Antes que o café arrefeça — não podemos mudar o passado, mas podemos mudar o que fazemos com ele

Uma leitura delicada sobre o tempo, o amor, as palavras que ficaram por dizer e aquilo que ainda podemos escolher viver.

Há títulos de livros que, por si só, já nos fazem parar.

Antes que o Café Arrefeça, de Toshikazu Kawaguchi, foi um deles.

Talvez porque um café seja uma coisa tão simples e quotidiana. Sentamo-nos, bebemos, conversamos. Às vezes demoramo-nos. Outras vezes deixamo-lo arrefecer enquanto a vida acontece à nossa volta.

E talvez seja precisamente essa simplicidade que torna tão bonita a ideia deste livro.

E se pudéssemos voltar atrás no tempo?

A história leva-nos até um pequeno café em Tóquio onde existe uma possibilidade muito especial: viajar no tempo.

Mas há regras.

Muitas regras.

E a mais importante talvez seja também a mais difícil de aceitar:

aquilo que fizermos no passado não vai mudar o presente.

Quando percebi isto, pensei:

Então para quê voltar?

Se não podemos impedir uma partida, evitar uma escolha, mudar uma despedida ou corrigir aquilo que aconteceu, qual é o sentido de regressar?

E é precisamente aí que, para mim, começa a verdadeira história deste livro.

Porque talvez nem sempre precisemos de mudar aquilo que aconteceu.

Talvez precisemos de compreender.

De ouvir.

De dizer.

De perdoar.

Ou simplesmente de ter mais alguns minutos com alguém.

As palavras que ficaram por dizer

Ao longo do livro encontramos diferentes histórias e diferentes formas de amor.

Amor entre duas pessoas.

Amor dentro de um casamento.

Amor entre irmãs.

Amor entre mãe e filha.

E, apesar de todas serem diferentes, existe algo que as une: aquilo que ficou por dizer, por compreender ou por viver.

Quantas vezes acontece também connosco?

Pensamos que haverá tempo.

Tempo para dizer que amamos.

Tempo para pedir desculpa.

Tempo para esclarecer uma mágoa.

Tempo para fazer aquela pergunta.

Tempo para estar verdadeiramente presente.

Tempo para voltar.

E depois descobrimos que nem sempre existe um “depois”.

Um livro simples, mas não superficial

A escrita de Antes que o Café Arrefeça é simples.

Não é um livro cheio de grandes descrições, reviravoltas extraordinárias ou personagens construídas ao longo de centenas de páginas.

É quase como assistir a pequenas cenas da vida de várias pessoas sentadas à volta de uma mesa.

Talvez se note até a origem teatral da história na forma como tudo acontece naquele espaço limitado.

No início, confesso que algumas regras do café e determinadas repetições podem parecer excessivas.

Mas, à medida que fui avançando, percebi que o verdadeiro centro da história não era a viagem no tempo.

Era aquilo que cada pessoa fazia com os minutos que lhe eram concedidos.

E isso tocou-me.

Afinal, para que serve voltar atrás?

Esta foi a pergunta que mais ficou comigo depois da leitura.

Se o passado não pode ser alterado, porque haveríamos de querer regressar?

Talvez porque conhecer o passado de outra maneira possa mudar a pessoa que regressa ao presente.

Os acontecimentos continuam a ser os mesmos.

A perda continua a existir.

A despedida aconteceu.

A escolha foi feita.

Mas nós podemos regressar diferentes.

E talvez seja essa uma das ideias mais bonitas do livro.

Não podemos reescrever todas as páginas da nossa vida.

Mas podemos olhar para algumas delas com outros olhos.

Podemos compreender coisas que antes não compreendíamos.

Podemos deixar de carregar certas culpas.

Podemos perceber que fomos amados mesmo quando não soubemos reconhecer esse amor.

E podemos escolher viver de maneira diferente a partir daí.

O tempo que ainda temos

Talvez por isso Antes que o Café Arrefeça não me tenha feito pensar tanto no passado como poderia imaginar.

Fez-me pensar no presente.

Nas pessoas que ainda estão aqui.

Nas conversas que ainda podemos ter.

Nos abraços que ainda podemos dar.

Nos telefonemas que podemos fazer.

Nas palavras que ainda vamos a tempo de dizer.

Porque, na vida real, não conheço nenhum café onde possamos sentar-nos numa cadeira e regressar ao passado.

Mas temos uma coisa que as personagens daquele café também acabam por descobrir:

temos este momento.

E enquanto estamos aqui, ainda podemos escolher aquilo que fazemos com ele.

A minha opinião

Gostei de Antes que o Café Arrefeça sobretudo pela mensagem que deixa.

Não o considero um livro perfeito. Por vezes é repetitivo, algumas situações são previsíveis e a escrita é muito simples.

Mas talvez seja também essa simplicidade que lhe dá encanto.

É um livro que não precisa de gritar para nos emocionar.

Vai deixando pequenas perguntas.

Sobre o amor.

Sobre a família.

Sobre as despedidas.

Sobre o arrependimento.

Sobre aquilo que não dissemos.

E sobre aquilo que ainda estamos a tempo de dizer.

Terminei-o com uma certeza muito simples:

não precisamos de voltar ao passado para amar melhor quem está connosco hoje.

Precisamos apenas de não deixar que o nosso café arrefeça enquanto esperamos pelo momento perfeito para viver.

Uma pergunta que ficou comigo

Se pudesses voltar ao passado apenas durante alguns minutos, sem poderes mudar absolutamente nada…

quem escolherias encontrar?

E, talvez ainda mais importante:

há alguma coisa que gostarias de dizer a essa pessoa que ainda podes dizer hoje?

Às vezes, os livros não nos dão respostas.

Dão-nos perguntas.

E algumas delas ficam connosco muito depois de fecharmos a última página.

SoLu@

Aprender a amar. Aprender a viver. Um dia de cada vez.

Sugestão de Leituras:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *