Escolher o que merece continuar connosco
Há uma ideia sobre os recomeços que durante muito tempo me pareceu bonita: a possibilidade de começar do zero.
Página em branco.
Vida nova.
Hábitos novos.
Uma versão diferente de nós próprias.
Hoje já não acredito muito nisso.
Talvez porque a vida me tenha ensinado que nunca regressamos verdadeiramente ao princípio.
Quando recomeçamos, levamos connosco tudo aquilo que já aconteceu.
As coisas que aprendemos.
As que ainda estamos a tentar compreender.
As pessoas que passaram pela nossa vida.
As que ficaram.
Os erros que cometemos.
As feridas que sararam.
As que ainda doem um bocadinho.
Levamos também as pequenas vitórias que tantas vezes esquecemos.
E talvez seja precisamente por isso que um recomeço pode ser tão bonito.
Porque não estamos a começar sem nada.
Estamos a começar com experiência.
Não quero voltar atrás
Há alturas em que pensamos:
Quem me dera voltar àquela fase.
Voltar ao tempo em que tínhamos mais energia.
Voltar ao corpo que tínhamos.
Voltar à rotina que funcionava.
Voltar à relação que parecia diferente.
Voltar aos dias em que tudo parecia mais simples.
Mas, pensando bem, eu não quero realmente voltar atrás.
Quero poder olhar para trás, perceber o que me fazia bem e perguntar:
O que daquela vida ainda merece fazer parte desta?
Porque algumas coisas mudaram.
Eu mudei.
A minha família mudou.
Os meus filhos cresceram.
As prioridades mudaram.
O corpo também muda.
O tempo disponível não é o mesmo.
E aquilo de que precisamos hoje pode ser muito diferente daquilo de que precisávamos há cinco, dez ou vinte anos.
Por isso, recomeçar não pode ser uma tentativa de reconstruir exactamente a vida que tínhamos.
Talvez seja antes uma oportunidade para construir a vida que faz sentido agora.
Há coisas que não precisam de regressar connosco
Também há alguma coragem nisto.
Porque quando decidimos recomeçar, podemos sentir que temos de recuperar tudo aquilo que deixámos para trás.
A rotina perfeita.
O exercício todos os dias.
A casa organizada.
Os projectos interrompidos.
Os hábitos abandonados.
As listas que ficaram por cumprir.
Mas talvez nem tudo tenha de voltar.
Há coisas que deixaram de servir.
Há hábitos que pertenciam a outra fase.
Há expectativas que já pesam mais do que ajudam.
Há objectivos que foram importantes numa determinada altura e que hoje já não fazem sentido.
E reconhecer isso não significa desistir.
Significa crescer.
Às vezes, o verdadeiro recomeço começa quando conseguimos dizer:
isto foi importante para mim, mas já não preciso de o levar comigo.
E há coisas que continuam a chamar por nós
Depois existem aquelas coisas que, mesmo quando a vida se complica, continuam silenciosamente à nossa espera.
Uma caminhada.
Um livro pousado na mesa de cabeceira.
Escrever.
Voltar a mexer o corpo.
Beber água com mais atenção.
Dormir melhor.
Telefonar a alguém.
Sentar-me alguns minutos em silêncio.
Retomar um projecto que me faz feliz.
Cuidar de uma relação.
Voltar a rezar.
Voltar a sonhar.
Não porque alguém nos disse que devíamos fazê-lo.
Mas porque, quando pensamos nisso, há qualquer coisa dentro de nós que reconhece:
isto faz-me bem.
Talvez seja por aí que vale a pena começar.
Setembro não precisa de ser uma revolução
Setembro tem esta energia curiosa.
Depois do Verão, sentimos quase automaticamente que chegou a altura de reorganizar tudo.
Horários.
Escola.
Trabalho.
Casa.
Alimentação.
Exercício.
Projectos.
Planos.
E, no meio dessa reorganização, é muito fácil criarmos uma lista tão grande que o próprio recomeço se transforma em mais uma fonte de pressão.
Este ano quero experimentar outra coisa.
Em vez de perguntar:
“O que tenho de mudar?”
quero perguntar:
“O que merece continuar comigo?”
A pergunta parece semelhante.
Mas não é.
A primeira parte da ideia de que há alguma coisa errada que precisa de ser corrigida.
A segunda parte daquilo que já existe e merece ser cuidado.
E talvez o autocuidado comece exactamente aí.
Não em inventarmos uma pessoa completamente nova.
Mas em reconhecermos aquilo que já faz parte de nós e merece voltar a ter espaço.
Uma coisa de cada vez
Por isso, a proposta desta semana do Setembro Recomeço é muito simples:
escolher apenas uma coisa para retomar.
Não cinco.
Não dez.
Uma.
Pode ser pequena.
Na verdade, talvez seja melhor que seja pequena.
Por exemplo:
- caminhar 20 minutos;
- voltar a ler antes de dormir;
- preparar o pequeno-almoço com mais calma;
- escrever algumas linhas num caderno;
- telefonar uma vez por semana a alguém de quem gostamos;
- regressar ao ginásio sem exigir resultados imediatos;
- deitar mais cedo;
- reservar meia hora para nós;
- voltar a um projecto que ficou esquecido;
- fazer alguma coisa simplesmente porque nos dá prazer.
Depois podemos perguntar:
Porque quero recuperar isto?
Não porque “devia”.
Não porque Setembro chegou.
Não porque toda a gente parece estar a reorganizar a vida.
Mas porque esta pequena coisa pode tornar os meus dias um pouco melhores.
O meu pequeno exercício de recomeço
Se quiseres fazer esta reflexão comigo, escreve três frases:
1. Há uma coisa da minha vida que quero deixar para trás:
2. Há uma coisa que aprendi e quero levar comigo:
3. Há uma coisa que quero começar a retomar:
Depois escolhe apenas a terceira.
E pergunta:
Qual é a versão mais pequena e possível desta escolha?
Se queres voltar a caminhar, talvez não sejam cinco quilómetros.
Talvez sejam dez minutos.
Se queres voltar a escrever, talvez não seja terminar um livro.
Talvez seja abrir um documento e escrever um parágrafo.
Se queres cuidar mais de ti, talvez não seja mudar toda a tua rotina.
Talvez seja começar por não te deixares sempre para o fim.
Porque os recomeços que permanecem raramente começam com grandes revoluções.
Começam com pequenos gestos que conseguimos repetir.
Não somos a mesma pessoa que começou
Há algo que hoje me conforta muito nesta ideia.
Eu não preciso de regressar à mulher que era.
Posso agradecer-lhe tudo aquilo que ela fez.
Posso reconhecer aquilo que atravessou.
Posso aprender com as suas escolhas.
Mas posso continuar daqui.
Com aquilo que sei hoje.
Com os limites que conheço melhor.
Com mais consciência do que me faz bem e do que me esgota.
Com outra relação com o tempo.
Com mais respeito por mim.
Talvez crescer seja precisamente isto:
deixar de tentar recuperar versões antigas de nós próprias e começar a cuidar da pessoa que somos agora.
A pergunta desta semana
Neste Setembro de Autocuidado e Recomeço, não te vou perguntar quantas coisas queres mudar.
Pergunto-te apenas:
O que merece continuar contigo?
E, entre tudo aquilo que escolheste, haverá talvez uma pequena coisa que merece regressar aos teus dias.
Começa por aí.
Sem pressa.
Sem perfeição.
Sem transformar o calendário numa obrigação.
Porque, como tenho repetido no Calendário SoLu@:
o calendário é um guia, não uma prisão.
E um recomeço também deve ser assim.
Um caminho que nos aproxima de nós.
Não mais uma lista onde podemos sentir que falhámos.
Para levar contigo
Recomeçar não é voltar ao princípio.
É continuar a partir de tudo aquilo que a vida já nos ensinou.
Esta semana escolhe apenas uma coisa.
Uma coisa que te faça bem.
Uma coisa que reconheças como tua.
Uma coisa que mereça voltar.
E começa de onde estás.
Porque talvez seja esse o único lugar de onde alguma vez podemos realmente recomeçar.
SoLu@
Continua este caminho
Se estás a viver comigo este Setembro de Autocuidado / Recomeço, podes continuar por aqui:
Não fiz tudo. Mas voltei a cuidar de mim.
Uma reflexão sobre aquilo que acontece quando os planos não se cumprem exactamente como imaginámos — e mesmo assim alguma coisa muda.
Como fazer um recomeço na tua vida? — Um texto do passado. Um olhar de hoje.
Uma ponte entre aquilo que escrevi há anos e aquilo que hoje aprendi sobre começar novamente.
Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço
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Um dia de cada vez.

