Há dias em que ser mãe é preparar malas, engolir a saudade e acreditar que lhes demos asas suficientes para seguirem os seus sonhos.
Hoje começa mais um daqueles ciclos que sabemos que vão chegar, mas para os quais talvez nunca estejamos verdadeiramente preparados.
Hoje, os meus dois filhos mais velhos seguem para os seus alojamentos universitários.
Cada um para o seu.
Cada um para a sua Universidade.
Cada um para a vida que está, pouco a pouco, a construir.
E eu olho para as malas, para tudo aquilo que fomos tentando não esquecer, para as coisas que ainda perguntamos se levaram, para os últimos conselhos — alguns certamente repetidos mais vezes do que seria necessário — e penso:
estão a voar os seus próprios voos.
Era isto que queríamos.
Sempre quisemos que voassem.
E, se possível, que voassem mais alto do que nós.
Que tivessem sonhos.
Que lutassem por eles.
Que encontrassem o seu lugar no mundo.
Só não nos avisaram de que vê-los ganhar asas também apertava assim o coração.
Para um, o caminho já é conhecido
O mais velho começa agora o 3.º ano da Universidade.
Já sabe o que o espera.
Ou, pelo menos, sabe bastante melhor do que sabia há dois anos.
Sabe que vai haver trabalho.
E depois mais trabalho.
E provavelmente ainda mais algum trabalho quando pensar que finalmente terminou.
A Universidade onde está não brinca em serviço.
Enquanto vê amigos que ainda nem começaram as aulas e que, quando começarem, ainda terão pela frente semanas de vida académica, festas, convívios e integração, ele já conhece outro ritmo.
Às vezes até brincamos cá em casa com a diferença.
Parece que alguns cursos conseguem transformar um ano lectivo em seis meses de aulas e muitos momentos de vida académica.
No dele, às vezes parece exactamente o contrário.
Mas também sei tudo o que estes dois primeiros anos lhe deram.
Não apenas conhecimento.
Deram-lhe autonomia.
Capacidade de trabalho.
Persistência.
Responsabilidade.
Ensinaram-lhe que nem sempre conseguimos tudo à primeira.
Que há momentos difíceis.
Que há cansaço.
Que há dúvidas.
E que continuamos.
Talvez seja essa uma das aprendizagens mais importantes da Universidade — e da vida.
Hoje vai com outra segurança.
Já conhece o caminho.
Já conhece as dificuldades.
E talvez seja precisamente por isso que eu saiba que continua a precisar de ouvir:
acredita em ti.
Para ela, tudo começa agora
Com a minha filha do meio, a sensação é diferente.
É o primeiro ano.
A primeira vez que sai assim de casa.
A primeira residência universitária.
As primeiras aulas.
Os primeiros colegas.
Uma nova cidade.
Novas rotinas.
Novas responsabilidades.
Novas liberdades.
E talvez também algumas saudades que só se descobrem quando fechamos a porta do quarto e percebemos que aquele espaço é agora, durante parte da semana, a nossa casa.
Investimos numa residência privada para que pudesse ficar mais perto da Universidade.
Tem todas as condições.
Pensámos na localização.
Na segurança.
No conforto.
Naquilo que poderia facilitar os primeiros meses desta adaptação.
Fizemos o que estava ao nosso alcance.
E, mesmo assim, estamos apreensivos.
Porque há coisas que nenhum quarto confortável consegue resolver por nós.
Não podemos escolher os amigos que vão encontrar.
Não podemos evitar todas as dificuldades.
Não podemos protegê-los de todas as desilusões.
Não podemos garantir que nunca se sintam sozinhos.
Não podemos fazer os trabalhos por eles, enfrentar os professores, resolver os problemas ou escolher os caminhos.
Podemos apenas continuar aqui.
Presentes.
Disponíveis.
A acreditar neles.
Vamos a caminho.
E talvez esta frase diga muito mais do que parece.
Eles vão a caminho da Universidade.
Nós vamos a caminho de uma nova forma de sermos pais.
Deviam entregar-nos uma checklist para esta fase
Enquanto preparávamos tudo, pensei várias vezes:
devia existir um kit para jovens universitários.
Não apenas a lista das coisas que têm de levar.
Lençóis.
Toalhas.
Roupa.
Computador.
Carregadores.
Medicamentos.
Documentos.
Mas uma checklist verdadeiramente útil para quem está prestes a começar a viver longe de casa.
Porque preparar um filho para a Universidade não é só encher uma mala.
É ajudá-lo a perceber que, a partir de agora, terá de cuidar de muitas pequenas coisas que em casa quase aconteciam sem dar por elas.
Por isso, se tivesse de criar hoje uma Checklist SoLu@ para quem vai viver para um alojamento universitário, seria esta.
Checklist prática — o que levar
Documentos e essenciais
- Cartão de Cidadão;
- cartão bancário;
- cartão de estudante ou comprovativo de matrícula;
- contactos importantes;
- informações da residência/alojamento;
- medicação habitual e respectivas receitas, quando necessárias;
- cópia digital de documentos importantes.
Para o quarto
- lençóis;
- almofada, se não estiver incluída;
- manta;
- toalhas;
- cabides;
- saco para roupa suja;
- chinelos;
- extensão eléctrica ou múltiplas tomadas, se forem permitidas;
- candeeiro de secretária, se necessário;
- uma fotografia, objecto ou pequena coisa de casa que faça aquele espaço parecer um pouco mais seu.
Higiene e cuidados pessoais
- produtos de higiene;
- pequena farmácia com o essencial;
- termómetro;
- pensos rápidos;
- analgésico habitual;
- protector solar;
- garrafa de água reutilizável.
Universidade e tecnologia
- computador;
- carregadores;
- auscultadores;
- mochila;
- cadernos ou material de escrita;
- pen/armazenamento externo, se necessário;
- cópias de segurança configuradas;
- passwords importantes guardadas de forma segura.
Alimentação
Se o alojamento permitir preparar refeições:
- alguns recipientes;
- talheres;
- caneca;
- prato e tigela;
- garrafa de água;
- alimentos simples para os primeiros dias.
E uma coisa que parece pouco importante até ao dia em que faz falta:
alguma comida de casa.
Porque às vezes uma refeição conhecida também cuida.
A checklist que não cabe dentro da mala
Depois há outra lista.
Talvez a mais importante.
Aquela que não se compra.
Aquela que nenhum supermercado vende.
E que gostava que os meus filhos levassem também com eles.
1. Não precisam de ter tudo resolvido no primeiro dia
Os primeiros tempos podem ser estranhos.
É normal.
Uma nova casa demora a parecer casa.
Uma turma demora a transformar-se em pessoas conhecidas.
Uma cidade demora a deixar de parecer desconhecida.
Dêem tempo ao tempo.
2. Peçam ajuda
Aos colegas.
Aos professores.
Aos serviços da Universidade.
À residência.
A nós.
Pedir ajuda não é sinal de incapacidade.
Muitas vezes é sinal de inteligência.
3. Escolham bem as pessoas
A Universidade traz muitas pessoas novas para a nossa vida.
Algumas ficam.
Outras passam.
Observem.
Conheçam.
Não tenham pressa de pertencer a qualquer grupo apenas para não se sentirem sozinhos.
Estar acompanhado nem sempre significa estar bem acompanhado.
4. Divirtam-se — mas não se esqueçam de porque estão ali
A vida académica também faz parte da Universidade.
Os amigos.
Os jantares.
As festas.
As conversas que ficam pela madrugada.
Há memórias que também se constroem nesses momentos.
Mas liberdade também significa aprender a escolher.
E cada escolha tem consequências.
5. Durmam
Pode parecer um conselho banal.
Não é.
Não há corpo nem cabeça que consigam funcionar indefinidamente à base de noites mal dormidas, cafés e prazos.
Cuidar do sono também faz parte de estudar.
6. Comam
Mesmo nos dias de testes.
Mesmo nos dias em que chegam tarde.
Mesmo quando parece mais fácil viver de qualquer coisa rápida.
O corpo que vos leva até aos vossos sonhos também precisa de ser cuidado.
7. Aprendam a gerir dinheiro
Um orçamento mensal.
As despesas fixas.
Aquilo que podem gastar.
Aquilo que devem guardar.
Talvez esta seja uma das aulas mais úteis que não aparece no horário da Universidade.
8. Não comparem demasiado
Vai haver sempre alguém com melhores notas.
Mais facilidade.
Mais amigos.
Mais confiança.
Mais vida social.
Mais qualquer coisa.
Não façam da vida dos outros uma régua para medir a vossa.
Cada um está a fazer o seu próprio caminho.
9. Telefonem para casa
Não precisa de ser todos os dias.
Nem precisam de contar tudo.
Mas uma mensagem às vezes chega:
“Está tudo bem.”
Nós entendemos o resto.
10. Lembrem-se de quem são
Talvez este seja o conselho que mais gostaria que levassem.
Vão conhecer ideias novas.
Pessoas diferentes.
Vão mudar de opinião sobre algumas coisas.
Vão crescer.
Ainda bem.
Mas, no meio de tudo isso, não deixem que ninguém vos faça acreditar que precisam de deixar de ser quem são para serem aceites.
Também nós temos de aprender a deixá-los ir
Tenho pensado muito nisso.
Durante anos, ser mãe significou fazer.
Preparar.
Levar.
Buscar.
Resolver.
Organizar.
Lembrar.
Perguntar.
Proteger.
Agora começa outra aprendizagem.
Estar sem controlar.
Ajudar sem impedir.
Perguntar sem invadir.
Aconselhar sem decidir por eles.
Confiar.
Talvez criar filhos seja isto:
passarmos anos a segurar-lhes a mão para que aprendam a andar e, depois, termos de aprender a soltá-la para que descubram até onde conseguem chegar.
Não é deixarmos de ser necessários.
É sermos necessários de outra maneira.
Voem
Hoje, quando deixarmos cada um no seu alojamento, sei que provavelmente vou sentir aquele vazio estranho.
A casa fica diferente quando os filhos saem.
Mesmo quando sabemos que voltam.
Mesmo quando só estão a alguns quilómetros.
Mesmo quando podemos telefonar.
Há um silêncio diferente.
Mas quero guardar outra imagem.
Não a dos quartos vazios.
A das asas.
Porque foi para isto que trabalhámos durante tantos anos.
Para que pudessem escolher os seus caminhos.
Para que acreditassem nos seus sonhos.
Para que fossem capazes de partir sabendo que existe sempre um lugar onde podem regressar.
Por isso, aos meus filhos:
voem.
Voem alto.
Trabalhem.
Divirtam-se.
Aprendam.
Enganem-se.
Tentem outra vez.
Escolham bem.
Cuidem de vocês.
Sejam felizes.
E nunca se esqueçam de que, por muito longe que um dia os vossos sonhos vos levem, haverá sempre aqui uma casa, um abraço e alguém profundamente feliz por vos ver crescer.
Desejo-vos um ano cheio de aprendizagem, amizades bonitas, desafios que vos façam crescer e sonhos que continuem a puxar-vos para a frente.
E desejo o mesmo a todos os jovens que começam agora um novo ano lectivo — aos que regressam e aos que entram pela primeira vez neste mundo novo.
E aos pais e mães que hoje fecham malas, verificam pela décima vez se não falta nada e depois regressam a casa com o coração um bocadinho mais apertado:
também nós estamos a começar um novo ciclo.
Talvez o nosso desafio seja confiar nas asas que passámos tantos anos a ajudá-los a construir.
SoLu@
O amor também é isto: dar raízes suficientemente fortes para que um dia tenham coragem de abrir as asas.
Para guardar
Que conselho darias hoje a um jovem que vai viver sozinho pela primeira vez para estudar?
E, se és mãe ou pai de um universitário, conta-me:
o que foi mais difícil quando chegou o momento de o deixar seguir o seu próprio caminho?
Para continuar a ler
Este novo ciclo não começou hoje. Foi sendo construído em muitos pequenos momentos, escolhas e despedidas.
🎓 A Nossa Filha do Meio foi Colocada na Universidade!
O momento em que aquilo que parecia ainda distante se tornou realidade.
📚 O Nosso Primeiro Filho Colocado na Universidade!
No Arquivo SoLu@, a memória da primeira vez que vivemos esta mistura de orgulho, felicidade e a aprendizagem de deixar um filho começar a voar.
🤍 18 anos de Amor Incondicional — Filha do Meio
Sobre crescer, chegar à maioridade, encontrar o próprio caminho e continuar a saber onde é casa.
🌿 Setembro — Autocuidado / Recomeço
Porque os filhos começam novos caminhos — e nós, pais e mães, também precisamos de aprender a viver as mudanças que chegam com eles.

