Cinco anos depois, consegui terminar uma leitura que, durante muito tempo, me falou demasiado de perto sobre aquilo que eu mais temia.
Há cinco anos, quando mudei de cidade e comecei uma nova etapa da minha vida profissional, alguém que marcou profundamente esse momento ofereceu-me este livro: “O Ano do Pensamento Mágico”, de Joan Didion.
Guardei não apenas o livro, mas também o gesto.
Guardei a pessoa, o tempo vivido, a mudança de cidade, o medo e a esperança que acompanham todos os recomeços.
Comecei a lê-lo nessa altura. Mas não consegui continuar.
Não porque o livro não me interessasse. Talvez precisamente porque me tocava demasiado.
Falava de temas que, para mim, eram difíceis de enfrentar: a morte, a perda inesperada, a doença do coração, a fragilidade da vida e aquele instante em que tudo o que parecia seguro pode mudar.
Fechei-o.
Durante cinco anos, ficou à espera.
Talvez alguns livros façam isso. Não chegam apenas às nossas mãos. Ficam silenciosamente ao nosso lado até termos espaço interior para os receber.
O mesmo livro, uma leitora diferente
Este ano, durante esta pausa, depois de acontecimentos que me voltaram a lembrar como a vida pode ser frágil e imprevisível, senti que tinha chegado o momento de regressar àquelas páginas.
O livro era o mesmo.
Mas eu já não era a mesma mulher.
Entre a primeira tentativa e esta leitura aconteceram mudanças, perdas, medos, recomeços e aprendizagens. A vida ensinou-me, muitas vezes sem pedir autorização, que não conseguimos controlar tudo.
Não controlamos o tempo.
Não controlamos as doenças.
Não controlamos as despedidas.
Não conseguimos proteger todas as pessoas que amamos de todas as dores.
E talvez uma das partes mais difíceis de crescer seja reconhecer essa impotência sem deixar que ela nos impeça de viver.
Aceitar não é deixar de sentir medo
Terminar este livro não significou vencer o meu medo da morte.
Também não me deu respostas simples para aquilo que não as tem.
Mas ajudou-me a permanecer junto das perguntas.
A aceitar que a vida contém beleza e perda, presença e ausência, esperança e incerteza. Que podemos fazer planos e, ainda assim, ser surpreendidos. Que podemos amar profundamente e continuar sem conseguir proteger tudo o que amamos.
Aceitar esta realidade não é desistir.
É aprender a adaptar-nos quando a vida muda.
É reconhecer que há acontecimentos que não conseguimos evitar, explicar ou reparar. E que, mesmo assim, precisamos de encontrar uma forma de continuar.
Talvez não voltemos a ser exactamente quem éramos.
Talvez passemos a ser alguém que conhece melhor a fragilidade da vida — e, por isso mesmo, começa a valorizar mais a sua presença.
Há leituras que precisam de tempo
Na praia, com o som do mar ao fundo, terminei finalmente o livro que comecei há cinco anos.
E percebi que algumas leituras não ficam inacabadas.
Ficam apenas à espera de que a vida nos prepare.
Talvez eu precisasse destes anos para compreender que não tenho de controlar tudo para continuar a viver. Que posso sentir medo e, ainda assim, amar. Que posso não ter respostas e continuar presente. Que posso adaptar-me às mudanças sem negar a dor que elas trazem.
Fechar este livro foi também fechar um pequeno ciclo.
Um ciclo que começou numa mudança de cidade, num novo momento profissional e no gesto de alguém que deixou uma marca bonita na minha história.
Hoje, guardo esse gesto com ainda mais gratidão.
Porque há pessoas que nos oferecem livros.
E há livros que, muito tempo depois, nos ajudam a ler a nossa própria vida.
Nem todos os livros são lidos quando chegam. Alguns esperam até estarmos preparadas para aquilo que têm para nos dizer.
Pergunta para terminar
Já tiveste um livro que precisou de esperar por ti?
Talvez não fosse ainda o momento de o compreender. Talvez tenhas precisado de viver um pouco mais antes de conseguires regressar às suas páginas.

