Quando tudo fica submerso
As cheias têm algo de estranho.
No início parecem apenas água a subir.
Depois percebemos que trazem muito mais do que isso.
Trazem imprevisibilidade.
Trazem medo.
Trazem a sensação de que, por mais que planeemos a vida, há coisas que simplesmente não controlamos.
Durante aqueles dias, tudo ficou suspenso.
Planos.
Rotinas.
Prioridades que afinal não eram assim tão prioritárias.
Quando a natureza decide lembrar-nos quem manda, a única coisa que podemos fazer é parar e esperar.
O que fica quando a água baixa
Quando a água começa a baixar, a vida tenta voltar ao normal.
Mas o “normal” já não é exatamente o mesmo.
Há uma consciência nova.
Percebemos que muitas das urgências do dia-a-dia são apenas ruído.
E que o essencial estava ali o tempo todo — apenas escondido por camadas de distração.
As cheias lembraram-me três coisas muito simples:
1. A família é sempre prioridade.
Nos momentos difíceis percebemos rapidamente quem realmente importa.
2. Quase tudo o resto pode esperar.
A maior parte das coisas que nos roubam energia não são verdadeiramente essenciais.
3. A vida pede presença, não controlo.
Há momentos em que a única coisa que podemos fazer é estar presentes.
A metáfora da vida
Talvez as cheias sejam também uma metáfora da vida.
Há momentos em que tudo parece desorganizado.
Em que sentimos que estamos a perder o controlo.
Mas depois a água baixa.
E quando baixa, percebemos algo importante:
o essencial continua lá.
A família.
A casa.
A esperança.
A capacidade de recomeçar.
Recomeçar com mais consciência
Recomeçar não significa voltar ao que era antes.
Significa voltar com mais consciência.
Mais gratidão.
Mais presença.
Mais respeito pela fragilidade da vida.
Porque às vezes é preciso a água subir
para percebermos onde realmente queremos estar.
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