Às vezes, basta ir
Há dias em que quase desistimos.
Dias em que o cansaço fala mais alto, em que apetece ficar em casa, adiar, deixar para outra vez.
Este podia ter sido um desses dias.
Mas eu queria ir ao Almeirim Talks.
Queria mesmo.
E fui.
A minha irmã acompanhou-me.
O meu marido também foi, mesmo tendo quase desistido à última da hora.
E ainda bem.
Porque há lugares onde não vamos apenas para ouvir pessoas falar.
Vamos para nos lembrarmos de alguma coisa cá dentro.
Vamos para sair um pouco da rotina, respirar outro ar, e perceber se ainda somos capazes de sentir entusiasmo, curiosidade e ligação.
Antes de começar: uma pergunta interior
Antes do evento começar, levei comigo uma pergunta silenciosa:
Do que preciso eu de me lembrar hoje?
Nem sempre sabemos ao certo o que procuramos quando aceitamos ir a um evento destes.
Às vezes, achamos que vamos apenas ouvir ideias novas.
Mas, no fundo, talvez vamos à procura de confirmação, de direção, de sentido.
Eu precisava de me lembrar de que ainda faz bem estar no meio de pessoas com interesses parecidos.
Precisava de me lembrar de que sair de casa, mesmo quando quase não apetece, pode devolver-nos uma parte importante de nós.
E precisava, talvez sem o saber totalmente, de voltar a sentir aquela energia boa de pertença.
Durante as talks: guardar o essencial
Ao longo das talks, percebi que não era preciso escrever tudo.
Bastava guardar o essencial.
Bastava deixar assentar aquilo que realmente me tocava.
Houve uma frase que ficou comigo:
O importante são as pessoas.
Tão simples.
Tão verdadeira.
No meio de tantos projetos, objetivos, pressas e exigências, é fácil esquecermo-nos disto.
No fim, são sempre as pessoas que dão sentido ao caminho.
As que nos acompanham.
As que nos inspiram.
As que acreditam.
As que aparecem.
Houve também uma ideia que me fez pensar ainda mais:
Os nossos valores e a nossa paixão são importantes.
Nem tudo o que fazemos precisa de ser perfeito para ter valor.
Nem tudo o que amamos precisa de estar acabado para ser legítimo.
Às vezes, o mais importante é justamente isso: perceber que aquilo que nos move, aquilo em que acreditamos, aquilo que queremos construir com verdade… importa.
E houve algo muito concreto que trouxe comigo para aplicar já esta semana:
dedicar-me ao projecto SoLu@ (inspirar as pessoas).
Sem adiar tanto.
Sem pôr sempre outras coisas à frente.
Sem tratar como secundário aquilo que, no fundo, me é tão essencial.
O ambiente também fala
Há coisas que não se explicam só pelo conteúdo de um evento.
Explicam-se pelo ambiente.
Pela energia.
Pela forma como nos sentimos num lugar.
E isso foi uma das partes mais bonitas para mim.
Gostei mesmo de estar rodeada daquelas pessoas.
Gostei de sentir aquela atmosfera de atenção, interesse, partilha e presença.
Já não sentia este sentimento há algum tempo.
A sensação de estar num sítio certo, com pessoas que também valorizam ideias, livros, percursos, crescimento, humanidade.
A sensação de que ainda há espaços onde se pode parar e sentir.
Às vezes, o mais valioso não é apenas o que se diz.
É o que se sente enquanto se está ali.
Um momento especial: conhecer o autor de O Hospital das Alfaces
Entre os momentos que mais me marcaram, houve um muito especial:
conhecer Pedro Chagas Freitas, o autor de O Hospital das Alfaces, um livro que li.
Já escrevi a minha opinião do livro aqui no blog.
Há encontros que parecem simples por fora, mas que por dentro têm um peso bonito.
Quando lemos um livro, há qualquer coisa do autor que entra silenciosamente na nossa vida.
As palavras acompanham-nos, ficam, trabalham dentro de nós.
Por isso, conhecer ao vivo quem escreveu um livro que lemos tem sempre algo de especial.
Como se, por instantes, o caminho das páginas se cruzasse com o caminho real.
Foi um desses momentos que se guardam.
O que confirmei dentro de mim
No final, saí de lá com uma certeza ainda mais nítida:
a nossa paixão, quando está alinhada com aquilo que somos e com os outros, é um dos bens mais valiosos que temos.
Nem sempre é o caminho mais fácil.
Nem sempre é o mais rápido.
Nem sempre é o mais reconhecido.
Mas é o que faz sentido.
É o que nos dá verdade.
É o que deixa marca.
E talvez seja isso que realmente importa: não fazer apenas por fazer, mas construir algo que tenha alma, utilidade e presença na vida dos outros.
O que quero continuar
Mais do que começar alguma coisa nova, o que eu senti foi vontade de continuar.
Continuar com o meu projeto SoLu@.
Continuar a escrever.
Continuar a acreditar que isto que faço tem valor.
Continuar a deixar palavras que possam acompanhar, ajudar, inspirar e talvez até melhorar um pouco o dia de alguém.
Penso, cada vez mais, que este é um trabalho de amor.
E que é algo que amo fazer.
Quero deixar uma marca boa nas pessoas.
Quero deixá-las um pouco melhor — mais acompanhadas, mais vistas, mais pensativas, mais ligadas a si mesmas.
Talvez seja isso o sentido de tudo.
Às vezes, basta ir
Saí do Almeirim Talks com esta ideia simples e forte:
às vezes, basta ir.
Basta não desistir à última hora.
Basta aceitar o convite.
Basta estar presente.
Basta abrir espaço.
E uma tarde que podia ser só mais uma…
acaba por devolver-nos inspiração, clareza e uma ligação mais funda ao que realmente importa.
Há dias em que não mudamos de vida.
Mas lembramo-nos dela.
E isso, por vezes, já muda muita coisa.
“Às vezes, basta não desistir à última hora para voltarmos a encontrar uma parte de nós.”
E tu?
Já viveste algum momento em que quase desistias de ir… e afinal saíste de lá com algo importante dentro de ti?
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