Há livros espalhados pela casa.
Alguns estão nas estantes dos meus filhos. Outros acumulam-se na minha mesa de cabeceira. Há os que já foram lidos, os que estão a meio e aqueles que esperam pacientemente pela sua vez.
À primeira vista, parecem apenas livros.
Mas, quando olho com atenção, vejo muito mais do que capas e páginas.
Vejo pessoas.
Vejo fases da vida.
Vejo sonhos e caminhos.
Parei, recentemente, para observar as bibliotecas dos meus filhos.
A estante da minha filha do meio está cheia de mistérios, enigmas e personagens que tentam compreender o mundo. Livros que fazem perguntas, histórias que desafiam, narrativas onde nada é o que parece.
Ao olhar para aqueles títulos, reconheci nela a jovem determinada que sempre procura respostas — a rapariga que gosta de perceber, de analisar, de encontrar sentido nas coisas.
A estante da minha filha mais nova conta uma história diferente.
Há magia, fantasia, princesas que escolhem o seu destino e mundos onde a amizade e a esperança continuam a valer a pena.
Entre esses livros estava também A Peste, de Albert Camus — o livro que apresentou na disciplina de português na escola e do qual guardou uma frase que me ficou no coração: a ideia de que vale a pena lutar pela humanidade e acreditar que existe algo de bom em cada pessoa.
Olhei para a sua estante e vi uma jovem que ainda sonha. E que, felizmente, continua a acreditar na bondade.
O meu filho segue outro caminho.
As suas prateleiras são habitadas por mundos imensos, batalhas épicas e heróis imperfeitos — histórias de coragem, responsabilidade e escolhas.
Quando o vejo mergulhado nessas páginas, percebo que também está a construir a sua própria visão do mundo. Está a descobrir quem quer ser.
E depois há os meus livros.
Os que falam de amor, de relações humanas, de crescimento e de recomeços.
Os que me acompanham há anos e os que chegaram recentemente para me ensinar algo novo.
Talvez seja isso que mais gosto na leitura: não lemos todos os mesmos livros, nem procuramos todos as mesmas histórias.
Mas, de alguma forma, os livros ajudam-nos a crescer, a fazer perguntas, a sonhar, a encontrar palavras para sentimentos que ainda não sabemos explicar.
Como mãe, existe uma alegria muito especial em ver os meus filhos construir as suas próprias bibliotecas — não porque tenham muitos livros, mas porque cada livro escolhido diz alguma coisa sobre quem são e sobre quem estão a tornar-se.
Um dia, estas estantes vão mudar.
Chegarão novos livros, outros ficarão esquecidos, alguns acompanharão os meus filhos para outras casas e outras vidas.
Mas acredito que as histórias que hoje guardam nas suas prateleiras ficarão para sempre dentro deles.
Tal como ficaram dentro de mim as histórias que li quando tinha a idade deles.
Porque os livros são mais do que páginas.
São memórias, são companhia, são pontes.
E, muitas vezes, contam a história de quem somos mesmo antes de sabermos contá-la nós próprios.
E por aí? Se olhares para a tua estante ou para os livros de quem amas, que história contam eles sobre a pessoa que os escolheu? 📚✨
Leitura relacionada do Arquivo SoLu@
Há vários anos escrevi sobre a importância das atividades e da comunicação entre pais e filhos adolescentes. Hoje continuo a acreditar nisso. Talvez os livros sejam também uma forma silenciosa de comunicação — uma maneira de descobrirmos quem os nossos filhos são, mesmo quando já não nos contam tudo.


