Há momentos em que amar deixa de significar segurar a mão e passa a significar confiar que tudo aquilo que fomos ensinando continuará com eles quando já não estivermos ao lado.
Setembro chegou cá a casa com mudanças.
Com malas.
Com quartos diferentes.
Com horários novos, preocupações novas e caminhos que já não passam sempre por mim.
Dois dos meus filhos começaram mais uma etapa da Universidade. Um regressou para continuar um caminho que já conhece; a outra começou agora um mundo completamente novo.
E eu fiquei naquele lugar estranho que tantas mães conhecem.
Orgulhosa por vê-los crescer.
Feliz porque estão a construir os seus caminhos.
Mas também com aquela pequena inquietação que pergunta, silenciosamente:
Será que vão ficar bem?
Talvez uma das partes mais difíceis da maternidade não seja ensinar os nossos filhos a caminhar.
Talvez seja perceber quando chegou o momento de deixar de caminhar à frente deles.
Deixar de escolher.
Deixar de resolver.
Deixar de tentar evitar todos os erros.
E começar simplesmente a caminhar por perto.
Esta terceira semana de Setembro fala precisamente disso.
De deixar crescer.
Eles.
E nós.
🌿 Tema da semana
Deixar crescer
Quando os filhos são pequenos, grande parte da maternidade é feita de coisas concretas.
Vestir.
Alimentar.
Levar.
Buscar.
Ensinar.
Proteger.
Decidir.
Estamos habituadas a saber onde estão, o que precisam, a que horas chegam e até aquilo que provavelmente esqueceram dentro da mochila.
Depois crescem.
E, quase sem darmos conta, aquilo que durante tantos anos foi cuidado pode transformar-se numa tentativa de controlo.
Queremos saber.
Queremos antecipar.
Queremos evitar que sofram.
Queremos impedir que façam escolhas que talvez nós não fizéssemos.
Mas crescer implica experimentar.
Escolher.
Enganar-se.
Voltar atrás.
Aprender.
E há aprendizagens que nenhum conselho de mãe consegue substituir.
Por muito que custe aceitar.
💜 Intenção da semana
Estar presente sem ocupar o lugar que pertence aos meus filhos.
Talvez esta seja uma das grandes transformações da maternidade.
Passamos de fazer por eles para estar disponíveis para eles.
De conduzir para aconselhar.
De decidir para perguntar.
De proteger de tudo para ajudá-los a acreditar que conseguem enfrentar aquilo que surgir.
Não significa afastarmo-nos.
Muito menos deixar de cuidar.
Significa mudar a forma como cuidamos.
✨ Frase destaque SoLu@
Criar filhos também é preparar o coração para o dia em que já não precisarão das nossas mãos para caminhar — mas continuarão a precisar de saber que podem voltar a elas.
Como posso continuar presente sem impedir que cresçam?
Tenho pensado muito nesta pergunta.
Porque a linha entre presença e controlo nem sempre é evidente.
Às vezes perguntamos porque nos preocupamos.
Outras vezes perguntamos porque precisamos de tranquilizar a nossa própria ansiedade.
Às vezes damos um conselho porque temos experiência.
Outras vezes insistimos porque gostaríamos que eles escolhessem aquilo que nós escolheríamos.
Mas os filhos não nasceram para viver exactamente como nós viveríamos.
Vieram construir a vida deles.
Talvez o nosso trabalho seja dar-lhes raízes suficientemente fortes para que tenham coragem de criar as próprias asas.
E confiar.
Mesmo quando gostaríamos de confirmar três vezes se levaram tudo.
Mesmo quando não respondem imediatamente à mensagem.
Mesmo quando fazem uma escolha que não compreendemos completamente.
Mesmo quando sabemos que provavelmente vão errar.
Porque também nós aprendemos assim.
🌸 E onde entra o autocuidado?
Quando falamos em autocuidado pensamos muitas vezes no corpo.
Dormir melhor.
Caminhar.
Comer melhor.
Descansar.
Ter algum tempo para nós.
Mas existe outro autocuidado muito importante quando os filhos crescem:
não desaparecer juntamente com a infância deles.
Durante muitos anos, uma grande parte da nossa identidade pode estar ligada às necessidades dos filhos.
Os horários deles.
A escola deles.
Os treinos.
As consultas.
Os trabalhos.
As refeições.
As preocupações.
Depois começam a precisar menos de nós.
E pode nascer um espaço estranho.
Um silêncio.
Uma pergunta que talvez algumas mães tenham dificuldade em dizer em voz alta:
E agora, onde fico eu?
A resposta não precisa de ser assustadora.
Talvez este seja também o momento de voltar a descobrir partes nossas que ficaram algum tempo à espera.
Projectos.
Amizades.
Sonhos.
O corpo.
O casamento.
A criatividade.
O descanso.
A mulher que existia antes da maternidade — e a nova mulher que nasceu através dela.
Deixar os filhos crescer pode ser também permitir que nós continuemos a crescer.
🌿 Prática da semana
Antes de intervir, perguntar
Sempre que sentires vontade de resolver imediatamente alguma coisa por alguém que amas, experimenta fazer uma pequena pausa.
Pergunta a ti própria:
Ele precisa realmente que eu resolva isto?
ou
Precisa apenas de saber que estou aqui?
Às vezes, a resposta será ajudar.
Outras vezes será aconselhar.
E muitas outras será simplesmente confiar.
✨ Mini desafio da semana
Escolhe uma coisa que normalmente farias pelos teus filhos e permite que sejam eles a tratar dela.
Pode ser pequena.
Resolver um assunto.
Organizar uma deslocação.
Preparar aquilo de que precisam.
Tomar uma decisão.
Fazer uma pergunta.
Resolver um problema.
Não para deixarmos de ajudar.
Mas para lhes transmitirmos uma mensagem muito importante:
Eu acredito que consegues.
🗓️ Um dia de cada vez
Domingo — 13 de Setembro
Paz
Frase
Não preciso de controlar tudo para continuar a amar.
Mensagem
Existem momentos em que a paz nasce quando aceitamos que algumas respostas já não nos pertencem.
Os filhos crescem e começam a escrever páginas da própria história.
Podemos continuar perto.
Mas não precisamos de segurar a caneta.
Prática
Observa hoje uma situação em que tens tendência a antecipar ou controlar.
Experimenta não intervir imediatamente.
Pergunta
Onde poderia confiar um pouco mais?
Gesto
Respira antes de perguntar, aconselhar ou resolver.
Segunda-feira — 14 de Setembro
Felicidade / Gratidão
Frase
Sou grata pela criança que conheci e pela pessoa que estou a descobrir.
Mensagem
Talvez seja uma das maiores dádivas da maternidade:
ver nascer várias vezes a mesma pessoa.
Primeiro o bebé.
Depois a criança.
O adolescente.
E, pouco a pouco, o adulto.
Prática
Recorda um momento da infância dos teus filhos e observa o caminho que já fizeram.
Pergunta
Que mudança neles me deixa particularmente orgulhosa?
Gesto
Diz-lhes uma coisa concreta de que te orgulhas.
Sem acrescentar conselhos.
Apenas orgulho.
Terça-feira — 15 de Setembro
Vida
Frase
A vida deles não precisa de ser uma repetição da minha.
Mensagem
Podemos transmitir valores.
Dar referências.
Partilhar aquilo que aprendemos.
Mas cada pessoa precisa de descobrir a sua maneira de viver.
Prática
Identifica uma escolha dos teus filhos que talvez seja diferente da escolha que tu farias.
Pergunta
Consigo respeitar um caminho diferente do meu?
Gesto
Escuta hoje sem tentar convencer.
Quarta-feira — 16 de Setembro
Atitude
Frase
A confiança também se ensina confiando.
Mensagem
Durante anos dizemos aos filhos:
“Tu consegues.”
Depois chega o momento de provarmos que acreditamos verdadeiramente nisso.
Mesmo quando não estamos presentes.
Mesmo quando fazem diferente.
Mesmo quando cometem erros.
Prática
Entrega-lhes uma responsabilidade que ainda costumas assumir.
Pergunta
Estou a ajudá-los ou estou a fazer aquilo que eles já conseguem fazer?
Gesto
Substitui hoje um “deixa que eu faço” por:
“Experimenta. Se precisares, estou aqui.”
Quinta-feira — 17 de Setembro
Pensamentos positivos
Frase
Nem tudo aquilo que pode correr mal vai correr mal.
Mensagem
O coração de uma mãe consegue imaginar vinte problemas antes do pequeno-almoço.
Talvez seja amor.
Mas também pode ser medo.
E os nossos filhos não precisam apenas que antecipemos perigos.
Precisam que consigamos imaginar possibilidades.
Prática
Sempre que surgir um pensamento de preocupação, acrescenta outro:
“Também pode correr bem.”
Pergunta
Quantas das minhas preocupações pertencem ao presente e quantas pertencem apenas àquilo que imagino?
Gesto
Escolhe conscientemente alimentar hoje uma possibilidade boa.
Sexta-feira — 18 de Setembro
Fé / Esperança
Frase
Tudo aquilo que lhes ensinei continua com eles, mesmo quando eu não estou.
Mensagem
Chega um momento em que precisamos de confiar nas sementes.
Nos valores repetidos tantas vezes.
Nas conversas.
Nos limites.
Nos exemplos.
No amor.
Nem sempre veremos imediatamente aquilo que ficou.
Mas alguma coisa fica.
Prática
Recorda três valores que tentaste transmitir aos teus filhos.
Pergunta
Consigo confiar na educação e no amor que lhes dei?
Gesto
Escreve essas três palavras num lugar onde as possas ver.
Sábado — 19 de Setembro
Amor
Frase
Amar também é abrir a mão.
Mensagem
Segurar parece amor.
Mas abrir a mão também pode ser.
Porque amar alguém verdadeiramente significa desejar que encontre o seu lugar no mundo — mesmo quando esse lugar já não é constantemente ao nosso lado.
Prática
Faz hoje alguma coisa por ti.
Não para preencher a ausência deles.
Mas porque a tua vida também continua.
Pergunta
Quem estou eu a tornar-me nesta nova etapa?
Gesto
Escolhe uma coisa que queres voltar a fazer por ti.
💭 Pergunta da semana
Como posso continuar presente sem impedir que cresçam?
Talvez não exista uma resposta definitiva.
Porque algumas vezes teremos de aproximar-nos.
Outras vezes afastar-nos um pouco.
Haverá momentos para falar.
Momentos para ouvir.
Momentos para aconselhar.
E momentos para ficar em silêncio.
A maternidade não termina quando os filhos crescem.
Transforma-se.
E talvez uma das nossas aprendizagens seja precisamente esta:
continuar a ser porto sem obrigá-los a permanecer no cais.
🌙 Reflexão final
Esta semana percebi que deixar crescer os meus filhos também significa aceitar uma nova versão de mim enquanto mãe.
Uma mãe que continua preocupada.
Que continua a perguntar se comeram.
Que provavelmente continuará a lembrar coisas que eles juram que não esqueceram.
Mas que está também a aprender outra linguagem do amor.
A linguagem da confiança.
Talvez eu ainda esteja a descobrir como se faz.
Como tantas outras coisas na maternidade.
Mas quero que os meus filhos saibam isto:
podem voar.
Não porque deixei de querer protegê-los.
Mas porque passei tantos anos a tentar prepará-los para que um dia não precisassem que eu os protegesse de tudo.
E quero aprender também a cuidar de mim enquanto eles seguem os seus caminhos.
Porque ser mãe nunca significou deixar de existir.
Talvez a maternidade seja uma sucessão de recomeços.
Eles crescem.
Nós mudamos.
E o amor aprende uma nova maneira de ficar.
🌿 Ligações de Setembro
Esta semana faz parte do Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço.
→ Semana 1 — Voltar devagar
O que preciso realmente de retomar?
→ Semana 2 — Cuidar de mim no meio das rotinas
Onde posso voltar a incluir-me?
E podes também ler:
→Quando os filhos vão para a Universidade: um novo ciclo começa.
→ Não fiz tudo. Mas voltei a cuidar de mim.
→ Recomeçar não é voltar ao princípio.
→ Como fazer um recomeço na tua vida? — Um texto do passado. Um olhar de hoje.
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Setembro não precisa de ser um mês de grandes mudanças.
Pode simplesmente ser o mês em que voltamos.
A nós.
Ao essencial.
Àquilo que queremos continuar a cuidar.
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Perguntas frequentes
O que significa deixar os filhos crescer?
Não significa afastarmo-nos nem deixar de apoiar. Significa adaptar a nossa presença à autonomia que vão conquistando e permitir que experimentem, decidam e assumam responsabilidades.
Como apoiar filhos universitários sem controlar?
Mantendo disponibilidade para ouvir e ajudar quando necessário, mas permitindo que organizem os seus horários, resolvam problemas, tomem decisões e aprendam também com os próprios erros.
Porque é que esta fase pode ser difícil para uma mãe?
Porque a maternidade ocupou durante muitos anos uma parte muito grande da rotina, da identidade e das responsabilidades diárias. Quando os filhos ganham autonomia, também a mãe precisa de encontrar um novo equilíbrio.
O autocuidado também faz parte desta mudança?
Sim. Quando os filhos começam a precisar de menos cuidados diários, pode nascer espaço para a mãe voltar a olhar para as suas próprias necessidades, relações, interesses, sonhos e projectos.
É possível estar presente sem controlar?
Sim. Talvez seja precisamente essa uma das formas mais maduras de presença: continuar disponível sem precisar de decidir tudo por quem amamos.
SoLu@
Aprender a amar. Aprender a deixar crescer. E continuar também a aprender a viver.

