A minha mãe faz anos: quando a memória também é uma forma de amor

Há pessoas que são raiz.

Hoje volto ao arquivo para reencontrar um texto muito especial: “80 anos vividos com a minha mãe”.

Há textos que não envelhecem. Apenas mudam de lugar dentro de nós.

Quando os escrevemos, pertencem a um momento. Anos depois, quando os revisitamos, já trazem outra luz: a luz do tempo que passou, da vida que continuou, das pessoas que permanecem connosco de outra forma.

No dia 10 de Julho, a minha mãe volta a ser presença central neste espaço. Não apenas porque faz anos, mas porque representa uma parte essencial da minha história: a raiz, a memória, a família, a força discreta, o amor imperfeito e verdadeiro que nos acompanha.

Neste mês de Julho, em que o Calendário SoLu@ nos convida à resiliência e ao descanso, revisitar este texto é também uma forma de reconhecer que nem sempre precisamos de ser fortes sozinhas.

Às vezes, a resiliência começa exactamente aqui: em falar com alguém em quem confiamos, em partilhar sentimentos, em lembrar que há colos, vozes e presenças que nos ajudam a respirar melhor.

O arquivo guarda essa memória.

E hoje, eu trago-a de volta ao presente.

Sexta-Feira Nostálgica — Dia 10 de Julho: A mulher que sempre soube em quem confiar

Há dois anos, o dia 10 de Julho já era, para mim, sinónimo de uma só coisa: o aniversário da minha Mãe. Em 2024, escrevi sobre confiança — sobre como a família também pode ser o nosso porto de abrigo, sobre como ter alguém a quem contar os nossos sentimentos é um dos maiores presentes da vida. E, sem surpresa nenhuma, foi exactamente nesse dia que percebi, mais uma vez, que essa pessoa, para mim, é a minha Mãe.

Um ano depois, em 2025, celebrei os 80 anos dela com um texto que ainda hoje me emociona reler: sobre uma vida de amor, sabedoria e presença. Sobre uma mulher que canta desgarradas com o irmão, que tem um pé de dança leve, que sabe rir de si mesma e que continua, com toda a simplicidade, a ensinar-nos a viver.

Hoje, em 2026, ela faz 81 anos. E esta semana, aqui no Calendário SoLu@, temos falado sobre limites — e sobre como eles também são amor-próprio. Talvez seja por isso que volto sempre a este dia: porque foi ela quem primeiro me ensinou que confiar em alguém, e deixar-nos cuidar, não é fraqueza. É, também, uma forma de nos respeitarmos.

Parabéns, Mãe. Obrigada por seres o meu porto de abrigo, ontem e hoje.

E tu, que lês isto: hoje, permite-te falar com alguém em quem confies. Partilhar não é pedir demais — é, muitas vezes, o maior gesto de amor-próprio que podemos ter.

Com carinho, SoLu@

Calendário SoLu@ — Julho Resiliente: Semana 1 — Limites são amor-próprio

Calendário SoLu@ Julho Resiliente — Limites são amor-próprio

Dizer não ao que me esgota é dizer sim ao que me sustenta.

Há semanas em que a vida nos pede continuação.
Mas nem sempre continuar significa fazer mais, dizer sim a tudo ou estar disponível para todos.

Às vezes, continuar com amor é parar antes do esgotamento.
É perceber onde nos temos ultrapassado.
É escutar o corpo.
É reconhecer que há “sins” que já nos pesam por dentro.
É aceitar que cuidar de nós não é egoísmo — é responsabilidade, verdade e amor-próprio.

Julho, no Calendário SoLu@, é um convite à Resiliência / Descanso.
Mas não à resiliência dura, silenciosa, feita de aguentar tudo.
Aqui, a resiliência nasce com mais ternura.

Porque ser resiliente não é abandonar-me para dar conta de tudo.
É aprender a continuar sem me perder de mim.

Nesta primeira semana completa de Julho, caminhamos com um tema essencial:

Limites são amor-próprio.

Um limite colocado com amor não é rejeição.
Não é frieza.
Não é distância sem coração.

Um limite pode ser paz.
Pode ser cuidado.
Pode ser uma forma madura de dizer:
“eu também preciso de existir aqui”.


🌿 Tema da semana

Limites são amor-próprio

fronteiras • descanso • culpa • partilha emocional • respeito por mim


✨ Intenção da semana

Perceber onde me tenho ultrapassado — e aprender que cuidar de mim não é egoísmo.

Nesta semana, a intenção é simples:

escutar-me antes do esgotamento.

Dizer não sem culpa.

Proteger tempo e energia.

Não carregar tudo sozinha.

Escolher relações e rotinas que respeitam a minha paz.


⭐ Frase destaque SoLu@

Um limite colocado com amor também é uma forma de paz. .” — SoLu@


💛 Prática da semana

Durante esta semana, escolhe um destes pequenos gestos:

  • guardar 15 minutos só para ti;
  • dizer “hoje não consigo” sem te justificares demasiado;
  • adiar uma tarefa que não é urgente;
  • observar onde o teu corpo mostra cansaço;
  • fazer uma pausa antes de responder;
  • escrever uma frase de autorização interior;
  • agradecer uma relação que respeita o teu tempo e a tua paz.

Não faças disto mais uma obrigação.
Escolhe apenas uma prática possível.

O calendário é um guia, não uma prisão.


🌼 Mini desafio da semana

Durante sete dias, pergunta a ti mesma:

Este sim respeita-me ou esgota-me?

Não precisas de responder de imediato.
Só observar já é um começo.

Às vezes, antes de aprendermos a dizer não aos outros, precisamos de aprender a ouvir o nosso próprio cansaço.


🌼  Dias da semana

5 de Julho — Domingo | Paz

Frase:
A paz começa quando paro de me obrigar a caber em tudo.

Mensagem do livro:
Nem sempre a vida nos pede mais força. Às vezes, pede-nos mais verdade.

Prática:
Identificar uma coisa que posso deixar para depois.

Pergunta:
O que estou a carregar que já não precisa de ser meu hoje?

Gesto:
Criar um momento de silêncio antes de dormir.

Há dias em que a paz não chega porque continuamos a tentar caber em todas as expectativas.
Queremos ser boas mães, boas companheiras, boas filhas, boas profissionais, boas amigas, boas pessoas.

Mas a vida não nos pede perfeição.
Pede-nos presença.

E presença também é saber parar.
Também é reconhecer que nem tudo tem de ser resolvido hoje.
Também é deixar pousar o que não é urgente.

Hoje, a paz pode começar numa escolha muito simples:
não carregar mais do que aquilo que o coração consegue segurar.


6 de Julho — Segunda-feira | Felicidade / Gratidão

Frase:
A gratidão também me ajuda a perceber o que merece ficar.

Mensagem do livro:
Há dias em que a felicidade está apenas em reconhecer o suficiente.

Prática:
Escrever três coisas que me sustentam nesta fase.

Pergunta:
O que me dá força sem me esgotar?

Gesto:
Agradecer a alguém que tem sido presença tranquila.

Nem tudo o que fica na nossa vida nos sustenta.
Há coisas que ficam por hábito.
Há relações que continuam por culpa.
Há rotinas que se mantêm porque nunca parámos para perguntar se ainda fazem sentido.

A gratidão ajuda-nos a distinguir.

Ajuda-nos a ver o que é presença verdadeira.
O que nos acalma.
O que nos fortalece.
O que nos devolve a nós mesmas.

Hoje, olha com ternura para o que te sustenta.
Pode ser uma pessoa, uma rotina, uma memória, uma fé silenciosa, uma pequena alegria repetida.

Nem tudo precisa de ser grande para ser essencial.


7 de Julho — Terça-feira | Vida

Frase:
A vida fica mais leve quando deixo de dizer sim a tudo.

Mensagem do livro:
Amar a vida também é aprender a escolher onde pousamos a nossa energia.

Prática:
Observar onde sinto cansaço acumulado.

Pergunta:
Que sim tenho dado que, por dentro, já era um não?

Gesto:
Recusar uma pequena sobrecarga ou adiar algo que não é urgente.

Há “sins” que nascem do amor.
Mas também há “sins” que nascem do medo de desiludir.

Medo de parecer egoísta.
Medo de falhar.
Medo de não corresponder.
Medo de deixar alguém mal.

E, aos poucos, vamos ficando cansadas de tanto caber nos pedidos dos outros.

A vida fica mais leve quando começamos a perceber que não temos de estar em todo o lado, responder a tudo, resolver tudo, aceitar tudo.

Dizer não a uma sobrecarga pode ser dizer sim à nossa saúde.
Dizer não a um excesso pode ser dizer sim à nossa paz.
Dizer não ao que nos esgota pode ser dizer sim à vida que ainda queremos viver com presença.


8 de Julho — Quarta-feira | Atitude

Frase:
Posso ser disponível sem estar sempre disponível.

Mensagem do livro:
Cuidar dos outros não me obriga a desaparecer de mim.

Prática:
Definir um limite simples para o dia.

Pergunta:
Onde preciso de me respeitar mais?

Gesto:
Guardar 15 minutos só para mim.

Há uma diferença bonita entre ser presença e estar sempre disponível.

Ser presença é estar com verdade.
É escutar quando é possível.
É cuidar com amor.
É chegar inteira, e não apenas esgotada.

Estar sempre disponível, muitas vezes, é outra coisa.
É responder sem respirar.
É dizer sim sem escutar o corpo.
É deixar para depois aquilo que também precisava de cuidado em nós.

Hoje, a atitude pode ser pequena, mas firme:

guardar 15 minutos.
Fechar uma porta.
Silenciar o telemóvel.
Respirar antes de responder.
Não aceitar mais uma tarefa só porque alguém espera isso de nós.

Disponibilidade sem limite pode transformar-se em cansaço.
Amor com consciência também sabe respeitar espaço.


9 de Julho — Quinta-feira | Pensamentos positivos

Frase:
Não tenho de justificar todos os meus limites.

Mensagem do livro:
Quando aprendemos a amar-nos melhor, deixamos de pedir desculpa por precisar de respirar.

Prática:
Repetir uma frase de autorização interior.

Pergunta:
Que culpa posso começar a largar hoje?

Gesto:
Dizer “hoje não consigo” com serenidade, se for necessário.

Muitas vezes, não é o limite que nos custa mais.
É a culpa que vem depois.

A culpa de não conseguir.
A culpa de descansar.
A culpa de dizer não.
A culpa de não explicar tudo.
A culpa de escolher a nossa paz.

Mas nem todos os limites precisam de uma longa justificação.
Nem todos os “não consigo” precisam de ser acompanhados por desculpas.
Nem todo o cuidado connosco precisa de autorização externa.

Hoje, experimenta dizer por dentro:

Eu posso precisar de espaço.
Eu posso descansar.
Eu posso não conseguir hoje.
Eu posso cuidar de mim sem me sentir culpada.

Um pensamento mais gentil também pode ser um limite contra a dureza com que tantas vezes nos tratamos.


10 de Julho — Sexta-feira | Fé / Esperança

Frase:
Há pessoas que são casa antes mesmo de sabermos o que é voltar.

Mensagem do livro:
Há presenças que nos acompanham por dentro. Mesmo quando a vida pesa, lembram-nos que fomos cuidadas, amadas e ensinadas a permanecer.

Prática:
Agradecer uma presença materna, uma memória ou um cuidado que ainda hoje me sustenta.

Pergunta:
Que amor me ensinou a permanecer?

Gesto:
Fazer uma chamada, escrever uma mensagem, guardar uma memória ou agradecer em silêncio.

A fé também vive nas pessoas que nos sustentam.
Nas presenças que nos ensinaram a ficar de pé.
Nos colos que, mesmo imperfeitos, nos deram chão.
Nas vozes que continuam dentro de nós quando precisamos de coragem.

Há pessoas que são casa.
Não porque resolvam tudo.
Mas porque nos lembram de onde viemos, do que recebemos, do que ainda permanece.

Neste dia, a esperança pode nascer da gratidão por uma presença materna, por uma memória de cuidado, por alguém que nos ensinou a continuar.

E se esta presença ainda caminha connosco, talvez hoje seja dia de agradecer.
Com uma chamada.
Com uma mensagem.
Com um abraço.
Com silêncio.
Com amor.

Porque alguns vínculos são raízes.
E as raízes também nos ajudam a atravessar os dias de vento.


11 de Julho — Sábado | Amor

Frase:
Amar também é respeitar o espaço de cada um.

Mensagem do livro:
O amor saudável não prende, não esgota, não exige que nos percamos.

Prática:
Pensar numa relação que me traz paz.

Pergunta:
Que relação me permite ser eu sem medo?

Gesto:
Enviar uma mensagem simples de carinho a alguém que respeita o meu tempo.

Nem todo o amor descansa.
Há amores que exigem demais, apertam demais, cobram demais.
E há amores que nos deixam respirar.

Amores onde podemos ser verdadeiras.
Onde o silêncio não é ameaça.
Onde o espaço não é abandono.
Onde a presença não precisa de pressão.

O amor saudável respeita o tempo de cada um.
Não pede que nos percamos para provarmos que ficamos.
Não transforma cuidado em obrigação constante.
Não confunde disponibilidade com entrega sem limite.

Hoje, olha para as relações que te trazem paz.
As que te permitem ser inteira.
As que não te exigem uma versão sempre forte, sempre pronta, sempre disponível.

E, se fizer sentido, agradece.
Porque relações que respeitam o nosso espaço também são formas de amor.


📝 Pergunta da semana

Que limite posso colocar com amor para continuar sem me abandonar?


Reflexão final

Esta semana lembra-nos que os limites não são muros sem coração.
Podem ser portas mais conscientes.
Podem ser margens que protegem o que é essencial.
Podem ser uma forma de nos mantermos inteiras dentro da vida que amamos.

Durante muito tempo, talvez tenhamos aprendido que amar era estar sempre disponível.
Que ser forte era aguentar.
Que cuidar era colocar-nos em último lugar.
Que dizer não era falhar.

Mas Julho chega com outra proposta.

Julho não me pede que aguente tudo.
Pede-me que aprenda a continuar sem me abandonar.

E, às vezes, continuar começa aqui:
numa pausa,
num limite,
num descanso,
num “hoje não consigo”,
num pedido de ajuda,
numa escolha pequena que me devolve a mim.

Que esta semana nos ensine a cuidar dos outros sem desaparecer.
A amar sem nos perdermos.
A continuar com presença.
A respeitar a nossa paz.

Porque um limite colocado com amor também é uma forma de paz.

Com carinho, 

SoLu@


Calendário da Felicidade no Arquivo SoLu@

Esta semana podem consultar a memória viva do antigo Calendário da Felicidade, publicado nos Blogs SAPO.

Na versão antiga de Julho Resiliente, esta semana falava de cuidar dos hábitos básicos, parar, respirar, mudar o humor com algo que nos faz bem, evitar viver presa ao “devo”, colocar os problemas em perspectiva, falar com alguém de confiança e procurar uma pequena luz numa situação difícil.

Hoje, no Calendário SoLu@, essa semente regressa com mais maturidade emocional:

cuidar de mim também é uma forma de continuar.

A resiliência não vive apenas nos grandes actos de força.
Vive no básico.
No descanso.
Na respiração.
No pedido de ajuda.
Na capacidade de dizer não ao que nos ultrapassa.
Na coragem de escolher uma pequena luz, mesmo quando o dia pesa.


Sexta-feira Nostálgica

Nesta semana, a Sexta-feira Nostálgica falamos de um texto antigo do Arquivo SoLu@ ligado a cansaço, cuidado, presença materna, necessidade de escuta, limites, culpa ou esperança.

Tema:
Do Arquivo SoLu@: Help/Ajuda – Quando o seu corpo lhe diz: Estou a chegar ao limite?

Antes de lhe chamar amor-próprio, talvez eu lhe chamasse cansaço. Antes de perceber que precisava de limites, talvez eu apenas sentisse que não conseguia continuar igual.

Hoje, no SoLu@, olho para essas memórias com mais ternura. Percebo que havia ali uma mulher a aprender, devagar, que cuidar dos outros não podia significar desaparecer de si.


Ligações do mês


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Perguntas frequentes

O que significa “limites são amor-próprio”?

Significa reconhecer que também temos necessidades, energia limitada, cansaço, emoções e direito a descanso. Colocar limites não é deixar de amar. É aprender a amar sem nos abandonarmos.

Dizer não é egoísmo?

Não necessariamente. Dizer não pode ser uma forma de cuidado, honestidade e equilíbrio. Um não dito com respeito pode proteger a nossa paz e até tornar as nossas relações mais verdadeiras.

Como posso começar a colocar limites?

Começa por algo pequeno. Uma pausa. Um descanso. Um “hoje não consigo”. Um pedido de ajuda. Um tempo sem telemóvel. Um compromisso contigo. Os limites também se aprendem devagar.

E se eu sentir culpa?

A culpa pode aparecer quando estamos habituadas a colocar-nos sempre em último lugar. Mas sentir culpa não significa que estejas errada. Pode significar apenas que estás a aprender uma forma nova de te respeitares.

Depois do fim dos Blogs SAPO: o que fica quando uma casa fecha?

Janela antiga com luz suave e caderno aberto, simbolizando o fim dos Blogs SAPO e a preservação da memória no Arquivo SoLu@.

Há casas que não são feitas de paredes.
São feitas de palavras.

Durante anos, os Blogs SAPO foram isso para mim: uma casa.
Um lugar onde entrei muitas vezes sem saber bem o que ia escrever, mas sabendo que precisava de deixar alguma coisa sair de dentro.

Ali ficaram textos antigos, memórias, desabafos, sonhos, maternidade, amor, dúvidas, recomeços e fases da vida que talvez já não conseguisse escrever da mesma forma hoje.

A partir do dia 1 de julho, deixa de ser possível publicar ou editar nos Blogs SAPO.
E, mesmo sabendo que os tempos mudam, há qualquer coisa dentro de nós que sente quando uma porta se fecha.

Porque um blog nunca foi apenas um blog.

Foi o lugar onde escrevemos quando ainda não havia tanta pressa.
Quando se visitavam blogues como quem batia à porta de alguém.
Quando os comentários eram conversas.
Quando havia uma comunidade feita de nomes, pseudónimos, fotografias pequenas, silêncios e presenças.

Foi ali que muitos de nós aprendemos a partilhar.
A escrever sem filtros perfeitos.
A mostrar pedaços da vida como ela era.
A guardar dias bons e dias difíceis.
A encontrar pessoas que, mesmo sem conhecermos de perto, nos faziam companhia.

Por isso, quando uma casa fecha, fica sempre uma pergunta:
o que acontece ao que vivemos lá dentro?

Acredito que nem tudo se perde.

Ficam as palavras.
Ficam as fases.
Ficam as versões antigas de nós.
Ficam os textos que já não escreveríamos da mesma forma, mas que continuam a ter verdade.
Ficam os caminhos que começaram ali e que nos trouxeram até aqui.

No meu caso, fica também uma enorme gratidão.

Foi nos Blogs SAPO que uma parte importante do meu percurso começou.
Foi ali que nasceram espaços ligados ao amor, à maternidade, aos sonhos, à vida e à vontade de compreender melhor aquilo que sentimos.

Hoje, olho para esses textos antigos com ternura.
Nem todos estão perfeitos.
Nem todos têm a estrutura que eu daria agora.
Nem todos pertencem ao tempo presente.

Mas todos pertencem à minha história.

E é por isso que não quero apagá-los.
Quero guardá-los com respeito.

O Arquivo SoLu@ nasce também dessa vontade: preservar a memória dos antigos blogs, dar contexto ao que ficou para trás e permitir que esses textos continuem acessíveis, não como concorrência ao presente, mas como raiz.

Porque o passado não precisa de ocupar o lugar do presente para continuar a ter valor.
Pode simplesmente ficar ali, como uma fotografia antiga: talvez um pouco desbotada, talvez imperfeita, mas cheia de vida.

O SoLu@, hoje, é a continuação desse caminho.
Mais consciente, mais organizado, mais maduro.
Mas ainda feito da mesma matéria: palavras, amor, maternidade, crescimento, esperança e vida com sentido.

Quando uma casa fecha, podemos sentir saudade.
Mas também podemos reconhecer que crescemos.

E talvez seja isso que este fim dos Blogs SAPO me traz:
a consciência de que houve um tempo bonito, de que esse tempo merece ser agradecido, e de que agora existe outro lugar para continuar.

Obrigada, Blogs SAPO.
Obrigada por terem sido casa.
Obrigada por terem guardado tantas palavras.
Obrigada por terem feito parte de uma época em que escrever online era, tantas vezes, um gesto íntimo de encontro.

O ciclo fecha-se.
A memória fica.
E o caminho continua.

Com carinho,
SoLu@

Ler memórias antigas no Arquivo SoLu@:
arquivo.solua.pt

Os livros que contam quem somos

Livros escolhidos por três irmãos, mostrando diferentes caminhos de leitura, sonhos e formas de ver o mundo.

Há livros espalhados pela casa.

Alguns estão nas estantes dos meus filhos. Outros acumulam-se na minha mesa de cabeceira. Há os que já foram lidos, os que estão a meio e aqueles que esperam pacientemente pela sua vez.

À primeira vista, parecem apenas livros.

Mas, quando olho com atenção, vejo muito mais do que capas e páginas.

Vejo pessoas.

Vejo fases da vida.

Vejo sonhos e caminhos.

Parei, recentemente, para observar as bibliotecas dos meus filhos.

A estante da minha filha do meio está cheia de mistérios, enigmas e personagens que tentam compreender o mundo. Livros que fazem perguntas, histórias que desafiam, narrativas onde nada é o que parece.

Ao olhar para aqueles títulos, reconheci nela a jovem determinada que sempre procura respostas — a rapariga que gosta de perceber, de analisar, de encontrar sentido nas coisas.

A estante da minha filha mais nova conta uma história diferente.

Há magia, fantasia, princesas que escolhem o seu destino e mundos onde a amizade e a esperança continuam a valer a pena.

Entre esses livros estava também A Peste, de Albert Camus — o livro que apresentou na disciplina de português na escola e do qual guardou uma frase que me ficou no coração: a ideia de que vale a pena lutar pela humanidade e acreditar que existe algo de bom em cada pessoa.

Olhei para a sua estante e vi uma jovem que ainda sonha. E que, felizmente, continua a acreditar na bondade.

O meu filho segue outro caminho.

As suas prateleiras são habitadas por mundos imensos, batalhas épicas e heróis imperfeitos — histórias de coragem, responsabilidade e escolhas.

Quando o vejo mergulhado nessas páginas, percebo que também está a construir a sua própria visão do mundo. Está a descobrir quem quer ser.

E depois há os meus livros.

Os que falam de amor, de relações humanas, de crescimento e de recomeços.

Os que me acompanham há anos e os que chegaram recentemente para me ensinar algo novo.

Talvez seja isso que mais gosto na leitura: não lemos todos os mesmos livros, nem procuramos todos as mesmas histórias.

Mas, de alguma forma, os livros ajudam-nos a crescer, a fazer perguntas, a sonhar, a encontrar palavras para sentimentos que ainda não sabemos explicar.

Como mãe, existe uma alegria muito especial em ver os meus filhos construir as suas próprias bibliotecas — não porque tenham muitos livros, mas porque cada livro escolhido diz alguma coisa sobre quem são e sobre quem estão a tornar-se.

Um dia, estas estantes vão mudar.

Chegarão novos livros, outros ficarão esquecidos, alguns acompanharão os meus filhos para outras casas e outras vidas.

Mas acredito que as histórias que hoje guardam nas suas prateleiras ficarão para sempre dentro deles.

Tal como ficaram dentro de mim as histórias que li quando tinha a idade deles.

Porque os livros são mais do que páginas.

São memórias, são companhia, são pontes.

E, muitas vezes, contam a história de quem somos mesmo antes de sabermos contá-la nós próprios.

E por aí? Se olhares para a tua estante ou para os livros de quem amas, que história contam eles sobre a pessoa que os escolheu? 📚✨

Leitura relacionada do Arquivo SoLu@
Há vários anos escrevi sobre a importância das atividades e da comunicação entre pais e filhos adolescentes. Hoje continuo a acreditar nisso. Talvez os livros sejam também uma forma silenciosa de comunicação — uma maneira de descobrirmos quem os nossos filhos são, mesmo quando já não nos contam tudo.

Sugestões de leitura:

Quando uma leitura dos filhos nos ensina a escutar melhor

Livro aberto e folha manuscrita, simbolizando a leitura dos filhos e a comunicação em família.

Uma reflexão sobre leitura, maternidade, espera e a forma como comunicamos com os nossos filhos à medida que eles crescem.

Há momentos simples que nos mostram, sem grande ruído, que os nossos filhos estão a crescer.

Esta semana, a minha filha mais nova está a preparar um trabalho para a aula de Português sobre um livro que leu. Pedi-lhe que escrevesse também um pequeno texto sobre essa leitura, para eu poder partilhar aqui no SoLu@.

Ainda não chegou.

E, curiosamente, essa espera também me fez pensar.

Porque, como mães, tantas vezes queremos acompanhar, ajudar, organizar, orientar, incentivar… e, sem darmos por isso, podemos transformar um convite bonito em mais uma pressão.

Eu pedi-lhe um texto.
Ela ainda não mo enviou.
E eu estou a aprender a esperar.

Não como quem desiste.
Mas como quem respeita o tempo dela.

Quando os filhos começam a ter palavras próprias

Há uma fase da maternidade em que falamos muito por eles.

Explicamos o que sentem.
Traduzimos birras.
Adivinhamos medos.
Interpretamos silêncios.
Tentamos encontrar as palavras certas para aquilo que eles ainda não sabem dizer.

Mas depois eles crescem.

E começam a ter as suas próprias leituras, opiniões, gostos, perguntas, interpretações do mundo.

Um livro lido para a escola pode parecer apenas mais um trabalho.
Mas também pode ser uma janela.

Uma janela para percebermos o que os tocou.
O que os fez pensar.
O que rejeitaram.
O que compreenderam.
O que talvez ainda não saibam explicar, mas já começaram a sentir.

Às vezes, quando um filho fala de um livro, não está apenas a falar de uma história.
Está a revelar-nos um pouco da forma como olha para a vida.

Comunicar também é dar espaço

Ao pensar neste tema, lembrei-me de um texto antigo do Arquivo SoLu@, publicado em 2019: “Como comunicar com os meus filhos?”

Nesse texto, eu escrevia sobre o amor incondicional que temos pelos nossos filhos e sobre essa pergunta tão grande que acompanha a maternidade: como guiá-los, ouvi-los e ajudá-los a crescer?

Na altura, escrevi:

“Damos o nosso Amor incondicional aos nossos filhos e queremos que sejam Felizes!”

E essa frase continua a fazer sentido.

Queremos que sejam felizes.
Queremos que sejam autónomos.
Queremos que façam boas escolhas.
Queremos que saibam pensar, sentir, decidir, levantar-se, proteger-se e amar.

Mas comunicar com os filhos não é apenas falar.

É também escutar.
É saber calar.
É não preencher todos os espaços.
É deixar que encontrem as suas próprias palavras.

E isto nem sempre é fácil.

Vivemos numa era de respostas rápidas, mensagens instantâneas e urgências constantes. Mas os filhos, sobretudo quando crescem, nem sempre se abrem à velocidade a que nós gostaríamos.

Às vezes precisam de tempo.
Às vezes precisam de confiança.
Às vezes precisam apenas de sentir que podem chegar quando estiverem prontos.

A leitura como ponto de encontro

Gosto da ideia de um livro se tornar conversa.

Nem sempre precisamos de grandes discursos para nos aproximarmos dos filhos. Às vezes, basta uma pergunta simples:

“O que achaste dessa personagem?”
“Gostaste do final?”
“Houve alguma parte que te marcou?”
“Esse livro fez-te pensar em alguma coisa da tua vida?”

As leituras podem abrir portas que as perguntas directas não abrem.

Porque falar de uma personagem é, muitas vezes, uma forma mais segura de falar de emoções.
Falar de uma história pode ser uma forma delicada de falar de escolhas, injustiças, sonhos, medos, coragem ou amor.

E talvez seja por isso que este momento me tocou.

Não é apenas o trabalho de Português da minha filha.
É a possibilidade de a ouvir através daquilo que ela leu.

A frase que ficou nela

Entretanto, a minha filha já me falou de uma ideia que a marcou nesta leitura.

Falou-me da importância de lutar pela humanidade.
E disse-me também que, apesar de tudo, todas as pessoas têm uma parte boa.

Fiquei a pensar nisto.

Porque, vindo de uma leitura como A Peste, de Albert Camus, esta ideia ganha ainda mais força. O livro fala de medo, doença, isolamento, sofrimento e morte. Mas também fala daquilo que continua a salvar-nos quando tudo parece difícil: a solidariedade, o cuidado, a coragem silenciosa e a capacidade de não desistirmos uns dos outros.

Talvez seja isso que os livros fazem quando chegam ao coração dos nossos filhos.

Não ficam apenas como trabalho escolar.
Ficam como pensamento.
Como pergunta.
Como forma de olhar para o mundo.

E, como mãe, ouvir esta frase tocou-me profundamente. Porque comunicar com os filhos também passa por isto: escutar aquilo que os marcou, perceber que ideias ficaram dentro deles e acolher a forma como começam a construir a sua própria visão da vida.

Vale a pena lutar pela humanidade, porque em cada pessoa continua a existir uma parte boa.

Ser mãe também é aprender a não apressar

Ainda não tenho o texto completo dela.
Mas já tenho uma frase.
E, às vezes, uma frase já nos mostra que a leitura fez o seu caminho.

E decidi escrever mesmo assim.

Porque esta Sexta-Feira Nostálgica não é apenas sobre o livro que ela leu.
É sobre a forma como eu, enquanto mãe, continuo a aprender a comunicar.

Aprendo que nem tudo tem de estar pronto quando eu quero.
Aprendo que os filhos também têm o seu ritmo.
Aprendo que incentivar não é empurrar.
Aprendo que acompanhar não é controlar.
Aprendo que o amor também sabe esperar.

Talvez, quando ela me entregar o texto, eu volte aqui para o partilhar.

Hoje fica esta reflexão: comunicar com os filhos é uma construção diária. Começa quando são pequenos, mas não termina quando crescem. Apenas muda de forma.

Antes havia colo, perguntas simples e respostas imediatas.

Agora há conversas mais espaçadas, silêncios mais longos, opiniões próprias, trabalhos da escola, livros, escolhas, sonhos e caminhos que começam a ser deles.

E nós, mães, vamos aprendendo uma nova presença.

Menos urgente.
Mais disponível.
Menos controladora.
Mais confiante.

Do Arquivo SoLu@

Nesta Sexta-Feira Nostálgica, recupero o texto antigo:

Como comunicar com os meus filhos?
Publicado no Arquivo SoLu@, em 12 de novembro de 2019.

Na altura, escrevia sobre a importância de guiar os filhos, ouvi-los e ajudá-los a crescer com amor, autonomia e presença.

Hoje, tantos anos depois, continuo a sentir o mesmo — talvez com mais calma, mais consciência e mais verdade.

Porque comunicar com os filhos é isso mesmo:
continuar a aprender a amá-los em cada fase.

E tu?
Costumas conversar com os teus filhos sobre os livros, filmes ou histórias que os tocam?

Leituras sugeridas:

O início de um novo caminho… desta vez é a minha filha do meio! 🎓✨

O início de um novo caminho

Parabéns, Princesa!

Há dois anos escrevi estas palavras ao teu irmão.

Hoje, com o coração igualmente cheio de orgulho, volto a escrevê-las — desta vez para ti.

Esta semana terminaram as aulas do secundário. Ainda faltam os exames, ainda há estudo, escolhas e caminho pela frente. Mas esta sexta-feira é tua.

O baile é teu.

A noite é tua.

E esta memória vai ficar para sempre.

Olho para ti e vejo o que sempre vi: uma rapariga determinada, independente, com uma força serena que tantas vezes me surpreende.

Tu sabes o que queres.

E, mesmo quando duvidas, há em ti uma firmeza bonita, uma vontade própria, uma luz que não precisa de fazer barulho para se fazer notar.

Não precisaste de muito empurrão para chegar até aqui.

Foste tu.

Com os teus passos.

Com o teu esforço.

Com a tua exigência.

Com a tua forma tão tua de levares a vida a sério.

E eu sei que nem sempre foi fácil.

Sei que houve dias longos, pressão, cansaço, nervos, expectativas e aquele peso invisível de querer fazer tudo bem. Sei que ainda faltam exames e que a tua cabeça talvez já esteja a correr para o que vem a seguir.

Mas hoje queria que parasses um bocadinho.

Só um bocadinho.

Para perceberes que chegaste até aqui.

E isso já merece ser celebrado.

Em breve virão as grandes escolhas: o curso, a universidade, o futuro, esse caminho que começa a desenhar-se diante de ti e que será cada vez mais teu.

E, como disse ao teu irmão, também te digo a ti:

Não te sintas pressionada a seguir o que está na moda.

Não escolhas apenas pelo que os outros esperam.

Não deixes que o medo decida por ti.

A verdadeira satisfação vem de fazer aquilo que faz sentido cá dentro.

Vem de escolher com consciência.

De escutar o coração, mas também a razão.

De perceber que a vida não tem de estar toda decidida aos 17 anos.

E que nenhum caminho precisa de ser perfeito para ser bonito.

Pesquisa.

Reflecte.

Pergunta.

Escuta.

Mas, acima de tudo, confia em ti.

Os teus instintos raramente te enganam.

E se um dia te enganares, também está tudo bem. A vida não se constrói só com certezas. Também se constrói com tentativas, mudanças, recomeços e coragem para ajustar o caminho.

Mas hoje não é dia de pensar nisso.

Hoje é dia de dançar.

Hoje é dia de vestires a tua alegria.

De sorrires sem culpa.

De tirares fotografias.

De abraçares amigas.

De guardares esta noite como uma daquelas memórias que, mais tarde, voltam com ternura.

Hoje é dia de celebrares a menina que foste, a jovem que és e a mulher que, aos poucos, vais descobrindo em ti.

Parabéns, minha pequena Grande Amor 🧡

Este é apenas o começo de um caminho incrível.

E eu estou aqui, como sempre estive: a ver-te crescer, a desejar tudo o que é melhor para ti, a confiar no teu caminho e ansiosa por ver todas as maravilhas que ainda vais conquistar.

Com todo o meu amor e orgulho,

Mãe

—

Do Arquivo SoLu@

Há dois anos, escrevi ao teu irmão quando ele terminou o secundário. Hoje, volto a essa memória com outro coração, porque há caminhos que a vida nos deixa viver de novo — mas nunca da mesma forma.

Texto relacionado: O início de um novo caminho 🎓✨

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Sexta-Feira Nostálgica
Uma memória do arquivo, relida à luz do presente. Porque o que vivemos antes também pode iluminar o que estamos a viver agora.

SoLu@

Escrever foi a forma que encontrei de voltar a mim

Imagem delicada com folha manuscrita antiga e a frase Escrever foi a forma que encontrei de voltar a mim, simbolizando a escrita como caminho de regresso interior.

Desde que me lembro, comecei a escrever num diário.

O meu primeiro diário foi um presente de aniversário. Tinha uma pequena chave, e isso fazia-me sentir que havia ali um lugar só meu. Um lugar onde podia guardar aquilo que talvez ainda não soubesse dizer em voz alta.

Escrevia sobre os acontecimentos da minha vida, sobre as minhas emoções, sobre aquilo que sentia e nem sempre sabia compreender. Talvez escrevesse mais sobre a tristeza do que sobre a alegria, porque a tristeza, quando não encontra saída, precisa de algum lugar onde pousar.

A escrita foi, desde cedo, uma forma de tentar perceber o que se passava dentro de mim.

Às vezes, ao reler o que tinha escrito, conseguia olhar para trás com alguma distância. Percebia que havia momentos em que era preciso respirar fundo, aceitar o que a vida nos dava e continuar, mesmo sem ter todas as respostas.

A escrita como abrigo

Para mim, escrever foi muitas vezes o meu psicólogo, o meu amigo, o meu confidente.

Era na escrita que eu organizava emoções.
Guardava memórias.
Tentava compreender o amor, a desilusão, a maternidade, a esperança, a fé, a mulher que eu era e a mulher que ainda estava a nascer.

Escrevi porque precisava de me ouvir.
Mesmo quando ninguém lia.
Mesmo quando eu própria ainda não entendia tudo.

Há textos que nascem assim: não para serem perfeitos, mas para nos salvarem um bocadinho.

Quando me fui afastando de mim

Acho que uma pessoa nem sempre percebe o momento exacto em que se afasta de si.

Não acontece de repente.

Vai acontecendo devagar.

Num “sim” dito com o coração cansado.
Numa vontade adiada.
Num sonho colocado sempre para depois.
Numa emoção engolida.
Num silêncio repetido.
Numa tentativa constante de ser suficiente para todos.

E quando damos conta, já quase não perguntamos:

O que é que eu quero?
O que é que eu sinto?
O que é que ainda vive em mim?

Durante muito tempo, talvez eu também tenha escrito para encontrar essas respostas.

Os antigos textos, os blogs e a memória

Quando olho para trás, para os textos antigos, para os blogs, para as palavras que fui deixando ao longo dos anos, vejo muito mais do que publicações.

Vejo fases da minha vida.
Vejo perguntas.
Vejo amores.
Vejo dores.
Vejo esperança.
Vejo uma mulher a tentar compreender o que significa amar e viver.

É por isso que os diários e o arquivo não são apenas passado.

São memória viva.
São raiz.
São testemunho.
São o lugar onde a escrita antiga continua a ter voz, mesmo quando a vida já avançou.

Nem todos os textos antigos têm a maturidade que tenho hoje.
Nem todos foram escritos com a clareza que procuro agora.
Mas todos pertencem ao caminho.

E talvez seja isso que me comove: perceber que, mesmo quando eu não sabia, já estava a regressar a mim através das palavras.

Escrever para voltar a sentir

Há dias em que escrever ainda me devolve partes de mim que estavam dispersas.

Escrevo e percebo o que me dói.
Escrevo e descubro o que me chama.
Escrevo e encontro uma verdade que ainda não tinha conseguido dizer em voz alta.

A escrita tem essa delicadeza: não exige que saibamos tudo antes de começar.

Às vezes, começamos apenas com uma frase.
Com uma memória.
Com uma imagem.
Com uma pergunta.
Com uma saudade.
Com um desconforto.

E, de repente, a alma começa a falar.

A escrita também é propósito

Hoje percebo que escrever faz parte do meu propósito.

Não porque tenha todas as respostas.
Mas porque continuo a acreditar que uma palavra verdadeira pode fazer companhia a alguém.

Eu sei disso porque muitas palavras também me fizeram companhia.

Há textos que acolhem.
Há frases que iluminam.
Há palavras que nos encontram no momento certo.
Há partilhas que fazem uma mulher sentir que não está sozinha.

Talvez seja por isso que continuo.

Pelo amor.
Pela memória.
Pela maternidade.
Pela vida real.
Pela esperança.
Pelas mulheres que também se perderam em algum momento e procuram uma forma de voltar.

Uma pergunta para ti

Talvez a escrita não seja o teu caminho.

Talvez seja a pintura.
A caminhada.
A oração.
O silêncio.
A dança.
A música.
O jardim.
A conversa honesta.
O descanso.

Mas acredito que todas precisamos de um lugar onde possamos voltar a nós.

Um lugar onde não precisamos de representar.
Onde não precisamos de agradar.
Onde não precisamos de ser fortes o tempo todo.

Um lugar onde a verdade possa pousar.

Por isso, deixo-te esta pergunta:

Qual é a forma que a tua alma encontra para voltar a ti?

Para mim, uma das formas é escrever

Para mim, muitas vezes, foi escrever.

Foi escrever quando não sabia explicar.
Foi escrever quando o amor doía.
Foi escrever quando a maternidade me transformava.
Foi escrever quando a vida me pedia mais coragem.
Foi escrever quando precisava de acreditar outra vez.

E talvez continue a ser.

Porque há palavras que não mudam o passado, mas ajudam-nos a compreendê-lo.
Há palavras que não resolvem tudo, mas devolvem-nos presença.
Há palavras que não fazem desaparecer a dor, mas impedem que ela fique sozinha dentro de nós.

Escrever foi a forma que encontrei de voltar a mim.

E talvez, ao partilhar esse caminho, alguém encontre também uma pequena porta de regresso.

Criar também é voltar a mim.
Há emoções que não chegam primeiro em palavras.

Às vezes, chegam em cor, em traço, em silêncio.

🌸 "Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores." 🌸
🌸 “Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores.” 🌸

Desejo

Se este texto te tocou, visita o Arquivo SoLu@, onde guardo parte da memória viva dos antigos blogs, e acompanha também a página O Meu Livro — Aprender a amar e a viver…, onde a escrita continua a transformar memória em caminho.

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