Há textos antigos que parecem pequenos. Mas quando voltamos a eles, percebemos que carregavam muito mais do que poucas linhas.
Em 2009 escrevi um texto simples chamado “Emagrecer …”.
Na altura, eu falava do peso que tinha ganho com duas gravidezes, da vontade de fazer dieta, de voltar ao exercício físico e, sobretudo, daquela frase que tantas mulheres conhecem por dentro:
“Preciso gostar de mim… e não gosto quando olho para o espelho…”
Hoje, ao reler estas palavras no Arquivo SoLu@, não vejo apenas uma mulher que queria emagrecer.
Vejo uma mulher cansada.
Vejo uma mãe que tinha dado muito do seu corpo à vida.
Vejo alguém que se olhava com exigência quando talvez precisasse era de colo, descanso e ajuda.
E isso toca-me de uma forma diferente agora.
A mulher que eu era
A mulher que escreveu aquele texto queria voltar a gostar de si.
Mas talvez, naquele tempo, eu ainda não soubesse que gostar de mim não podia depender apenas do espelho, da balança ou da roupa que servia melhor.
Talvez eu ainda não soubesse dizer:
“Estou cansada.”
“Preciso de ajuda.”
“Não me reconheço neste corpo.”
“Tenho saudades de mim.”
“Preciso de cuidar de mim sem me castigar.”
Na altura, o caminho parecia passar por dieta e exercício. E, sim, cuidar do corpo é importante. Mexer o corpo faz bem. Comer melhor faz bem. Recuperar energia faz bem.
Mas hoje eu acrescentaria uma coisa essencial:
não precisava de me tratar como um problema para merecer cuidado.
A mulher que sou hoje
Hoje olho para esse texto com ternura.
Não com vergonha.
Não com crítica.
Não com vontade de apagar.
Olho para ele como quem encontra uma versão antiga de si própria a tentar sobreviver como sabia.
A mulher que sou hoje também quer sentir-se melhor no corpo. Também quer leveza. Também quer saúde, energia, movimento e descanso.
Mas já não quero cuidar de mim a partir da rejeição.
Quero cuidar de mim a partir do respeito.
Quero caminhar porque o meu corpo merece movimento, não porque precisa de punição.
Quero beber água porque mereço vitalidade, não porque tenho de compensar excessos.
Quero descansar porque o descanso também cura.
Quero pedir ajuda quando sozinha começo a pesar demais por dentro.
Dia 3 do Calendário Resiliente: pedir ajuda também é força
Esta Sexta-feira Nostálgica cruza-se com o nosso Calendário SoLu@ de Julho — Resiliência / Descanso e com a rubrica Especial Verão com Leveza.
O convite do Dia 3 é simples, mas profundo:
Hoje, pede ajuda quando precisares.
E talvez seja aqui que este texto antigo ganha novo sentido.
Porque muitas vezes olhamos para o corpo como se ele fosse o problema, quando, na verdade, ele está apenas a mostrar-nos uma história: cansaço acumulado, noites mal dormidas, maternidade intensa, emoções guardadas, falta de tempo, falta de apoio, falta de espaço para existir para além dos outros.
Pedir ajuda pode ser falar com alguém.
Pode ser marcar uma consulta.
Pode ser pedir ao marido, aos filhos ou à família que dividam tarefas.
Pode ser dizer: “hoje não consigo tudo.”
Pode ser procurar acompanhamento nutricional, psicológico ou médico.
Pode ser aceitar que cuidar de nós não precisa de ser um projecto solitário.
O corpo não é inimigo
Hoje, se pudesse responder à mulher que escreveu aquele texto em 2009, dir-lhe-ia:
“Eu sei que estás a tentar voltar a gostar de ti.
Mas começa por não te abandonares.
Não esperes emagrecer para merecer ternura.
Não esperes estar melhor para pedir ajuda.
Não esperes voltar ao corpo de antes para reconheceres o valor do corpo que te trouxe até aqui.”
Porque o corpo muda.
A maternidade muda-nos.
A idade muda-nos.
A vida muda-nos.
Mas a forma como falamos connosco pode mudar também.
E talvez seja essa uma das maiores formas de resiliência: deixar de nos olhar apenas com cobrança e começar a olhar-nos com verdade, cuidado e presença.
Ponte entre o passado e o presente
O Arquivo SoLu@ existe também para isto: para nos lembrar de onde viemos.
Nem todos os textos antigos são perfeitos.
Nem todos têm a consciência que temos hoje.
Nem todos dizem tudo da forma como diríamos agora.
Mas são memória viva.
São fotografias emocionais de uma fase.
São pedaços da mulher que fui.
E, quando os releio com amor, percebo melhor a mulher que estou a tornar-me.
Hoje, no presente, já não quero um verão vivido contra mim.
Quero um verão com mais leveza, sim.
Mas uma leveza que não nasça da culpa.
Uma leveza que nasça do cuidado.
Do movimento possível.
Da água.
Do descanso.
Da música.
Da verdade.
E da coragem de pedir ajuda quando precisar.
Porque pedir ajuda não é falhar.
É lembrar-me de que eu também mereço ser cuidada.
Pergunta para hoje
Que ajuda posso pedir hoje para não carregar tudo sozinha?
Pode ser uma ajuda pequena.
Pode ser uma conversa.
Pode ser uma tarefa dividida.
Pode ser um compromisso comigo.
Mas que seja um gesto real.
Um gesto de mulher que já não quer tratar o próprio corpo como inimigo.
Um gesto de quem está a aprender a viver o verão — e a vida — com mais ternura.
✨ SoLu@ — resiliência também é aprender a cuidar de mim sem me magoar.
Também podes ler:
- Arquivo SoLu@ https://arquivo.solua.pt/emagrecer/
- Calendário SoLu@ Julho: Resiliência / Descanso
Especial Verão com Leveza https://solua.pt/calendario/30-dias-para-me-sentir-melhor-no-meu-corpo/ - Não preciso de um corpo perfeito para viver o verão
- Porque a autoestima não cabe numa balança
- Como recomeçar com calma quando a vida parece pedir demais
- Dançar também conta — o movimento que alegra sem exigir perfeição
- Semana 0 de Julho: Recomeçar com calma
- Ser Melhor — crescer com mais verdade, cuidado e presença
- Ser Mãe — quando o corpo também conta a história da maternidade
- Começa Aqui — encontra o teu caminho dentro do SoLu@

