Sexta-feira Nostálgica | Uma conversa entre aquilo que escrevi em 2021 e aquilo que hoje sei sobre a vida
Há textos antigos que nos fazem sorrir.
Outros fazem-nos pensar:
Eu ainda sou esta pessoa?
E depois existem aqueles que nos devolvem perguntas que nunca ficaram verdadeiramente respondidas.
Foi o que aconteceu quando voltei ao Arquivo SoLu@ e encontrei um texto que escrevi em Maio de 2021:
“Mãe, qual é o sentido da vida?”
A pergunta tinha sido feita pelo meu filho.
À noite.
Daquelas perguntas pequenas no número de palavras e enormes em tudo o resto.
Na altura respondi-lhe.
Cinco anos depois, voltei a ler a minha resposta.
E desta vez fiquei a olhar não apenas para aquilo que escrevi, mas também para a mulher que escreveu aquelas palavras.
Será que hoje responderia da mesma maneira?
“Mãe, qual é o sentido da vida?”
Em 2021, escrevi que o meu filho me tinha perguntado qual era o sentido da vida.
Respondi-lhe falando de fazer o bem, de viver plenamente, de aproveitar as oportunidades, de procurar ser feliz e de contribuir também para a felicidade daqueles que nos rodeiam.
E, antes de me despedir dele naquela noite, disse-lhe uma coisa que continuo a sentir:
“Tu és um dos propósitos da minha vida.”
Cinco anos depois, continuo a reconhecer aquela mãe.
Continuo a acreditar profundamente no amor.
Continuo a acreditar que aquilo que fazemos pelos outros importa.
Continuo a acreditar que as nossas escolhas podem deixar o mundo — ou simplesmente a vida de alguém — um pouco melhor.
Mas talvez hoje acrescentasse algumas coisas àquela resposta.
Os nossos filhos podem ser um propósito. Mas não podem ser todo o nosso propósito.
Esta talvez seja uma das coisas que o tempo me ensinou.
Durante muitos anos, uma enorme parte da minha vida esteve naturalmente organizada à volta dos meus filhos.
Os horários.
A escola.
As preocupações.
As refeições.
As actividades.
Os sonhos deles.
As dificuldades.
As conquistas.
A necessidade permanente de estar presente.
E eu quis estar.
Ainda quero.
Mas os filhos crescem.
Começam a fazer escolhas sem nós.
Partem para os seus caminhos.
Descobrem pessoas, lugares, sonhos e versões deles próprios que já não conseguimos controlar — nem devemos.
E talvez seja precisamente quando eles começam a voar que surge uma pergunta inesperada para nós, mães:
E eu?
Quem sou quando já não precisam de mim da mesma maneira?
O que quero continuar a construir?
O que me faz feliz?
Onde estão os meus sonhos?
O que dá sentido à minha vida nesta nova fase?
Talvez o sentido da vida também vá mudando
Em 2021 procurei responder àquela pergunta.
Hoje talvez aceitasse melhor que não tenho uma resposta definitiva.
E isso já não me inquieta da mesma forma.
Talvez porque tenha percebido que o sentido da vida não precisa de ser uma grande missão escrita para sempre.
Pode mudar.
Pode ter fases.
Há momentos em que o nosso propósito parece ser cuidar.
Outros em que precisamos de aprender.
Outros de sobreviver.
Outros de reconstruir.
Há momentos de partir e outros de ficar.
Há épocas em que fazemos planos.
E outras em que a própria vida os faz por nós.
Talvez viver com sentido seja também aprender a reconhecer aquilo que cada fase nos está a pedir.
A mulher de 2021 procurava respostas
Ao reler aquele texto, percebi outra coisa.
Eu procurava respostas.
Queria compreender.
Queria encontrar uma espécie de fio que ligasse aquilo que vivemos à razão por que estamos aqui.
Hoje continuo a fazer perguntas.
Mas talvez já não tenha tanta necessidade de encontrar uma resposta absoluta para todas elas.
Porque a vida ensinou-me que podemos viver coisas para as quais nunca encontraremos uma explicação satisfatória.
Há perdas que não conseguimos compreender.
Mudanças que não pedimos.
Sonhos que não aconteceram.
Pessoas que partiram.
Caminhos que tivemos de abandonar.
E existem também surpresas bonitas que nunca tínhamos planeado.
Talvez amadurecer seja perceber que podemos continuar a viver com sentido mesmo quando não compreendemos completamente aquilo que a vida nos trouxe.
Fazer as pazes com aquilo que fomos
Foi isto que mais senti ao reler o texto.
Não quero corrigir a mulher que o escreveu.
Não quero dizer-lhe:
“Hoje já não escreverias isto assim.”
Claro que não.
Passaram cinco anos.
A vida aconteceu.
Eu mudei.
Mas aquela mulher sabia aquilo que podia saber naquele momento.
Amava como sabia amar.
Educava como sabia educar.
Procurava respostas com a experiência que tinha.
Sonhava a partir da vida que conhecia.
E tudo isso também me trouxe até aqui.
Talvez uma das formas mais bonitas de crescimento seja conseguirmos olhar para trás sem vergonha da pessoa que fomos.
Sem a julgar permanentemente com os olhos da pessoa que somos hoje.
Podemos simplesmente dizer:
Estavas a aprender.
Tal como eu continuo a aprender.
Isto também é autocuidado
Setembro tem sido, no Calendário SoLu@, um mês de Autocuidado e Recomeço.
Falámos de voltar devagar.
De nos incluirmos novamente nas nossas próprias rotinas.
De deixar os filhos crescer.
De encontrar novos equilíbrios.
De cuidar de nós sem transformar o autocuidado em mais uma obrigação.
E agora percebo que falta acrescentar outra coisa:
autocuidado também pode ser fazer as pazes com a nossa própria história.
Perdoar algumas escolhas.
Compreender algumas decisões.
Aceitar que nem sempre sabíamos o que estávamos a fazer.
E reconhecer que houve versões nossas que tiveram de ser muito fortes para que hoje pudéssemos estar aqui.
“Cada pessoa segue o seu caminho”
Há uma frase que encontrei nos comentários daquele texto antigo.
Escrevi:
“Cada pessoa segue o seu caminho e faz a diferença no mundo.”
Em 2021 provavelmente pensei sobretudo nos nossos filhos e nas pessoas a quem tentamos transmitir alguma coisa.
Hoje leio-a de outra maneira.
Porque também nós continuamos a seguir o nosso caminho.
Mesmo depois de sermos mães.
Mesmo depois dos quarenta ou dos cinquenta.
Mesmo depois das mudanças.
Mesmo depois das perdas.
Mesmo depois dos planos que não resultaram.
Enquanto estivermos aqui, o nosso caminho não está terminado.
E talvez esta seja uma das respostas que hoje daria ao meu filho.
Então, qual é o sentido da vida?
Se ele me perguntasse novamente hoje, talvez começasse por dizer:
Não sei se existe uma resposta igual para todos.
Mas sei algumas coisas.
Sei que amar importa.
Que aquilo que fazemos aos outros importa.
Que estar presente importa.
Que aprender importa.
Que cuidar de nós também importa.
Que podemos recomeçar muitas vezes.
Que os nossos filhos são parte da nossa história, mas precisam de escrever a deles.
E que nós também temos o direito — e talvez a responsabilidade — de continuar a escrever a nossa.
Talvez uma vida com sentido não seja necessariamente uma vida extraordinária.
Talvez seja uma vida verdadeiramente vivida.
Com amor.
Com erros.
Com perguntas.
Com perdas.
Com sonhos.
Com pessoas.
Com coragem para mudar.
E com gratidão suficiente para reconhecer tudo aquilo que já fomos.
A mulher que eu era continua aqui
Quando criei o Arquivo SoLu@, não quis apenas salvar textos antigos.
Quis guardar memória.
Hoje percebo melhor porquê.
Porque quando volto a esses textos não encontro apenas palavras.
Encontro versões minhas.
A mãe.
A mulher.
A sonhadora.
Aquela que procurava respostas.
Aquela que acreditava que podia fazer melhor.
Aquela que algumas vezes se perdeu.
E aquela que continuou.
Nenhuma delas precisa de desaparecer para eu poder ser quem sou hoje.
Pelo contrário.
A mulher que eu era também faz parte da mulher que sou.
E da mulher que ainda estou a aprender a ser.
Talvez seja esse o verdadeiro significado desta Sexta-feira Nostálgica.
Não voltar ao passado para lá ficar.
Mas visitá-lo.
Conversar com ele.
Agradecer-lhe aquilo que nos ensinou.
E depois regressar ao presente um pouco mais conscientes do caminho que já percorremos.
Para guardar
Não preciso de rejeitar a mulher que fui para continuar a crescer.
Posso agradecer-lhe o caminho e continuar a escrever a minha história.
Um dia de cada vez.
💛
Do Arquivo para o presente
Esta reflexão nasceu do texto “Mãe, qual é o sentido da vida?”, publicado originalmente a 22 de Maio de 2021 e hoje preservado no Arquivo SoLu@.
👉 Ler o texto original no Arquivo SoLu@
Continua a ler no SoLu@
→ Recomeçar não é voltar ao princípio
→ Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda
→ Cuidar de mim sem transformar o autocuidado em mais uma obrigação
→ Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço
E tu?
Se pudesses sentar-te hoje ao lado da mulher que eras há cinco, dez ou vinte anos, o que lhe dirias?
O que mudarias?
E, sobretudo:
o que lhe agradecerias?
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