Quando tudo parece difícil, lembrar aquilo que também correu bem

Quando tudo parece difícil, lembrar o que correu bem

Há dias em que a vida pesa tanto que nos esquecemos de reconhecer aquilo que, apesar de tudo, continua a correr bem.

Há fases da vida em que parece que tudo acontece ao mesmo tempo.

Uma preocupação com os filhos. Uma notícia que não esperávamos. Um problema de saúde. Uma situação familiar que nos tira o sono. Planos que não se concretizam, decisões difíceis, responsabilidades que se acumulam.

E, quando damos por nós, estamos tão concentradas no que falta resolver que deixamos de reparar naquilo que já conseguimos ultrapassar.

Eu própria reconheço esta tendência.

Há dias em que me deito a pensar em tudo o que ficou por fazer, nas preocupações que continuam sem resposta e naquilo que gostaria de conseguir mudar.

Como mãe, como mulher, como alguém que procura cuidar dos seus e construir uma vida com sentido, nem sempre é fácil desligar a cabeça.

Por vezes, parece que uma preocupação substitui outra. E, quando finalmente conseguimos resolver alguma coisa, já estamos a pensar no próximo problema.

Mas será que, no meio de tudo isto, também conseguimos reconhecer aquilo que correu bem?

Quando as dificuldades ocupam todo o espaço

A nossa atenção tem uma forma curiosa de funcionar.

Podemos ter vivido um dia com vários momentos tranquilos e, ainda assim, chegar à noite a pensar apenas naquele que nos magoou, preocupou ou desiludiu.

Uma conversa difícil parece apagar outras conversas boas.

Uma notícia menos positiva parece pesar mais do que várias pequenas alegrias.

E uma situação que não conseguimos controlar pode fazer-nos esquecer tantas outras em que fomos capazes de encontrar soluções.

Não significa que sejamos ingratas ou pessimistas.

Significa, muitas vezes, que estamos cansadas, preocupadas ou simplesmente a tentar dar resposta a demasiadas coisas.

Mas também significa que precisamos, de vez em quando, de recuperar uma visão mais completa da nossa própria vida.

Porque a vida não é feita apenas daquilo que nos corre mal.

Também é feita daquilo que conseguimos, do que aprendemos, das pessoas que permanecem e dos pequenos momentos que nos ajudam a continuar.

Uma memória do Arquivo SoLu@

Ao revisitar os textos antigos do SoLu@, encontro muitas vezes mensagens que continuam a fazer sentido no presente.

No Dia 23 do antigo calendário de Outubro Otimista, a proposta era simples:

Escrever três coisas específicas que correram bem recentemente.

Parece um exercício pequeno.

E é.

Mas talvez seja precisamente por isso que merece ser recuperado.

Não nos pede que ignoremos os problemas, que escondamos a tristeza ou que finjamos que tudo está bem.

Convida-nos apenas a recordar que, mesmo quando estamos a atravessar dificuldades, podem existir acontecimentos positivos que passaram quase despercebidos.

E que também fazem parte da nossa história.

Três coisas que também correram bem

Pensei no valor deste exercício para a minha própria vida.

Nem sempre precisamos de encontrar grandes acontecimentos.

Às vezes, aquilo que correu bem foi uma conversa com um filho que nos deixou mais tranquilas.

Um momento à mesa em família.

Uma preocupação que afinal não se confirmou.

Uma tarefa que conseguimos terminar depois de vários dias a adiá-la.

Uma gargalhada inesperada.

Ou simplesmente termos conseguido enfrentar um dia difícil sem desistir de nós próprias.

Há pequenas vitórias que ninguém vê.

E há gestos tão habituais que deixamos de lhes reconhecer o valor.

Talvez porque estamos sempre à espera de algo maior.

De uma solução definitiva.

De uma fase mais tranquila.

De um momento em que tudo esteja finalmente no seu lugar.

Mas a vida raramente nos oferece essa perfeição.

E, enquanto esperamos por ela, podemos deixar passar muitos dos momentos que também mereciam ficar guardados.

A gratidão não apaga aquilo que dói

Há uma coisa que considero importante esclarecer.

Não acredito numa gratidão que nos obrigue a sorrir quando estamos tristes.

Nem num optimismo que nos faça sentir culpadas por termos medo, dúvidas ou dias menos bons.

Há situações verdadeiramente difíceis. Há perdas que deixam marcas. Há preocupações que não desaparecem apenas porque decidimos pensar de forma positiva.

E está tudo bem em reconhecer isso.

Ser grata não significa estar satisfeita com tudo o que acontece na nossa vida.

Significa conseguir reconhecer o que tem valor, mesmo quando outras coisas continuam a doer.

Podemos estar preocupadas com o futuro de alguém que amamos e, ao mesmo tempo, agradecer a oportunidade de estarmos presentes na sua vida.

Podemos sentir saudades de quem já partiu e continuar a encontrar motivos para sorrir.

Podemos estar cansadas e reconhecer que, apesar de tudo, fizemos o melhor que conseguimos.

As duas realidades podem existir ao mesmo tempo.

E talvez seja essa uma das formas mais maduras de viver a esperança.

Não negar a dificuldade, mas também não permitir que ela conte sozinha toda a nossa história.

O que a memória nos pode ensinar

Quando olho para trás, percebo que já existiram momentos em que pensei que não conseguiria encontrar uma solução.

Houve situações que me preocuparam profundamente.

Decisões que me fizeram duvidar.

Mudanças que não desejava.

E acontecimentos que alteraram a forma como imaginava o futuro.

Nem tudo se resolveu como eu queria.

Algumas coisas continuam sem resposta.

Mas outras acabaram por encontrar o seu caminho.

E eu própria fui aprendendo, muitas vezes sem perceber, a lidar com realidades que antes me pareciam impossíveis.

É por isso que considero tão importante guardar memórias.

Não apenas as fotografias dos dias felizes ou as datas especiais.

Também as pequenas conquistas, os gestos de coragem, as dificuldades ultrapassadas e os momentos em que a vida nos surpreendeu pela positiva.

Porque, quando voltamos a atravessar uma fase difícil, essas memórias podem recordar-nos algo essencial:

Já houve dias em que também não sabíamos como continuar. E, de alguma forma, encontrámos o passo seguinte.

Isso não garante que tudo vá correr bem amanhã.

Mas pode ajudar-nos a acreditar que ainda existem possibilidades que hoje não conseguimos ver.

Um pequeno exercício para esta sexta-feira

Hoje, convido-te a recuperar a proposta do Arquivo SoLu@.

Pega num caderno, numa folha ou simplesmente nas notas do telemóvel.

E escreve:

1. Uma coisa que correu bem esta semana.

Pode ser algo simples, mas procura recordar exactamente o que aconteceu.

2. Uma situação que conseguiste enfrentar melhor do que esperavas.

Talvez não tenha sido perfeita. Talvez tenha exigido esforço. Mas reconhece a tua participação nesse caminho.

3. Um momento ou uma pessoa que te fez sentir bem.

Uma conversa, uma presença, uma mensagem, um gesto de carinho ou um instante de tranquilidade.

Depois, relê aquilo que escreveste.

Não para te convenceres de que tudo está bem.

Mas para recordares que nem tudo está mal.

E, se hoje não conseguires encontrar três coisas, escreve apenas uma. Se nem isso for possível, não te julgues. Podes voltar ao exercício noutro dia.

A gratidão também precisa de espaço, de liberdade e de verdade.

Talvez precisemos de olhar para a nossa vida com mais ternura

Nem sempre damos a nós próprias o reconhecimento que merecemos.

Somos rápidas a identificar o que falhou, aquilo que não fizemos ou o que ainda precisamos de melhorar.

Mas raramente paramos para reconhecer tudo o que já sustentámos.

As noites mal dormidas.

As preocupações silenciosas.

As decisões tomadas com medo.

As vezes em que continuámos a cuidar de alguém, mesmo quando também precisávamos de cuidado.

E os pequenos momentos em que conseguimos fazer a diferença.

Talvez hoje seja um bom dia para reconhecer tudo isso.

Não como uma forma de nos conformarmos com aquilo que desejamos mudar.

Mas como um gesto de justiça para com a nossa própria história.

Porque também merecemos recordar aquilo que fizemos bem.

Reflexão final SoLu@

Há dias em que a vida parece mostrar-nos apenas aquilo que falta.

Falta tempo. Falta descanso. Falta uma resposta. Falta a tranquilidade que tanto desejamos.

Mas, se olharmos com atenção, talvez descubramos que também existem coisas que permanecem.

O amor de alguém.

Uma pequena conquista.

Uma dificuldade que já ultrapassámos.

Um gesto que nos fez sorrir.

Uma esperança que, apesar de tudo, ainda não desapareceu.

E talvez seja suficiente para começarmos a olhar para o amanhã com um pouco mais de confiança.

SoLu@ — “Nem tudo correu como eu queria. Mas, quando olho para trás com carinho, descubro que também houve tanto que correu bem.”

Com carinho,

SoLu@

Amor Incondicional · Aprender a Amar e a Viver…

Sugestão de Leitura

A mulher que eu era também faz parte da mulher que sou

Mulher a reflectir sobre quem era, crescimento pessoal e recomeços

Sexta-feira Nostálgica | Uma conversa entre aquilo que escrevi em 2021 e aquilo que hoje sei sobre a vida

Há textos antigos que nos fazem sorrir.

Outros fazem-nos pensar:

Eu ainda sou esta pessoa?

E depois existem aqueles que nos devolvem perguntas que nunca ficaram verdadeiramente respondidas.

Foi o que aconteceu quando voltei ao Arquivo SoLu@ e encontrei um texto que escrevi em Maio de 2021:

“Mãe, qual é o sentido da vida?”

A pergunta tinha sido feita pelo meu filho.

À noite.

Daquelas perguntas pequenas no número de palavras e enormes em tudo o resto.

Na altura respondi-lhe.

Cinco anos depois, voltei a ler a minha resposta.

E desta vez fiquei a olhar não apenas para aquilo que escrevi, mas também para a mulher que escreveu aquelas palavras.

Será que hoje responderia da mesma maneira?

“Mãe, qual é o sentido da vida?”

Em 2021, escrevi que o meu filho me tinha perguntado qual era o sentido da vida.

Respondi-lhe falando de fazer o bem, de viver plenamente, de aproveitar as oportunidades, de procurar ser feliz e de contribuir também para a felicidade daqueles que nos rodeiam.

E, antes de me despedir dele naquela noite, disse-lhe uma coisa que continuo a sentir:

“Tu és um dos propósitos da minha vida.”

Cinco anos depois, continuo a reconhecer aquela mãe.

Continuo a acreditar profundamente no amor.

Continuo a acreditar que aquilo que fazemos pelos outros importa.

Continuo a acreditar que as nossas escolhas podem deixar o mundo — ou simplesmente a vida de alguém — um pouco melhor.

Mas talvez hoje acrescentasse algumas coisas àquela resposta.

Os nossos filhos podem ser um propósito. Mas não podem ser todo o nosso propósito.

Esta talvez seja uma das coisas que o tempo me ensinou.

Durante muitos anos, uma enorme parte da minha vida esteve naturalmente organizada à volta dos meus filhos.

Os horários.

A escola.

As preocupações.

As refeições.

As actividades.

Os sonhos deles.

As dificuldades.

As conquistas.

A necessidade permanente de estar presente.

E eu quis estar.

Ainda quero.

Mas os filhos crescem.

Começam a fazer escolhas sem nós.

Partem para os seus caminhos.

Descobrem pessoas, lugares, sonhos e versões deles próprios que já não conseguimos controlar — nem devemos.

E talvez seja precisamente quando eles começam a voar que surge uma pergunta inesperada para nós, mães:

E eu?

Quem sou quando já não precisam de mim da mesma maneira?

O que quero continuar a construir?

O que me faz feliz?

Onde estão os meus sonhos?

O que dá sentido à minha vida nesta nova fase?

Talvez o sentido da vida também vá mudando

Em 2021 procurei responder àquela pergunta.

Hoje talvez aceitasse melhor que não tenho uma resposta definitiva.

E isso já não me inquieta da mesma forma.

Talvez porque tenha percebido que o sentido da vida não precisa de ser uma grande missão escrita para sempre.

Pode mudar.

Pode ter fases.

Há momentos em que o nosso propósito parece ser cuidar.

Outros em que precisamos de aprender.

Outros de sobreviver.

Outros de reconstruir.

Há momentos de partir e outros de ficar.

Há épocas em que fazemos planos.

E outras em que a própria vida os faz por nós.

Talvez viver com sentido seja também aprender a reconhecer aquilo que cada fase nos está a pedir.

A mulher de 2021 procurava respostas

Ao reler aquele texto, percebi outra coisa.

Eu procurava respostas.

Queria compreender.

Queria encontrar uma espécie de fio que ligasse aquilo que vivemos à razão por que estamos aqui.

Hoje continuo a fazer perguntas.

Mas talvez já não tenha tanta necessidade de encontrar uma resposta absoluta para todas elas.

Porque a vida ensinou-me que podemos viver coisas para as quais nunca encontraremos uma explicação satisfatória.

Há perdas que não conseguimos compreender.

Mudanças que não pedimos.

Sonhos que não aconteceram.

Pessoas que partiram.

Caminhos que tivemos de abandonar.

E existem também surpresas bonitas que nunca tínhamos planeado.

Talvez amadurecer seja perceber que podemos continuar a viver com sentido mesmo quando não compreendemos completamente aquilo que a vida nos trouxe.

Fazer as pazes com aquilo que fomos

Foi isto que mais senti ao reler o texto.

Não quero corrigir a mulher que o escreveu.

Não quero dizer-lhe:

“Hoje já não escreverias isto assim.”

Claro que não.

Passaram cinco anos.

A vida aconteceu.

Eu mudei.

Mas aquela mulher sabia aquilo que podia saber naquele momento.

Amava como sabia amar.

Educava como sabia educar.

Procurava respostas com a experiência que tinha.

Sonhava a partir da vida que conhecia.

E tudo isso também me trouxe até aqui.

Talvez uma das formas mais bonitas de crescimento seja conseguirmos olhar para trás sem vergonha da pessoa que fomos.

Sem a julgar permanentemente com os olhos da pessoa que somos hoje.

Podemos simplesmente dizer:

Estavas a aprender.

Tal como eu continuo a aprender.

Isto também é autocuidado

Setembro tem sido, no Calendário SoLu@, um mês de Autocuidado e Recomeço.

Falámos de voltar devagar.

De nos incluirmos novamente nas nossas próprias rotinas.

De deixar os filhos crescer.

De encontrar novos equilíbrios.

De cuidar de nós sem transformar o autocuidado em mais uma obrigação.

E agora percebo que falta acrescentar outra coisa:

autocuidado também pode ser fazer as pazes com a nossa própria história.

Perdoar algumas escolhas.

Compreender algumas decisões.

Aceitar que nem sempre sabíamos o que estávamos a fazer.

E reconhecer que houve versões nossas que tiveram de ser muito fortes para que hoje pudéssemos estar aqui.

“Cada pessoa segue o seu caminho”

Há uma frase que encontrei nos comentários daquele texto antigo.

Escrevi:

“Cada pessoa segue o seu caminho e faz a diferença no mundo.”

Em 2021 provavelmente pensei sobretudo nos nossos filhos e nas pessoas a quem tentamos transmitir alguma coisa.

Hoje leio-a de outra maneira.

Porque também nós continuamos a seguir o nosso caminho.

Mesmo depois de sermos mães.

Mesmo depois dos quarenta ou dos cinquenta.

Mesmo depois das mudanças.

Mesmo depois das perdas.

Mesmo depois dos planos que não resultaram.

Enquanto estivermos aqui, o nosso caminho não está terminado.

E talvez esta seja uma das respostas que hoje daria ao meu filho.

Então, qual é o sentido da vida?

Se ele me perguntasse novamente hoje, talvez começasse por dizer:

Não sei se existe uma resposta igual para todos.

Mas sei algumas coisas.

Sei que amar importa.

Que aquilo que fazemos aos outros importa.

Que estar presente importa.

Que aprender importa.

Que cuidar de nós também importa.

Que podemos recomeçar muitas vezes.

Que os nossos filhos são parte da nossa história, mas precisam de escrever a deles.

E que nós também temos o direito — e talvez a responsabilidade — de continuar a escrever a nossa.

Talvez uma vida com sentido não seja necessariamente uma vida extraordinária.

Talvez seja uma vida verdadeiramente vivida.

Com amor.

Com erros.

Com perguntas.

Com perdas.

Com sonhos.

Com pessoas.

Com coragem para mudar.

E com gratidão suficiente para reconhecer tudo aquilo que já fomos.

A mulher que eu era continua aqui

Quando criei o Arquivo SoLu@, não quis apenas salvar textos antigos.

Quis guardar memória.

Hoje percebo melhor porquê.

Porque quando volto a esses textos não encontro apenas palavras.

Encontro versões minhas.

A mãe.

A mulher.

A sonhadora.

Aquela que procurava respostas.

Aquela que acreditava que podia fazer melhor.

Aquela que algumas vezes se perdeu.

E aquela que continuou.

Nenhuma delas precisa de desaparecer para eu poder ser quem sou hoje.

Pelo contrário.

A mulher que eu era também faz parte da mulher que sou.

E da mulher que ainda estou a aprender a ser.

Talvez seja esse o verdadeiro significado desta Sexta-feira Nostálgica.

Não voltar ao passado para lá ficar.

Mas visitá-lo.

Conversar com ele.

Agradecer-lhe aquilo que nos ensinou.

E depois regressar ao presente um pouco mais conscientes do caminho que já percorremos.

Para guardar

Não preciso de rejeitar a mulher que fui para continuar a crescer.
Posso agradecer-lhe o caminho e continuar a escrever a minha história.

Um dia de cada vez.

💛


Do Arquivo para o presente

Esta reflexão nasceu do texto “Mãe, qual é o sentido da vida?”, publicado originalmente a 22 de Maio de 2021 e hoje preservado no Arquivo SoLu@.

👉 Ler o texto original no Arquivo SoLu@

Continua a ler no SoLu@

→ Recomeçar não é voltar ao princípio

→ Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda

→ Cuidar de mim sem transformar o autocuidado em mais uma obrigação

→ Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço

E tu?

Se pudesses sentar-te hoje ao lado da mulher que eras há cinco, dez ou vinte anos, o que lhe dirias?

O que mudarias?

E, sobretudo:

o que lhe agradecerias?

💌 Se estas reflexões também fazem sentido para ti, acompanha a Newsletter SoLu@. Um espaço mais próximo para continuarmos a falar sobre amor, maternidade, crescimento pessoal e vida com sentido.

Sexta-feira Nostálgica — Há dez anos eu já procurava uma vida mais feliz

Texto antigo do Arquivo SoLu@ sobre felicidade e crescimento pessoal, revisitado dez anos depois.

Dez anos depois, continuo a procurar uma vida com sentido. Mas talvez hoje saiba que não existe um projecto perfeito para ser feliz.

Há dez anos escrevi um texto chamado “Projecto de Vida para ser Feliz!”.

Naquela altura procurava perceber o que podia mudar para construir uma vida mais feliz. Dez anos depois, percebo que continuo a procurar felicidade — mas talvez hoje procure ainda mais uma vida com sentido.

Era Maio de 2016.

Voltei a encontrá-lo agora no Arquivo SoLu@ e fiquei algum tempo a olhar para aquelas palavras.

Não apenas para aquilo que escrevi.

Mas para a mulher que as escreveu.

Naquele texto falava de auto-análise, de família, de culpa, de falta de paciência, de decisões e da vontade de viver melhor.

E, ao relê-lo, aconteceu uma coisa curiosa:

reconheci-me.

Há perguntas que continuam a ser minhas.

Mas as respostas já não são exactamente as mesmas.

Talvez seja isso que dez anos fazem connosco.

Não apagam aquilo que fomos.

Ensinam-nos a olhar de outra maneira.


Eu já procurava aquilo que verdadeiramente importava

Quando escrevi aquele “Projecto de Vida”, estava a tentar perceber o que me fazia feliz.

A família.

Os amigos.

Os momentos vividos em conjunto.

O sentimento de fazer alguma coisa útil.

Uma vida que tivesse prazer, satisfação e sentido.

Dez anos depois, acho bonito perceber que o essencial não mudou assim tanto.

Continuo a acreditar no valor da família.

Continuo a acreditar na importância das relações.

Continuo a querer viver de uma forma que faça sentido e não apenas passar pelos dias a cumprir aquilo que é preciso fazer.

Talvez tenha mudado, sobretudo, a forma como procuro essa felicidade.

Na altura parecia existir em mim uma vontade de organizar melhor a vida, corrigir comportamentos, tomar decisões e conseguir mantê-las.

Como se, com as escolhas certas e alguma disciplina, fosse possível construir uma espécie de projecto para ser feliz.

Hoje já não tenho tanta certeza de que a felicidade aceite projectos tão bem organizados.


Durante muito tempo achei que precisava de me corrigir

Há uma parte daquele texto antigo que me toca particularmente.

A culpa.

A falta de paciência.

A forma como reagia com a minha família, com o meu marido, com os meus filhos, com o trabalho e comigo própria.

É fácil olhar para trás e pensar:

Eu devia ter sido mais paciente.

Devia ter feito diferente.

Devia ter percebido mais cedo.

Mas hoje há uma pergunta que acrescentaria àquelas que fazia em 2016:

Será que a culpa alguma vez me ajudou verdadeiramente a ser melhor?

Não estou a falar de ignorar os nossos erros.

Precisamos de reconhecer quando magoamos alguém.

Precisamos de aprender.

Pedir desculpa.

Mudar aquilo que conseguimos mudar.

Mas há uma diferença enorme entre assumir responsabilidade e viver permanentemente a castigar-nos pelo que não fizemos bem.

E talvez eu tenha demorado algum tempo a aprender essa diferença.

Hoje sei que crescer não é passar a vida a apontar aquilo que está errado em nós.

É conseguirmos olhar para nós com verdade suficiente para mudar e com amor suficiente para não nos destruirmos nesse processo.


A felicidade deixou de ser um destino perfeito

Se pudesse sentar-me hoje ao lado da mulher que escreveu aquele texto em 2016, talvez lhe dissesse:

Não precisas de descobrir a fórmula.

Não precisas de acertar sempre.

Não precisas de conseguir manter todas as resoluções.

Haverá dias em que serás paciente.

E outros em que estarás cansada.

Haverá decisões que conseguirás manter durante anos.

E outras que abandonarás passado pouco tempo.

Haverá momentos muito felizes.

E haverá outros que não conseguirás transformar em felicidade, por muito que tentes.

E está tudo dentro da mesma vida.

Porque talvez viver uma vida feliz não signifique sentirmo-nos felizes o tempo inteiro.

Talvez signifique construir uma vida onde conseguimos reconhecer aquilo que importa, cuidar das relações, atravessar os dias difíceis e continuar a encontrar razões para agradecer, amar, acreditar e recomeçar.


Há coisas que dez anos não mudaram

Apesar de tudo o que mudou, há alguma coisa muito bonita em perceber que aquela mulher e esta ainda procuram a mesma coisa.

Uma vida com sentido.

Talvez tenha sido sempre isso.

Mesmo quando lhe chamava felicidade.

Mesmo quando fazia listas.

Mesmo quando criava resoluções.

Mesmo quando pensava que precisava de melhorar tantas coisas em mim.

Eu estava à procura de uma maneira mais consciente de viver.

Hoje talvez lhe chame outra coisa.

Presença.

Equilíbrio.

Autocuidado.

Amor consciente.

Aceitação.

Gratidão.

Ou simplesmente:

aprender a amar e a viver.


Se escrevesse hoje um “Projecto de Vida para ser Feliz”…

Provavelmente já não lhe chamaria projecto.

Talvez escrevesse apenas algumas intenções.

Quero estar verdadeiramente presente quando estou com quem amo.

Quero cuidar dos outros sem desaparecer de mim.

Quero reconhecer os meus erros sem transformar cada erro numa sentença sobre quem sou.

Quero aprender a descansar sem culpa.

Quero proteger aquilo que me faz bem.

Quero continuar a crescer sem viver permanentemente insatisfeita comigo.

Quero ter paciência — e saber pedir desculpa quando não a tiver.

Quero aceitar que nem todos os dias serão felizes.

E quero aprender a descobrir vida, amor e sentido também nesses dias.

Porque hoje sei uma coisa que talvez não soubesse escrever daquela maneira há dez anos:

uma vida feliz não se constrói quando finalmente fazemos tudo bem.

Constrói-se enquanto vivemos.

Enquanto erramos.

Enquanto aprendemos.

Enquanto amamos.

Enquanto perdemos.

Enquanto mudamos.

Enquanto voltamos.


Setembro trouxe-me este texto na altura certa

Este reencontro também faz sentido precisamente agora.

Setembro, no Calendário SoLu@, é o mês de Autocuidado / Recomeço.

E esta semana estamos a falar de uma coisa muito concreta:

cuidar de mim no meio das rotinas.

Talvez esta seja outra diferença entre 2016 e 2026.

Já não quero criar um projecto enorme para mudar toda a vida.

Quero perceber onde posso viver um pouco melhor dentro da vida que já tenho.

Onde posso voltar a incluir-me.

Onde preciso de abrandar.

Onde posso ser mais paciente.

Onde preciso de deixar de exigir tanto de mim.

Onde há alguma coisa boa que merece continuar.

O autocuidado também pode começar aqui.

Não numa vida nova.

Mas numa forma diferente de habitar a nossa.


Do Arquivo para o presente

É por textos como este que quis preservar o Arquivo SoLu@.

Não quero guardar o passado porque acredito hoje exactamente em tudo aquilo que escrevi.

Quero guardá-lo porque aquelas palavras mostram o caminho.

Quem eu era.

Aquilo que procurava.

As perguntas que fazia.

E aquilo que a vida entretanto me ensinou.

O Arquivo SoLu@ é memória viva.

E o SoLu@ de hoje é a continuação dessa história.

Por isso, se quiseres conhecer o texto que deu origem a esta reflexão:

→ No Arquivo SoLu@: “Projecto de Vida para ser Feliz!” — Maio de 2016

E, no presente:

→ Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço

→ Semana 2 — Cuidar de mim no meio das rotinas

→ Como fazer um recomeço na tua vida? — Um texto do passado. Um olhar de hoje.


Dez anos depois…

Continuo a querer uma vida feliz.

Claro que sim.

Mas talvez já não procure tanto ser feliz como procurava.

Procuro viver com verdade.

Amar melhor.

Cuidar sem me esquecer de mim.

Estar presente.

Aprender.

Agradecer.

Aceitar que algumas coisas não dependem de mim.

E encontrar sentido mesmo quando a vida não acontece exactamente como eu gostaria.

Talvez a felicidade nunca tenha sido um projecto que se termina.

Talvez seja uma construção imperfeita feita de milhares de dias comuns.

E talvez seja precisamente isso que hoje quero continuar a aprender:

não como criar uma vida perfeita para ser feliz, mas como estar verdadeiramente presente na vida que tenho.

E tu?

Se encontrasses hoje uma lista de decisões que escreveste há dez anos, o que achas que teria mudado?

Ainda procuras a mesma felicidade — ou a vida também te ensinou a procurá-la de outra maneira?

Conta-me nos comentários.

Talvez, quando olhamos para trás, percebamos que crescemos muito mais do que imaginávamos.

Sexta-feira Nostálgica — Um texto do passado. Um olhar de hoje.

Com carinho,
SoLu@

Antes que o café arrefeça — não podemos mudar o passado, mas podemos mudar o que fazemos com ele

Livro Antes que o Café Arrefeça de Toshikazu Kawaguchi — leitura SoLu@

Uma leitura delicada sobre o tempo, o amor, as palavras que ficaram por dizer e aquilo que ainda podemos escolher viver.

Há títulos de livros que, por si só, já nos fazem parar.

Antes que o Café Arrefeça, de Toshikazu Kawaguchi, foi um deles.

Talvez porque um café seja uma coisa tão simples e quotidiana. Sentamo-nos, bebemos, conversamos. Às vezes demoramo-nos. Outras vezes deixamo-lo arrefecer enquanto a vida acontece à nossa volta.

E talvez seja precisamente essa simplicidade que torna tão bonita a ideia deste livro.

E se pudéssemos voltar atrás no tempo?

A história leva-nos até um pequeno café em Tóquio onde existe uma possibilidade muito especial: viajar no tempo.

Mas há regras.

Muitas regras.

E a mais importante talvez seja também a mais difícil de aceitar:

aquilo que fizermos no passado não vai mudar o presente.

Quando percebi isto, pensei:

Então para quê voltar?

Se não podemos impedir uma partida, evitar uma escolha, mudar uma despedida ou corrigir aquilo que aconteceu, qual é o sentido de regressar?

E é precisamente aí que, para mim, começa a verdadeira história deste livro.

Porque talvez nem sempre precisemos de mudar aquilo que aconteceu.

Talvez precisemos de compreender.

De ouvir.

De dizer.

De perdoar.

Ou simplesmente de ter mais alguns minutos com alguém.

As palavras que ficaram por dizer

Ao longo do livro encontramos diferentes histórias e diferentes formas de amor.

Amor entre duas pessoas.

Amor dentro de um casamento.

Amor entre irmãs.

Amor entre mãe e filha.

E, apesar de todas serem diferentes, existe algo que as une: aquilo que ficou por dizer, por compreender ou por viver.

Quantas vezes acontece também connosco?

Pensamos que haverá tempo.

Tempo para dizer que amamos.

Tempo para pedir desculpa.

Tempo para esclarecer uma mágoa.

Tempo para fazer aquela pergunta.

Tempo para estar verdadeiramente presente.

Tempo para voltar.

E depois descobrimos que nem sempre existe um “depois”.

Um livro simples, mas não superficial

A escrita de Antes que o Café Arrefeça é simples.

Não é um livro cheio de grandes descrições, reviravoltas extraordinárias ou personagens construídas ao longo de centenas de páginas.

É quase como assistir a pequenas cenas da vida de várias pessoas sentadas à volta de uma mesa.

Talvez se note até a origem teatral da história na forma como tudo acontece naquele espaço limitado.

No início, confesso que algumas regras do café e determinadas repetições podem parecer excessivas.

Mas, à medida que fui avançando, percebi que o verdadeiro centro da história não era a viagem no tempo.

Era aquilo que cada pessoa fazia com os minutos que lhe eram concedidos.

E isso tocou-me.

Afinal, para que serve voltar atrás?

Esta foi a pergunta que mais ficou comigo depois da leitura.

Se o passado não pode ser alterado, porque haveríamos de querer regressar?

Talvez porque conhecer o passado de outra maneira possa mudar a pessoa que regressa ao presente.

Os acontecimentos continuam a ser os mesmos.

A perda continua a existir.

A despedida aconteceu.

A escolha foi feita.

Mas nós podemos regressar diferentes.

E talvez seja essa uma das ideias mais bonitas do livro.

Não podemos reescrever todas as páginas da nossa vida.

Mas podemos olhar para algumas delas com outros olhos.

Podemos compreender coisas que antes não compreendíamos.

Podemos deixar de carregar certas culpas.

Podemos perceber que fomos amados mesmo quando não soubemos reconhecer esse amor.

E podemos escolher viver de maneira diferente a partir daí.

O tempo que ainda temos

Talvez por isso Antes que o Café Arrefeça não me tenha feito pensar tanto no passado como poderia imaginar.

Fez-me pensar no presente.

Nas pessoas que ainda estão aqui.

Nas conversas que ainda podemos ter.

Nos abraços que ainda podemos dar.

Nos telefonemas que podemos fazer.

Nas palavras que ainda vamos a tempo de dizer.

Porque, na vida real, não conheço nenhum café onde possamos sentar-nos numa cadeira e regressar ao passado.

Mas temos uma coisa que as personagens daquele café também acabam por descobrir:

temos este momento.

E enquanto estamos aqui, ainda podemos escolher aquilo que fazemos com ele.

A minha opinião

Gostei de Antes que o Café Arrefeça sobretudo pela mensagem que deixa.

Não o considero um livro perfeito. Por vezes é repetitivo, algumas situações são previsíveis e a escrita é muito simples.

Mas talvez seja também essa simplicidade que lhe dá encanto.

É um livro que não precisa de gritar para nos emocionar.

Vai deixando pequenas perguntas.

Sobre o amor.

Sobre a família.

Sobre as despedidas.

Sobre o arrependimento.

Sobre aquilo que não dissemos.

E sobre aquilo que ainda estamos a tempo de dizer.

Terminei-o com uma certeza muito simples:

não precisamos de voltar ao passado para amar melhor quem está connosco hoje.

Precisamos apenas de não deixar que o nosso café arrefeça enquanto esperamos pelo momento perfeito para viver.

Uma pergunta que ficou comigo

Se pudesses voltar ao passado apenas durante alguns minutos, sem poderes mudar absolutamente nada…

quem escolherias encontrar?

E, talvez ainda mais importante:

há alguma coisa que gostarias de dizer a essa pessoa que ainda podes dizer hoje?

Às vezes, os livros não nos dão respostas.

Dão-nos perguntas.

E algumas delas ficam connosco muito depois de fecharmos a última página.

SoLu@

Aprender a amar. Aprender a viver. Um dia de cada vez.

Sugestão de Leituras:

Quando eu complicava o que o coração já sabia

Quando eu complicava
o que o coração já sabia

Há seis anos, o meu corpo já me pedia aquilo que hoje procuro escolher conscientemente: menos peso, menos exigência, mais espaço para viver.

Há textos antigos que, quando os volto a ler, não me parecem antigos.

Mudaram os anos.
Mudaram algumas circunstâncias.
Mudei eu.

Mas há palavras que continuam a reconhecer-me.

Nesta Sexta-feira Nostálgica, voltei a um texto que escrevi a 13 de Março de 2020: “Help/Ajuda — Quando o seu corpo lhe diz: Estou a chegar ao limite?”

Começava assim:

“Já há algum tempo que tenho sinais de que estou a chegar ao limite das minhas forças.”

E talvez esta seja uma daquelas frases que só compreendemos verdadeiramente quando passam alguns anos.

A mulher que estava cansada de aguentar

Quando releio aquele texto, encontro uma mulher consciente de que estava cansada.

Falava de sobrecarga, de exigências, de dar demasiado, de não conseguir descansar verdadeiramente. Falava também de perfeccionismo, da dificuldade em delegar e daquela sensação de ter a cabeça sempre a funcionar depressa demais.

Hoje consigo ver algo que talvez, naquela altura, ainda não soubesse nomear tão claramente:

eu estava a tentar sustentar demasiadas coisas ao mesmo tempo.

E quando fazemos isso durante muito tempo, acabamos por acreditar que o problema está em não conseguirmos fazer mais.

Talvez precisemos de organizar melhor.

Ser mais eficientes.

Ter mais disciplina.

Encontrar outra solução.

Pensar mais um bocadinho.

Fazer mais um esforço.

Só mais este dia.

Só mais esta tarefa.

Só mais esta responsabilidade.

E vamos complicando.

Até que o corpo, o coração ou a própria vida nos obrigam a fazer a pergunta que evitámos durante demasiado tempo:

E se eu não precisar de fazer mais?
E se precisar simplesmente de carregar menos?

O coração talvez já soubesse

Há uma coisa que hoje reconheço naquela mulher de 2020:

ela já sabia.

Talvez ainda não soubesse como mudar.

Talvez ainda procurasse respostas demasiado complicadas.

Mas sabia que não podia continuar da mesma maneira.

O coração costuma perceber algumas coisas antes de conseguirmos transformá-las em decisões.

Sabe quando estamos cansadas.

Sabe quando uma relação, uma rotina ou uma responsabilidade deixou de nos fazer bem.

Sabe quando estamos a dizer demasiados “sim” enquanto alguma coisa dentro de nós pede um “não”.

Sabe quando precisamos de descansar.

Sabe quando é tempo de pedir ajuda.

Sabe quando aquilo que estamos a tentar controlar já não está nas nossas mãos.

O difícil nem sempre é saber.

Às vezes, o difícil é confiar no que já sabemos.

Durante muito tempo, simplificar pareceu-me fazer menos

Hoje penso de outra forma.

Simplificar não é desistir.

Não é abandonar responsabilidades.

Não é deixar de cuidar.

Não é tornar a vida vazia ou indiferente.

Simplificar é retirar o ruído para conseguir perceber aquilo que verdadeiramente importa.

É escolher melhor onde coloco o meu tempo.

É perceber que nem tudo precisa de uma resposta imediata.

É deixar algumas coisas por fazer.

É delegar.

É dizer “não consigo agora”.

É aceitar que outra pessoa pode fazer de maneira diferente da minha.

É parar antes de chegar ao limite.

É não transformar cada problema numa missão pessoal para resolver.

É perceber que descansar não precisa de ser merecido.

E, sobretudo, é deixar de confundir amor, responsabilidade e dedicação com a obrigação de carregar tudo.

Hoje já não quero chegar ao limite para me escutar

Talvez esta seja uma das maiores diferenças entre a mulher que escreveu aquele texto e a mulher que o lê hoje.

Não quero precisar de chegar ao limite para perceber que estou cansada.

Não quero esperar que o corpo grite aquilo que eu poderia ter escutado enquanto ainda era apenas um murmúrio.

Quero reparar antes.

Perguntar-me:

O que está a pesar demasiado?

O que estou a fazer apenas porque acho que tenho de fazer?

O que posso simplificar?

O que posso deixar de controlar?

Onde preciso de pedir ajuda?

O que é realmente essencial neste momento da minha vida?

Nem sempre conseguirei fazê-lo.

Continuarei a ter dias demasiado cheios.

Continuarei a preocupar-me.

Continuarei a querer resolver coisas para aqueles que amo.

Continuarei, provavelmente, a complicar algumas situações que poderiam ser mais simples.

Faz parte de mim.

Mas agora reconheço mais depressa o caminho de regresso.

Uma aprendizagem que os anos me deram

Ao reler o texto de 2020 há também algo que quero deixar registado.

Hoje não escreveria algumas das recomendações práticas sobre saúde exactamente da mesma forma.

Também isso é crescer.

O Arquivo SoLu@ não existe para fingir que eu sempre soube aquilo que sei hoje.

Existe precisamente para guardar o caminho.

As palavras certas.

As dúvidas.

Os erros.

As tentativas.

Aquilo em que acreditava.

Aquilo que fui aprendendo.

E aquilo que entretanto escolheria explicar de outra maneira.

Porque crescer não é apagar versões antigas de nós.

É conseguir olhá-las com ternura e dizer:

“Naquele momento, fizeste o melhor que sabias.”

Talvez simplificar comece aqui

Agosto tem-me feito pensar muito sobre simplicidade.

Não naquela simplicidade bonita das fotografias perfeitas, das casas impecáveis ou das vidas sem problemas.

Falo de outra.

Da simplicidade possível.

Aquela que começa dentro de nós.

Escolher uma coisa de cada vez.

Não resolver hoje aquilo que só poderá ser resolvido amanhã.

Deixar de antecipar todos os cenários.

Pedir ajuda.

Descansar.

Estar verdadeiramente com alguém sem pensar na tarefa seguinte.

Fazer espaço.

Dizer não.

Dizer sim apenas ao que merece verdadeiramente esse sim.

E talvez perceber que uma vida mais simples não é necessariamente uma vida com menos responsabilidades.

É uma vida onde aprendemos a distinguir melhor aquilo que merece o nosso peso daquilo que podemos finalmente pousar.

Para esta Sexta-feira Nostálgica

Hoje não quero olhar para aquela mulher de 2020 e dizer-lhe:

“Devias ter feito diferente.”

Quero dizer-lhe:

“Tu já estavas a perceber.”

Estavas cansada porque tinhas carregado demasiado.

Estavas a procurar respostas porque querias continuar.

E talvez ainda não soubesses que uma das respostas seria aprender, devagar, a não te abandonares enquanto cuidavas de tudo e de todos.

Se pudesse sentar-me hoje ao lado dela, talvez não lhe desse uma lista de coisas para fazer.

Talvez lhe dissesse apenas:

Não tens de resolver tudo.

Não tens de carregar tudo.

Nem tudo depende de ti.

Descansa antes de chegares ao limite.

E escuta-te.

Porque, muitas vezes,

aquilo que passamos anos a tentar compreender, o coração já sabia.


Pequena reflexão para levares contigo

Há alguma coisa na tua vida que estás a tornar mais complicada do que precisava de ser?

Uma decisão?

Uma obrigação?

Uma expectativa?

Uma preocupação?

Uma tentativa de controlar aquilo que não depende de ti?

Não precisas de mudar tudo hoje.

Escolhe apenas uma coisa.

E pergunta:

Como poderia tornar isto um pouco mais simples?

Às vezes, a mudança começa aí.

Não numa grande decisão.

Mas num peso que finalmente decidimos pousar.


Do Arquivo para o presente

Este texto nasceu da releitura de “Help/Ajuda — Quando o seu corpo lhe diz: Estou a chegar ao limite?”, publicado originalmente em Março de 2020 no antigo universo dos Blogs SAPO e hoje preservado no Arquivo SoLu@.

O Arquivo guarda quem fui.

O SoLu@ acompanha quem estou a tornar-me.

E entre uma mulher e a outra há anos de vida, amor, maternidade, erros, aprendizagens, perdas, recomeços e uma vontade que permanece:

aprender a amar e a viver com mais consciência — e, talvez, com um pouco menos de peso.

Com carinho,
SoLu@

Sugestão de Leitura:

  • Ler o texto original no Arquivo SoLu@
  • Calendário SoLu@ — Agosto: Altruísmo / Simplicidade
  • Agosto Simples — Semana 1: Descomplicar
  • Como descomplicar a vida sem transformar a simplicidade em mais uma obrigação
  • Começa Aqui

Entre a memória e os novos começos

Um ano entre a memória e os novos começos | Sexta-feira Nostálgica

Há algum tempo comecei uma viagem que nunca imaginei fazer.

Não porque quisesse deixar o passado para trás, mas porque percebi que algumas casas mudam de lugar sem deixarem de ser casa.

Ao longo de quase vinte anos fui escrevendo nos Blogs SAPO. Ali ficaram milhares de palavras, fotografias, alegrias, lágrimas, dúvidas, conquistas e muitos pedaços da minha vida.

Quando surgiu a necessidade de criar o arquivo.solua.pt, senti que não estava apenas a copiar textos. Estava a preservar memórias.

Ao mesmo tempo nasceu um novo espaço: o solua.pt.

Não para apagar o passado, mas para continuar a escrever o presente.

Hoje, ao olhar para trás, percebo que este tempo foi muito mais do que um trabalho técnico.

Foi tempo de reconstrução.

Reconstrução de um projeto.

Reconstrução da minha escrita.

Reconstrução da forma como quero estar deste lado, junto de quem me lê.

Durante este tempo escrevi sobre a alegria dos fins de ciclo, sobre o crescimento dos meus filhos, sobre o amor, sobre a maternidade, sobre a menopausa, sobre o descanso, sobre a resiliência e também sobre momentos difíceis que nunca imaginei viver ou partilhar.

Houve dias em que escrevi com um sorriso.

Outros em que escrevi com o coração apertado.

Mas nunca deixei de acreditar que as palavras podem ser um lugar de encontro.

Hoje, o Arquivo SoLu@ guarda a memória de quem fui.

O SoLu@ acompanha quem continuo a ser.

E gosto de pensar que ambos caminham de mãos dadas.

Porque a pessoa que escreveu aqueles textos antigos continua aqui.

Apenas aprendeu que crescer não significa esquecer.

Significa integrar.

Obrigada a todos os que continuam por aqui.

A quem começou a ler há muitos anos.

A quem chegou há poucos dias.

E a quem encontra, numa frase ou numa história, um pequeno motivo para continuar.

O primeiro ano passou.

Mas sinto, com toda a sinceridade, que esta nova caminhada está apenas a começar.

🤍

Pergunta para ti

Se olhares para quem eras há um ano, o que mudou dentro de ti?

Às vezes crescemos tanto por dentro que só percebemos quando paramos para olhar para trás.

Sugestões de Leitura:

A minha mãe faz anos: quando a memória também é uma forma de amor

Há pessoas que são raiz.

Hoje volto ao arquivo para reencontrar um texto muito especial: “80 anos vividos com a minha mãe”.

Há textos que não envelhecem. Apenas mudam de lugar dentro de nós.

Quando os escrevemos, pertencem a um momento. Anos depois, quando os revisitamos, já trazem outra luz: a luz do tempo que passou, da vida que continuou, das pessoas que permanecem connosco de outra forma.

No dia 10 de Julho, a minha mãe volta a ser presença central neste espaço. Não apenas porque faz anos, mas porque representa uma parte essencial da minha história: a raiz, a memória, a família, a força discreta, o amor imperfeito e verdadeiro que nos acompanha.

Neste mês de Julho, em que o Calendário SoLu@ nos convida à resiliência e ao descanso, revisitar este texto é também uma forma de reconhecer que nem sempre precisamos de ser fortes sozinhas.

Às vezes, a resiliência começa exactamente aqui: em falar com alguém em quem confiamos, em partilhar sentimentos, em lembrar que há colos, vozes e presenças que nos ajudam a respirar melhor.

O arquivo guarda essa memória.

E hoje, eu trago-a de volta ao presente.

Sexta-Feira Nostálgica — Dia 10 de Julho: A mulher que sempre soube em quem confiar

Há dois anos, o dia 10 de Julho já era, para mim, sinónimo de uma só coisa: o aniversário da minha Mãe. Em 2024, escrevi sobre confiança — sobre como a família também pode ser o nosso porto de abrigo, sobre como ter alguém a quem contar os nossos sentimentos é um dos maiores presentes da vida. E, sem surpresa nenhuma, foi exactamente nesse dia que percebi, mais uma vez, que essa pessoa, para mim, é a minha Mãe.

Um ano depois, em 2025, celebrei os 80 anos dela com um texto que ainda hoje me emociona reler: sobre uma vida de amor, sabedoria e presença. Sobre uma mulher que canta desgarradas com o irmão, que tem um pé de dança leve, que sabe rir de si mesma e que continua, com toda a simplicidade, a ensinar-nos a viver.

Hoje, em 2026, ela faz 81 anos. E esta semana, aqui no Calendário SoLu@, temos falado sobre limites — e sobre como eles também são amor-próprio. Talvez seja por isso que volto sempre a este dia: porque foi ela quem primeiro me ensinou que confiar em alguém, e deixar-nos cuidar, não é fraqueza. É, também, uma forma de nos respeitarmos.

Parabéns, Mãe. Obrigada por seres o meu porto de abrigo, ontem e hoje.

E tu, que lês isto: hoje, permite-te falar com alguém em quem confies. Partilhar não é pedir demais — é, muitas vezes, o maior gesto de amor-próprio que podemos ter.

Com carinho, SoLu@

Escrever foi a forma que encontrei de voltar a mim

Imagem delicada com folha manuscrita antiga e a frase Escrever foi a forma que encontrei de voltar a mim, simbolizando a escrita como caminho de regresso interior.

Desde que me lembro, comecei a escrever num diário.

O meu primeiro diário foi um presente de aniversário. Tinha uma pequena chave, e isso fazia-me sentir que havia ali um lugar só meu. Um lugar onde podia guardar aquilo que talvez ainda não soubesse dizer em voz alta.

Escrevia sobre os acontecimentos da minha vida, sobre as minhas emoções, sobre aquilo que sentia e nem sempre sabia compreender. Talvez escrevesse mais sobre a tristeza do que sobre a alegria, porque a tristeza, quando não encontra saída, precisa de algum lugar onde pousar.

A escrita foi, desde cedo, uma forma de tentar perceber o que se passava dentro de mim.

Às vezes, ao reler o que tinha escrito, conseguia olhar para trás com alguma distância. Percebia que havia momentos em que era preciso respirar fundo, aceitar o que a vida nos dava e continuar, mesmo sem ter todas as respostas.

A escrita como abrigo

Para mim, escrever foi muitas vezes o meu psicólogo, o meu amigo, o meu confidente.

Era na escrita que eu organizava emoções.
Guardava memórias.
Tentava compreender o amor, a desilusão, a maternidade, a esperança, a fé, a mulher que eu era e a mulher que ainda estava a nascer.

Escrevi porque precisava de me ouvir.
Mesmo quando ninguém lia.
Mesmo quando eu própria ainda não entendia tudo.

Há textos que nascem assim: não para serem perfeitos, mas para nos salvarem um bocadinho.

Quando me fui afastando de mim

Acho que uma pessoa nem sempre percebe o momento exacto em que se afasta de si.

Não acontece de repente.

Vai acontecendo devagar.

Num “sim” dito com o coração cansado.
Numa vontade adiada.
Num sonho colocado sempre para depois.
Numa emoção engolida.
Num silêncio repetido.
Numa tentativa constante de ser suficiente para todos.

E quando damos conta, já quase não perguntamos:

O que é que eu quero?
O que é que eu sinto?
O que é que ainda vive em mim?

Durante muito tempo, talvez eu também tenha escrito para encontrar essas respostas.

Os antigos textos, os blogs e a memória

Quando olho para trás, para os textos antigos, para os blogs, para as palavras que fui deixando ao longo dos anos, vejo muito mais do que publicações.

Vejo fases da minha vida.
Vejo perguntas.
Vejo amores.
Vejo dores.
Vejo esperança.
Vejo uma mulher a tentar compreender o que significa amar e viver.

É por isso que os diários e o arquivo não são apenas passado.

São memória viva.
São raiz.
São testemunho.
São o lugar onde a escrita antiga continua a ter voz, mesmo quando a vida já avançou.

Nem todos os textos antigos têm a maturidade que tenho hoje.
Nem todos foram escritos com a clareza que procuro agora.
Mas todos pertencem ao caminho.

E talvez seja isso que me comove: perceber que, mesmo quando eu não sabia, já estava a regressar a mim através das palavras.

Escrever para voltar a sentir

Há dias em que escrever ainda me devolve partes de mim que estavam dispersas.

Escrevo e percebo o que me dói.
Escrevo e descubro o que me chama.
Escrevo e encontro uma verdade que ainda não tinha conseguido dizer em voz alta.

A escrita tem essa delicadeza: não exige que saibamos tudo antes de começar.

Às vezes, começamos apenas com uma frase.
Com uma memória.
Com uma imagem.
Com uma pergunta.
Com uma saudade.
Com um desconforto.

E, de repente, a alma começa a falar.

A escrita também é propósito

Hoje percebo que escrever faz parte do meu propósito.

Não porque tenha todas as respostas.
Mas porque continuo a acreditar que uma palavra verdadeira pode fazer companhia a alguém.

Eu sei disso porque muitas palavras também me fizeram companhia.

Há textos que acolhem.
Há frases que iluminam.
Há palavras que nos encontram no momento certo.
Há partilhas que fazem uma mulher sentir que não está sozinha.

Talvez seja por isso que continuo.

Pelo amor.
Pela memória.
Pela maternidade.
Pela vida real.
Pela esperança.
Pelas mulheres que também se perderam em algum momento e procuram uma forma de voltar.

Uma pergunta para ti

Talvez a escrita não seja o teu caminho.

Talvez seja a pintura.
A caminhada.
A oração.
O silêncio.
A dança.
A música.
O jardim.
A conversa honesta.
O descanso.

Mas acredito que todas precisamos de um lugar onde possamos voltar a nós.

Um lugar onde não precisamos de representar.
Onde não precisamos de agradar.
Onde não precisamos de ser fortes o tempo todo.

Um lugar onde a verdade possa pousar.

Por isso, deixo-te esta pergunta:

Qual é a forma que a tua alma encontra para voltar a ti?

Para mim, uma das formas é escrever

Para mim, muitas vezes, foi escrever.

Foi escrever quando não sabia explicar.
Foi escrever quando o amor doía.
Foi escrever quando a maternidade me transformava.
Foi escrever quando a vida me pedia mais coragem.
Foi escrever quando precisava de acreditar outra vez.

E talvez continue a ser.

Porque há palavras que não mudam o passado, mas ajudam-nos a compreendê-lo.
Há palavras que não resolvem tudo, mas devolvem-nos presença.
Há palavras que não fazem desaparecer a dor, mas impedem que ela fique sozinha dentro de nós.

Escrever foi a forma que encontrei de voltar a mim.

E talvez, ao partilhar esse caminho, alguém encontre também uma pequena porta de regresso.

Criar também é voltar a mim.
Há emoções que não chegam primeiro em palavras.

Às vezes, chegam em cor, em traço, em silêncio.

🌸 "Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores." 🌸
🌸 “Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores.” 🌸

Desejo

Se este texto te tocou, visita o Arquivo SoLu@, onde guardo parte da memória viva dos antigos blogs, e acompanha também a página O Meu Livro — Aprender a amar e a viver…, onde a escrita continua a transformar memória em caminho.

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