Calendário SoLu@ — Outubro 2026: Semana 0 — Abrir espaço para a esperança

Semana 0 do Calendário SoLu@ Outubro 2026 — Abrir espaço para a esperança

Não precisamos de entrar num novo mês com todas as respostas. Às vezes, basta deixarmos uma pequena porta aberta à possibilidade.

Outubro começa devagar.

Apenas três dias antes de chegarmos à primeira semana completa do mês.

E talvez seja exactamente assim que deva começar.

Depois de um Setembro dedicado ao autocuidado, aos recomeços, ao deixar crescer e à procura de um novo equilíbrio, não quero entrar em Outubro a exigir de mim uma nova transformação.

Não quero trocar uma lista de coisas que tinha de conseguir em Setembro por outra lista de coisas em que agora tenho de acreditar.

A esperança não pode ser mais uma obrigação.

Por isso, estes primeiros dias de Outubro são apenas um convite.

Um pequeno espaço entre aquilo que terminou e aquilo que ainda está a começar.

Um lugar onde podemos parar e perguntar:

E se ainda houver possibilidades que eu não consigo ver?


O tema desta pequena semana

Abrir espaço para a esperança

Há uma diferença entre acreditar que tudo vai correr bem e acreditar que nem tudo está decidido.

A primeira ideia pode ser difícil de sustentar.

Porque sabemos que a vida não funciona assim.

Há coisas que correm mal.

Há planos que mudam.

Há pessoas que partem.

Há respostas que não chegam.

Há caminhos que não escolhemos.

Mas acreditar que nem tudo está decidido é diferente.

Significa reconhecer que aquilo que hoje vejo não é necessariamente tudo aquilo que poderá existir amanhã.

Pode haver outra solução.

Outra conversa.

Outra tentativa.

Uma mudança de perspectiva.

Um novo caminho.

Ou simplesmente uma maneira diferente de viver aquilo que não consigo mudar.

Talvez seja este o optimismo que quero levar comigo durante Outubro.

Não o optimismo que fecha os olhos à realidade.

Mas aquele que consegue olhar para a realidade e ainda perguntar:

“E agora, o que é possível?”


Intenção da Semana 0

Nestes três dias, a intenção é simples:

não procurar respostas para tudo, mas deixar espaço para uma possibilidade nova.

Pode ser numa relação.

Num projecto.

Na maternidade.

No trabalho.

Na forma como cuidamos de nós.

Num sonho antigo.

Ou apenas na maneira como estamos a olhar para uma situação que nos preocupa.

Não precisamos de saber já o que fazer.

Primeiro, podemos apenas admitir:

talvez ainda exista caminho.


Frase SoLu@

“A esperança começa, muitas vezes, quando deixamos uma pequena porta aberta à possibilidade.” — SoLu@


Prática da semana

Uma pequena porta aberta

Pensa numa situação da tua vida que, neste momento, te preocupa ou parece bloqueada.

Não procures imediatamente uma solução.

Divide apenas uma folha em três espaços.

O que me preocupa

Escreve aquilo que é real.

Sem diminuir o problema e sem o dramatizar.

O que ainda não sei

Reconhece tudo aquilo que ainda não está decidido.

O que ainda pode ser possível

Não é preciso acreditar completamente.

Escreve apenas uma possibilidade.

Mesmo pequena.

Porque esperança não começa necessariamente numa certeza.

Às vezes começa num:

“Talvez.”


Mini desafio

Durante estes três primeiros dias de Outubro, sempre que deres por ti a pensar:

“Isto nunca vai mudar.”

experimenta acrescentar:

“…mas eu ainda não sei como será amanhã.”

Não para negar aquilo que estás a sentir.

Apenas para não transformar o presente numa sentença sobre o futuro.


Quinta-feira, 1 de Outubro

Pensamentos positivos

Frase

“Nem tudo precisa de estar resolvido para que algo novo possa começar.”

No antigo Outubro Otimista, o primeiro convite era escrever as metas mais importantes para o mês.

Continuo a gostar da ideia de começar um mês com intenção.

Mas hoje talvez a faça de outra maneira.

Não preciso de criar uma longa lista.

Nem de decidir tudo aquilo que tenho de mudar durante Outubro.

Posso simplesmente perguntar:

O que é verdadeiramente importante para mim neste momento?

Talvez sejam apenas uma ou duas coisas.

E talvez isso seja suficiente.

Prática

Escolhe uma área da tua vida onde gostarias de sentir mais esperança durante este mês.

Não definas ainda dez passos.

Escreve apenas uma intenção.

Pergunta

Em que parte da minha vida gostaria de voltar a acreditar?

Gesto

Deixa hoje uma pequena porta aberta ao possível.


Sexta-feira, 2 de Outubro

Fé / Esperança

Frase

“A história ainda não terminou.”

Há anos, num antigo calendário, escrevi:

“Procure motivos para ter esperança mesmo em tempos difíceis.”

Hoje continuo a reconhecer a importância desta ideia.

Mas acrescentaria alguma coisa.

Nem sempre conseguimos encontrar imediatamente esses motivos.

Há momentos em que a vida pesa demasiado.

E nesses dias não precisamos de nos culpar por não conseguirmos sentir esperança.

Talvez possamos apenas procurar uma coisa pequena.

Uma pessoa.

Uma memória.

Uma possibilidade.

Uma experiência difícil que já atravessámos.

Ou simplesmente a certeza de que este dia não é o resto da nossa vida.

É também por isso que esta sexta-feira regressa ao Arquivo SoLu@.

Não apenas para recuperar um texto antigo.

Mas para perguntar à mulher que o escreveu:

O que significa para mim ter esperança hoje?

Prática

Recorda uma situação que, no passado, te preocupou muito e que acabou por encontrar algum tipo de caminho.

Talvez não tenha terminado exactamente como desejavas.

Mas atravessaste-a.

Pergunta

O que já vivi que hoje me lembra que sou capaz de continuar?

Gesto

Escreve uma pequena frase de esperança e guarda-a onde a possas voltar a encontrar.

→ [Ler a Sexta-feira Nostálgica — Eu já procurava razões para ter esperança]

→ [Ler o texto original no Arquivo SoLu@]


Sábado, 3 de Outubro

Amor

Frase

“Às vezes, amar alguém também é acreditar por ele enquanto ele ainda não consegue.”

A esperança não existe apenas na relação que temos connosco.

Também vive nas relações.

Há momentos em que alguém de quem gostamos está cansado, preocupado ou perdido.

Nem sempre podemos resolver.

Nem sempre devemos tentar resolver.

Mas podemos estar.

Ouvir.

Acreditar.

Lembrar alguém das suas forças sem minimizar os seus medos.

E também podemos permitir que outras pessoas façam isso por nós.

Talvez o amor seja, algumas vezes, esse lugar onde conseguimos descansar enquanto recuperamos a capacidade de acreditar outra vez.

Prática

Pensa numa pessoa que possa estar a atravessar uma fase mais difícil.

Não precisas de lhe dar conselhos.

Aproxima-te apenas.

Pergunta

Quem poderá precisar hoje de sentir que não está sozinho?

Gesto

Envia uma mensagem simples:

“Lembrei-me de ti. Estou aqui.”


Pergunta da Semana 0

Em que parte da minha vida gostaria de voltar a acreditar?

Não precisas de responder depressa.

Talvez a resposta mude durante Outubro.

Talvez descubras que não queres recuperar uma esperança antiga.

Talvez precises de construir uma nova.

Também isso é válido.


Reflexão final

Três dias não mudam uma vida.

E ainda bem.

Porque não precisamos de transformar todos os começos numa revolução.

Às vezes basta uma pequena mudança na forma como olhamos.

Setembro terminou lembrando-nos que podemos continuar sem perfeição.

Outubro começa lembrando-nos que podemos continuar sem certezas.

Há uma diferença importante.

Não preciso de saber que tudo vai correr bem.

Não preciso de convencer-me de que não tenho medo.

Não preciso de encontrar imediatamente o lado positivo de todas as situações.

Preciso apenas de não fechar todas as portas.

Porque a vida já me ensinou que muita coisa muda enquanto estamos ocupados a acreditar que nada vai mudar.

Por isso, entro em Outubro assim:

sem garantias.

sem promessas impossíveis.

sem optimismo forçado.

Mas com uma pequena porta aberta.

E, por agora, talvez isso seja esperança suficiente.


Continua comigo em Outubro

A próxima semana será:

Semana 1 — Escolher acreditar outra vez

E vamos partir desta pergunta:

O que ainda merece a minha esperança?

→ [Calendário SoLu@ — Outubro 2026: Optimismo e Esperança]

→ [Semana 1 — Escolher acreditar outra vez]

→ [Setembro — Autocuidado e Recomeço]

→ [Visitar o Arquivo SoLu@]


Recebe a Newsletter SoLu@

Se gostas de ler estas reflexões com mais calma, podes acompanhar também a Newsletter SoLu@.

Um espaço mais próximo para partilhar novos textos, memórias, perguntas e pequenas inspirações para uma vida vivida com mais consciência.

[Quero receber a Newsletter SoLu@]


Calendário de Outubro

Podes acompanhar Outubro ao teu ritmo.

🖨️ PDF Descarregar Calendário SoLu@ Outubro

📅 ICS  Adicionar Calendário SoLu@ Outubro

Porque, como sempre:

o calendário é um guia, não uma prisão.

Setembro não mudou tudo. Mas ensinou-me a recomeçar de outra maneira.

Setembro não mudou tudo. Mas ensinou-me a recomeçar de outra maneira.

Há meses que não chegam para mudar a nossa vida. Mas podem ser suficientes para mudar a forma como olhamos para ela.

Setembro começou, para mim, com uma palavra muito presente: recomeço.

Depois do Verão, das mudanças, dos novos horários, das rotinas que regressam e de outras que já não regressam da mesma maneira, senti que precisava de voltar a organizar a vida.

Mas, talvez mais do que organizar a vida, precisava de me reorganizar dentro dela.

E Setembro foi-me ensinando isso devagar.

Não mudei tudo.

Não consegui fazer tudo aquilo que imaginei.

Não encontrei uma fórmula perfeita para equilibrar família, filhos, trabalho, escrita, casa, saúde, descanso e tempo para mim.

E ainda bem.

Porque uma das coisas mais importantes que este mês me ensinou foi precisamente esta:

recomeçar não significa resolver tudo.

Setembro começou com a vontade de voltar

No início do mês, falei muito sobre voltar.

Voltar às rotinas.

Voltar aos hábitos.

Voltar a cuidar de mim.

Voltar a escrever.

Voltar a algumas coisas que tinham ficado esquecidas.

Mas depressa percebi que recomeçar não podia significar simplesmente voltar ao ponto onde estava antes.

Porque eu também já não era exactamente a mesma.

Os meus filhos estão a crescer.

As rotinas familiares mudaram.

Há novos horários, novos lugares, novas responsabilidades e também novos silêncios.

E, quando a vida daqueles que amamos muda, alguma coisa dentro de nós também precisa de encontrar um novo lugar.

Talvez por isso tenha percebido que recomeçar não é voltar ao princípio.

É escolher aquilo que merece continuar connosco.

Cuidar de mim no meio da vida real

Setembro também me fez pensar muito sobre autocuidado.

Às vezes, transformamos o cuidado numa nova lista de obrigações:

ir ao ginásio;

comer melhor;

dormir mais;

beber água;

meditar;

ler;

organizar;

escrever;

descansar;

ser produtiva;

estar presente.

E, de repente, aquilo que devia cuidar de nós começa a cansar-nos.

Foi aí que uma pergunta se tornou importante para mim:

Se o autocuidado me deixa exausta, será que preciso de voltar a perguntar o que significa realmente cuidar de mim?

Talvez cuidar de mim seja, algumas vezes, fazer exercício.

Outras vezes será dormir mais cedo.

Noutras será dizer não.

Ou ficar em silêncio.

Ou escrever.

Ou deixar alguma coisa para amanhã sem transformar isso numa culpa.

Estou a aprender que cuidar de mim não é cumprir uma lista perfeita.

É conseguir ouvir-me.

Também aprendi a deixar crescer

Setembro trouxe-me ainda outro tipo de recomeço.

Aquele que acontece quando os filhos começam a construir uma vida cada vez mais deles.

Novos caminhos.

Mais autonomia.

Universidade.

Novos horários.

Novas pessoas.

Novas experiências.

E nós, mães, vamos descobrindo que crescer com os nossos filhos também significa aprender a mudar a forma como estamos presentes.

Continuar perto sem estar sempre à frente.

Apoiar sem escolher por eles.

Aconselhar sem controlar.

Dar raízes, mas também espaço para que experimentem as próprias asas.

Não é sempre fácil.

Mas talvez uma parte da maternidade seja precisamente esta aprendizagem contínua:

amar também é saber deixar crescer.

Encontrar um novo equilíbrio

Durante este mês procurei equilíbrio.

Mas também comecei a perceber que talvez o equilíbrio não seja uma coisa que encontramos uma vez e guardamos para sempre.

A vida mexe-se.

As pessoas mudam.

As necessidades mudam.

Nós mudamos.

E o equilíbrio precisa de ser ajustado muitas vezes.

Há dias em que conseguimos.

Há dias em que tudo fica desalinhado.

O importante talvez seja reparar nisso e fazer um pequeno ajuste.

Não dez.

Um.

Aquilo que é realmente possível naquele momento.

Continuar sem perfeição

Chego ao final de Setembro sem todas as respostas.

Há coisas que comecei e ainda não consolidei.

Há hábitos que precisam de tempo.

Há decisões que ainda estão a ganhar forma.

Há dias em que continuo a esquecer-me de mim.

Mas também há uma diferença.

Hoje já não sinto que preciso de esperar pelo momento perfeito para recomeçar.

Posso recomeçar numa terça-feira.

Posso voltar depois de falhar.

Posso diminuir o ritmo.

Posso mudar de ideias.

Posso escolher fazer menos.

Posso continuar, mesmo sem conseguir fazer tudo.

Porque:

“Recomeçar não é conseguir tudo. É escolher não desistir daquilo que nos faz bem.”

O que Setembro me deixa

Se tivesse de guardar algumas aprendizagens deste mês, seriam estas:

não preciso de voltar a ser quem era;

cuidar de mim não pode tornar-se mais uma obrigação;

acompanhar quem amo também significa saber dar espaço;

o equilíbrio precisa de ser ajustado;

e continuar imperfeitamente continua a ser continuar.

Talvez Setembro não tenha mudado tudo.

Mas ensinou-me a recomeçar de outra maneira.

Com menos pressa.

Com menos exigência.

Com mais consciência.

E, sobretudo, com a certeza de que não precisamos de ter a vida toda organizada para continuarmos a caminhar.

E agora vem Outubro

Outubro chega ao Calendário SoLu@ com duas palavras que fazem muito sentido depois deste mês:

Optimismo / Esperança.

Não aquele optimismo que finge que está sempre tudo bem.

Nem uma esperança passiva que fica à espera que alguma coisa aconteça.

Quero falar daquela esperança mais silenciosa.

A que nos ajuda a continuar quando ainda não sabemos exactamente como tudo ficará.

A que nos faz acreditar que podemos fazer diferente.

A que nos recorda que, mesmo depois dos dias difíceis, continua a existir caminho.

Talvez seja isso que quero levar comigo de Setembro para Outubro:

não a certeza de que tudo vai correr como desejo, mas a esperança de que saberei continuar a caminhar.

Uma pergunta para fechar Setembro

Antes de entrares num novo mês, gostava de te deixar uma pergunta:

O que aprendeste sobre ti neste Setembro que queres levar contigo para Outubro?

Não precisas de fazer um grande balanço.

Podes escolher apenas uma coisa.

Uma aprendizagem.

Uma intenção.

Um gesto que te fez bem.

E levá-lo contigo.

Porque o Calendário SoLu@ nunca pretende ser mais uma obrigação.

É apenas um convite.

Um dia de cada vez.

Com amor,

SoLu@


Queres continuar este caminho comigo?

Na Newsletter SoLu@, partilho reflexões, textos, memórias e pequenos convites para viver com mais consciência, amor e sentido.

Subscreve e recebe também os próximos conteúdos do Calendário SoLu@ — Outubro: Optimismo / Esperança.

Calendário SoLu@ — Setembro: Semana 5 — Continuar sem perfeição

Calendário SoLu@ Setembro — Continuar sem perfeição

Nem tudo precisa de estar resolvido para podermos continuar

Chegamos aos últimos dias de Setembro.

Talvez tenhas começado o mês com intenções bonitas. Talvez tenhas querido reorganizar rotinas, cuidar mais de ti, descansar melhor, mexer o corpo, escrever, ler, dormir mais cedo ou simplesmente voltar a sentir que também tens lugar na tua própria vida.

E talvez algumas dessas coisas tenham acontecido.

Outras, não.

Algumas começaram e ficaram pelo caminho. Outras ainda nem começaram.

E está tudo bem.

Porque o objectivo deste mês nunca foi chegar ao dia 30 com uma versão nova, organizada e impecável de nós próprias.

Setembro falou-nos de Autocuidado / Recomeço.

E talvez uma das maiores aprendizagens de um recomeço seja precisamente esta:

não precisamos de fazer tudo para estarmos a avançar.

Às vezes, continuar é simplesmente escolher uma pequena coisa que nos fez bem — e levá-la connosco.


O tema desta semana: Continuar sem perfeição

Há uma ideia muito presente quando decidimos mudar alguma coisa na nossa vida:

ou conseguimos fazer bem, ou parece que falhámos.

Começamos a caminhar e perdemos alguns dias.

Começamos a cuidar melhor da alimentação e depois há uma semana mais difícil.

Voltamos ao exercício e falhamos um treino.

Decidimos descansar mais, mas surgem imprevistos.

Queremos escrever, ler, meditar, organizar a casa, cuidar do corpo, cuidar da mente…

E, sem percebermos, transformamos aquilo que devia cuidar de nós numa nova lista de obrigações.

Talvez seja por isso que tantas mudanças não duram.

Não porque não queremos.

Mas porque esperamos demasiado de nós.

Continuar sem perfeição significa aceitar que haverá dias bons e dias confusos.

Semanas em que conseguimos.

E outras em que apenas sobrevivemos.

O importante não é fazer tudo.

É perceber aquilo que queremos verdadeiramente manter.


Intenção da semana

Escolher uma coisa que Setembro me ensinou e levá-la comigo para Outubro.

Não dez.

Não uma lista enorme de novos objectivos.

Uma.

Talvez seja caminhar.

Dormir um pouco mais cedo.

Fazer uma pausa antes de responder.

Dizer não quando preciso.

Telefonar a alguém.

Escrever.

Beber um café em silêncio.

Voltar ao ginásio.

Ou simplesmente lembrar-me, todos os dias, de perguntar:

Como estou eu?


Frase SoLu@

“Recomeçar não é conseguir tudo. É escolher não desistir daquilo que nos faz bem.”


Prática da semana — O que fica comigo?

Pega numa folha, num caderno ou simplesmente pensa durante alguns minutos.

Completa estas três frases:

Em Setembro percebi que…

Quero deixar para trás…

Quero continuar a…

Não procures respostas perfeitas.

Procura respostas verdadeiras.

Porque, muitas vezes, sabemos exactamente do que precisamos.

Só não paramos tempo suficiente para nos ouvir.


Mini desafio

Durante estes quatro últimos dias de Setembro, escolhe um pequeno gesto de autocuidado que possas repetir todos os dias.

Algo simples.

Cinco minutos de silêncio.

Uma pequena caminhada.

Um chá sem telemóvel.

Uma página de um livro.

Respirar à janela.

Escrever três linhas.

Deitar-te quinze minutos mais cedo.

O desafio não é fazê-lo perfeitamente.

É perceber se gostarias de continuar a fazê-lo em Outubro.


Domingo, 27 de Setembro

Paz — Olhar para trás sem me julgar

Frase do dia

Posso olhar para aquilo que não consegui sem esquecer tudo aquilo que já caminhei.

Mensagem

Quando termina um mês, temos tendência para olhar primeiro para aquilo que ficou por fazer.

As páginas que não escrevemos.

Os treinos que falhámos.

As decisões que adiámos.

Mas há outra pergunta que também merece ser feita:

O que consegui fazer que talvez esteja a desvalorizar?

Talvez tenhas descansado quando antes terias continuado até à exaustão.

Talvez tenhas colocado um limite.

Talvez tenhas tido uma conversa difícil.

Talvez simplesmente tenhas começado a pensar mais em ti.

Nem todas as mudanças fazem barulho.

Algumas acontecem silenciosamente dentro de nós.

Prática

Escreve três coisas que conseguiste fazer por ti durante Setembro.

Pergunta

O que mudou em mim, mesmo que quase ninguém consiga ver?

Gesto

Hoje, não corrijas nada.

Apenas reconhece o caminho feito.


Segunda-feira, 28 de Setembro

Felicidade / Gratidão — Agradecer o que consegui

Frase do dia

Nem tudo correu como imaginei. Ainda assim, há muito pelo qual agradecer.

Mensagem

Gratidão não significa fingir que tudo foi bom.

Significa conseguir reconhecer pequenos pontos de luz mesmo quando o caminho foi imperfeito.

Talvez Setembro tenha trazido mudanças.

Novas rotinas.

Despedidas.

Começos.

Alguma desorganização.

Algum cansaço.

Mas provavelmente também trouxe aprendizagens.

E são essas aprendizagens que podemos levar connosco.

Prática

Escolhe uma coisa deste mês pela qual te sentes genuinamente grata.

Pergunta

Que momento de Setembro gostaria de guardar?

Gesto

Agradece a alguém que tenha feito diferença no teu mês.

Mesmo que seja apenas com uma mensagem simples.


Terça-feira, 29 de Setembro

Vida — Escolher o que quero continuar

Frase do dia

Não preciso de mudar toda a minha vida. Preciso apenas de cuidar melhor daquilo que quero manter nela.

Mensagem

Há hábitos que começam devagar.

Quase sem percebermos.

Uma caminhada.

Uma rotina mais tranquila.

Uma conversa semanal.

Um momento de silêncio.

Uma nova forma de pensar.

Nem tudo precisa de ser transformado num grande projecto.

Às vezes, aquilo que realmente muda a nossa vida são pequenas escolhas repetidas muitas vezes.

Prática

Escolhe uma coisa de Setembro que queres levar para Outubro.

Escreve-a.

Dá-lhe um lugar concreto na tua vida.

Pergunta

O que quero continuar, mesmo que ainda esteja longe de ser perfeito?

Gesto

Faz hoje essa pequena coisa.

Sem pensar no resto do mês.

Só hoje.


Quarta-feira, 30 de Setembro

Atitude — Continuar

Frase do dia

Chegar ao fim de um mês não significa terminar. Às vezes significa apenas continuar de outra forma.

Mensagem

Hoje termina Setembro.

Mas não termina aquilo que começámos a construir.

Talvez não tenhamos encontrado todas as respostas.

Talvez ainda haja rotinas por ajustar.

Decisões por tomar.

Feridas por cuidar.

Sonhos por reorganizar.

Tudo bem.

A vida raramente respeita calendários perfeitos.

Há processos que precisam de mais tempo.

Por isso, não quero terminar Setembro a perguntar:

“Consegui fazer tudo?”

Prefiro perguntar:

“O que vale a pena continuar?”

Porque talvez seja essa a verdadeira medida de um recomeço.

Não começar de novo todos os meses.

Mas ir construindo.

Pouco a pouco.

Um dia de cada vez.

Prática

Escreve uma intenção para Outubro começando assim:

Em Outubro quero continuar a…

Pergunta

Que esperança quero levar comigo para o próximo mês?

Gesto

Fecha Setembro com um pequeno ritual.

Pode ser escrever.

Acender uma vela.

Fazer uma caminhada.

Ou simplesmente parar durante alguns minutos e reconhecer:

eu estou aqui. continuo.


Pergunta da semana

O que quero continuar, mesmo que ainda esteja longe de ser perfeito?


Reflexão final — Não fiz tudo. Mas continuo.

Setembro começou com a ideia de recomeçar.

De voltar devagar.

De cuidar de nós no meio das rotinas.

De aprender a deixar crescer.

De procurar um novo equilíbrio.

E termina com uma aprendizagem que talvez seja ainda mais importante:

não precisamos de chegar ao fim com tudo resolvido.

Há coisas que precisam de atravessar meses.

Há mudanças que começam agora e só compreendemos muito mais tarde.

Há hábitos que precisam de muitas tentativas.

E há dias em que cuidar de nós significa simplesmente não desistirmos completamente de nós próprias.

Por isso, quando olhar para Setembro, não quero fazer uma lista de falhas.

Quero perguntar:

O que aprendi?

O que me fez bem?

O que quero levar comigo?

Talvez seja pouco.

Mas o pouco que conseguimos sustentar pode transformar muito mais a nossa vida do que todas aquelas mudanças perfeitas que nunca conseguimos manter.

Setembro termina.

O caminho não.


Uma ponte para Outubro

Em Outubro, o Calendário SoLu@ entra num novo tema:

Optimismo / Esperança.

E talvez não exista melhor forma de chegar até ele.

Porque esperança não significa acreditar que tudo vai correr exactamente como queremos.

Esperança é continuar a acreditar que existe caminho.

Mesmo quando ainda não conseguimos vê-lo inteiro.

Vamos entrar em Outubro assim:

sem promessas impossíveis,

sem exigir certezas,

sem precisar de ter tudo resolvido.

Apenas com vontade de continuar.

E talvez com esta frase no coração:

“Recomeçar não é conseguir tudo. É escolher não desistir daquilo que nos faz bem.”


Queres viver Outubro comigo?

O Calendário SoLu@ continua todos os dias, com pequenas reflexões, perguntas e práticas para trazer mais consciência à vida real.

Sem pressão.

Sem listas impossíveis.

Sem a obrigação de fazer tudo.

Porque este calendário é um guia, não uma prisão.

E Outubro espera-nos com duas palavras de que tantas vezes precisamos:

Optimismo. Esperança.

Ligações internas

  • Setembro — Autocuidado / Recomeço
  • Semana 4 — Encontrar um novo equilíbrio
  • “Cuidar de mim sem transformar o autocuidado em mais uma obrigação” 
  • Outubro — Optimismo / Esperança.

A mulher que eu era também faz parte da mulher que sou

Mulher a reflectir sobre quem era, crescimento pessoal e recomeços

Sexta-feira Nostálgica | Uma conversa entre aquilo que escrevi em 2021 e aquilo que hoje sei sobre a vida

Há textos antigos que nos fazem sorrir.

Outros fazem-nos pensar:

Eu ainda sou esta pessoa?

E depois existem aqueles que nos devolvem perguntas que nunca ficaram verdadeiramente respondidas.

Foi o que aconteceu quando voltei ao Arquivo SoLu@ e encontrei um texto que escrevi em Maio de 2021:

“Mãe, qual é o sentido da vida?”

A pergunta tinha sido feita pelo meu filho.

À noite.

Daquelas perguntas pequenas no número de palavras e enormes em tudo o resto.

Na altura respondi-lhe.

Cinco anos depois, voltei a ler a minha resposta.

E desta vez fiquei a olhar não apenas para aquilo que escrevi, mas também para a mulher que escreveu aquelas palavras.

Será que hoje responderia da mesma maneira?

“Mãe, qual é o sentido da vida?”

Em 2021, escrevi que o meu filho me tinha perguntado qual era o sentido da vida.

Respondi-lhe falando de fazer o bem, de viver plenamente, de aproveitar as oportunidades, de procurar ser feliz e de contribuir também para a felicidade daqueles que nos rodeiam.

E, antes de me despedir dele naquela noite, disse-lhe uma coisa que continuo a sentir:

“Tu és um dos propósitos da minha vida.”

Cinco anos depois, continuo a reconhecer aquela mãe.

Continuo a acreditar profundamente no amor.

Continuo a acreditar que aquilo que fazemos pelos outros importa.

Continuo a acreditar que as nossas escolhas podem deixar o mundo — ou simplesmente a vida de alguém — um pouco melhor.

Mas talvez hoje acrescentasse algumas coisas àquela resposta.

Os nossos filhos podem ser um propósito. Mas não podem ser todo o nosso propósito.

Esta talvez seja uma das coisas que o tempo me ensinou.

Durante muitos anos, uma enorme parte da minha vida esteve naturalmente organizada à volta dos meus filhos.

Os horários.

A escola.

As preocupações.

As refeições.

As actividades.

Os sonhos deles.

As dificuldades.

As conquistas.

A necessidade permanente de estar presente.

E eu quis estar.

Ainda quero.

Mas os filhos crescem.

Começam a fazer escolhas sem nós.

Partem para os seus caminhos.

Descobrem pessoas, lugares, sonhos e versões deles próprios que já não conseguimos controlar — nem devemos.

E talvez seja precisamente quando eles começam a voar que surge uma pergunta inesperada para nós, mães:

E eu?

Quem sou quando já não precisam de mim da mesma maneira?

O que quero continuar a construir?

O que me faz feliz?

Onde estão os meus sonhos?

O que dá sentido à minha vida nesta nova fase?

Talvez o sentido da vida também vá mudando

Em 2021 procurei responder àquela pergunta.

Hoje talvez aceitasse melhor que não tenho uma resposta definitiva.

E isso já não me inquieta da mesma forma.

Talvez porque tenha percebido que o sentido da vida não precisa de ser uma grande missão escrita para sempre.

Pode mudar.

Pode ter fases.

Há momentos em que o nosso propósito parece ser cuidar.

Outros em que precisamos de aprender.

Outros de sobreviver.

Outros de reconstruir.

Há momentos de partir e outros de ficar.

Há épocas em que fazemos planos.

E outras em que a própria vida os faz por nós.

Talvez viver com sentido seja também aprender a reconhecer aquilo que cada fase nos está a pedir.

A mulher de 2021 procurava respostas

Ao reler aquele texto, percebi outra coisa.

Eu procurava respostas.

Queria compreender.

Queria encontrar uma espécie de fio que ligasse aquilo que vivemos à razão por que estamos aqui.

Hoje continuo a fazer perguntas.

Mas talvez já não tenha tanta necessidade de encontrar uma resposta absoluta para todas elas.

Porque a vida ensinou-me que podemos viver coisas para as quais nunca encontraremos uma explicação satisfatória.

Há perdas que não conseguimos compreender.

Mudanças que não pedimos.

Sonhos que não aconteceram.

Pessoas que partiram.

Caminhos que tivemos de abandonar.

E existem também surpresas bonitas que nunca tínhamos planeado.

Talvez amadurecer seja perceber que podemos continuar a viver com sentido mesmo quando não compreendemos completamente aquilo que a vida nos trouxe.

Fazer as pazes com aquilo que fomos

Foi isto que mais senti ao reler o texto.

Não quero corrigir a mulher que o escreveu.

Não quero dizer-lhe:

“Hoje já não escreverias isto assim.”

Claro que não.

Passaram cinco anos.

A vida aconteceu.

Eu mudei.

Mas aquela mulher sabia aquilo que podia saber naquele momento.

Amava como sabia amar.

Educava como sabia educar.

Procurava respostas com a experiência que tinha.

Sonhava a partir da vida que conhecia.

E tudo isso também me trouxe até aqui.

Talvez uma das formas mais bonitas de crescimento seja conseguirmos olhar para trás sem vergonha da pessoa que fomos.

Sem a julgar permanentemente com os olhos da pessoa que somos hoje.

Podemos simplesmente dizer:

Estavas a aprender.

Tal como eu continuo a aprender.

Isto também é autocuidado

Setembro tem sido, no Calendário SoLu@, um mês de Autocuidado e Recomeço.

Falámos de voltar devagar.

De nos incluirmos novamente nas nossas próprias rotinas.

De deixar os filhos crescer.

De encontrar novos equilíbrios.

De cuidar de nós sem transformar o autocuidado em mais uma obrigação.

E agora percebo que falta acrescentar outra coisa:

autocuidado também pode ser fazer as pazes com a nossa própria história.

Perdoar algumas escolhas.

Compreender algumas decisões.

Aceitar que nem sempre sabíamos o que estávamos a fazer.

E reconhecer que houve versões nossas que tiveram de ser muito fortes para que hoje pudéssemos estar aqui.

“Cada pessoa segue o seu caminho”

Há uma frase que encontrei nos comentários daquele texto antigo.

Escrevi:

“Cada pessoa segue o seu caminho e faz a diferença no mundo.”

Em 2021 provavelmente pensei sobretudo nos nossos filhos e nas pessoas a quem tentamos transmitir alguma coisa.

Hoje leio-a de outra maneira.

Porque também nós continuamos a seguir o nosso caminho.

Mesmo depois de sermos mães.

Mesmo depois dos quarenta ou dos cinquenta.

Mesmo depois das mudanças.

Mesmo depois das perdas.

Mesmo depois dos planos que não resultaram.

Enquanto estivermos aqui, o nosso caminho não está terminado.

E talvez esta seja uma das respostas que hoje daria ao meu filho.

Então, qual é o sentido da vida?

Se ele me perguntasse novamente hoje, talvez começasse por dizer:

Não sei se existe uma resposta igual para todos.

Mas sei algumas coisas.

Sei que amar importa.

Que aquilo que fazemos aos outros importa.

Que estar presente importa.

Que aprender importa.

Que cuidar de nós também importa.

Que podemos recomeçar muitas vezes.

Que os nossos filhos são parte da nossa história, mas precisam de escrever a deles.

E que nós também temos o direito — e talvez a responsabilidade — de continuar a escrever a nossa.

Talvez uma vida com sentido não seja necessariamente uma vida extraordinária.

Talvez seja uma vida verdadeiramente vivida.

Com amor.

Com erros.

Com perguntas.

Com perdas.

Com sonhos.

Com pessoas.

Com coragem para mudar.

E com gratidão suficiente para reconhecer tudo aquilo que já fomos.

A mulher que eu era continua aqui

Quando criei o Arquivo SoLu@, não quis apenas salvar textos antigos.

Quis guardar memória.

Hoje percebo melhor porquê.

Porque quando volto a esses textos não encontro apenas palavras.

Encontro versões minhas.

A mãe.

A mulher.

A sonhadora.

Aquela que procurava respostas.

Aquela que acreditava que podia fazer melhor.

Aquela que algumas vezes se perdeu.

E aquela que continuou.

Nenhuma delas precisa de desaparecer para eu poder ser quem sou hoje.

Pelo contrário.

A mulher que eu era também faz parte da mulher que sou.

E da mulher que ainda estou a aprender a ser.

Talvez seja esse o verdadeiro significado desta Sexta-feira Nostálgica.

Não voltar ao passado para lá ficar.

Mas visitá-lo.

Conversar com ele.

Agradecer-lhe aquilo que nos ensinou.

E depois regressar ao presente um pouco mais conscientes do caminho que já percorremos.

Para guardar

Não preciso de rejeitar a mulher que fui para continuar a crescer.
Posso agradecer-lhe o caminho e continuar a escrever a minha história.

Um dia de cada vez.

💛


Do Arquivo para o presente

Esta reflexão nasceu do texto “Mãe, qual é o sentido da vida?”, publicado originalmente a 22 de Maio de 2021 e hoje preservado no Arquivo SoLu@.

👉 Ler o texto original no Arquivo SoLu@

Continua a ler no SoLu@

→ Recomeçar não é voltar ao princípio

→ Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda

→ Cuidar de mim sem transformar o autocuidado em mais uma obrigação

→ Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço

E tu?

Se pudesses sentar-te hoje ao lado da mulher que eras há cinco, dez ou vinte anos, o que lhe dirias?

O que mudarias?

E, sobretudo:

o que lhe agradecerias?

💌 Se estas reflexões também fazem sentido para ti, acompanha a Newsletter SoLu@. Um espaço mais próximo para continuarmos a falar sobre amor, maternidade, crescimento pessoal e vida com sentido.

Setembro Recomeço #4 — Cuidar de mim sem transformar o autocuidado em mais uma obrigação

Mulher a fazer uma pausa tranquila, representando um autocuidado simples e sem obrigação

Escolher menos, mas melhor. Porque cuidar de mim não pode significar acrescentar mais dez coisas à lista de tudo aquilo que já tenho para fazer.

Setembro tem qualquer coisa de recomeço.

Regressam as rotinas.
Os horários reorganizam-se.
Há decisões para tomar, coisas para retomar, outras para deixar para trás.

E, no meio disso, surge muitas vezes uma intenção bonita:

“Quero voltar a cuidar de mim.”

Eu própria a tenho.

Quero mexer-me mais.

Quero cuidar melhor da alimentação.

Quero dormir melhor.

Quero descansar.

Quero escrever.

Quero ter algum tempo só para mim.

Quero voltar a algumas coisas que sei que me fazem bem.

O problema começa quando este:

“quero cuidar de mim”

se transforma rapidamente em:

“tenho mais dez coisas que tenho de cumprir.”

E talvez seja precisamente aqui que precisamos de parar.

Porque se cuidar de mim se transforma em mais uma lista interminável, mais uma fonte de culpa e mais uma área da minha vida onde sinto que nunca faço o suficiente, alguma coisa deixou de fazer sentido.

Se o autocuidado me deixa exausta, talvez precise de voltar a perguntar o que significa realmente cuidar de mim.

Quando até o autocuidado se transforma numa obrigação

É muito fácil acontecer.

Decidimos que está na altura de cuidar mais de nós.

Então fazemos planos.

Ir ao ginásio três ou quatro vezes por semana.

Caminhar todos os dias.

Comer melhor.

Preparar as refeições.

Beber mais água.

Dormir oito horas.

Deitar mais cedo.

Ler.

Escrever.

Fazer pausas.

Meditar.

Ter tempo para nós.

Reduzir o telemóvel.

Organizar a casa.

E, de repente, aquilo que devia ajudar-nos a viver melhor começa a parecer um segundo emprego.

O autocuidado entrou na agenda.

Mas nós continuamos cansadas.

Talvez até mais.

Não porque alguma destas coisas seja má.

Pelo contrário.

Mexermo-nos faz bem. Alimentarmo-nos melhor faz bem. Dormir, descansar, ter momentos de silêncio, escrever ou fazer qualquer coisa que nos devolva a nós próprias pode ser profundamente importante.

Mas há uma diferença entre uma prática que nos cuida e uma prática que sentimos que temos de cumprir para provar que estamos a cuidar de nós.

O ginásio também não pode ser um castigo

Quero cuidar do meu corpo.

E sei que o movimento é importante.

Mas também tenho percebido que existe uma linha fina entre criar um compromisso comigo e transformar esse compromisso numa nova forma de culpa.

Se fui ao ginásio, fiz bem.

Se não fui, falhei.

Se consegui treinar três vezes, ótimo.

Se naquela semana a vida se complicou e fui apenas uma, parece que já não conta.

Mas conta.

Talvez o verdadeiro desafio não seja fazer tudo perfeitamente.

Seja continuar.

Encontrar uma forma de mexer o corpo que seja sustentável na vida que temos — não na vida ideal que imaginamos que devíamos ter.

Às vezes será o ginásio.

Outras vezes uma caminhada.

Outras vezes descansar porque o corpo está a pedir descanso.

Cuidar do corpo também é aprender a escutá-lo.

Comer melhor não devia significar viver em guerra com a comida

Com a alimentação acontece algo semelhante.

Podemos querer fazer escolhas melhores sem transformar cada refeição num teste.

Sem pensar permanentemente no que “podemos” ou “não podemos” comer.

Sem considerar que um alimento menos saudável destruiu tudo aquilo que fizemos antes.

Alimentação saudável também precisa de caber numa vida saudável.

Com família.

Com festas.

Com dias cansativos.

Com refeições improvisadas.

Com prazer.

Com momentos em que simplesmente nos apetece comer qualquer coisa porque gostamos.

Cuidar de mim não pode significar viver constantemente em vigilância.

Talvez signifique fazer boas escolhas na maior parte do tempo, sem transformar as restantes numa condenação.

Dormir e descansar não são a mesma coisa

Também tenho pensado muito sobre o descanso.

Podemos dormir e continuar profundamente cansadas.

Porque nem todo o cansaço se resolve com sono.

Há o cansaço das decisões.

Das preocupações.

Das responsabilidades.

De pensar por todos.

De lembrar tudo.

De tentar antecipar problemas.

De querer estar presente para quem amamos.

E existem alturas em que aquilo de que precisamos não é necessariamente dormir mais.

Talvez seja ter uma hora sem alguém precisar de nós.

Ficar em silêncio.

Não decidir nada.

Não resolver nada.

Não produzir.

Não ter de aproveitar cada minuto.

O descanso não precisa de ser produtivo para ser legítimo.

E até aquilo que amamos pode transformar-se em obrigação

Escrever faz-me bem.

Faz parte de mim.

Mas até a escrita pode perder alguma da sua beleza se começar a existir apenas porque existe um calendário para cumprir.

Um post para publicar.

Uma rede social para alimentar.

Uma newsletter para enviar.

Um projecto para continuar.

Há momentos em que escrever é trabalho.

Mas há outros em que preciso de voltar a escrever simplesmente porque tenho qualquer coisa cá dentro que precisa de sair.

Sem pensar no SEO.

Sem pensar se alguém vai ler.

Sem pensar se o texto vai funcionar.

Sem perguntar se serve para Instagram, Facebook, blog ou newsletter.

Só escrever.

Talvez autocuidado seja também preservar algumas coisas do nosso mundo interior da obrigação permanente de serem úteis.

Então, afinal, o que significa cuidar de mim?

Talvez esta seja a pergunta que vale mesmo a pena fazer.

Não:

“Que rotina de autocuidado devo ter?”

Mas:

“Do que preciso realmente neste momento?”

Porque a resposta muda.

Há dias em que preciso de movimento.

Há dias em que preciso de parar.

Há dias em que preciso de estar acompanhada.

Noutros, de estar sozinha.

Há momentos em que o melhor que posso fazer por mim é cumprir aquilo a que me comprometi.

E outros em que cuidar de mim significa reconhecer que hoje não consigo.

E não transformar isso num drama.

Escolher menos, mas melhor

Talvez seja esta a minha intenção agora.

Não criar uma grande rotina nova.

Não mudar dez coisas ao mesmo tempo.

Não procurar transformar Setembro no mês em que finalmente vou conseguir fazer tudo aquilo que acho que devia estar a fazer.

Quero escolher menos.

Mas escolher melhor.

Talvez uma ou duas coisas que façam realmente diferença.

Ir ao ginásio com regularidade possível, sem transformar cada ausência numa culpa.

Comer de uma forma que me faça sentir bem, sem viver obcecada pela perfeição.

Dormir melhor sempre que conseguir.

Respeitar o cansaço.

Escrever porque faz parte de mim.

Guardar pequenos momentos em que não tenha de cuidar de mais ninguém.

E deixar algum espaço para a vida acontecer.

Porque a vida vai sempre acontecer.

O autocuidado precisa de caber na vida real

Talvez seja esta uma das aprendizagens mais importantes deste Setembro.

Não quero construir uma rotina de autocuidado para uma mulher que não existe.

Uma mulher sem imprevistos.

Sem família.

Sem preocupações.

Sem dias difíceis.

Sem cansaço.

Sem coisas que aparecem de repente e mudam todos os planos.

Quero encontrar formas de cuidar da mulher que sou e da vida que tenho.

Isso significa que algumas semanas serão melhores do que outras.

Que haverá dias em que conseguirei fazer aquilo que planeei.

E outros em que não.

Não quero que o autocuidado seja mais uma coisa onde tenho de receber uma nota.

Quero que seja um lugar onde posso regressar.

Uma pergunta simples antes de acrescentar mais uma coisa

Antes de colocar uma nova tarefa na agenda, talvez possamos perguntar:

Isto vai cuidar de mim ou vai apenas dar-me mais uma coisa para cumprir?

Nem sempre a resposta será óbvia.

Porque algumas coisas exigem esforço e continuam a fazer-nos bem.

Ir ao ginásio pode exigir esforço.

Preparar uma refeição pode exigir organização.

Desligar o telemóvel pode exigir disciplina.

Cuidar também implica compromisso.

Mas talvez a diferença esteja naquilo que acontece depois.

Sinto-me mais inteira?

Mais forte?

Mais tranquila?

Mais capaz de viver a minha vida?

Ou apenas mais cansada e culpada porque nunca consigo fazer tudo?

É aí que talvez esteja a resposta.

A intenção desta semana

Esta semana não quero acrescentar dez novos hábitos.

Quero escolher aquilo que realmente me faz falta.

Talvez até retirar alguma coisa.

Porque autocuidado não é necessariamente fazer mais.

Às vezes é fazer menos.

É dizer não.

É descansar.

É escolher uma prioridade em vez de cinco.

É não transformar cada desejo de mudança num projecto de desempenho.

E é lembrar-me de uma coisa que facilmente esqueço:

eu também faço parte das pessoas de quem cuido.

Não como a última da lista.

Mas como alguém que merece estar dentro da própria vida.

Pergunta para esta semana

O que estou a chamar de autocuidado que, na verdade, se tornou apenas mais uma obrigação?

E depois uma segunda pergunta:

Se pudesse escolher apenas uma coisa para cuidar melhor de mim esta semana, qual seria?

Talvez uma seja suficiente.

Talvez cuidar melhor não comece por fazer mais.

Talvez comece por escolher melhor.


Frase SoLu@

Se o autocuidado me deixa exausta, talvez precise de voltar a perguntar o que significa realmente cuidar de mim.


Setembro Recomeço

Este artigo faz parte da rubrica Setembro Recomeço, integrada no Calendário SoLu@ de Setembro, dedicado ao tema Autocuidado / Recomeço.

Ao longo deste mês tenho procurado perceber o que significa recomeçar sem apagar aquilo que já vivi, voltar a incluir-me nas rotinas e aceitar também as mudanças que chegam quando a vida dos nossos filhos começa a seguir novos caminhos.

Talvez este seja mais um pedaço desse recomeço:

aprender a cuidar de mim sem transformar o cuidado em cobrança.

Porque o Calendário SoLu@ é um guia, não uma prisão.

E o autocuidado também devia ser assim.

Sugestão de leituras

Calendário SoLu@ — Setembro: Semana 4

Encontrar um novo equilíbrio — Semana 4 do Calendário SoLu@ de Setembro

Encontrar um novo equilíbrio

Nem tudo o que começámos precisa de continuar da mesma maneira. Às vezes, cuidar de nós também é perceber o que já não está a funcionar — e ter coragem para ajustar.

Chegamos à quarta semana de Setembro.

Depois de voltar devagar, de tentar cuidar de nós no meio das rotinas e de aprender a deixar crescer, talvez seja altura de fazer uma pequena pausa e perguntar:

Como está, realmente, a funcionar esta nova fase?

Porque uma coisa é aquilo que imaginamos no início.

Outra é a vida quando começa verdadeiramente a acontecer.

Os horários mudam.
As necessidades mudam.
Os filhos crescem.
As responsabilidades reorganizam-se.
Há coisas que julgávamos conseguir fazer e não conseguimos.
E outras que descobrimos que afinal já não fazem sentido.

Isso não significa que falhámos.

Significa apenas que estamos a viver.

E viver exige ajustes.


Tema da semana

Encontrar um novo equilíbrio

Durante muito tempo imaginei o equilíbrio como uma espécie de ponto perfeito onde tudo finalmente ficaria organizado.

A casa.

A família.

O trabalho.

Os filhos.

Os meus projectos.

O meu corpo.

O descanso.

O tempo para mim.

Como se algum dia fosse possível distribuir tudo em partes iguais e permanecer ali.

Hoje penso de outra maneira.

Equilíbrio não é conseguir fazer tudo.

É perceber o que precisa mais de nós em determinado momento — sem nos esquecermos completamente de nós próprias.

Há semanas em que a família pede mais.

Outras em que o trabalho ocupa demasiado espaço.

Há momentos em que precisamos de descansar.

Outros em que temos energia para avançar.

E existem fases da vida em que aquilo que funcionava deixou simplesmente de funcionar.

Nessas alturas, insistir não é necessariamente persistência.

Às vezes, é apenas resistência à mudança.


Intenção da semana

Esta semana não quero reorganizar a minha vida inteira.

Quero apenas observar.

Perceber onde existe demasiado peso.

Onde falta espaço.

Onde estou a exigir demasiado de mim.

E escolher um pequeno ajuste possível.

Porque talvez seja assim que se constrói uma vida mais equilibrada:

não através de grandes revoluções, mas através de pequenas escolhas repetidas com consciência.


Frase destaque SoLu@

Equilíbrio não é conseguir fazer tudo. É aprender a ajustar o que importa sem nos perdermos pelo caminho. — SoLu@


A prática da semana

O que está a funcionar — e o que já não está?

Pega numa folha ou abre uma nota no telemóvel.

Divide-a em três partes:

Está a funcionar

Escreve aquilo que, nesta nova fase, te está a fazer bem.

Pode ser uma rotina.

Uma decisão.

Um novo horário.

Um momento só teu.

Uma forma diferente de organizar a família.


Precisa de ajuste

Aqui entram aquelas coisas que não estão propriamente mal, mas poderiam ser diferentes.

Talvez acordares demasiado cedo.

Talvez tentares fazer demasiadas coisas no mesmo dia.

Talvez continuares a assumir tarefas que já poderiam ser partilhadas.

Talvez não teres reservado nenhum tempo para ti.


Posso deixar ir

Esta poderá ser a parte mais difícil.

Porque há coisas que permanecem na nossa vida apenas porque sempre estiveram lá.

Há rotinas.

Expectativas.

Obrigações inventadas.

Culpas.

Formas de fazer.

Pergunta:

Preciso mesmo de continuar a carregar isto?


Mini desafio da semana

Escolhe apenas uma coisa para ajustar.

Não cinco.

Não dez.

Uma.

Pode ser:

deitar-te meia hora mais cedo;

deixar uma tarefa para amanhã;

pedir ajuda;

reservar uma hora para ti;

simplificar uma refeição;

desligar o telemóvel durante algum tempo;

retomar uma caminhada;

dizer não a alguma coisa que já não cabe;

ou simplesmente parar de exigir que esta fase fique organizada imediatamente.

No final da semana pergunta:

Este pequeno ajuste tornou a minha vida um pouco mais leve?


Domingo, 20 de Setembro

Paz — Observar antes de mudar

Frase do dia

Antes de mudar tudo, observa o que realmente precisa de mudar.

Mensagem

Temos tendência para querer resolver rapidamente aquilo que nos incomoda.

Mas nem sempre precisamos de agir imediatamente.

Às vezes precisamos primeiro de compreender.

O que me está a cansar?

O que me está a fazer bem?

O que mudou nas últimas semanas?

Onde estou a insistir numa rotina que já não combina com a vida que tenho agora?

Prática

Reserva dez minutos para observar a tua semana sem julgamentos.

Pergunta

O que sinto que precisa de mais equilíbrio neste momento?

Gesto

Fica alguns minutos em silêncio, sem fazer absolutamente nada.


Segunda-feira, 21 de Setembro

Felicidade / Gratidão — Reconhecer o que já está bem

Frase do dia

Nem tudo precisa de ser corrigido.

Mensagem

Quando procuramos melhorar a vida podemos começar a olhar apenas para aquilo que falta.

Hoje quero fazer o contrário.

Reconhecer o que está a resultar.

As pequenas rotinas que encontraram lugar.

As pessoas que ajudam.

Os momentos de tranquilidade.

As coisas que, mesmo imperfeitas, estão bem.

Prática

Escreve três coisas que estão a funcionar melhor do que há algumas semanas.

Pergunta

O que quero preservar nesta nova fase?

Gesto

Agradece a alguém que esteja a tornar os teus dias um pouco mais fáceis.


Terça-feira, 22 de Setembro

Vida — Aceitar que as fases mudam

Frase do dia

A vida muda. Nós também podemos mudar com ela.

Mensagem

Há rotinas que pertenciam a outra fase.

Há maneiras de cuidar que já não são necessárias.

Há papéis que se transformam.

Há filhos que precisam de outras formas de presença.

Há versões nossas que também precisam de espaço para crescer.

Aceitar uma nova fase não significa esquecer aquilo que fomos.

Significa permitir que a vida continue.

Prática

Identifica uma rotina antiga que talvez já não faça sentido manter exactamente da mesma maneira.

Pergunta

Estou a tentar viver esta fase com regras que pertenciam à anterior?

Gesto

Faz hoje alguma coisa de uma maneira diferente.


Quarta-feira, 23 de Setembro

Atitude — Ajustar sem culpa

Frase do dia

Mudar de estratégia não significa desistir do caminho.

Mensagem

Há decisões que pareciam perfeitas quando as tomámos e que, na prática, precisam de ser revistas.

Não há mal nenhum nisso.

Ajustar não é falhar.

É usar aquilo que entretanto aprendemos.

Talvez uma rotina precise de mudar.

Talvez um plano precise de menos exigência.

Talvez uma responsabilidade possa ser partilhada.

Talvez precisemos simplesmente de admitir:

assim não está a funcionar para mim.

E começar daí.

Prática

Escolhe o pequeno ajuste desta semana.

Pergunta

Que mudança simples poderia facilitar os meus dias?

Gesto

Faz hoje o primeiro passo desse ajuste.


Quinta-feira, 24 de Setembro

Pensamentos positivos — Trocar perfeição por possibilidade

Frase do dia

Não preciso de uma vida perfeita. Preciso de uma vida onde eu também consiga respirar.

Mensagem

Por vezes, o maior desequilíbrio não está na agenda.

Está nas expectativas.

Queremos ser mães presentes.

Profissionais disponíveis.

Companheiras atentas.

Filhas cuidadoras.

Amigas presentes.

Mulheres organizadas.

E ainda encontrar tempo para cuidar de nós.

Talvez não consigamos fazer tudo, todos os dias.

E talvez não seja suposto.

Prática

Retira hoje uma expectativa desnecessária da tua lista mental.

Pergunta

O que estou a exigir de mim que nunca exigiria a alguém de quem gosto?

Gesto

Escolhe o suficiente em vez do perfeito.


Sexta-feira, 25 de Setembro

Fé / Esperança — Confiar no processo

Frase do dia

Nem tudo precisa de estar resolvido para estarmos no caminho certo.

Mensagem

Algumas fases levam tempo a encontrar o seu ritmo.

Setembro lembra-nos isso.

As rotinas estão ainda a formar-se.

As pessoas estão a adaptar-se.

Nós estamos a descobrir quem somos dentro delas.

Ter esperança também pode ser acreditar que não precisamos de ter todas as respostas hoje.

Podemos ajustar amanhã.

E voltar a ajustar depois.

Prática

Recorda uma fase difícil da tua vida que acabou por encontrar o seu lugar.

Pergunta

Consigo confiar um pouco mais no tempo?

Gesto

Respira fundo e repete:
Não tenho de resolver tudo hoje.


Sábado, 26 de Setembro

Amor — Incluir-me na vida que cuido

Frase do dia

Uma vida onde cuido de todos, mas desapareço de mim, nunca estará verdadeiramente equilibrada.

Mensagem

Talvez esta seja uma das aprendizagens mais importantes deste Setembro.

Cuidar dos outros não precisa de significar abandonar-nos.

Amar os nossos filhos não significa viver apenas através deles.

Estar presente não significa controlar.

Dar não significa esvaziarmo-nos.

Há lugar para o amor pelos outros.

E tem de existir também algum lugar para nós.

Não por egoísmo.

Mas porque também fazemos parte da vida que estamos constantemente a tentar cuidar.

Prática

Faz hoje uma coisa apenas porque te faz bem.

Pergunta

Onde estou eu na vida que construí?

Gesto

Reserva um pequeno momento só teu — sem culpa e sem necessidade de o justificar.


Pergunta da semana

O que posso ajustar para que a minha vida tenha um pouco mais de espaço para aquilo que realmente importa?

Não é:

Como consigo fazer tudo?

Nem:

Como volto a controlar tudo?

É simplesmente:

O que posso mudar, agora, para viver um pouco melhor?


Reflexão final

Talvez Setembro não tenha servido para colocar tudo no lugar.

Talvez algumas coisas estejam ainda mais confusas.

Talvez existam rotinas por construir, emoções por compreender e decisões por tomar.

Mas recomeçar nunca significou ter tudo resolvido.

Ao longo destas semanas fomos aprendendo outra coisa.

Primeiro, voltámos devagar.

Depois procurámos cuidar de nós no meio das rotinas.

Aprendemos também a deixar crescer — os nossos filhos, as nossas relações e até algumas partes de nós.

E agora procuramos um novo equilíbrio.

Não um equilíbrio perfeito.

Um equilíbrio possível.

Daqueles que se vão construindo enquanto vivemos.

Experimentamos.

Erramos.

Ajustamos.

Voltamos a tentar.

Talvez o autocuidado seja também isto:

escutar a nossa própria vida e ter coragem para mudar aquilo que deixou de nos fazer bem.

Sem pressa.

Sem culpa.

Um ajuste de cada vez.


Ligações deste mês

Se chegaste agora ao Calendário SoLu@, podes acompanhar todo o percurso de Setembro:

→ Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço

→ Semana 1 — Voltar devagar

→ Semana 2 — Cuidar de mim no meio das rotinas

→ Semana 3 — Deixar crescer

→ Não fiz tudo. Mas voltei a cuidar de mim.

→ Recomeçar não é voltar ao princípio

Porque todas estas reflexões partem da mesma ideia:

podemos recomeçar sem apagar aquilo que já vivemos.


Um pequeno convite

Antes de terminar esta semana, escolhe uma coisa.

Apenas uma.

Algo que possas simplificar, mudar, abandonar, começar ou fazer de maneira diferente.

Experimenta durante alguns dias.

Observa como te sentes.

E lembra-te:

o calendário é um guia, não uma prisão.

Se num determinado dia não conseguires fazer a prática, não há nada para recuperar.

Continua no dia seguinte.

A vida também se faz assim.


Queres viver este mês comigo?

Na Newsletter SoLu@ partilho reflexões, textos novos, memórias do Arquivo e pequenos convites para vivermos com mais consciência, amor e sentido.

Se estas palavras também fazem sentido para ti, podes juntar-te a mim.

Um mês de cada vez.
Uma semana de cada vez.
Um dia de cada vez.

Com amor,
SoLu@


Perguntas frequentes

Tenho de cumprir todas as práticas do Calendário SoLu@?

Não. O Calendário SoLu@ não pretende acrescentar mais uma obrigação aos teus dias. Escolhe aquilo que fizer sentido para ti. O calendário é um guia, não uma prisão.

O que significa encontrar um novo equilíbrio?

Não significa distribuir o tempo igualmente por todas as áreas da vida. Significa perceber aquilo de que precisas em cada fase e fazer ajustes conscientes para viver de forma mais sustentável.

E se aquilo que planeei para Setembro não estiver a resultar?

Podes mudar. Rever um plano não significa falhar. Às vezes, aquilo que aprendemos durante o caminho mostra-nos uma solução melhor do que aquela que tínhamos imaginado no início.

Por onde começar?

Escolhe apenas uma coisa que esteja a criar demasiado peso nos teus dias e pergunta: qual é o menor ajuste que posso fazer? Começa aí.

Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda

Mãe a observar os filhos seguirem o seu caminho numa nova fase da vida

Há momentos em que os filhos começam uma vida nova e, quase sem darmos conta, nós também somos obrigadas a descobrir quem somos nesta nova fase.

Há mudanças que parecem pertencer aos nossos filhos.

A entrada na Universidade.
O primeiro quarto longe de casa.
Novos horários.
Novos amigos.
Mais autonomia.
Decisões que deixam, pouco a pouco, de passar por nós.

Olhamos para eles e pensamos que são eles que estão a começar uma nova etapa.

E estão.

Mas não são os únicos.

Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda.

Talvez esta seja uma das partes menos faladas da maternidade.

Falamos muito sobre preparar os filhos para crescerem.

Falamos sobre lhes dar asas, ensinar responsabilidade, confiar, deixar experimentar, permitir que errem e ajudá-los a tornarem-se adultos capazes de seguir o seu próprio caminho.

Mas falamos menos sobre aquilo que acontece à mãe quando chega finalmente o momento de os deixar voar.

E sobre a pergunta que começa, silenciosamente, a aparecer dentro de nós:

Quem sou eu nesta nova fase?

Passei tantos anos a ensinar-lhes a voar…

Quando os filhos são pequenos, precisam de nós para quase tudo.

Para comer.
Para dormir.
Para atravessar a estrada.
Para organizar a mochila.
Para lembrar horários.
Para escolher.
Para decidir.
Para tranquilizar medos que ainda não sabem nomear.

Depois crescem.

E aquilo que durante tantos anos foi presença diária começa lentamente a transformar-se.

Já não precisamos de saber tudo.

Nem devemos.

Já não somos chamadas para resolver cada dificuldade.

Nem seria saudável fazê-lo.

Passamos de estar no centro da vida deles para aprender a permanecer num lugar diferente: suficientemente perto para que saibam que estamos aqui, mas suficientemente longe para que consigam descobrir quem são.

E talvez seja este um dos exercícios mais difíceis do amor materno:

continuar presente sem impedir que cresçam.

A Universidade muda muito mais do que os horários

Nestes dias, esta reflexão deixou de ser apenas uma ideia para mim.

A Universidade trouxe novos horários, novos caminhos, alojamentos, malas, deslocações, responsabilidades e uma independência cada vez maior.

Um filho já conhece esse mundo e sabe que aquilo que o espera exige trabalho, responsabilidade e muita capacidade para gerir a própria vida.

Outro começa agora esse caminho pela primeira vez.

E eu observo.

Ajudo no que posso.

Preocupo-me, naturalmente.

Pergunto se levaram tudo.

Penso se vão comer bem, se vão dormir o suficiente, se estarão seguros, se conseguirão organizar-se, se vão encontrar as pessoas certas pelo caminho.

Há perguntas que talvez nunca deixemos de fazer só porque somos mães.

Mas percebo também que chegou uma fase em que muitas dessas perguntas terão de ficar comigo.

Porque crescer também significa não ter uma mãe constantemente a antecipar todos os problemas.

E amar também é confiar naquilo que lhes ensinámos.

Mesmo quando custa.

Deixar crescer não é deixar de cuidar

Durante muito tempo podemos confundir cuidado com fazer.

Fazer por eles.
Resolver por eles.
Antecipar por eles.
Evitar que sofram.

Mas há uma altura em que cuidar começa a significar outra coisa.

Significa ouvir sem decidir imediatamente.

Aconselhar sem exigir que sigam o nosso conselho.

Perguntar sem interrogar.

Estar disponível sem invadir.

Aceitar que algumas escolhas não seriam as nossas.

E permitir que descubram, também através dos próprios erros, a pessoa que querem ser.

Isto não significa abandonar.

Muito pelo contrário.

Talvez seja uma das formas mais exigentes de presença.

Porque exige confiança.

Neles.

E em nós.

E quando eles precisam menos de mim?

Há uma pergunta difícil escondida em muitas destas mudanças:

Se eles já não precisam de mim da mesma maneira, onde fico eu?

Não é uma pergunta egoísta.

É humana.

Durante anos, grande parte dos nossos dias é construída à volta das necessidades dos filhos.

Escolas.
Consultas.
Actividades.
Reuniões.
Refeições.
Horários.
Transportes.
Preocupações.
Decisões.

A maternidade ocupa espaço no calendário, na casa, no corpo e na cabeça.

E, quando esse espaço começa a mudar, podemos sentir simultaneamente orgulho e uma espécie de vazio difícil de explicar.

Queríamos que crescessem.

Trabalhámos para isso.

Desejámos que fossem autónomos.

E depois chega o dia em que começam mesmo a sê-lo.

É bonito.

Mas também mexe connosco.

Porque deixar crescer os filhos obriga-nos, de alguma forma, a voltar a crescer também.

Talvez esteja na altura de voltar a perguntar por mim

Setembro tem sido, no Calendário SoLu@, um mês de Autocuidado e Recomeço.

E começo a perceber que este recomeço não precisa de acontecer apenas porque alguma coisa correu mal.

Há recomeços que surgem simplesmente porque a vida mudou.

Os filhos crescem.

As rotinas transformam-se.

A casa ganha outros silêncios.

E nós precisamos de encontrar uma nova forma de habitá-la.

Talvez esta seja uma oportunidade para recuperar perguntas que ficaram adiadas durante muito tempo:

Do que gosto agora?

O que quero aprender?

De que preciso para me sentir bem?

Que partes de mim ficaram esquecidas enquanto estava tão ocupada a cuidar de todos?

Que mulher quero ser nesta próxima fase da minha vida?

Não para deixar de ser mãe.

Nunca deixamos.

Mas para recordar que, antes e para além da maternidade, continua a existir uma mulher com sonhos, curiosidade, necessidades, vontade de aprender, criar, cuidar de si e continuar a crescer.

Os filhos não são o fim da nossa história

Talvez também tenhamos de aprender isto.

Os filhos não vieram preencher toda a nossa vida.

Vieram fazer parte dela.

Profundamente.

Transformaram-nos.

Ensinaram-nos formas de amor que talvez nem soubéssemos existir.

Mas o crescimento deles não pode significar o desaparecimento de quem somos.

Talvez seja exactamente o contrário.

Talvez vê-los construir a sua própria vida seja também um convite para olharmos novamente para a nossa.

Não para preencher depressa o espaço que ficou vazio.

Nem para inventar mil ocupações para evitar sentir saudades.

Mas para perguntar com calma:

O que quero fazer com este espaço novo?

Pode ser pouco.

Um livro que ficou por ler.

Uma caminhada.

Voltar a cuidar do corpo.

Retomar um projecto.

Aprender alguma coisa.

Estar mais presente no casamento.

Encontrar amigas.

Escrever.

Descansar.

Ou simplesmente reaprender a estar connosco sem sentir que precisamos de estar constantemente a fazer alguma coisa por alguém.

Talvez esta também seja uma forma de amor incondicional

Sempre quis que os meus filhos voassem.

Que fossem mais longe.

Que construíssem os seus próprios sonhos.

Que não permanecessem pequenos apenas porque seria mais confortável para mim.

Agora preciso de aprender a viver aquilo que tantas vezes lhes desejei.

Vê-los ir.

Confiar.

Continuar disponível.

E aceitar que há caminhos que terão de percorrer sem mim.

Provavelmente vou continuar a perguntar se comeram.

Provavelmente continuarei a preocupar-me mais do que eles acham necessário.

Provavelmente haverá sempre uma parte de mim que os vê com os mesmos olhos com que os via quando eram pequenos.

Mas quero aprender esta nova forma de maternidade.

Uma maternidade que não prende.

Que não controla para acalmar os próprios medos.

Que não transforma preocupação em vigilância.

Uma maternidade que diz:

Vai. Experimenta. Cresce. Eu estou aqui.

Talvez amar incondicionalmente também seja isto.

Não apenas segurá-los quando precisam.

Mas saber abrir as mãos quando chega o momento de voarem.

E eu também posso continuar a crescer

Há uma imagem bonita nesta fase da vida.

Enquanto os nossos filhos começam novos caminhos, nós não precisamos de ficar paradas no lugar onde os deixámos.

Também podemos avançar.

Eles começam uma etapa.

Nós começamos outra.

Eles descobrem quem são fora da nossa casa.

E talvez nós possamos redescobrir quem somos para além das rotinas que durante tantos anos organizaram os nossos dias.

Não quero olhar para esta fase apenas como aquilo que termina.

Quero olhar também para aquilo que começa.

Para eles.

E para mim.

Uma pequena reflexão para esta semana

Se estás a viver uma mudança semelhante — filhos a crescer, uma saída de casa, uma nova escola, Universidade, trabalho ou simplesmente uma autonomia cada vez maior — experimenta perguntar:

O que mudou na vida deles?

E depois acrescenta uma pergunta que tantas vezes esquecemos:

O que está esta mudança a pedir que mude em mim?

Talvez não seja preciso encontrar já uma grande resposta.

Às vezes um recomeço começa apenas quando temos coragem para fazer uma nova pergunta.


Frase SoLu@

Quando os nossos filhos começam a construir a própria vida, talvez seja também tempo de voltarmos a olhar para a nossa.


Setembro Recomeço

Este texto faz parte da rubrica Setembro Recomeço, um caminho de pequenos regressos a nós próprias durante um mês que tantas vezes nos pede para reorganizar a vida.

E acompanha a Semana 3 do Calendário SoLu@ — Deixar Crescer, dedicada à maternidade, à autonomia dos filhos e à aprendizagem de continuar presente sem impedir que eles sigam o seu caminho.

→ Ler: Calendário SoLu@ — Setembro, Semana 3: Deixar Crescer

Porque deixar crescer os nossos filhos também pode ser uma maneira de voltarmos a crescer com eles.

E talvez este seja o meu recomeço nesta fase: continuar a ser mãe, sem deixar de voltar a ser também eu.

— SoLu@

Chegar a um lugar novo: fazer amigos sem deixar de saber estar sozinho

Jovem a chegar a um lugar novo e a conhecer novas pessoas

Nem sempre encontramos imediatamente o nosso lugar. E talvez uma das coisas mais importantes que possamos ensinar aos nossos filhos seja esta: pertencer é importante, mas nunca deve custar-nos quem somos.

Há alguns anos escrevi no Arquivo SoLu@ sobre os meus filhos, competências sociais e aquela necessidade tão humana de pertencer a um grupo.

Na altura, escrevia como mãe de um filho que tinha sentido a dor de ser excluído.

Doía-lhe a ele.

E doía-me a mim.

Porque há poucas coisas mais difíceis para uma mãe do que perceber que um filho está triste e saber que não há um botão onde possamos carregar para lhe retirar aquela dor.

Eu queria ajudá-lo.

Queria que encontrasse pessoas.

Queria que se sentisse aceite.

Queria que tivesse amigos.

Anos depois, volto ao mesmo assunto de outro lugar.

Os filhos cresceram.

Chegaram outras etapas.

Universidade, alojamentos, turmas novas, pessoas desconhecidas, ambientes diferentes.

E percebo que esta aprendizagem nunca termina verdadeiramente.

Mudam os lugares.

Mudam as idades.

Mudam os grupos.

Mas aquela pergunta continua, de alguma forma, connosco:

Onde é o meu lugar?


Chegar a um sítio novo nem sempre é fácil

Falamos muitas vezes dos novos começos como se fossem apenas entusiasmo.

Uma Universidade nova.

Um novo emprego.

Uma nova cidade.

Uma nova turma.

Uma residência universitária.

Um novo projecto.

Parece tudo cheio de possibilidades.

E é.

Mas também pode ser profundamente desconfortável.

Porque entrar num lugar onde toda a gente é desconhecida obriga-nos a começar de novo nas coisas mais pequenas.

Não sabemos com quem nos sentar.

Não sabemos com quem almoçar.

Não sabemos quem pensa como nós.

Não sabemos quem poderá vir a ser amigo e quem será apenas alguém que passou pela nossa vida.

Há pessoas que parecem integrar-se imediatamente.

Entram numa sala e, poucos dias depois, parece que já conhecem toda a gente.

Outras precisam de tempo.

Observam primeiro.

Aproximam-se devagar.

Criam relações uma a uma.

E não há nada de errado nisso.

Nem toda a gente precisa de entrar num lugar novo e encontrar imediatamente um grupo.


Talvez tenhamos dado demasiada importância à ideia de “ter um grupo”

Quando os nossos filhos são adolescentes preocupamo-nos muito com os amigos.

E compreendo.

As amizades são importantes.

A pertença é importante.

Ter alguém com quem conversar, rir, estudar, sair ou simplesmente estar faz-nos bem.

Mas há uma diferença entre ter relações e sentir que precisamos desesperadamente de pertencer a qualquer grupo.

Hoje diria aos meus filhos:

Não tenham tanta pressa de pertencer que acabem por aceitar lugares onde precisam de diminuir quem são para caber.

Porque nem todas as pessoas que nos rodeiam são amigas.

Nem todas as pessoas com quem almoçamos serão amigas.

Nem todos os colegas serão amigos.

E está tudo bem.

Algumas pessoas serão companheiras de uma cadeira.

Outras de um trabalho.

Algumas estarão connosco durante um semestre.

Outras durante anos.

E talvez uma ou duas fiquem para a vida.

A amizade não se mede pela quantidade de pessoas à nossa volta.

Mede-se muito mais pela qualidade daquilo que conseguimos construir com algumas delas.


Mas como se fazem amigos quando chegamos a um lugar novo?

Talvez comece com coisas muito mais pequenas do que imaginamos.

Um “olá”.

Sentarmo-nos perto de alguém.

Perguntar uma coisa sobre uma aula.

Aceitar um café.

Ir almoçar com colegas mesmo quando ainda nos sentimos um pouco deslocados.

Participar numa actividade.

Juntar-nos a um grupo de estudo.

Perguntar:

“Vais almoçar?”

Ou ter coragem para dizer:

“Queres vir comigo?”

Às vezes ficamos à espera que alguém nos convide.

E a outra pessoa pode estar exactamente do outro lado, igualmente insegura, igualmente nova, igualmente à espera.

Por isso, um dos conselhos que hoje daria aos meus filhos é simples:

não esperem sempre que sejam os outros a aproximar-se.

Façam também um pequeno movimento.

Não precisam de conquistar uma sala inteira.

Basta conhecer uma pessoa.

Depois outra.

As relações constroem-se através da repetição, da confiança e dos pequenos momentos partilhados.

Amizade raramente acontece num instante.

Vai acontecendo.


Não confundam timidez com incapacidade

Também temos de aceitar que não somos todos iguais.

Há quem precise de muita vida social.

Há quem seja feliz com poucas pessoas próximas.

Há quem fale com facilidade com desconhecidos.

E há quem demore semanas até conseguir mostrar verdadeiramente quem é.

Não há apenas uma maneira certa de nos relacionarmos.

O importante é que a timidez, o medo ou a insegurança não acabem por construir uma prisão.

Podemos respeitar o nosso ritmo e, ainda assim, desafiar-nos suavemente.

Hoje falar com uma pessoa.

Amanhã aceitar um convite.

Na próxima semana experimentar alguma actividade.

Pequenos passos.

Sem transformar fazer amigos numa prova que precisamos de passar.


E depois há uma aprendizagem ainda mais difícil: saber estar sozinho

Talvez esta seja uma das coisas que mais desejo ensinar aos meus filhos.

Amem.

Criem amizades.

Procurem pessoas boas.

Construam relações.

Mas aprendam também a estar convosco.

Durante muito tempo ouvi e até repeti a ideia de que nascemos sozinhos e morremos sozinhos.

Hoje talvez diga de outra forma.

Porque não vivemos verdadeiramente sozinhos.

Precisamos uns dos outros.

Amamos.

Somos família.

Criamos laços.

Precisamos de pertença.

Mas há partes da vida que ninguém pode viver por nós.

Há escolhas que são nossas.

Há medos que teremos de atravessar.

Há noites em que teremos de conversar connosco próprios.

Há decisões em que, mesmo rodeados de pessoas que nos amam, somos nós que temos de escolher o caminho.

Por isso, aprender a estar sozinho não significa desistir das pessoas.

Significa não ter medo da nossa própria companhia.


Estar sozinho não é o mesmo que sentir-se abandonado

Esta diferença é importante.

Podemos estar sozinhos durante uma tarde e sentirmo-nos bem.

Ler.

Caminhar.

Estudar.

Ouvir música.

Pensar.

Descansar.

Ir beber um café.

Fazer uma refeição.

E podemos estar no meio de cinquenta pessoas e sentir uma solidão enorme.

Por isso, não quero ensinar aos meus filhos que “não precisam de ninguém”.

Precisamos.

Somos seres de relação.

Quero ensinar-lhes outra coisa:

não precisam de aceitar qualquer companhia apenas para não estarem sozinhos.

Essa diferença pode mudar muitas escolhas.


A autoestima protege-nos quando ainda não encontrámos o nosso lugar

Quando chegamos a um ambiente novo é fácil começar a olhar para os outros como medida de nós próprios.

Eles já têm amigos.

Eles parecem mais confiantes.

Eles saem juntos.

Eles foram convidados.

Eles parecem divertir-se.

E eu?

As redes sociais ainda amplificam essa sensação.

Vemos uma fotografia de dez pessoas a jantar e não vemos os outros vinte que ficaram nos quartos.

Vemos a festa.

Não vemos a insegurança.

Vemos o grupo.

Não vemos quem, mesmo naquele grupo, está a sentir-se sozinho.

É por isso que a autoestima é tão importante.

Porque precisamos de conseguir dizer a nós próprios:

o facto de ainda não ter encontrado as minhas pessoas não significa que haja alguma coisa de errado comigo.

Talvez apenas ainda não tenha passado tempo suficiente.

Talvez aquele não seja o meu grupo.

Talvez esteja a conhecer-me também nesta nova fase.


Como mãe, há coisas que já não posso fazer por eles

Posso ouvir.

Posso aconselhar.

Posso perguntar como correu o dia.

Posso incentivar.

Posso sugerir que convidem alguém.

Posso lembrar-lhes que uma primeira semana não define um ano inteiro.

Posso recordar-lhes tudo aquilo que valem quando algum momento os fizer duvidar.

Mas não posso fazer amigos por eles.

Não posso escolher as pessoas por eles.

Não posso impedir que alguma amizade os desiluda.

Não posso evitar todas as rejeições.

Nem devo.

Porque crescer também é aprender a perceber quem merece ficar perto de nós.

O meu papel mudou.

Talvez antes eu quisesse resolver.

Hoje quero sobretudo estar disponível.

Ser aquele lugar seguro onde podem regressar sem julgamentos.


O conselho que gostaria que levassem para qualquer lugar novo

Se algum dos meus filhos me perguntasse hoje:

“Mãe, cheguei aqui e ainda não conheço ninguém. O que faço?”

Eu diria:

Dá tempo.

Olha à tua volta.

Sorri.

Diz olá.

Faz perguntas.

Aceita alguns convites.

Faz também alguns.

Não julgues as pessoas demasiado depressa.

Mas também não ignores aquilo que sentes junto delas.

Não tentes impressionar toda a gente.

Não mudes aquilo que é importante para ti apenas para caber num grupo.

Procura pessoas com quem possas ser tu.

E, enquanto essas pessoas ainda não aparecem, não transformes esse tempo numa prova de que estás sozinho no mundo.

Vai conhecendo o lugar.

Vai conhecendo as pessoas.

E vai-te conhecendo a ti também.

Não precisas de ser escolhido por toda a gente para ter valor.


Talvez crescer seja também aprender isto

Em 2019 escrevia sobre a dor de ver um filho rejeitado por um grupo.

Hoje continuo a desejar que os meus filhos tenham bons amigos.

Claro que sim.

Desejo-lhes conversas longas.

Risadas.

Pessoas com quem estudar.

Jantares.

Festas.

Confidências.

Amigos que apareçam nos dias bons e, sobretudo, nos difíceis.

Mas desejo-lhes também outra coisa.

Que saibam estar sozinhos sem se sentirem menos.

Que não confundam popularidade com amizade.

Que não confundam quantidade com pertença.

Que tenham autoestima suficiente para sair de uma mesa onde precisam de deixar de ser eles próprios para serem aceites.

E coragem suficiente para se aproximarem de uma mesa nova.

Porque haverá momentos em que ninguém poderá dar esse passo por eles.

Nem mesmo eu.

E talvez deixar crescer seja também isto.

Não lhes retirar todas as dificuldades do caminho.

Mas tentar dar-lhes raízes suficientemente fortes para saberem quem são…

e asas suficientemente seguras para se aproximarem dos outros sem terem de se perder de si próprios.

SoLu@

Para pensar

Quando chegaste pela primeira vez a um lugar onde não conhecias ninguém, o que foi mais difícil?

E que conselho darias hoje a um filho, a um jovem — ou até a ti própria — sobre amizade, pertença e aprender a estar sozinho?

Da memória para o presente

Este texto nasceu também de uma reflexão que escrevi em 2019:

«Filhos — Competências sociais — Pertença a grupo de colegas (não considero amigos)», no Arquivo SoLu@.

Na altura falava da rejeição e da preocupação de uma mãe.

Hoje volto ao mesmo tema noutro momento da vida.

Os filhos cresceram.

As perguntas também.

Mas continuo a acreditar no mesmo essencial:

podemos guiá-los, amá-los e estar disponíveis. O caminho, pouco a pouco, terá de ser deles.

Leituras:

Sexta-feira Nostálgica — Há dez anos eu já procurava uma vida mais feliz

Texto antigo do Arquivo SoLu@ sobre felicidade e crescimento pessoal, revisitado dez anos depois.

Dez anos depois, continuo a procurar uma vida com sentido. Mas talvez hoje saiba que não existe um projecto perfeito para ser feliz.

Há dez anos escrevi um texto chamado “Projecto de Vida para ser Feliz!”.

Naquela altura procurava perceber o que podia mudar para construir uma vida mais feliz. Dez anos depois, percebo que continuo a procurar felicidade — mas talvez hoje procure ainda mais uma vida com sentido.

Era Maio de 2016.

Voltei a encontrá-lo agora no Arquivo SoLu@ e fiquei algum tempo a olhar para aquelas palavras.

Não apenas para aquilo que escrevi.

Mas para a mulher que as escreveu.

Naquele texto falava de auto-análise, de família, de culpa, de falta de paciência, de decisões e da vontade de viver melhor.

E, ao relê-lo, aconteceu uma coisa curiosa:

reconheci-me.

Há perguntas que continuam a ser minhas.

Mas as respostas já não são exactamente as mesmas.

Talvez seja isso que dez anos fazem connosco.

Não apagam aquilo que fomos.

Ensinam-nos a olhar de outra maneira.


Eu já procurava aquilo que verdadeiramente importava

Quando escrevi aquele “Projecto de Vida”, estava a tentar perceber o que me fazia feliz.

A família.

Os amigos.

Os momentos vividos em conjunto.

O sentimento de fazer alguma coisa útil.

Uma vida que tivesse prazer, satisfação e sentido.

Dez anos depois, acho bonito perceber que o essencial não mudou assim tanto.

Continuo a acreditar no valor da família.

Continuo a acreditar na importância das relações.

Continuo a querer viver de uma forma que faça sentido e não apenas passar pelos dias a cumprir aquilo que é preciso fazer.

Talvez tenha mudado, sobretudo, a forma como procuro essa felicidade.

Na altura parecia existir em mim uma vontade de organizar melhor a vida, corrigir comportamentos, tomar decisões e conseguir mantê-las.

Como se, com as escolhas certas e alguma disciplina, fosse possível construir uma espécie de projecto para ser feliz.

Hoje já não tenho tanta certeza de que a felicidade aceite projectos tão bem organizados.


Durante muito tempo achei que precisava de me corrigir

Há uma parte daquele texto antigo que me toca particularmente.

A culpa.

A falta de paciência.

A forma como reagia com a minha família, com o meu marido, com os meus filhos, com o trabalho e comigo própria.

É fácil olhar para trás e pensar:

Eu devia ter sido mais paciente.

Devia ter feito diferente.

Devia ter percebido mais cedo.

Mas hoje há uma pergunta que acrescentaria àquelas que fazia em 2016:

Será que a culpa alguma vez me ajudou verdadeiramente a ser melhor?

Não estou a falar de ignorar os nossos erros.

Precisamos de reconhecer quando magoamos alguém.

Precisamos de aprender.

Pedir desculpa.

Mudar aquilo que conseguimos mudar.

Mas há uma diferença enorme entre assumir responsabilidade e viver permanentemente a castigar-nos pelo que não fizemos bem.

E talvez eu tenha demorado algum tempo a aprender essa diferença.

Hoje sei que crescer não é passar a vida a apontar aquilo que está errado em nós.

É conseguirmos olhar para nós com verdade suficiente para mudar e com amor suficiente para não nos destruirmos nesse processo.


A felicidade deixou de ser um destino perfeito

Se pudesse sentar-me hoje ao lado da mulher que escreveu aquele texto em 2016, talvez lhe dissesse:

Não precisas de descobrir a fórmula.

Não precisas de acertar sempre.

Não precisas de conseguir manter todas as resoluções.

Haverá dias em que serás paciente.

E outros em que estarás cansada.

Haverá decisões que conseguirás manter durante anos.

E outras que abandonarás passado pouco tempo.

Haverá momentos muito felizes.

E haverá outros que não conseguirás transformar em felicidade, por muito que tentes.

E está tudo dentro da mesma vida.

Porque talvez viver uma vida feliz não signifique sentirmo-nos felizes o tempo inteiro.

Talvez signifique construir uma vida onde conseguimos reconhecer aquilo que importa, cuidar das relações, atravessar os dias difíceis e continuar a encontrar razões para agradecer, amar, acreditar e recomeçar.


Há coisas que dez anos não mudaram

Apesar de tudo o que mudou, há alguma coisa muito bonita em perceber que aquela mulher e esta ainda procuram a mesma coisa.

Uma vida com sentido.

Talvez tenha sido sempre isso.

Mesmo quando lhe chamava felicidade.

Mesmo quando fazia listas.

Mesmo quando criava resoluções.

Mesmo quando pensava que precisava de melhorar tantas coisas em mim.

Eu estava à procura de uma maneira mais consciente de viver.

Hoje talvez lhe chame outra coisa.

Presença.

Equilíbrio.

Autocuidado.

Amor consciente.

Aceitação.

Gratidão.

Ou simplesmente:

aprender a amar e a viver.


Se escrevesse hoje um “Projecto de Vida para ser Feliz”…

Provavelmente já não lhe chamaria projecto.

Talvez escrevesse apenas algumas intenções.

Quero estar verdadeiramente presente quando estou com quem amo.

Quero cuidar dos outros sem desaparecer de mim.

Quero reconhecer os meus erros sem transformar cada erro numa sentença sobre quem sou.

Quero aprender a descansar sem culpa.

Quero proteger aquilo que me faz bem.

Quero continuar a crescer sem viver permanentemente insatisfeita comigo.

Quero ter paciência — e saber pedir desculpa quando não a tiver.

Quero aceitar que nem todos os dias serão felizes.

E quero aprender a descobrir vida, amor e sentido também nesses dias.

Porque hoje sei uma coisa que talvez não soubesse escrever daquela maneira há dez anos:

uma vida feliz não se constrói quando finalmente fazemos tudo bem.

Constrói-se enquanto vivemos.

Enquanto erramos.

Enquanto aprendemos.

Enquanto amamos.

Enquanto perdemos.

Enquanto mudamos.

Enquanto voltamos.


Setembro trouxe-me este texto na altura certa

Este reencontro também faz sentido precisamente agora.

Setembro, no Calendário SoLu@, é o mês de Autocuidado / Recomeço.

E esta semana estamos a falar de uma coisa muito concreta:

cuidar de mim no meio das rotinas.

Talvez esta seja outra diferença entre 2016 e 2026.

Já não quero criar um projecto enorme para mudar toda a vida.

Quero perceber onde posso viver um pouco melhor dentro da vida que já tenho.

Onde posso voltar a incluir-me.

Onde preciso de abrandar.

Onde posso ser mais paciente.

Onde preciso de deixar de exigir tanto de mim.

Onde há alguma coisa boa que merece continuar.

O autocuidado também pode começar aqui.

Não numa vida nova.

Mas numa forma diferente de habitar a nossa.


Do Arquivo para o presente

É por textos como este que quis preservar o Arquivo SoLu@.

Não quero guardar o passado porque acredito hoje exactamente em tudo aquilo que escrevi.

Quero guardá-lo porque aquelas palavras mostram o caminho.

Quem eu era.

Aquilo que procurava.

As perguntas que fazia.

E aquilo que a vida entretanto me ensinou.

O Arquivo SoLu@ é memória viva.

E o SoLu@ de hoje é a continuação dessa história.

Por isso, se quiseres conhecer o texto que deu origem a esta reflexão:

→ No Arquivo SoLu@: “Projecto de Vida para ser Feliz!” — Maio de 2016

E, no presente:

→ Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço

→ Semana 2 — Cuidar de mim no meio das rotinas

→ Como fazer um recomeço na tua vida? — Um texto do passado. Um olhar de hoje.


Dez anos depois…

Continuo a querer uma vida feliz.

Claro que sim.

Mas talvez já não procure tanto ser feliz como procurava.

Procuro viver com verdade.

Amar melhor.

Cuidar sem me esquecer de mim.

Estar presente.

Aprender.

Agradecer.

Aceitar que algumas coisas não dependem de mim.

E encontrar sentido mesmo quando a vida não acontece exactamente como eu gostaria.

Talvez a felicidade nunca tenha sido um projecto que se termina.

Talvez seja uma construção imperfeita feita de milhares de dias comuns.

E talvez seja precisamente isso que hoje quero continuar a aprender:

não como criar uma vida perfeita para ser feliz, mas como estar verdadeiramente presente na vida que tenho.

E tu?

Se encontrasses hoje uma lista de decisões que escreveste há dez anos, o que achas que teria mudado?

Ainda procuras a mesma felicidade — ou a vida também te ensinou a procurá-la de outra maneira?

Conta-me nos comentários.

Talvez, quando olhamos para trás, percebamos que crescemos muito mais do que imaginávamos.

Sexta-feira Nostálgica — Um texto do passado. Um olhar de hoje.

Com carinho,
SoLu@

Setembro Recomeço #2 — Recomeçar não é voltar ao princípio

Recomeçar não é voltar ao princípio — Setembro Recomeço SoLu@

Escolher o que merece continuar connosco

Há uma ideia sobre os recomeços que durante muito tempo me pareceu bonita: a possibilidade de começar do zero.

Página em branco.
Vida nova.
Hábitos novos.
Uma versão diferente de nós próprias.

Hoje já não acredito muito nisso.

Talvez porque a vida me tenha ensinado que nunca regressamos verdadeiramente ao princípio.

Quando recomeçamos, levamos connosco tudo aquilo que já aconteceu.

As coisas que aprendemos.
As que ainda estamos a tentar compreender.
As pessoas que passaram pela nossa vida.
As que ficaram.
Os erros que cometemos.
As feridas que sararam.
As que ainda doem um bocadinho.

Levamos também as pequenas vitórias que tantas vezes esquecemos.

E talvez seja precisamente por isso que um recomeço pode ser tão bonito.

Porque não estamos a começar sem nada.

Estamos a começar com experiência.


Não quero voltar atrás

Há alturas em que pensamos:

Quem me dera voltar àquela fase.

Voltar ao tempo em que tínhamos mais energia.

Voltar ao corpo que tínhamos.

Voltar à rotina que funcionava.

Voltar à relação que parecia diferente.

Voltar aos dias em que tudo parecia mais simples.

Mas, pensando bem, eu não quero realmente voltar atrás.

Quero poder olhar para trás, perceber o que me fazia bem e perguntar:

O que daquela vida ainda merece fazer parte desta?

Porque algumas coisas mudaram.

Eu mudei.

A minha família mudou.

Os meus filhos cresceram.

As prioridades mudaram.

O corpo também muda.

O tempo disponível não é o mesmo.

E aquilo de que precisamos hoje pode ser muito diferente daquilo de que precisávamos há cinco, dez ou vinte anos.

Por isso, recomeçar não pode ser uma tentativa de reconstruir exactamente a vida que tínhamos.

Talvez seja antes uma oportunidade para construir a vida que faz sentido agora.


Há coisas que não precisam de regressar connosco

Também há alguma coragem nisto.

Porque quando decidimos recomeçar, podemos sentir que temos de recuperar tudo aquilo que deixámos para trás.

A rotina perfeita.

O exercício todos os dias.

A casa organizada.

Os projectos interrompidos.

Os hábitos abandonados.

As listas que ficaram por cumprir.

Mas talvez nem tudo tenha de voltar.

Há coisas que deixaram de servir.

Há hábitos que pertenciam a outra fase.

Há expectativas que já pesam mais do que ajudam.

Há objectivos que foram importantes numa determinada altura e que hoje já não fazem sentido.

E reconhecer isso não significa desistir.

Significa crescer.

Às vezes, o verdadeiro recomeço começa quando conseguimos dizer:

isto foi importante para mim, mas já não preciso de o levar comigo.


E há coisas que continuam a chamar por nós

Depois existem aquelas coisas que, mesmo quando a vida se complica, continuam silenciosamente à nossa espera.

Uma caminhada.

Um livro pousado na mesa de cabeceira.

Escrever.

Voltar a mexer o corpo.

Beber água com mais atenção.

Dormir melhor.

Telefonar a alguém.

Sentar-me alguns minutos em silêncio.

Retomar um projecto que me faz feliz.

Cuidar de uma relação.

Voltar a rezar.

Voltar a sonhar.

Não porque alguém nos disse que devíamos fazê-lo.

Mas porque, quando pensamos nisso, há qualquer coisa dentro de nós que reconhece:

isto faz-me bem.

Talvez seja por aí que vale a pena começar.


Setembro não precisa de ser uma revolução

Setembro tem esta energia curiosa.

Depois do Verão, sentimos quase automaticamente que chegou a altura de reorganizar tudo.

Horários.

Escola.

Trabalho.

Casa.

Alimentação.

Exercício.

Projectos.

Planos.

E, no meio dessa reorganização, é muito fácil criarmos uma lista tão grande que o próprio recomeço se transforma em mais uma fonte de pressão.

Este ano quero experimentar outra coisa.

Em vez de perguntar:

“O que tenho de mudar?”

quero perguntar:

“O que merece continuar comigo?”

A pergunta parece semelhante.

Mas não é.

A primeira parte da ideia de que há alguma coisa errada que precisa de ser corrigida.

A segunda parte daquilo que já existe e merece ser cuidado.

E talvez o autocuidado comece exactamente aí.

Não em inventarmos uma pessoa completamente nova.

Mas em reconhecermos aquilo que já faz parte de nós e merece voltar a ter espaço.


Uma coisa de cada vez

Por isso, a proposta desta semana do Setembro Recomeço é muito simples:

escolher apenas uma coisa para retomar.

Não cinco.

Não dez.

Uma.

Pode ser pequena.

Na verdade, talvez seja melhor que seja pequena.

Por exemplo:

  • caminhar 20 minutos;
  • voltar a ler antes de dormir;
  • preparar o pequeno-almoço com mais calma;
  • escrever algumas linhas num caderno;
  • telefonar uma vez por semana a alguém de quem gostamos;
  • regressar ao ginásio sem exigir resultados imediatos;
  • deitar mais cedo;
  • reservar meia hora para nós;
  • voltar a um projecto que ficou esquecido;
  • fazer alguma coisa simplesmente porque nos dá prazer.

Depois podemos perguntar:

Porque quero recuperar isto?

Não porque “devia”.

Não porque Setembro chegou.

Não porque toda a gente parece estar a reorganizar a vida.

Mas porque esta pequena coisa pode tornar os meus dias um pouco melhores.


O meu pequeno exercício de recomeço

Se quiseres fazer esta reflexão comigo, escreve três frases:

1. Há uma coisa da minha vida que quero deixar para trás:


2. Há uma coisa que aprendi e quero levar comigo:


3. Há uma coisa que quero começar a retomar:


Depois escolhe apenas a terceira.

E pergunta:

Qual é a versão mais pequena e possível desta escolha?

Se queres voltar a caminhar, talvez não sejam cinco quilómetros.

Talvez sejam dez minutos.

Se queres voltar a escrever, talvez não seja terminar um livro.

Talvez seja abrir um documento e escrever um parágrafo.

Se queres cuidar mais de ti, talvez não seja mudar toda a tua rotina.

Talvez seja começar por não te deixares sempre para o fim.

Porque os recomeços que permanecem raramente começam com grandes revoluções.

Começam com pequenos gestos que conseguimos repetir.


Não somos a mesma pessoa que começou

Há algo que hoje me conforta muito nesta ideia.

Eu não preciso de regressar à mulher que era.

Posso agradecer-lhe tudo aquilo que ela fez.

Posso reconhecer aquilo que atravessou.

Posso aprender com as suas escolhas.

Mas posso continuar daqui.

Com aquilo que sei hoje.

Com os limites que conheço melhor.

Com mais consciência do que me faz bem e do que me esgota.

Com outra relação com o tempo.

Com mais respeito por mim.

Talvez crescer seja precisamente isto:

deixar de tentar recuperar versões antigas de nós próprias e começar a cuidar da pessoa que somos agora.


A pergunta desta semana

Neste Setembro de Autocuidado e Recomeço, não te vou perguntar quantas coisas queres mudar.

Pergunto-te apenas:

O que merece continuar contigo?

E, entre tudo aquilo que escolheste, haverá talvez uma pequena coisa que merece regressar aos teus dias.

Começa por aí.

Sem pressa.

Sem perfeição.

Sem transformar o calendário numa obrigação.

Porque, como tenho repetido no Calendário SoLu@:

o calendário é um guia, não uma prisão.

E um recomeço também deve ser assim.

Um caminho que nos aproxima de nós.

Não mais uma lista onde podemos sentir que falhámos.


Para levar contigo

Recomeçar não é voltar ao princípio.
É continuar a partir de tudo aquilo que a vida já nos ensinou.

Esta semana escolhe apenas uma coisa.

Uma coisa que te faça bem.

Uma coisa que reconheças como tua.

Uma coisa que mereça voltar.

E começa de onde estás.

Porque talvez seja esse o único lugar de onde alguma vez podemos realmente recomeçar.

SoLu@


Continua este caminho

Se estás a viver comigo este Setembro de Autocuidado / Recomeço, podes continuar por aqui:

Não fiz tudo. Mas voltei a cuidar de mim.
Uma reflexão sobre aquilo que acontece quando os planos não se cumprem exactamente como imaginámos — e mesmo assim alguma coisa muda.

Como fazer um recomeço na tua vida? — Um texto do passado. Um olhar de hoje.
Uma ponte entre aquilo que escrevi há anos e aquilo que hoje aprendi sobre começar novamente.

Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço
Um mês para regressarmos a nós próprias sem pressa, sem culpa e sem a obrigação de fazer tudo.

Queres viver este mês comigo?

Na newsletter SoLu@ partilho reflexões, textos, pequenas práticas e pedaços deste caminho que nem sempre cabem nas redes sociais.

Se também estás a tentar encontrar uma forma mais tranquila de cuidar de ti e recomeçar, fica por perto.

Talvez possamos fazer este caminho juntas.

Um dia de cada vez.