Voltei ao ginásio porque quero cuidar do meu corpo, da minha saúde e da mulher que quero ser nos próximos anos. Mas descobri que, entre ter acesso às máquinas e saber verdadeiramente o que fazer com elas, pode existir uma mensalidade extra.
Como sabem, voltei ao ginásio.
Não foi propriamente um regresso simples.
Quando este ginásio apareceu, ainda estava em construção. Acreditei no projecto e tornei-me sócia fundadora. Durante mais de um ano paguei a mensalidade sem praticamente usufruir do espaço.
A vida aconteceu.
Fui operada e, durante algum tempo, por indicação médica, tive de evitar determinados exercícios. Os seis meses passaram, depois passaram outros meses e, quando dei por isso, tinham passado quase dois anos.
Entretanto, o meu corpo também mudou.
O peso aumentou. As alterações hormonais fizeram-se sentir. A idade foi trazendo outras necessidades e eu fui percebendo, cada vez mais, uma coisa que racionalmente já sabia:
preciso de cuidar do meu corpo não apenas para emagrecer, mas para envelhecer melhor.
Foi também por isso que decidi regressar.
E houve ainda uma motivação bonita: acompanhar o meu filho durante as férias e começarmos juntos esta rotina.
Não regressei à procura de um corpo perfeito.
Regressei à procura de saúde.
De força.
De mobilidade.
De resistência.
De qualidade de vida.
De um corpo que consiga continuar a acompanhar-me durante muitos anos.
Quando a avaliação incluída serve sobretudo para dizer aquilo que já sabemos
No meu contrato estavam incluídas duas avaliações: uma nutricional e outra física.
Achei importante.
Depois de tanto tempo parada, com alterações no meu corpo e depois de uma cirurgia, parecia-me até uma excelente forma de recomeçar com alguma orientação.
Fui.
E foi aqui que surgiu a minha desilusão.
Na avaliação nutricional fiquei, essencialmente, a saber aquilo que já sabia:
tenho excesso de peso.
Se quisesse verdadeiro acompanhamento nutricional, com orientação continuada, teria de pagar um valor adicional todos os meses.
Na avaliação física aconteceu algo semelhante.
Avaliaram.
Explicaram.
Mas, se quisesse acompanhamento personalizado e um plano adequado às minhas necessidades, teria igualmente de pagar mais.
Saí dali com números.
Mas sem um plano nutricional.
E sem um plano de treino verdadeiramente estruturado para mim.
E fiquei a pensar:
afinal, o que estava realmente incluído?
A avaliação?
Ou a oportunidade de me vender outro serviço?
Não tenho nada contra pagar por um serviço
Quero deixar isto claro.
Um nutricionista estudou e trabalha. Um personal trainer trabalha. Um profissional que acompanha individualmente uma pessoa deve ser remunerado pelo seu conhecimento, pelo seu tempo e pela sua responsabilidade.
Não espero acompanhamento personalizado ilimitado incluído numa mensalidade básica.
Isso também não seria justo.
Mas talvez exista um espaço entre estas duas realidades.
Entre:
“Tem direito a uma avaliação.”
e:
“Agora que já lhe dissemos o que está mal, se quiser saber o que fazer, terá de pagar mais.”
É essa diferença que me incomoda.
Porque uma pessoa entra num ginásio precisamente porque quer melhorar alguma coisa.
Muitas vezes chega sedentária.
Com excesso de peso.
Sem conhecer as máquinas.
Sem saber qual a carga adequada.
Sem saber quantas repetições deve fazer.
Sem perceber como organizar um treino equilibrado.
Algumas regressam depois de anos sem exercício.
Outras têm limitações que precisam de ser respeitadas.
E há quem simplesmente nunca tenha treinado.
Dizer a alguém que precisa de perder peso ou ganhar massa muscular não é propriamente dar-lhe um caminho.
É identificar o ponto de partida.
O que muitas de nós procuramos é saber:
e agora, como começo de forma segura e possível?
O ginásio é fitness, mas a carteira é que emagrece
Confesso que pensei, com alguma ironia:
o ginásio é fitness, mas a carteira é que fica mais magra.
Mensalidade.
Mais acompanhamento nutricional.
Mais acompanhamento físico.
Mais personal trainer.
Mais isto.
Mais aquilo.
E aquilo que começou como uma decisão para cuidar da saúde pode facilmente transformar-se num conjunto de extras que nem todas as famílias conseguem suportar.
Foi então que me surgiu uma pergunta desconfortável:
cuidar melhor da nossa saúde está a tornar-se um privilégio de quem pode pagar?
Não falo de ter acesso a luxo.
Falo de orientação básica.
De aprender a usar correctamente os equipamentos.
De ter um ponto de partida.
De compreender o que devemos fazer para ganhar força, melhorar a condição física e criar uma rotina que consigamos manter.
Porque aconselhar as pessoas a fazer exercício físico é fácil.
Dar-lhes condições para conseguirem fazê-lo com confiança é outra coisa.
Mexer o corpo é demasiado importante para depender de um pacote premium
A importância do exercício não é uma invenção dos ginásios.
A Direção-Geral da Saúde recomenda aos adultos entre 150 e 300 minutos semanais de actividade física aeróbia moderada, juntamente com exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias por semana.
E quanto mais envelhecemos, mais percebemos que força não é apenas uma questão estética.
É autonomia.
É conseguir levantar-nos.
Carregar compras.
Subir escadas.
Manter equilíbrio.
Brincar com os filhos e, um dia, talvez com os netos.
Continuar independentes.
Viver melhor.
Por isso voltei.
Não para lutar contra o espelho.
Mas para estar do lado do meu futuro.
E se eu não puder pagar acompanhamento?
Esta foi talvez a aprendizagem mais importante deste regresso:
não podemos deixar que a impossibilidade de pagar todos os extras nos convença de que já não vale a pena fazer nada.
A própria DGS lembra que não precisamos obrigatoriamente de frequentar um ginásio para termos uma vida activa.
Caminhar conta.
Subir escadas conta.
Dançar conta.
Andar de bicicleta conta.
Mexermo-nos mais durante o dia conta.
E isto é importante lembrar.
Porque a saúde não pode ficar presa à ideia de que só cuidamos de nós se tivermos a mensalidade certa, o relógio certo, a roupa certa, o personal trainer certo e o plano perfeito.
Podemos começar pelo que temos.
Pelo que conseguimos.
Pelo que cabe na nossa vida e também na nossa carteira.
Faz por ti
Foi esta a conclusão a que cheguei.
Vou continuar a ir ao ginásio.
Vou continuar a tentar aprender.
Vou procurar informação credível.
Vou respeitar as limitações do meu corpo.
Vou perguntar quando tiver dúvidas.
Vou observar aquilo que me faz bem.
E, sobretudo, vou tentar criar consistência.
Porque não quero desistir de cuidar de mim só porque fiquei desiludida com a forma como o acompanhamento funciona.
Talvez tenha de fazer parte do caminho com menos ajuda do que imaginava.
Mas continuo a acreditar que vale a pena.
E se estás desse lado e também sentes que não podes pagar todos os extras que aparecem pelo caminho, quero dizer-te isto:
faz exercício por ti.
Não pelo peso que apareceu na balança.
Não para caberes numa fotografia.
Não porque alguém te mostrou uma percentagem de gordura corporal.
Não para corresponderes ao corpo que te dizem que deverias ter.
Faz por ti.
Pela tua força.
Pelos teus ossos.
Pelos teus músculos.
Pela tua mobilidade.
Pela tua cabeça.
Pela tua autonomia.
Pela mulher ou pelo homem que queres continuar a ser daqui a dez, vinte ou trinta anos.
Começa com aquilo que consegues.
Uma caminhada.
Um treino simples.
Umas escadas.
Uma música na sala.
Um passeio de bicicleta.
Ou o ginásio, se fizer sentido para ti.
Mas não deixes que o marketing transforme o cuidado contigo numa sensação permanente de que ainda tens de comprar mais alguma coisa para poderes começar.
Saúde não devia ser um luxo
Não acredito que todos os ginásios funcionem da mesma forma.
Nem acredito que todos os serviços devam estar incluídos numa mensalidade.
Existem profissionais excelentes cujo acompanhamento personalizado vale, naturalmente, o preço que cobram.
A minha reflexão é outra.
Talvez os ginásios possam perguntar-se se uma pessoa que chega — especialmente depois de muito tempo parada — não deveria sair da avaliação inicial pelo menos com algumas orientações práticas para começar.
Um pequeno plano base.
Indicações sobre as máquinas.
Alguns exercícios adaptados ao seu nível.
Cuidados a ter.
Objectivos realistas.
Depois, quem quiser ou precisar de acompanhamento individual mais aprofundado poderá naturalmente contratar esse serviço.
Isso seria diferente.
Seria uma avaliação que acrescentava conhecimento e autonomia, e não apenas números.
Porque promover actividade física não deveria significar apenas abrir a porta de uma sala cheia de máquinas.
Deveria também ajudar as pessoas a perceber como podem começar.
Eu voltei. E desta vez quero ficar.
Talvez este regresso ao ginásio não esteja a acontecer exactamente como imaginei.
Mas há uma coisa que mudou.
Desta vez não quero pagar e não ir.
Não quero esperar pelo corpo certo.
Pelo peso certo.
Pelo momento perfeito.
Quero simplesmente aparecer.
Fazer o possível.
Aprender.
Ganhar força.
E cuidar de mim.
Agosto, no Calendário SoLu@, tem-me falado muito de simplicidade: retirar o excesso e regressar ao essencial.
Talvez isto também seja simplificar.
Retirar a pressão.
Retirar a ideia de perfeição.
Retirar a necessidade de ter tudo antes de começar.
E ficar com o essencial:
mexer o corpo porque quero continuar a viver dentro dele com qualidade durante muitos e muitos anos.
O resto vou aprendendo pelo caminho.
— SoLu@
E contigo?
Quando te inscreveste num ginásio, sentiste que tiveste orientação suficiente para começar?
As avaliações incluídas ajudaram-te verdadeiramente ou acabaram sobretudo numa proposta para contratar outros serviços?
Gostava muito de conhecer outras experiências, porque talvez esta conversa seja maior do que a minha.
Também podes ler:
- Agosto Simples — Semana 4: Voltar ao essencial
- Como descomplicar a vida…
- Dançar também conta
- Ser Melhor

