Sexta-feira Nostálgica — Amor de mãe: aquilo que muda quando os filhos crescem

Amor de mãe quando os filhos crescem e começam os seus próprios caminhos

Em 2006 escrevia sobre o amor de uma mãe que ainda estava a nascer. Vinte anos depois, volto a essas palavras quando os meus filhos começam a construir os seus próprios caminhos.

Há textos antigos que são quase fotografias.

Não mostram apenas aquilo que aconteceu.

Mostram quem éramos naquele momento.

O que sonhávamos.

Aquilo que ainda não sabíamos.

E, às vezes, quando voltamos a lê-los muitos anos depois, percebemos que a vida respondeu a perguntas que nem sequer sabíamos que estávamos a fazer.

Foi isso que senti quando voltei ao Arquivo SoLu@ e encontrei um pequeno texto chamado «Amor de Mãe», escrito a 13 de Abril de 2006.

Vinte anos.

É estranho escrever isto.

Porque naquele texto encontro uma mulher no início da maternidade, a tentar imaginar o amor que começava a crescer dentro dela.

Hoje leio-a com os olhos de quem já viveu tantas páginas dessa história.

E há uma frase que me ficou especialmente no coração:

«Vai ser ele próprio.»

Talvez eu ainda não soubesse, naquele momento, tudo aquilo que essas palavras iriam significar.

Eu queria que eles fossem eles próprios

É curioso.

Quando os filhos são pequenos, dizemos tantas vezes que queremos educá-los para serem autónomos.

Queremos que pensem.

Que saibam escolher.

Que tenham valores.

Que tenham coragem.

Que encontrem aquilo que os faz felizes.

Que não vivam apenas para corresponder às expectativas dos outros.

Queremos que tenham asas.

E passamos anos a ajudá-los a construí-las.

Ensinamos a andar.

Depois a atravessar a rua.

A estudar.

A resolver problemas.

A assumir responsabilidades.

A tomar decisões.

A levantarem-se quando alguma coisa corre mal.

Vamos soltando a mão aos poucos, quase sem perceber.

Até chegar o dia em que começam verdadeiramente a voar.

E descobrimos uma coisa para a qual talvez ninguém nos prepare:

desejar que os nossos filhos sejam autónomos e vê-los tornarem-se autónomos são experiências muito diferentes.

Durante muitos anos, amar significou fazer

Ser mãe foi, durante muito tempo, uma sucessão interminável de verbos.

Preparar.

Levar.

Buscar.

Organizar.

Lembrar.

Cuidar.

Perguntar.

Proteger.

Resolver.

Estar.

Havia mochilas, consultas, trabalhos da escola, actividades, horários, refeições, doenças, preocupações, conversas, zangas, abraços e uma infinidade de pequenos gestos que enchiam os dias.

Durante muitos anos fomos necessárias de uma forma muito concreta.

E depois a maternidade começa lentamente a mudar.

Eles já não precisam que façamos tudo.

Não contam tudo.

Tomam decisões sem nos consultar.

Criam rotinas que já não passam pela nossa agenda.

Entram na Universidade.

Vão para os seus alojamentos.

Criam amizades, relações, ideias, escolhas e uma vida que lhes pertence cada vez mais.

Como deve pertencer.

E nós continuamos aqui.

Mas precisamos de descobrir como estar.

O amor não diminui. Muda de lugar.

Talvez seja esta uma das coisas que estou a aprender nesta fase.

O amor de mãe não fica mais pequeno quando os filhos crescem.

Mas deixa de poder manifestar-se sempre da mesma maneira.

Há uma altura em que amar já não é fazer por eles.

É confiar que conseguem fazer.

Já não é evitar todas as quedas.

É saber que terão de cair algumas vezes e confiar que possuem recursos para se levantar.

Já não é escolher o caminho.

É permanecer suficientemente perto para que saibam que podem procurar-nos quando precisarem.

É aconselhar sem decidir.

Acompanhar sem controlar.

Perguntar sem invadir.

Estar disponível sem exigir que precisem de nós.

E talvez esta seja uma das formas mais difíceis do amor.

Porque proteger dá-nos a sensação de que estamos a fazer alguma coisa.

Confiar obriga-nos, muitas vezes, simplesmente a esperar.

«Vai ser ele próprio.»

Volto àquela frase escrita em 2006.

Vai ser ele próprio.

Na altura talvez fosse apenas um desejo.

Hoje percebo a dimensão dessas palavras.

Porque querer verdadeiramente que um filho seja ele próprio significa aceitar que nem sempre escolherá aquilo que escolheríamos.

Terá os seus sonhos.

As suas opiniões.

Os seus amigos.

Os seus erros.

Os seus sucessos.

Os seus medos.

Os seus amores.

Os seus caminhos.

Haverá coisas que compreenderemos.

Outras talvez não.

E amar também será conseguir respeitar aquilo que é deles.

Talvez seja isso o amor incondicional sobre o qual comecei a escrever há tantos anos.

Não um amor que prende.

Não um amor que exige que alguém seja aquilo que imaginámos.

Mas um amor capaz de dizer:

eu estou aqui — e quero que encontres a tua própria maneira de estar no mundo.

Deixar crescer também mexe connosco

Nesta semana do Calendário SoLu@ tenho pensado muito em Deixar Crescer.

Porque quando os filhos crescem, não são apenas eles que mudam.

A maternidade também muda.

E nós mudamos com ela.

Há orgulho.

Muito.

Mas também há saudade.

Há preocupação.

Há silêncio.

Há quartos que ficam vazios mais vezes.

Há horários que já não conhecemos tão bem.

Há histórias das quais recebemos apenas alguns capítulos.

E existe aquela estranha sensação de perceber que fizemos exactamente aquilo que queríamos fazer:

criámos filhos capazes de caminhar sem nós.

Mas o coração precisa de algum tempo para aprender aquilo que a razão já compreendeu.

Talvez seja por isso que deixar crescer também seja um recomeço.

Para eles.

E para nós.

E quem sou eu nesta nova fase?

Há ainda outra pergunta que começa a aparecer.

Quando durante tantos anos uma grande parte da nossa vida se organiza em redor dos filhos, o que acontece quando eles começam a precisar menos dessa organização?

Quem fica?

A mãe continua.

Claro.

Talvez continue sempre.

Mas há também uma mulher que precisa de voltar a encontrar espaço.

Os seus projectos.

O seu corpo.

A sua relação.

Os seus sonhos.

As coisas que gosta de fazer.

O silêncio.

O tempo.

Aquilo que deixou para depois.

Não acredito que esta fase nos peça para sermos menos mães.

Talvez nos peça para aprendermos a ser mães sem deixarmos de voltar a ser também um pouco mais de nós próprias.

Vinte anos depois

Se pudesse falar hoje com a mulher que escreveu «Amor de Mãe», em Abril de 2006, não lhe contaria tudo.

Deixava-a viver.

Deixava-a descobrir os primeiros passos.

Os abraços.

As noites difíceis.

As gargalhadas.

Os medos.

Os irmãos que ainda haviam de chegar.

As alegrias.

As dúvidas.

As adolescências.

Os desafios.

E todos aqueles dias absolutamente normais que, muitos anos depois, percebemos que eram extraordinários.

Mas talvez lhe dissesse uma coisa:

Esse amor de que estás a escrever vai mudar muitas vezes de forma.

Haverá dias em que será colo.

Outros em que será firmeza.

Às vezes será uma conversa.

Às vezes será silêncio.

Um dia será também distância.

Confiança.

Liberdade.

E vais descobrir que deixar alguém crescer não significa amar menos.

Significa acreditar que todo aquele amor serviu também para isto:

dar raízes suficientemente fortes para que um dia possam usar as asas.

Da memória para o presente

Este texto nasceu da releitura de «Amor de Mãe», escrito a 13 de Abril de 2006 e hoje preservado no Arquivo SoLu@.

Vinte anos depois, regresso às palavras daquela mãe que ainda estava a começar e encontro nelas uma pergunta que continua viva:

Como amar profundamente sem impedir que aqueles que amamos encontrem o seu próprio caminho?

Talvez ainda esteja a aprender a resposta.

Mas hoje sei um pouco mais.

Amar também é confiar.

Amar também é dar espaço.

Amar também é deixar crescer.

A eles.

E, talvez agora, também a mim.


Para pensar

Se és mãe ou pai de filhos que já começaram a ganhar autonomia, talvez conheças esta sensação.

O que foi mais difícil para ti à medida que os teus filhos cresceram: deixar de fazer por eles ou aprender a confiar que conseguem fazer sozinhos?

Gostava muito de te ler.

Talvez haja outras mães e outros pais a atravessar exactamente esta fase e a precisar de saber que não são os únicos.


🌿 Continua este caminho

📖 No Arquivo SoLu@
→ Ler o texto original: «Amor de Mãe»

🌿 No SoLu@
→ Quando os filhos vão para a Universidade: um novo ciclo começa
→ Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda

🗓️ Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço
→ Semana 3 — Deixar Crescer

Porque o Arquivo guarda quem fui.

E o SoLu@ acompanha quem continuo a tornar-me.

Um texto do passado. Um olhar de hoje.

Com carinho,
SoLu@

Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda

Mãe a observar os filhos seguirem o seu caminho numa nova fase da vida

Há momentos em que os filhos começam uma vida nova e, quase sem darmos conta, nós também somos obrigadas a descobrir quem somos nesta nova fase.

Há mudanças que parecem pertencer aos nossos filhos.

A entrada na Universidade.
O primeiro quarto longe de casa.
Novos horários.
Novos amigos.
Mais autonomia.
Decisões que deixam, pouco a pouco, de passar por nós.

Olhamos para eles e pensamos que são eles que estão a começar uma nova etapa.

E estão.

Mas não são os únicos.

Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda.

Talvez esta seja uma das partes menos faladas da maternidade.

Falamos muito sobre preparar os filhos para crescerem.

Falamos sobre lhes dar asas, ensinar responsabilidade, confiar, deixar experimentar, permitir que errem e ajudá-los a tornarem-se adultos capazes de seguir o seu próprio caminho.

Mas falamos menos sobre aquilo que acontece à mãe quando chega finalmente o momento de os deixar voar.

E sobre a pergunta que começa, silenciosamente, a aparecer dentro de nós:

Quem sou eu nesta nova fase?

Passei tantos anos a ensinar-lhes a voar…

Quando os filhos são pequenos, precisam de nós para quase tudo.

Para comer.
Para dormir.
Para atravessar a estrada.
Para organizar a mochila.
Para lembrar horários.
Para escolher.
Para decidir.
Para tranquilizar medos que ainda não sabem nomear.

Depois crescem.

E aquilo que durante tantos anos foi presença diária começa lentamente a transformar-se.

Já não precisamos de saber tudo.

Nem devemos.

Já não somos chamadas para resolver cada dificuldade.

Nem seria saudável fazê-lo.

Passamos de estar no centro da vida deles para aprender a permanecer num lugar diferente: suficientemente perto para que saibam que estamos aqui, mas suficientemente longe para que consigam descobrir quem são.

E talvez seja este um dos exercícios mais difíceis do amor materno:

continuar presente sem impedir que cresçam.

A Universidade muda muito mais do que os horários

Nestes dias, esta reflexão deixou de ser apenas uma ideia para mim.

A Universidade trouxe novos horários, novos caminhos, alojamentos, malas, deslocações, responsabilidades e uma independência cada vez maior.

Um filho já conhece esse mundo e sabe que aquilo que o espera exige trabalho, responsabilidade e muita capacidade para gerir a própria vida.

Outro começa agora esse caminho pela primeira vez.

E eu observo.

Ajudo no que posso.

Preocupo-me, naturalmente.

Pergunto se levaram tudo.

Penso se vão comer bem, se vão dormir o suficiente, se estarão seguros, se conseguirão organizar-se, se vão encontrar as pessoas certas pelo caminho.

Há perguntas que talvez nunca deixemos de fazer só porque somos mães.

Mas percebo também que chegou uma fase em que muitas dessas perguntas terão de ficar comigo.

Porque crescer também significa não ter uma mãe constantemente a antecipar todos os problemas.

E amar também é confiar naquilo que lhes ensinámos.

Mesmo quando custa.

Deixar crescer não é deixar de cuidar

Durante muito tempo podemos confundir cuidado com fazer.

Fazer por eles.
Resolver por eles.
Antecipar por eles.
Evitar que sofram.

Mas há uma altura em que cuidar começa a significar outra coisa.

Significa ouvir sem decidir imediatamente.

Aconselhar sem exigir que sigam o nosso conselho.

Perguntar sem interrogar.

Estar disponível sem invadir.

Aceitar que algumas escolhas não seriam as nossas.

E permitir que descubram, também através dos próprios erros, a pessoa que querem ser.

Isto não significa abandonar.

Muito pelo contrário.

Talvez seja uma das formas mais exigentes de presença.

Porque exige confiança.

Neles.

E em nós.

E quando eles precisam menos de mim?

Há uma pergunta difícil escondida em muitas destas mudanças:

Se eles já não precisam de mim da mesma maneira, onde fico eu?

Não é uma pergunta egoísta.

É humana.

Durante anos, grande parte dos nossos dias é construída à volta das necessidades dos filhos.

Escolas.
Consultas.
Actividades.
Reuniões.
Refeições.
Horários.
Transportes.
Preocupações.
Decisões.

A maternidade ocupa espaço no calendário, na casa, no corpo e na cabeça.

E, quando esse espaço começa a mudar, podemos sentir simultaneamente orgulho e uma espécie de vazio difícil de explicar.

Queríamos que crescessem.

Trabalhámos para isso.

Desejámos que fossem autónomos.

E depois chega o dia em que começam mesmo a sê-lo.

É bonito.

Mas também mexe connosco.

Porque deixar crescer os filhos obriga-nos, de alguma forma, a voltar a crescer também.

Talvez esteja na altura de voltar a perguntar por mim

Setembro tem sido, no Calendário SoLu@, um mês de Autocuidado e Recomeço.

E começo a perceber que este recomeço não precisa de acontecer apenas porque alguma coisa correu mal.

Há recomeços que surgem simplesmente porque a vida mudou.

Os filhos crescem.

As rotinas transformam-se.

A casa ganha outros silêncios.

E nós precisamos de encontrar uma nova forma de habitá-la.

Talvez esta seja uma oportunidade para recuperar perguntas que ficaram adiadas durante muito tempo:

Do que gosto agora?

O que quero aprender?

De que preciso para me sentir bem?

Que partes de mim ficaram esquecidas enquanto estava tão ocupada a cuidar de todos?

Que mulher quero ser nesta próxima fase da minha vida?

Não para deixar de ser mãe.

Nunca deixamos.

Mas para recordar que, antes e para além da maternidade, continua a existir uma mulher com sonhos, curiosidade, necessidades, vontade de aprender, criar, cuidar de si e continuar a crescer.

Os filhos não são o fim da nossa história

Talvez também tenhamos de aprender isto.

Os filhos não vieram preencher toda a nossa vida.

Vieram fazer parte dela.

Profundamente.

Transformaram-nos.

Ensinaram-nos formas de amor que talvez nem soubéssemos existir.

Mas o crescimento deles não pode significar o desaparecimento de quem somos.

Talvez seja exactamente o contrário.

Talvez vê-los construir a sua própria vida seja também um convite para olharmos novamente para a nossa.

Não para preencher depressa o espaço que ficou vazio.

Nem para inventar mil ocupações para evitar sentir saudades.

Mas para perguntar com calma:

O que quero fazer com este espaço novo?

Pode ser pouco.

Um livro que ficou por ler.

Uma caminhada.

Voltar a cuidar do corpo.

Retomar um projecto.

Aprender alguma coisa.

Estar mais presente no casamento.

Encontrar amigas.

Escrever.

Descansar.

Ou simplesmente reaprender a estar connosco sem sentir que precisamos de estar constantemente a fazer alguma coisa por alguém.

Talvez esta também seja uma forma de amor incondicional

Sempre quis que os meus filhos voassem.

Que fossem mais longe.

Que construíssem os seus próprios sonhos.

Que não permanecessem pequenos apenas porque seria mais confortável para mim.

Agora preciso de aprender a viver aquilo que tantas vezes lhes desejei.

Vê-los ir.

Confiar.

Continuar disponível.

E aceitar que há caminhos que terão de percorrer sem mim.

Provavelmente vou continuar a perguntar se comeram.

Provavelmente continuarei a preocupar-me mais do que eles acham necessário.

Provavelmente haverá sempre uma parte de mim que os vê com os mesmos olhos com que os via quando eram pequenos.

Mas quero aprender esta nova forma de maternidade.

Uma maternidade que não prende.

Que não controla para acalmar os próprios medos.

Que não transforma preocupação em vigilância.

Uma maternidade que diz:

Vai. Experimenta. Cresce. Eu estou aqui.

Talvez amar incondicionalmente também seja isto.

Não apenas segurá-los quando precisam.

Mas saber abrir as mãos quando chega o momento de voarem.

E eu também posso continuar a crescer

Há uma imagem bonita nesta fase da vida.

Enquanto os nossos filhos começam novos caminhos, nós não precisamos de ficar paradas no lugar onde os deixámos.

Também podemos avançar.

Eles começam uma etapa.

Nós começamos outra.

Eles descobrem quem são fora da nossa casa.

E talvez nós possamos redescobrir quem somos para além das rotinas que durante tantos anos organizaram os nossos dias.

Não quero olhar para esta fase apenas como aquilo que termina.

Quero olhar também para aquilo que começa.

Para eles.

E para mim.

Uma pequena reflexão para esta semana

Se estás a viver uma mudança semelhante — filhos a crescer, uma saída de casa, uma nova escola, Universidade, trabalho ou simplesmente uma autonomia cada vez maior — experimenta perguntar:

O que mudou na vida deles?

E depois acrescenta uma pergunta que tantas vezes esquecemos:

O que está esta mudança a pedir que mude em mim?

Talvez não seja preciso encontrar já uma grande resposta.

Às vezes um recomeço começa apenas quando temos coragem para fazer uma nova pergunta.


Frase SoLu@

Quando os nossos filhos começam a construir a própria vida, talvez seja também tempo de voltarmos a olhar para a nossa.


Setembro Recomeço

Este texto faz parte da rubrica Setembro Recomeço, um caminho de pequenos regressos a nós próprias durante um mês que tantas vezes nos pede para reorganizar a vida.

E acompanha a Semana 3 do Calendário SoLu@ — Deixar Crescer, dedicada à maternidade, à autonomia dos filhos e à aprendizagem de continuar presente sem impedir que eles sigam o seu caminho.

→ Ler: Calendário SoLu@ — Setembro, Semana 3: Deixar Crescer

Porque deixar crescer os nossos filhos também pode ser uma maneira de voltarmos a crescer com eles.

E talvez este seja o meu recomeço nesta fase: continuar a ser mãe, sem deixar de voltar a ser também eu.

— SoLu@

Chegar a um lugar novo: fazer amigos sem deixar de saber estar sozinho

Jovem a chegar a um lugar novo e a conhecer novas pessoas

Nem sempre encontramos imediatamente o nosso lugar. E talvez uma das coisas mais importantes que possamos ensinar aos nossos filhos seja esta: pertencer é importante, mas nunca deve custar-nos quem somos.

Há alguns anos escrevi no Arquivo SoLu@ sobre os meus filhos, competências sociais e aquela necessidade tão humana de pertencer a um grupo.

Na altura, escrevia como mãe de um filho que tinha sentido a dor de ser excluído.

Doía-lhe a ele.

E doía-me a mim.

Porque há poucas coisas mais difíceis para uma mãe do que perceber que um filho está triste e saber que não há um botão onde possamos carregar para lhe retirar aquela dor.

Eu queria ajudá-lo.

Queria que encontrasse pessoas.

Queria que se sentisse aceite.

Queria que tivesse amigos.

Anos depois, volto ao mesmo assunto de outro lugar.

Os filhos cresceram.

Chegaram outras etapas.

Universidade, alojamentos, turmas novas, pessoas desconhecidas, ambientes diferentes.

E percebo que esta aprendizagem nunca termina verdadeiramente.

Mudam os lugares.

Mudam as idades.

Mudam os grupos.

Mas aquela pergunta continua, de alguma forma, connosco:

Onde é o meu lugar?


Chegar a um sítio novo nem sempre é fácil

Falamos muitas vezes dos novos começos como se fossem apenas entusiasmo.

Uma Universidade nova.

Um novo emprego.

Uma nova cidade.

Uma nova turma.

Uma residência universitária.

Um novo projecto.

Parece tudo cheio de possibilidades.

E é.

Mas também pode ser profundamente desconfortável.

Porque entrar num lugar onde toda a gente é desconhecida obriga-nos a começar de novo nas coisas mais pequenas.

Não sabemos com quem nos sentar.

Não sabemos com quem almoçar.

Não sabemos quem pensa como nós.

Não sabemos quem poderá vir a ser amigo e quem será apenas alguém que passou pela nossa vida.

Há pessoas que parecem integrar-se imediatamente.

Entram numa sala e, poucos dias depois, parece que já conhecem toda a gente.

Outras precisam de tempo.

Observam primeiro.

Aproximam-se devagar.

Criam relações uma a uma.

E não há nada de errado nisso.

Nem toda a gente precisa de entrar num lugar novo e encontrar imediatamente um grupo.


Talvez tenhamos dado demasiada importância à ideia de “ter um grupo”

Quando os nossos filhos são adolescentes preocupamo-nos muito com os amigos.

E compreendo.

As amizades são importantes.

A pertença é importante.

Ter alguém com quem conversar, rir, estudar, sair ou simplesmente estar faz-nos bem.

Mas há uma diferença entre ter relações e sentir que precisamos desesperadamente de pertencer a qualquer grupo.

Hoje diria aos meus filhos:

Não tenham tanta pressa de pertencer que acabem por aceitar lugares onde precisam de diminuir quem são para caber.

Porque nem todas as pessoas que nos rodeiam são amigas.

Nem todas as pessoas com quem almoçamos serão amigas.

Nem todos os colegas serão amigos.

E está tudo bem.

Algumas pessoas serão companheiras de uma cadeira.

Outras de um trabalho.

Algumas estarão connosco durante um semestre.

Outras durante anos.

E talvez uma ou duas fiquem para a vida.

A amizade não se mede pela quantidade de pessoas à nossa volta.

Mede-se muito mais pela qualidade daquilo que conseguimos construir com algumas delas.


Mas como se fazem amigos quando chegamos a um lugar novo?

Talvez comece com coisas muito mais pequenas do que imaginamos.

Um “olá”.

Sentarmo-nos perto de alguém.

Perguntar uma coisa sobre uma aula.

Aceitar um café.

Ir almoçar com colegas mesmo quando ainda nos sentimos um pouco deslocados.

Participar numa actividade.

Juntar-nos a um grupo de estudo.

Perguntar:

“Vais almoçar?”

Ou ter coragem para dizer:

“Queres vir comigo?”

Às vezes ficamos à espera que alguém nos convide.

E a outra pessoa pode estar exactamente do outro lado, igualmente insegura, igualmente nova, igualmente à espera.

Por isso, um dos conselhos que hoje daria aos meus filhos é simples:

não esperem sempre que sejam os outros a aproximar-se.

Façam também um pequeno movimento.

Não precisam de conquistar uma sala inteira.

Basta conhecer uma pessoa.

Depois outra.

As relações constroem-se através da repetição, da confiança e dos pequenos momentos partilhados.

Amizade raramente acontece num instante.

Vai acontecendo.


Não confundam timidez com incapacidade

Também temos de aceitar que não somos todos iguais.

Há quem precise de muita vida social.

Há quem seja feliz com poucas pessoas próximas.

Há quem fale com facilidade com desconhecidos.

E há quem demore semanas até conseguir mostrar verdadeiramente quem é.

Não há apenas uma maneira certa de nos relacionarmos.

O importante é que a timidez, o medo ou a insegurança não acabem por construir uma prisão.

Podemos respeitar o nosso ritmo e, ainda assim, desafiar-nos suavemente.

Hoje falar com uma pessoa.

Amanhã aceitar um convite.

Na próxima semana experimentar alguma actividade.

Pequenos passos.

Sem transformar fazer amigos numa prova que precisamos de passar.


E depois há uma aprendizagem ainda mais difícil: saber estar sozinho

Talvez esta seja uma das coisas que mais desejo ensinar aos meus filhos.

Amem.

Criem amizades.

Procurem pessoas boas.

Construam relações.

Mas aprendam também a estar convosco.

Durante muito tempo ouvi e até repeti a ideia de que nascemos sozinhos e morremos sozinhos.

Hoje talvez diga de outra forma.

Porque não vivemos verdadeiramente sozinhos.

Precisamos uns dos outros.

Amamos.

Somos família.

Criamos laços.

Precisamos de pertença.

Mas há partes da vida que ninguém pode viver por nós.

Há escolhas que são nossas.

Há medos que teremos de atravessar.

Há noites em que teremos de conversar connosco próprios.

Há decisões em que, mesmo rodeados de pessoas que nos amam, somos nós que temos de escolher o caminho.

Por isso, aprender a estar sozinho não significa desistir das pessoas.

Significa não ter medo da nossa própria companhia.


Estar sozinho não é o mesmo que sentir-se abandonado

Esta diferença é importante.

Podemos estar sozinhos durante uma tarde e sentirmo-nos bem.

Ler.

Caminhar.

Estudar.

Ouvir música.

Pensar.

Descansar.

Ir beber um café.

Fazer uma refeição.

E podemos estar no meio de cinquenta pessoas e sentir uma solidão enorme.

Por isso, não quero ensinar aos meus filhos que “não precisam de ninguém”.

Precisamos.

Somos seres de relação.

Quero ensinar-lhes outra coisa:

não precisam de aceitar qualquer companhia apenas para não estarem sozinhos.

Essa diferença pode mudar muitas escolhas.


A autoestima protege-nos quando ainda não encontrámos o nosso lugar

Quando chegamos a um ambiente novo é fácil começar a olhar para os outros como medida de nós próprios.

Eles já têm amigos.

Eles parecem mais confiantes.

Eles saem juntos.

Eles foram convidados.

Eles parecem divertir-se.

E eu?

As redes sociais ainda amplificam essa sensação.

Vemos uma fotografia de dez pessoas a jantar e não vemos os outros vinte que ficaram nos quartos.

Vemos a festa.

Não vemos a insegurança.

Vemos o grupo.

Não vemos quem, mesmo naquele grupo, está a sentir-se sozinho.

É por isso que a autoestima é tão importante.

Porque precisamos de conseguir dizer a nós próprios:

o facto de ainda não ter encontrado as minhas pessoas não significa que haja alguma coisa de errado comigo.

Talvez apenas ainda não tenha passado tempo suficiente.

Talvez aquele não seja o meu grupo.

Talvez esteja a conhecer-me também nesta nova fase.


Como mãe, há coisas que já não posso fazer por eles

Posso ouvir.

Posso aconselhar.

Posso perguntar como correu o dia.

Posso incentivar.

Posso sugerir que convidem alguém.

Posso lembrar-lhes que uma primeira semana não define um ano inteiro.

Posso recordar-lhes tudo aquilo que valem quando algum momento os fizer duvidar.

Mas não posso fazer amigos por eles.

Não posso escolher as pessoas por eles.

Não posso impedir que alguma amizade os desiluda.

Não posso evitar todas as rejeições.

Nem devo.

Porque crescer também é aprender a perceber quem merece ficar perto de nós.

O meu papel mudou.

Talvez antes eu quisesse resolver.

Hoje quero sobretudo estar disponível.

Ser aquele lugar seguro onde podem regressar sem julgamentos.


O conselho que gostaria que levassem para qualquer lugar novo

Se algum dos meus filhos me perguntasse hoje:

“Mãe, cheguei aqui e ainda não conheço ninguém. O que faço?”

Eu diria:

Dá tempo.

Olha à tua volta.

Sorri.

Diz olá.

Faz perguntas.

Aceita alguns convites.

Faz também alguns.

Não julgues as pessoas demasiado depressa.

Mas também não ignores aquilo que sentes junto delas.

Não tentes impressionar toda a gente.

Não mudes aquilo que é importante para ti apenas para caber num grupo.

Procura pessoas com quem possas ser tu.

E, enquanto essas pessoas ainda não aparecem, não transformes esse tempo numa prova de que estás sozinho no mundo.

Vai conhecendo o lugar.

Vai conhecendo as pessoas.

E vai-te conhecendo a ti também.

Não precisas de ser escolhido por toda a gente para ter valor.


Talvez crescer seja também aprender isto

Em 2019 escrevia sobre a dor de ver um filho rejeitado por um grupo.

Hoje continuo a desejar que os meus filhos tenham bons amigos.

Claro que sim.

Desejo-lhes conversas longas.

Risadas.

Pessoas com quem estudar.

Jantares.

Festas.

Confidências.

Amigos que apareçam nos dias bons e, sobretudo, nos difíceis.

Mas desejo-lhes também outra coisa.

Que saibam estar sozinhos sem se sentirem menos.

Que não confundam popularidade com amizade.

Que não confundam quantidade com pertença.

Que tenham autoestima suficiente para sair de uma mesa onde precisam de deixar de ser eles próprios para serem aceites.

E coragem suficiente para se aproximarem de uma mesa nova.

Porque haverá momentos em que ninguém poderá dar esse passo por eles.

Nem mesmo eu.

E talvez deixar crescer seja também isto.

Não lhes retirar todas as dificuldades do caminho.

Mas tentar dar-lhes raízes suficientemente fortes para saberem quem são…

e asas suficientemente seguras para se aproximarem dos outros sem terem de se perder de si próprios.

SoLu@

Para pensar

Quando chegaste pela primeira vez a um lugar onde não conhecias ninguém, o que foi mais difícil?

E que conselho darias hoje a um filho, a um jovem — ou até a ti própria — sobre amizade, pertença e aprender a estar sozinho?

Da memória para o presente

Este texto nasceu também de uma reflexão que escrevi em 2019:

«Filhos — Competências sociais — Pertença a grupo de colegas (não considero amigos)», no Arquivo SoLu@.

Na altura falava da rejeição e da preocupação de uma mãe.

Hoje volto ao mesmo tema noutro momento da vida.

Os filhos cresceram.

As perguntas também.

Mas continuo a acreditar no mesmo essencial:

podemos guiá-los, amá-los e estar disponíveis. O caminho, pouco a pouco, terá de ser deles.

Leituras: