numa vida saudável.

Com família.

Com festas.

Com dias cansativos.

Com refeições improvisadas.

Com prazer.

Com momentos em que simplesmente nos apetece comer qualquer coisa porque gostamos.

Cuidar de mim não pode significar viver constantemente em vigilância.

Talvez signifique fazer boas escolhas na maior parte do tempo, sem transformar as restantes numa condenação.

Dormir e descansar não são a mesma coisa

Também tenho pensado muito sobre o descanso.

Podemos dormir e continuar profundamente cansadas.

Porque nem todo o cansaço se resolve com sono.

Há o cansaço das decisões.

Das preocupações.

Das responsabilidades.

De pensar por todos.

De lembrar tudo.

De tentar antecipar problemas.

De querer estar presente para quem amamos.

E existem alturas em que aquilo de que precisamos não é necessariamente dormir mais.

Talvez seja ter uma hora sem alguém precisar de nós.

Ficar em silêncio.

Não decidir nada.

Não resolver nada.

Não produzir.

Não ter de aproveitar cada minuto.

O descanso não precisa de ser produtivo para ser legítimo.

E até aquilo que amamos pode transformar-se em obrigação

Escrever faz-me bem.

Faz parte de mim.

Mas até a escrita pode perder alguma da sua beleza se começar a existir apenas porque existe um calendário para cumprir.

Um post para publicar.

Uma rede social para alimentar.

Uma newsletter para enviar.

Um projecto para continuar.

Há momentos em que escrever é trabalho.

Mas há outros em que preciso de voltar a escrever simplesmente porque tenho qualquer coisa cá dentro que precisa de sair.

Sem pensar no SEO.

Sem pensar se alguém vai ler.

Sem pensar se o texto vai funcionar.

Sem perguntar se serve para Instagram, Facebook, blog ou newsletter.

Só escrever.

Talvez autocuidado seja também preservar algumas coisas do nosso mundo interior da obrigação permanente de serem úteis.

Então, afinal, o que significa cuidar de mim?

Talvez esta seja a pergunta que vale mesmo a pena fazer.

Não:

“Que rotina de autocuidado devo ter?”

Mas:

“Do que preciso realmente neste momento?”

Porque a resposta muda.

Há dias em que preciso de movimento.

Há dias em que preciso de parar.

Há dias em que preciso de estar acompanhada.

Noutros, de estar sozinha.

Há momentos em que o melhor que posso fazer por mim é cumprir aquilo a que me comprometi.

E outros em que cuidar de mim significa reconhecer que hoje não consigo.

E não transformar isso num drama.

Escolher menos, mas melhor

Talvez seja esta a minha intenção agora.

Não criar uma grande rotina nova.

Não mudar dez coisas ao mesmo tempo.

Não procurar transformar Setembro no mês em que finalmente vou conseguir fazer tudo aquilo que acho que devia estar a fazer.

Quero escolher menos.

Mas escolher melhor.

Talvez uma ou duas coisas que façam realmente diferença.

Ir ao ginásio com regularidade possível, sem transformar cada ausência numa culpa.

Comer de uma forma que me faça sentir bem, sem viver obcecada pela perfeição.

Dormir melhor sempre que conseguir.

Respeitar o cansaço.

Escrever porque faz parte de mim.

Guardar pequenos momentos em que não tenha de cuidar de mais ninguém.

E deixar algum espaço para a vida acontecer.

Porque a vida vai sempre acontecer.

O autocuidado precisa de caber na vida real

Talvez seja esta uma das aprendizagens mais importantes deste Setembro.

Não quero construir uma rotina de autocuidado para uma mulher que não existe.

Uma mulher sem imprevistos.

Sem família.

Sem preocupações.

Sem dias difíceis.

Sem cansaço.

Sem coisas que aparecem de repente e mudam todos os planos.

Quero encontrar formas de cuidar da mulher que sou e da vida que tenho.

Isso significa que algumas semanas serão melhores do que outras.

Que haverá dias em que conseguirei fazer aquilo que planeei.

E outros em que não.

Não quero que o autocuidado seja mais uma coisa onde tenho de receber uma nota.

Quero que seja um lugar onde posso regressar.

Uma pergunta simples antes de acrescentar mais uma coisa

Antes de colocar uma nova tarefa na agenda, talvez possamos perguntar:

Isto vai cuidar de mim ou vai apenas dar-me mais uma coisa para cumprir?

Nem sempre a resposta será óbvia.

Porque algumas coisas exigem esforço e continuam a fazer-nos bem.

Ir ao ginásio pode exigir esforço.

Preparar uma refeição pode exigir organização.

Desligar o telemóvel pode exigir disciplina.

Cuidar também implica compromisso.

Mas talvez a diferença esteja naquilo que acontece depois.

Sinto-me mais inteira?

Mais forte?

Mais tranquila?

Mais capaz de viver a minha vida?

Ou apenas mais cansada e culpada porque nunca consigo fazer tudo?

É aí que talvez esteja a resposta.

A intenção desta semana

Esta semana não quero acrescentar dez novos hábitos.

Quero escolher aquilo que realmente me faz falta.

Talvez até retirar alguma coisa.

Porque autocuidado não é necessariamente fazer mais.

Às vezes é fazer menos.

É dizer não.

É descansar.

É escolher uma prioridade em vez de cinco.

É não transformar cada desejo de mudança num projecto de desempenho.

E é lembrar-me de uma coisa que facilmente esqueço:

eu também faço parte das pessoas de quem cuido.

Não como a última da lista.

Mas como alguém que merece estar dentro da própria vida.

Pergunta para esta semana

O que estou a chamar de autocuidado que, na verdade, se tornou apenas mais uma obrigação?

E depois uma segunda pergunta:

Se pudesse escolher apenas uma coisa para cuidar melhor de mim esta semana, qual seria?

Talvez uma seja suficiente.

Talvez cuidar melhor não comece por fazer mais.

Talvez comece por escolher melhor.


Frase SoLu@

Se o autocuidado me deixa exausta, talvez precise de voltar a perguntar o que significa realmente cuidar de mim.


Setembro Recomeço

Este artigo faz parte da rubrica Setembro Recomeço, integrada no Calendário SoLu@ de Setembro, dedicado ao tema Autocuidado / Recomeço.

Ao longo deste mês tenho procurado perceber o que significa recomeçar sem apagar aquilo que já vivi, voltar a incluir-me nas rotinas e aceitar também as mudanças que chegam quando a vida dos nossos filhos começa a seguir novos caminhos.

Talvez este seja mais um pedaço desse recomeço:

aprender a cuidar de mim sem transformar o cuidado em cobrança.

Porque o Calendário SoLu@ é um guia, não uma prisão.

E o autocuidado também devia ser assim.

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