Em 2006 escrevia sobre o amor de uma mãe que ainda estava a nascer. Vinte anos depois, volto a essas palavras quando os meus filhos começam a construir os seus próprios caminhos.
Há textos antigos que são quase fotografias.
Não mostram apenas aquilo que aconteceu.
Mostram quem éramos naquele momento.
O que sonhávamos.
Aquilo que ainda não sabíamos.
E, às vezes, quando voltamos a lê-los muitos anos depois, percebemos que a vida respondeu a perguntas que nem sequer sabíamos que estávamos a fazer.
Foi isso que senti quando voltei ao Arquivo SoLu@ e encontrei um pequeno texto chamado «Amor de Mãe», escrito a 13 de Abril de 2006.
Vinte anos.
É estranho escrever isto.
Porque naquele texto encontro uma mulher no início da maternidade, a tentar imaginar o amor que começava a crescer dentro dela.
Hoje leio-a com os olhos de quem já viveu tantas páginas dessa história.
E há uma frase que me ficou especialmente no coração:
«Vai ser ele próprio.»
Talvez eu ainda não soubesse, naquele momento, tudo aquilo que essas palavras iriam significar.
Eu queria que eles fossem eles próprios
É curioso.
Quando os filhos são pequenos, dizemos tantas vezes que queremos educá-los para serem autónomos.
Queremos que pensem.
Que saibam escolher.
Que tenham valores.
Que tenham coragem.
Que encontrem aquilo que os faz felizes.
Que não vivam apenas para corresponder às expectativas dos outros.
Queremos que tenham asas.
E passamos anos a ajudá-los a construí-las.
Ensinamos a andar.
Depois a atravessar a rua.
A estudar.
A resolver problemas.
A assumir responsabilidades.
A tomar decisões.
A levantarem-se quando alguma coisa corre mal.
Vamos soltando a mão aos poucos, quase sem perceber.
Até chegar o dia em que começam verdadeiramente a voar.
E descobrimos uma coisa para a qual talvez ninguém nos prepare:
desejar que os nossos filhos sejam autónomos e vê-los tornarem-se autónomos são experiências muito diferentes.
Durante muitos anos, amar significou fazer
Ser mãe foi, durante muito tempo, uma sucessão interminável de verbos.
Preparar.
Levar.
Buscar.
Organizar.
Lembrar.
Cuidar.
Perguntar.
Proteger.
Resolver.
Estar.
Havia mochilas, consultas, trabalhos da escola, actividades, horários, refeições, doenças, preocupações, conversas, zangas, abraços e uma infinidade de pequenos gestos que enchiam os dias.
Durante muitos anos fomos necessárias de uma forma muito concreta.
E depois a maternidade começa lentamente a mudar.
Eles já não precisam que façamos tudo.
Não contam tudo.
Tomam decisões sem nos consultar.
Criam rotinas que já não passam pela nossa agenda.
Entram na Universidade.
Vão para os seus alojamentos.
Criam amizades, relações, ideias, escolhas e uma vida que lhes pertence cada vez mais.
Como deve pertencer.
E nós continuamos aqui.
Mas precisamos de descobrir como estar.
O amor não diminui. Muda de lugar.
Talvez seja esta uma das coisas que estou a aprender nesta fase.
O amor de mãe não fica mais pequeno quando os filhos crescem.
Mas deixa de poder manifestar-se sempre da mesma maneira.
Há uma altura em que amar já não é fazer por eles.
É confiar que conseguem fazer.
Já não é evitar todas as quedas.
É saber que terão de cair algumas vezes e confiar que possuem recursos para se levantar.
Já não é escolher o caminho.
É permanecer suficientemente perto para que saibam que podem procurar-nos quando precisarem.
É aconselhar sem decidir.
Acompanhar sem controlar.
Perguntar sem invadir.
Estar disponível sem exigir que precisem de nós.
E talvez esta seja uma das formas mais difíceis do amor.
Porque proteger dá-nos a sensação de que estamos a fazer alguma coisa.
Confiar obriga-nos, muitas vezes, simplesmente a esperar.
«Vai ser ele próprio.»
Volto àquela frase escrita em 2006.
Vai ser ele próprio.
Na altura talvez fosse apenas um desejo.
Hoje percebo a dimensão dessas palavras.
Porque querer verdadeiramente que um filho seja ele próprio significa aceitar que nem sempre escolherá aquilo que escolheríamos.
Terá os seus sonhos.
As suas opiniões.
Os seus amigos.
Os seus erros.
Os seus sucessos.
Os seus medos.
Os seus amores.
Os seus caminhos.
Haverá coisas que compreenderemos.
Outras talvez não.
E amar também será conseguir respeitar aquilo que é deles.
Talvez seja isso o amor incondicional sobre o qual comecei a escrever há tantos anos.
Não um amor que prende.
Não um amor que exige que alguém seja aquilo que imaginámos.
Mas um amor capaz de dizer:
eu estou aqui — e quero que encontres a tua própria maneira de estar no mundo.
Deixar crescer também mexe connosco
Nesta semana do Calendário SoLu@ tenho pensado muito em Deixar Crescer.
Porque quando os filhos crescem, não são apenas eles que mudam.
A maternidade também muda.
E nós mudamos com ela.
Há orgulho.
Muito.
Mas também há saudade.
Há preocupação.
Há silêncio.
Há quartos que ficam vazios mais vezes.
Há horários que já não conhecemos tão bem.
Há histórias das quais recebemos apenas alguns capítulos.
E existe aquela estranha sensação de perceber que fizemos exactamente aquilo que queríamos fazer:
criámos filhos capazes de caminhar sem nós.
Mas o coração precisa de algum tempo para aprender aquilo que a razão já compreendeu.
Talvez seja por isso que deixar crescer também seja um recomeço.
Para eles.
E para nós.
E quem sou eu nesta nova fase?
Há ainda outra pergunta que começa a aparecer.
Quando durante tantos anos uma grande parte da nossa vida se organiza em redor dos filhos, o que acontece quando eles começam a precisar menos dessa organização?
Quem fica?
A mãe continua.
Claro.
Talvez continue sempre.
Mas há também uma mulher que precisa de voltar a encontrar espaço.
Os seus projectos.
O seu corpo.
A sua relação.
Os seus sonhos.
As coisas que gosta de fazer.
O silêncio.
O tempo.
Aquilo que deixou para depois.
Não acredito que esta fase nos peça para sermos menos mães.
Talvez nos peça para aprendermos a ser mães sem deixarmos de voltar a ser também um pouco mais de nós próprias.
Vinte anos depois
Se pudesse falar hoje com a mulher que escreveu «Amor de Mãe», em Abril de 2006, não lhe contaria tudo.
Deixava-a viver.
Deixava-a descobrir os primeiros passos.
Os abraços.
As noites difíceis.
As gargalhadas.
Os medos.
Os irmãos que ainda haviam de chegar.
As alegrias.
As dúvidas.
As adolescências.
Os desafios.
E todos aqueles dias absolutamente normais que, muitos anos depois, percebemos que eram extraordinários.
Mas talvez lhe dissesse uma coisa:
Esse amor de que estás a escrever vai mudar muitas vezes de forma.
Haverá dias em que será colo.
Outros em que será firmeza.
Às vezes será uma conversa.
Às vezes será silêncio.
Um dia será também distância.
Confiança.
Liberdade.
E vais descobrir que deixar alguém crescer não significa amar menos.
Significa acreditar que todo aquele amor serviu também para isto:
dar raízes suficientemente fortes para que um dia possam usar as asas.
Da memória para o presente
Este texto nasceu da releitura de «Amor de Mãe», escrito a 13 de Abril de 2006 e hoje preservado no Arquivo SoLu@.
Vinte anos depois, regresso às palavras daquela mãe que ainda estava a começar e encontro nelas uma pergunta que continua viva:
Como amar profundamente sem impedir que aqueles que amamos encontrem o seu próprio caminho?
Talvez ainda esteja a aprender a resposta.
Mas hoje sei um pouco mais.
Amar também é confiar.
Amar também é dar espaço.
Amar também é deixar crescer.
A eles.
E, talvez agora, também a mim.
Para pensar
Se és mãe ou pai de filhos que já começaram a ganhar autonomia, talvez conheças esta sensação.
O que foi mais difícil para ti à medida que os teus filhos cresceram: deixar de fazer por eles ou aprender a confiar que conseguem fazer sozinhos?
Gostava muito de te ler.
Talvez haja outras mães e outros pais a atravessar exactamente esta fase e a precisar de saber que não são os únicos.
🌿 Continua este caminho
📖 No Arquivo SoLu@
→ Ler o texto original: «Amor de Mãe»
🌿 No SoLu@
→ Quando os filhos vão para a Universidade: um novo ciclo começa
→ Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda
🗓️ Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço
→ Semana 3 — Deixar Crescer
Porque o Arquivo guarda quem fui.
E o SoLu@ acompanha quem continuo a tornar-me.
Um texto do passado. Um olhar de hoje.
Com carinho,
SoLu@


