Chegar a um lugar novo: fazer amigos sem deixar de saber estar sozinho

Jovem a chegar a um lugar novo e a conhecer novas pessoas

Nem sempre encontramos imediatamente o nosso lugar. E talvez uma das coisas mais importantes que possamos ensinar aos nossos filhos seja esta: pertencer é importante, mas nunca deve custar-nos quem somos.

Há alguns anos escrevi no Arquivo SoLu@ sobre os meus filhos, competências sociais e aquela necessidade tão humana de pertencer a um grupo.

Na altura, escrevia como mãe de um filho que tinha sentido a dor de ser excluído.

Doía-lhe a ele.

E doía-me a mim.

Porque há poucas coisas mais difíceis para uma mãe do que perceber que um filho está triste e saber que não há um botão onde possamos carregar para lhe retirar aquela dor.

Eu queria ajudá-lo.

Queria que encontrasse pessoas.

Queria que se sentisse aceite.

Queria que tivesse amigos.

Anos depois, volto ao mesmo assunto de outro lugar.

Os filhos cresceram.

Chegaram outras etapas.

Universidade, alojamentos, turmas novas, pessoas desconhecidas, ambientes diferentes.

E percebo que esta aprendizagem nunca termina verdadeiramente.

Mudam os lugares.

Mudam as idades.

Mudam os grupos.

Mas aquela pergunta continua, de alguma forma, connosco:

Onde é o meu lugar?


Chegar a um sítio novo nem sempre é fácil

Falamos muitas vezes dos novos começos como se fossem apenas entusiasmo.

Uma Universidade nova.

Um novo emprego.

Uma nova cidade.

Uma nova turma.

Uma residência universitária.

Um novo projecto.

Parece tudo cheio de possibilidades.

E é.

Mas também pode ser profundamente desconfortável.

Porque entrar num lugar onde toda a gente é desconhecida obriga-nos a começar de novo nas coisas mais pequenas.

Não sabemos com quem nos sentar.

Não sabemos com quem almoçar.

Não sabemos quem pensa como nós.

Não sabemos quem poderá vir a ser amigo e quem será apenas alguém que passou pela nossa vida.

Há pessoas que parecem integrar-se imediatamente.

Entram numa sala e, poucos dias depois, parece que já conhecem toda a gente.

Outras precisam de tempo.

Observam primeiro.

Aproximam-se devagar.

Criam relações uma a uma.

E não há nada de errado nisso.

Nem toda a gente precisa de entrar num lugar novo e encontrar imediatamente um grupo.


Talvez tenhamos dado demasiada importância à ideia de “ter um grupo”

Quando os nossos filhos são adolescentes preocupamo-nos muito com os amigos.

E compreendo.

As amizades são importantes.

A pertença é importante.

Ter alguém com quem conversar, rir, estudar, sair ou simplesmente estar faz-nos bem.

Mas há uma diferença entre ter relações e sentir que precisamos desesperadamente de pertencer a qualquer grupo.

Hoje diria aos meus filhos:

Não tenham tanta pressa de pertencer que acabem por aceitar lugares onde precisam de diminuir quem são para caber.

Porque nem todas as pessoas que nos rodeiam são amigas.

Nem todas as pessoas com quem almoçamos serão amigas.

Nem todos os colegas serão amigos.

E está tudo bem.

Algumas pessoas serão companheiras de uma cadeira.

Outras de um trabalho.

Algumas estarão connosco durante um semestre.

Outras durante anos.

E talvez uma ou duas fiquem para a vida.

A amizade não se mede pela quantidade de pessoas à nossa volta.

Mede-se muito mais pela qualidade daquilo que conseguimos construir com algumas delas.


Mas como se fazem amigos quando chegamos a um lugar novo?

Talvez comece com coisas muito mais pequenas do que imaginamos.

Um “olá”.

Sentarmo-nos perto de alguém.

Perguntar uma coisa sobre uma aula.

Aceitar um café.

Ir almoçar com colegas mesmo quando ainda nos sentimos um pouco deslocados.

Participar numa actividade.

Juntar-nos a um grupo de estudo.

Perguntar:

“Vais almoçar?”

Ou ter coragem para dizer:

“Queres vir comigo?”

Às vezes ficamos à espera que alguém nos convide.

E a outra pessoa pode estar exactamente do outro lado, igualmente insegura, igualmente nova, igualmente à espera.

Por isso, um dos conselhos que hoje daria aos meus filhos é simples:

não esperem sempre que sejam os outros a aproximar-se.

Façam também um pequeno movimento.

Não precisam de conquistar uma sala inteira.

Basta conhecer uma pessoa.

Depois outra.

As relações constroem-se através da repetição, da confiança e dos pequenos momentos partilhados.

Amizade raramente acontece num instante.

Vai acontecendo.


Não confundam timidez com incapacidade

Também temos de aceitar que não somos todos iguais.

Há quem precise de muita vida social.

Há quem seja feliz com poucas pessoas próximas.

Há quem fale com facilidade com desconhecidos.

E há quem demore semanas até conseguir mostrar verdadeiramente quem é.

Não há apenas uma maneira certa de nos relacionarmos.

O importante é que a timidez, o medo ou a insegurança não acabem por construir uma prisão.

Podemos respeitar o nosso ritmo e, ainda assim, desafiar-nos suavemente.

Hoje falar com uma pessoa.

Amanhã aceitar um convite.

Na próxima semana experimentar alguma actividade.

Pequenos passos.

Sem transformar fazer amigos numa prova que precisamos de passar.


E depois há uma aprendizagem ainda mais difícil: saber estar sozinho

Talvez esta seja uma das coisas que mais desejo ensinar aos meus filhos.

Amem.

Criem amizades.

Procurem pessoas boas.

Construam relações.

Mas aprendam também a estar convosco.

Durante muito tempo ouvi e até repeti a ideia de que nascemos sozinhos e morremos sozinhos.

Hoje talvez diga de outra forma.

Porque não vivemos verdadeiramente sozinhos.

Precisamos uns dos outros.

Amamos.

Somos família.

Criamos laços.

Precisamos de pertença.

Mas há partes da vida que ninguém pode viver por nós.

Há escolhas que são nossas.

Há medos que teremos de atravessar.

Há noites em que teremos de conversar connosco próprios.

Há decisões em que, mesmo rodeados de pessoas que nos amam, somos nós que temos de escolher o caminho.

Por isso, aprender a estar sozinho não significa desistir das pessoas.

Significa não ter medo da nossa própria companhia.


Estar sozinho não é o mesmo que sentir-se abandonado

Esta diferença é importante.

Podemos estar sozinhos durante uma tarde e sentirmo-nos bem.

Ler.

Caminhar.

Estudar.

Ouvir música.

Pensar.

Descansar.

Ir beber um café.

Fazer uma refeição.

E podemos estar no meio de cinquenta pessoas e sentir uma solidão enorme.

Por isso, não quero ensinar aos meus filhos que “não precisam de ninguém”.

Precisamos.

Somos seres de relação.

Quero ensinar-lhes outra coisa:

não precisam de aceitar qualquer companhia apenas para não estarem sozinhos.

Essa diferença pode mudar muitas escolhas.


A autoestima protege-nos quando ainda não encontrámos o nosso lugar

Quando chegamos a um ambiente novo é fácil começar a olhar para os outros como medida de nós próprios.

Eles já têm amigos.

Eles parecem mais confiantes.

Eles saem juntos.

Eles foram convidados.

Eles parecem divertir-se.

E eu?

As redes sociais ainda amplificam essa sensação.

Vemos uma fotografia de dez pessoas a jantar e não vemos os outros vinte que ficaram nos quartos.

Vemos a festa.

Não vemos a insegurança.

Vemos o grupo.

Não vemos quem, mesmo naquele grupo, está a sentir-se sozinho.

É por isso que a autoestima é tão importante.

Porque precisamos de conseguir dizer a nós próprios:

o facto de ainda não ter encontrado as minhas pessoas não significa que haja alguma coisa de errado comigo.

Talvez apenas ainda não tenha passado tempo suficiente.

Talvez aquele não seja o meu grupo.

Talvez esteja a conhecer-me também nesta nova fase.


Como mãe, há coisas que já não posso fazer por eles

Posso ouvir.

Posso aconselhar.

Posso perguntar como correu o dia.

Posso incentivar.

Posso sugerir que convidem alguém.

Posso lembrar-lhes que uma primeira semana não define um ano inteiro.

Posso recordar-lhes tudo aquilo que valem quando algum momento os fizer duvidar.

Mas não posso fazer amigos por eles.

Não posso escolher as pessoas por eles.

Não posso impedir que alguma amizade os desiluda.

Não posso evitar todas as rejeições.

Nem devo.

Porque crescer também é aprender a perceber quem merece ficar perto de nós.

O meu papel mudou.

Talvez antes eu quisesse resolver.

Hoje quero sobretudo estar disponível.

Ser aquele lugar seguro onde podem regressar sem julgamentos.


O conselho que gostaria que levassem para qualquer lugar novo

Se algum dos meus filhos me perguntasse hoje:

“Mãe, cheguei aqui e ainda não conheço ninguém. O que faço?”

Eu diria:

Dá tempo.

Olha à tua volta.

Sorri.

Diz olá.

Faz perguntas.

Aceita alguns convites.

Faz também alguns.

Não julgues as pessoas demasiado depressa.

Mas também não ignores aquilo que sentes junto delas.

Não tentes impressionar toda a gente.

Não mudes aquilo que é importante para ti apenas para caber num grupo.

Procura pessoas com quem possas ser tu.

E, enquanto essas pessoas ainda não aparecem, não transformes esse tempo numa prova de que estás sozinho no mundo.

Vai conhecendo o lugar.

Vai conhecendo as pessoas.

E vai-te conhecendo a ti também.

Não precisas de ser escolhido por toda a gente para ter valor.


Talvez crescer seja também aprender isto

Em 2019 escrevia sobre a dor de ver um filho rejeitado por um grupo.

Hoje continuo a desejar que os meus filhos tenham bons amigos.

Claro que sim.

Desejo-lhes conversas longas.

Risadas.

Pessoas com quem estudar.

Jantares.

Festas.

Confidências.

Amigos que apareçam nos dias bons e, sobretudo, nos difíceis.

Mas desejo-lhes também outra coisa.

Que saibam estar sozinhos sem se sentirem menos.

Que não confundam popularidade com amizade.

Que não confundam quantidade com pertença.

Que tenham autoestima suficiente para sair de uma mesa onde precisam de deixar de ser eles próprios para serem aceites.

E coragem suficiente para se aproximarem de uma mesa nova.

Porque haverá momentos em que ninguém poderá dar esse passo por eles.

Nem mesmo eu.

E talvez deixar crescer seja também isto.

Não lhes retirar todas as dificuldades do caminho.

Mas tentar dar-lhes raízes suficientemente fortes para saberem quem são…

e asas suficientemente seguras para se aproximarem dos outros sem terem de se perder de si próprios.

SoLu@

Para pensar

Quando chegaste pela primeira vez a um lugar onde não conhecias ninguém, o que foi mais difícil?

E que conselho darias hoje a um filho, a um jovem — ou até a ti própria — sobre amizade, pertença e aprender a estar sozinho?

Da memória para o presente

Este texto nasceu também de uma reflexão que escrevi em 2019:

«Filhos — Competências sociais — Pertença a grupo de colegas (não considero amigos)», no Arquivo SoLu@.

Na altura falava da rejeição e da preocupação de uma mãe.

Hoje volto ao mesmo tema noutro momento da vida.

Os filhos cresceram.

As perguntas também.

Mas continuo a acreditar no mesmo essencial:

podemos guiá-los, amá-los e estar disponíveis. O caminho, pouco a pouco, terá de ser deles.

Leituras:

Sexta-feira Nostálgica — A mulher que eu era, o corpo que me doía e a ajuda que eu ainda não sabia pedir

Uma ponte entre um texto antigo do Arquivo SoLu@ sobre emagrecer, autoestima e maternidade, e o presente: cuidar do corpo com mais ternura, resiliência e ajuda.

Há textos antigos que parecem pequenos. Mas quando voltamos a eles, percebemos que carregavam muito mais do que poucas linhas.

Em 2009 escrevi um texto simples chamado “Emagrecer …”.

Na altura, eu falava do peso que tinha ganho com duas gravidezes, da vontade de fazer dieta, de voltar ao exercício físico e, sobretudo, daquela frase que tantas mulheres conhecem por dentro:

“Preciso gostar de mim… e não gosto quando olho para o espelho…”

Hoje, ao reler estas palavras no Arquivo SoLu@, não vejo apenas uma mulher que queria emagrecer.

Vejo uma mulher cansada.
Vejo uma mãe que tinha dado muito do seu corpo à vida.
Vejo alguém que se olhava com exigência quando talvez precisasse era de colo, descanso e ajuda.

E isso toca-me de uma forma diferente agora.

A mulher que eu era

A mulher que escreveu aquele texto queria voltar a gostar de si.

Mas talvez, naquele tempo, eu ainda não soubesse que gostar de mim não podia depender apenas do espelho, da balança ou da roupa que servia melhor.

Talvez eu ainda não soubesse dizer:

“Estou cansada.”
“Preciso de ajuda.”
“Não me reconheço neste corpo.”
“Tenho saudades de mim.”
“Preciso de cuidar de mim sem me castigar.”

Na altura, o caminho parecia passar por dieta e exercício. E, sim, cuidar do corpo é importante. Mexer o corpo faz bem. Comer melhor faz bem. Recuperar energia faz bem.

Mas hoje eu acrescentaria uma coisa essencial:

não precisava de me tratar como um problema para merecer cuidado.

A mulher que sou hoje

Hoje olho para esse texto com ternura.

Não com vergonha.
Não com crítica.
Não com vontade de apagar.

Olho para ele como quem encontra uma versão antiga de si própria a tentar sobreviver como sabia.

A mulher que sou hoje também quer sentir-se melhor no corpo. Também quer leveza. Também quer saúde, energia, movimento e descanso.

Mas já não quero cuidar de mim a partir da rejeição.

Quero cuidar de mim a partir do respeito.

Quero caminhar porque o meu corpo merece movimento, não porque precisa de punição.
Quero beber água porque mereço vitalidade, não porque tenho de compensar excessos.
Quero descansar porque o descanso também cura.
Quero pedir ajuda quando sozinha começo a pesar demais por dentro.

Dia 3 do Calendário Resiliente: pedir ajuda também é força

Esta Sexta-feira Nostálgica cruza-se com o nosso Calendário SoLu@ de Julho — Resiliência / Descanso e com a rubrica Especial Verão com Leveza.

O convite do Dia 3 é simples, mas profundo:

Hoje, pede ajuda quando precisares.

E talvez seja aqui que este texto antigo ganha novo sentido.

Porque muitas vezes olhamos para o corpo como se ele fosse o problema, quando, na verdade, ele está apenas a mostrar-nos uma história: cansaço acumulado, noites mal dormidas, maternidade intensa, emoções guardadas, falta de tempo, falta de apoio, falta de espaço para existir para além dos outros.

Pedir ajuda pode ser falar com alguém.
Pode ser marcar uma consulta.
Pode ser pedir ao marido, aos filhos ou à família que dividam tarefas.
Pode ser dizer: “hoje não consigo tudo.”
Pode ser procurar acompanhamento nutricional, psicológico ou médico.
Pode ser aceitar que cuidar de nós não precisa de ser um projecto solitário.

O corpo não é inimigo

Hoje, se pudesse responder à mulher que escreveu aquele texto em 2009, dir-lhe-ia:

“Eu sei que estás a tentar voltar a gostar de ti.
Mas começa por não te abandonares.
Não esperes emagrecer para merecer ternura.
Não esperes estar melhor para pedir ajuda.
Não esperes voltar ao corpo de antes para reconheceres o valor do corpo que te trouxe até aqui.”

Porque o corpo muda.
A maternidade muda-nos.
A idade muda-nos.
A vida muda-nos.

Mas a forma como falamos connosco pode mudar também.

E talvez seja essa uma das maiores formas de resiliência: deixar de nos olhar apenas com cobrança e começar a olhar-nos com verdade, cuidado e presença.

Ponte entre o passado e o presente

O Arquivo SoLu@ existe também para isto: para nos lembrar de onde viemos.

Nem todos os textos antigos são perfeitos.
Nem todos têm a consciência que temos hoje.
Nem todos dizem tudo da forma como diríamos agora.

Mas são memória viva.

São fotografias emocionais de uma fase.
São pedaços da mulher que fui.
E, quando os releio com amor, percebo melhor a mulher que estou a tornar-me.

Hoje, no presente, já não quero um verão vivido contra mim.

Quero um verão com mais leveza, sim.
Mas uma leveza que não nasça da culpa.
Uma leveza que nasça do cuidado.
Do movimento possível.
Da água.
Do descanso.
Da música.
Da verdade.
E da coragem de pedir ajuda quando precisar.

Porque pedir ajuda não é falhar.

É lembrar-me de que eu também mereço ser cuidada.

Pergunta para hoje

Que ajuda posso pedir hoje para não carregar tudo sozinha?

Pode ser uma ajuda pequena.
Pode ser uma conversa.
Pode ser uma tarefa dividida.
Pode ser um compromisso comigo.

Mas que seja um gesto real.

Um gesto de mulher que já não quer tratar o próprio corpo como inimigo.

Um gesto de quem está a aprender a viver o verão — e a vida — com mais ternura.

✨ SoLu@ — resiliência também é aprender a cuidar de mim sem me magoar.

Também podes ler:

  • Arquivo SoLu@ https://arquivo.solua.pt/emagrecer/
  • Calendário SoLu@ Julho: Resiliência / Descanso
    Especial Verão com Leveza https://solua.pt/calendario/30-dias-para-me-sentir-melhor-no-meu-corpo/
  • Não preciso de um corpo perfeito para viver o verão
  • Porque a autoestima não cabe numa balança
  • Como recomeçar com calma quando a vida parece pedir demais
  • Dançar também conta — o movimento que alegra sem exigir perfeição
  • Semana 0 de Julho: Recomeçar com calma
  • Ser Melhor — crescer com mais verdade, cuidado e presença
  • Ser Mãe — quando o corpo também conta a história da maternidade
  • Começa Aqui — encontra o teu caminho dentro do SoLu@

Não preciso de um corpo perfeito para viver o verão

Mulher a viver o verão com leveza e autoestima, sem precisar de um corpo perfeito

Porque a autoestima não cabe numa balança

Há uma espécie de ritual silencioso que acontece todos os anos, algures entre maio e junho. Abrimos o armário. Tiramos o fato de banho. Ficamos ali, paradas à frente do espelho, e fazemos aquela coisa que prometemos não voltar a fazer: a avaliação.

A lista corre automática. O que mudou desde o ano passado. O que devia ter mudado e não mudou. O que ainda tenho tempo de mudar antes de ir à praia.

E o verão, que devia chegar como uma promessa de luz e liberdade, começa carregado.

Conheço este ritual. Já o fiz durante anos. E sei o quanto custa — não o esforço de mudar, mas o peso de acreditar que precisamos de mudar para merecer estar lá.

O que aprendemos sobre o nosso corpo no verão

Crescemos com imagens muito específicas do que é um “corpo de verão”. Nas revistas, nos filmes, nas conversas entre mulheres que misturavam comparação e crítica como se fosse linguagem afetiva. Aprendemos que o verão era uma prova — e que o nosso corpo era o resultado.

O problema não é o que os nossos corpos são. O problema é o que nos ensinaram a ver quando olhamos para eles.

Não foi uma aprendizagem neutra. Foi repetida, reforçada, incorporada — e passou de geração em geração com uma naturalidade que assusta. As mães que ouvimos falar dos próprios corpos com dureza. As avós que não se fotografavam na praia. As amigas que recusavam gelados como se recusassem alguma coisa mais profunda.

E agora nós. A perguntar-nos se esta linguagem também passou para as nossas filhas — nos nossos comentários, nos nossos silêncios, na forma como nos cobrimos ou não nos cobrimos em frente a elas.

A autoestima não é uma meta de junho

Há uma ideia muito instalada de que a autoestima é algo que se conquista quando o corpo corresponde. Quando emagreço, vou sentir-me bem. Quando tonificar, vou usar aquele vestido. Quando parecer diferente, vou conseguir ser eu.

Mas isso é uma armadilha. Porque coloca a paz com o nosso corpo sempre no futuro — sempre dependente de uma condição que ainda não foi cumprida. É uma corrida em que a meta se move.

A autoestima não é a recompensa de um corpo transformado. É a prática de habitar o corpo que temos, agora, com menos guerra.

Não estou a falar de amor incondicional instantâneo — esse discurso também pode ser pesado quando não é genuíno. Estou a falar de algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: deixar de usar o corpo como adversário.

O que é cuidar do corpo com leveza

Este especial de verão da SoLu@ tem um nome escolhido com intenção: “com leveza”. Não com levidade — que implica não levar a sério. Com leveza — que implica não carregar mais do que é preciso.

Cuidar do corpo com leveza é hidratar porque o calor exige e porque faz bem, não porque faz parte de um plano de otimização. É mover o corpo de uma forma que não pareça punição. É descansar sem culpa. É comer o gelado sem fazer contas.

É também olhar para o espelho — e, quando o comentário crítico aparecer automático, reconhecê-lo pelo nome: não é a verdade. É um hábito. E os hábitos mudam-se.

Cuidar com leveza não é indiferença ao corpo. É cuidado sem condição. Sem a cláusula “desde que”. Sem o “quando for diferente”.

Viver o verão agora

As memórias de verão que mais fico são raramente sobre como eu parecia. São sobre o sal na pele depois do mar. As gargalhadas que não planeei. As conversas que se prolongaram mais do que o jantar. Os filhos a correr descalços.

Nenhuma dessas memórias exigiu um corpo diferente. Exigiram que eu estivesse presente.

E a presença é difícil quando uma parte de nós está sempre a gerir a imagem que os outros têm de nós. Quando nos cobrimos antes de entrar na água. Quando recusamos a fotografia. Quando ficamos em modo de observação enquanto os outros vivem.

O verão não precisa de esperar. O corpo que tens agora é o corpo com que podes viver tudo isto — o mar, o sol, a mesa partilhada, a tarde sem horas.

Uma pergunta para levares contigo

Se o teu corpo já fosse suficiente — exatamente como está hoje — o que é que isso te daria permissão de fazer este verão?

Guarda a resposta. Ela sabe mais do que a balança.

Uma prática simples para esta semana

Esta semana, antes de começar o dia, coloca uma mão no peito e outra no corpo.

Respira fundo três vezes.

E diz, mesmo que ao início pareça estranho:

“Não preciso de um corpo perfeito para viver este verão.
Preciso de um corpo cuidado, respeitado e habitado com mais amor.”

Depois escolhe uma pequena acção de cuidado.

Só uma.

Beber mais água.
Caminhar dez minutos.
Alongar os ombros.
Preparar uma refeição simples.
Dormir mais cedo.
Usar uma roupa em que te sintas confortável.
Sair à rua sem esperar por te sentires perfeita.

A leveza começa muitas vezes assim:
não quando o corpo muda, mas quando o olhar amacia.

Mini desafio SoLu@

Durante os próximos sete dias, troca uma frase de crítica por uma frase de cuidado.

Em vez de:
“Estou horrível.”

Experimenta:
“Estou a aprender a cuidar melhor de mim.”

Em vez de:
“Não posso vestir isto.”

Experimenta:
“Posso escolher algo que me faça sentir confortável e bonita.”

Em vez de:
“Tenho de mudar depressa.”

Experimenta:
“Posso mudar com respeito pelo meu ritmo.”

Em vez de:
“Só vou aproveitar quando emagrecer.”

Experimenta:
“Posso viver o verão enquanto cuido de mim.”

Para guardar

Não preciso de um corpo perfeito para viver o verão.

Preciso de um corpo escutado.
De um olhar mais gentil.
De escolhas possíveis.
De menos comparação.
De mais presença.
De mais verdade.
De mais vida.

Porque o verão não pertence apenas aos corpos perfeitos.

Pertence aos corpos vivos.

E o meu corpo, com tudo o que é, com tudo o que já viveu e com tudo o que ainda deseja viver, também merece sol.

Também merece mar.

Também merece descanso.

Também merece alegria.

Também merece verão.

Convite final

Este artigo faz parte do Especial Verão com Leveza, uma caminhada simples de autocuidado para Junho, Julho e Agosto.

Sem pressa.
Sem castigo.
Sem perfeição.

Apenas com a intenção de cuidar melhor do corpo, da mente e da vida — um dia de cada vez.

Se este texto falou contigo, guarda-o para voltares a ele nos dias em que precisares de te lembrar:

a tua vida não começa quando o teu corpo for perfeito.

A tua vida já está aqui.

E o verão também.

✦  Este artigo faz parte da rubrica Especial Verão com Leveza  •  SoLu@  •  S4 Junho 2026

Queres viver este verão com mais leveza e menos cobrança? Acompanha o Especial Verão com Leveza e começa por um gesto simples de cuidado por dia.

Sugestão de Artigos