A herança que não escolhemos e o futuro que desejamos aos nossos filhos

Mãe a reflectir sobre a herança genética, a saúde e o futuro dos filhos.

Quando escolhemos alguém para partilhar a vida, não conhecemos toda a herança genética que transportamos. E, quando essa herança se cruza com a saúde dos nossos filhos, descobrimos que o maior medo de uma mãe não está no passado, mas no futuro que tanto deseja que eles possam viver.

Quando escolhemos amar, não pensamos na genética

Quando nos apaixonamos, não pensamos nos genes.

Não perguntamos que doenças existiram nas gerações anteriores, que fragilidades poderão estar escondidas na história familiar ou que características genéticas transportamos sem sequer o saber.

Olhamos para a pessoa que temos à nossa frente.

Para o seu sorriso, para a forma como nos faz sentir, para os valores que partilhamos e para os sonhos que, pouco a pouco, começamos a construir juntos.

Escolhemos amar.

E, quando desse amor nasce o desejo de formar uma família, imaginamos os nossos filhos antes mesmo de os conhecermos.

Sonhamos com os seus rostos, os primeiros passos, as primeiras palavras, as descobertas, as conquistas e todos os momentos que esperamos partilhar.

Desejamos que cresçam saudáveis, que sejam felizes e que encontrem o seu lugar no mundo.

Mas, naquele momento, não sabemos tudo aquilo que trazemos connosco.

Porque cada um de nós é também o resultado de uma história que começou muito antes do nosso nascimento.

Uma história escrita, em parte, nos nossos genes.

A herança invisível que atravessa gerações

É bonito descobrir nos nossos filhos traços que reconhecemos na família.

O sorriso de um avô.

O olhar de uma avó.

A expressão de um pai.

A maneira de rir, de caminhar ou de gesticular.

Há semelhanças que nos emocionam, porque nos fazem sentir que as pessoas que amamos continuam, de alguma forma, presentes nas gerações seguintes.

Mas nem tudo aquilo que herdamos é visível.

Também podemos transportar predisposições genéticas ou alterações que influenciam a saúde, algumas das quais desconhecemos durante grande parte da nossa vida.

Nem todas as doenças genéticas são herdadas directamente dos pais. E nem todas as doenças que surgem em várias pessoas da mesma família têm uma causa exclusivamente genética.

A hereditariedade é complexa.

Há condições que passam despercebidas durante gerações, outras que só se manifestam em determinadas circunstâncias e outras cuja origem envolve diferentes factores.

Por vezes, só começamos a olhar para a história de saúde da nossa família quando surge uma preocupação relacionada com os nossos filhos.

E aquilo que antes parecia distante ganha, de repente, um significado diferente.

Começamos a recordar histórias antigas, doenças de familiares, situações que talvez nunca tenham sido devidamente compreendidas.

Procuramos respostas.

Tentamos perceber.

E descobrimos que existem perguntas para as quais nem sempre é possível encontrar uma explicação imediata.

O passado não posso mudar

Há algo que tenho muito claro dentro de mim.

O passado não posso mudar.

Não posso alterar os genes que herdámos dos nossos pais e avós.

Não posso mudar aquilo que, sem sabermos, poderemos ter transmitido aos nossos filhos.

Não posso voltar atrás e fazer escolhas com conhecimentos que não tinha.

E também não quero viver à procura de culpados.

Porque ninguém escolhe conscientemente transmitir uma doença ou uma predisposição genética aos seus filhos.

Quando decidimos construir uma família, fazemo-lo com amor, com esperança e com os conhecimentos que temos naquele momento.

Não conhecemos todos os riscos.

Não conseguimos antecipar todas as dificuldades.

E não temos o poder de garantir que os nossos filhos nunca enfrentarão problemas de saúde.

Sei que não é culpa de ninguém.

E, sinceramente, não é a culpa que mais me preocupa.

É o futuro.

O medo de que a vida lhes retire possibilidades

Olho para os meus filhos e vejo muito mais do que aquilo que são hoje.

Vejo as crianças que foram.

Os primeiros sorrisos, as brincadeiras, os sonhos que partilhámos.

Vejo os jovens em que se estão a transformar.

As suas capacidades, os seus talentos, as suas personalidades tão diferentes.

Vejo tudo aquilo que ainda têm pela frente.

Os estudos, as profissões, as amizades, os amores, as viagens, as experiências e as escolhas que um dia serão inteiramente suas.

E desejo, acima de tudo, que possam viver.

Viver verdadeiramente.

Com liberdade para escolher os seus caminhos, coragem para enfrentar os desafios e oportunidades para concretizar os seus sonhos.

Mas, quando surgem questões de saúde que podem estar relacionadas com a genética, há perguntas que começam a acompanhar-me.

Será que isto poderá condicionar o futuro deles?

Será que terão de enfrentar dificuldades que nunca imaginei?

Será que poderão realizar os seus sonhos?

Será que uma doença poderá limitar as suas escolhas, a sua autonomia ou a sua felicidade?

E talvez esta seja uma das partes mais difíceis da maternidade.

Não é apenas preocuparmo-nos com aquilo que está a acontecer.

É termos medo de tudo aquilo que ainda poderá acontecer.

Porque, enquanto mãe, não desejo apenas que os meus filhos estejam bem hoje.

Desejo que possam continuar a estar bem amanhã.

E depois de amanhã.

E nos muitos anos em que espero vê-los construir as suas próprias vidas.

Quando o coração de mãe não acompanha a razão

Sei que uma predisposição genética não significa necessariamente que uma doença venha a desenvolver-se.

Sei que um diagnóstico não define, por si só, todas as possibilidades de uma vida.

Sei que a medicina evolui, que existem tratamentos, acompanhamento e formas de prevenir ou reduzir determinados riscos.

Sei também que muitas pessoas vivem vidas felizes e realizadas apesar de enfrentarem doenças ou limitações de saúde.

Mas há uma diferença entre saber estas coisas e conseguir vivê-las com tranquilidade.

Porque o coração de mãe nem sempre acompanha a razão.

Há dias em que consigo olhar para o futuro com confiança.

Outros em que as preocupações parecem ocupar mais espaço do que gostaria.

Procuro informação.

Quero compreender.

Quero saber quais são os riscos, o que podemos fazer, que cuidados devemos ter.

E, por vezes, dou por mim a tentar encontrar respostas para situações que ainda nem aconteceram.

Talvez porque, durante tantos anos, ser mãe significou estar atenta a tudo.

À febre, às quedas, às dificuldades, aos medos, às pequenas e grandes preocupações de cada fase da infância.

Estávamos lá para cuidar, consolar, proteger e procurar soluções.

Mas os filhos crescem.

E, com o crescimento, chegam preocupações diferentes.

Algumas já não se resolvem com um abraço, uma conversa ou uma visita ao médico.

Outras exigem tempo, acompanhamento e decisões que também lhes pertencem.

E é nessa altura que compreendemos uma verdade difícil:

Por muito que amemos os nossos filhos, não conseguimos protegê-los de tudo.

Não quero que os meus medos se tornem os medos deles

Talvez seja esta uma das aprendizagens mais importantes que tenho pela frente.

Aprender a lidar com as minhas preocupações sem as transformar num peso para os meus filhos.

Porque eles têm direito a conhecer a sua saúde, a compreender os riscos que possam existir e a tomar decisões informadas.

Mas também têm direito a viver sem sentir que o futuro está antecipadamente escrito.

Não quero que olhem para si próprios através de uma doença.

Não quero que deixem de sonhar por receio daquilo que poderá acontecer.

Não quero que sintam que uma característica genética determina o seu valor ou tudo aquilo que poderão alcançar.

Quero que aprendam a cuidar de si.

Que respeitem o seu corpo.

Que procurem ajuda quando necessário.

Que compreendam a importância da prevenção, do acompanhamento médico e das escolhas conscientes.

Mas quero, sobretudo, que continuem a descobrir a vida.

Que façam planos.

Que se apaixonem.

Que errem, aprendam, recomeçem e encontrem os seus próprios caminhos.

E sei que, para os ajudar a viver assim, também preciso de aprender a gerir os meus receios.

Não significa escondê-los ou fingir que não existem.

Significa não deixar que sejam eles a conduzir todas as nossas conversas e decisões.

Porque amar também é saber dar espaço à vida, mesmo quando temos medo do que ela poderá trazer.

A felicidade não depende de uma vida sem dificuldades

Durante muito tempo, talvez tenha associado a felicidade dos meus filhos à ideia de que tudo lhes correria bem.

Que teriam saúde, oportunidades, estabilidade e uma vida tranquila.

Continuo a desejar-lhes tudo isso.

Mas começo a compreender que nenhuma vida está livre de dificuldades.

Todos enfrentamos, em algum momento, situações que não escolhemos.

Doenças.

Perdas.

Desilusões.

Mudanças inesperadas.

Caminhos que precisam de ser reconstruídos.

E, ainda assim, a vida pode continuar a ter beleza, significado e momentos de felicidade.

Isto não significa desvalorizar o sofrimento ou romantizar a doença.

Há condições de saúde que impõem limitações reais e exigem cuidados difíceis, por vezes ao longo de toda a vida.

Mas também sei que uma pessoa é muito mais do que aquilo que lhe acontece.

É feita de relações, de afectos, de escolhas, de capacidades e de possibilidades que nem sempre conseguimos antecipar.

Talvez o futuro dos meus filhos não seja exactamente aquele que imaginei quando nasceram.

Mas isso não significa que não possa ser um futuro bonito.

Um futuro deles.

Construído ao seu ritmo, com as suas escolhas, os seus desafios e as suas conquistas.

E talvez amar incondicionalmente seja também isto:

Aprender a aceitar que a felicidade dos nossos filhos pode ter uma forma diferente daquela que sonhámos para eles.

O que ainda posso fazer enquanto mãe

Se não posso mudar o passado nem controlar o futuro, preciso de encontrar serenidade naquilo que está ao meu alcance.

Posso procurar informação credível.

Posso conhecer melhor a nossa história familiar.

Posso acompanhar os meus filhos nas consultas e nos tratamentos, quando precisam e desejam esse apoio.

Posso ajudá-los a fazer perguntas e a compreender as respostas.

Posso estar atenta sem viver permanentemente em alerta.

Posso respeitar as suas decisões e a autonomia que vão conquistando.

Posso ouvi-los quando quiserem falar.

E respeitar o silêncio quando precisarem de espaço.

Posso reconhecer que também tenho medo e procurar apoio quando sentir que esse medo se torna demasiado pesado.

Não preciso de ter todas as respostas.

Não preciso de conseguir resolver tudo.

E não preciso de antecipar todos os problemas para demonstrar que os amo.

Talvez, nesta fase da maternidade, a minha maior responsabilidade seja continuar presente.

Com amor.

Com respeito.

Com confiança.

E com a humildade de reconhecer que há caminhos que só os meus filhos poderão percorrer.

Aos meus filhos, sobre aquilo que não escolhemos

Se um dia lerem estas palavras, gostava que compreendessem uma coisa.

Quando vos desejámos, não sabíamos tudo aquilo que a nossa história genética transportava.

Não conhecíamos todas as fragilidades que poderiam existir, nem os desafios que a vida nos reservaria.

Mas sabíamos que vos queríamos.

E que vos iríamos amar.

Desde o primeiro instante.

Ao longo dos anos, esse amor foi crescendo convosco.

Transformou-se com cada etapa, com cada descoberta, com cada conquista e também com cada preocupação.

Hoje, quando olho para vocês, vejo três pessoas únicas.

Com capacidades, sonhos, vontades e caminhos diferentes.

E, se alguma vez a vida vos colocar diante de uma doença ou de uma dificuldade que não escolheram, gostava que nunca se esquecessem de quem são.

Não são um diagnóstico.

Não são uma predisposição genética.

Não são os medos que eu possa sentir em relação ao vosso futuro.

São muito mais do que isso.

Quero que cuidem de vocês, que procurem conhecimento, que façam escolhas conscientes e que nunca tenham vergonha de pedir ajuda.

Mas também quero que vivam.

Que se permitam ser felizes.

Que continuem a sonhar, mesmo quando os caminhos se tornam mais difíceis.

E, sobretudo, quero que saibam que não precisam de viver para tranquilizar o meu coração de mãe.

A vossa vida pertence-vos.

O meu amor estará aqui para vos acompanhar, não para vos impedir de voar.

O futuro ainda está por escrever

Talvez nunca consiga deixar de me preocupar.

Talvez isso faça parte da forma como vivo a maternidade.

Mas não quero passar os próximos anos a sofrer antecipadamente por situações que podem nunca acontecer.

Não quero que o medo do amanhã me impeça de reconhecer tudo aquilo que os meus filhos são e vivem hoje.

Quero continuar a celebrar as suas conquistas.

A ouvir as suas histórias.

A acompanhar os seus sonhos.

A vê-los crescer, mudar, descobrir quem são e encontrar o seu lugar no mundo.

Porque a vida não acontece apenas quando temos todas as certezas.

Acontece agora.

Nos dias comuns.

Nas conversas à mesa.

Nos abraços inesperados.

Nas gargalhadas.

Nos pequenos momentos que tantas vezes passam despercebidos.

E talvez seja aqui que encontro a esperança de que tanto preciso.

Não numa garantia de que tudo vai correr bem.

Mas na possibilidade de continuar a construir dias bons, mesmo quando existem incertezas.

Não posso mudar aquilo que herdámos. Não posso garantir aos meus filhos uma vida sem dificuldades. Mas posso ajudá-los a acreditar que o seu futuro continua cheio de possibilidades.

E talvez esta seja uma das formas mais profundas de Amor Incondicional.

Amar sem controlar.

Cuidar sem sufocar.

Acompanhar sem decidir por eles.

E confiar, mesmo quando o coração tem medo.

Porque os nossos filhos não são apenas a continuação genética de quem veio antes deles.

São pessoas com uma história própria.

E o futuro deles ainda está por escrever.

Com amor,

SoLu@


Para reflectirmos juntos

Quando somos pais, desejamos proteger os nossos filhos de todas as dificuldades. Mas há situações que não podemos evitar e futuros que não conseguimos prever.

Como aprendemos a viver com essas incertezas sem deixar que o medo ocupe o lugar da esperança?

E como podemos continuar a cuidar dos nossos filhos, respeitando a liberdade de construírem a sua própria vida?

Talvez não existam respostas iguais para todas as famílias.

Mas acredito que partilhar estas inquietações, com respeito e sem julgamentos, também é uma forma de nos sentirmos menos sozinhos.

Para continuar a ler, com amor e esperança

Há reflexões que não terminam na última linha. Continuam noutras histórias, noutras experiências e nas perguntas que fazemos a nós próprias enquanto mães. Se este texto tocou alguma parte da tua história, talvez encontres nestas leituras outras palavras para te acompanhar.

Sobre aprender a acompanhar os filhos quando crescem, sem tentar controlar todos os seus caminhos. É a ligação mais forte a este novo artigo.

Uma reflexão sobre a esperança que permanece mesmo quando não temos certezas sobre o amanhã.

Para recordar que não precisamos de ter todas as respostas para continuar a acreditar nas possibilidades da vida.

Outros testemunhos sobre o crescimento dos filhos, a passagem do tempo e as diferentes etapas da maternidade.

20 anos de Amor Incondicional — O meu primeiro Filho ❤️

20 anos de Amor Incondicional — O meu primeiro Filho

Há 20 anos realizava o sonho de ser Mãe. Hoje continuo a aprender a amar-te, em cada nova fase da tua vida.

11 de Outubro de 2026

Meu querido, meu pequeno Príncipe! ❤️

20 anos!

Meu Deus, como passou tão depressa o tempo!

Parece que foi ontem que estava naquela maternidade, numa noite longa, cheia de ansiedade, dores, expectativas e uma felicidade imensa por saber que estava prestes a conhecer-te.

Recordo aquela noite, o teu Pai a chegar de manhã, as horas que pareciam não passar e, finalmente, à hora de almoço, o momento tão esperado…

Chegaste aos nossos braços!

E naquele instante, sem que eu soubesse ainda tudo o que isso significava, a minha vida mudou para sempre.

Nascias tu. Nascia uma Mãe. Nascia uma nova forma de Amar.

Ser Mãe era um dos meus maiores sonhos. E foste tu que me deste a oportunidade de o realizar pela primeira vez.

Há 20 anos que caminhamos juntos nesta aventura maravilhosa, desafiante e tantas vezes imprevisível que é a maternidade.

E como crescemos, meu Filho!

Ainda me lembro daquele menino…

Daquele menino alegre, sorridente, bem-disposto, que dançava, brincava e parecia encontrar sempre uma razão para sorrir.

Lembro-me da tua alegria, da tua energia, das tuas brincadeiras, das gargalhadas que enchiam a nossa casa.

Do meu pequeno Príncipe, que crescia de dia para dia e me surpreendia com cada nova descoberta.

Hoje, quando olho para trás, há momentos que gostava de poder viver novamente.

Não para mudar alguma coisa.

Apenas para os sentir mais uma vez.

Voltar a pegar na tua mão pequenina, abraçar-te com aquele tamanho, ouvir as tuas gargalhadas de criança, ver-te brincar e dançar com a despreocupação de quem ainda tem tanto mundo por descobrir.

Como é possível já terem passado 20 anos?

Há memórias que o tempo não apaga. Ficam guardadas num lugar muito especial do nosso coração.

E as tuas fazem parte das mais bonitas da minha vida.

Hoje olho para ti e vejo um jovem adulto…

Um jovem que está a construir o seu próprio caminho.

Já estás na universidade, a viver novas experiências, a assumir responsabilidades, a tomar decisões e a descobrir, aos poucos, aquilo que queres para o teu futuro.

Tens as tuas ideias, as tuas opiniões, os teus interesses e uma maneira muito própria de olhar para o mundo.

E eu tenho tanto orgulho em ti!

Orgulho no filho carinhoso que continuas a ser com a tua família.

Na tua responsabilidade, no teu sentido de compromisso, na forma como procuras cumprir as tuas obrigações.

Na tua inteligência, na tua capacidade de aprender, de pensar, de questionar e de procurar as tuas próprias respostas.

Vejo em ti tantas capacidades, tantas possibilidades, tanto futuro por descobrir!

Acredito verdadeiramente que tens tudo para construíres uma vida extraordinária.

Mas sabes uma coisa, meu Querido?

Não precisas de conquistar o mundo para nos encheres de orgulho.

Não precisas de ser o melhor, de acertar sempre ou de corresponder às expectativas dos outros.

Porque o nosso orgulho não depende dos teus resultados, das tuas conquistas ou do caminho profissional que vieres a escolher.

Tenho orgulho em ti, simplesmente por seres quem és.

Também eu continuo a aprender a ser tua Mãe…

Quando nasceste, pensei que a minha missão seria ensinar-te a crescer.

Ensinar-te a andar, a falar, a distinguir o certo do errado, a acreditar em ti, a respeitar os outros e a descobrir o mundo.

Mas ninguém me explicou que, um dia, teria também de aprender a deixar-te caminhar sem segurar constantemente a tua mão.

Que teria de aprender a respeitar os teus silêncios, as tuas escolhas, as tuas opiniões e o teu espaço.

Que chegaria o tempo em que já não me contarias tudo, em que terias os teus próprios amigos, os teus interesses e um mundo que nem sempre conheceria por completo.

E sabes?

Também isso faz parte de crescer.

Tu cresces como filho.

Eu cresço como Mãe.

Aprendo a confiar mais, a perguntar menos e a escutar melhor.

Aprendo que estar presente não significa estar sempre por perto.

Que proteger não é impedir que enfrentes dificuldades.

Que amar também é dar liberdade.

Nem sempre é fácil, confesso.

Há momentos em que sinto saudades daquele menino que procurava o meu colo, que partilhava espontaneamente as suas descobertas e que precisava de nós para quase tudo.

Mas depois olho para ti e percebo que é precisamente isto que desejamos para os nossos filhos: que cresçam, que sejam autónomos, que descubram quem são e que encontrem o seu lugar no mundo.

Tenho saudades do menino que foste, mas quero continuar a descobrir, com amor e respeito, o homem em que te estás a tornar.

Acima de tudo, desejo que sejas Feliz! ❤️

Ao longo destes 20 anos, desejei-te muitas coisas.

Saúde, alegria, amor, amizades verdadeiras, coragem, oportunidades e sonhos realizados.

Desejei que estudasses, que aprendesses, que fizesses boas escolhas e que tivesses todas as ferramentas necessárias para construíres o teu futuro.

Continuo a desejar-te tudo isso.

Mas, à medida que os anos passam, percebo cada vez melhor que há algo ainda mais importante.

Quero que sejas feliz. Feliz à tua maneira.

Que encontres um caminho que faça sentido para ti.

Que tenhas amigos com quem possas rir até te doer a barriga.

Que nunca percas a capacidade de brincar, de te entusiasmares com as pequenas coisas e de encontrares alegria nos momentos mais simples.

Que não deixes que as exigências da vida adulta te façam esquecer a leveza daquele menino que dançava simplesmente porque lhe apetecia.

E que saibas que não tens de estar sempre bem.

A vida nem sempre será fácil.

Haverá dias de entusiasmo e outros de desilusão. Momentos de certeza e outros de dúvida. Conquistas, erros, mudanças de planos e recomeços.

E está tudo bem.

Não precisas de ter todas as respostas aos 20 anos.

Não precisas de saber exactamente onde queres chegar.

Não precisas de demonstrar força em todos os momentos.

Quero apenas que nunca deixes de acreditar em ti, no teu valor e nas possibilidades que a vida ainda tem para te oferecer.

E, nos dias em que não conseguires acreditar tanto em ti, lembra-te de que nós continuaremos a acreditar.

Não para escolhermos o teu caminho por ti, mas para te recordarmos que és capaz de encontrar o teu próprio rumo.

Que nunca te falte um lugar a que chamar Casa…

Meu Filho, há algo que quero que leves contigo para a vida.

Por mais anos que passem, por mais longe que vás, por mais independente que te tornes, haverá sempre um lugar onde podes regressar.

Um lugar onde não precisas de provar nada.

Onde podes ser forte ou vulnerável, estar alegre ou triste, ter certezas ou dúvidas.

Onde podes conversar, ficar em silêncio, pedir ajuda ou simplesmente encontrar um abraço.

Esse lugar será sempre a tua família.

O nosso amor não depende da tua idade, das tuas escolhas ou dos teus sucessos.

Podemos nem sempre concordar contigo. Podemos ter opiniões diferentes. Podemos até não compreender imediatamente algumas das tuas decisões.

Mas nada disso muda o essencial.

És nosso Filho. És amado. E sê-lo-ás sempre.

É isso que significa, para mim, o Amor Incondicional.

Não é querer viver a tua vida por ti.

É amar-te profundamente enquanto aprendes a vivê-la à tua maneira.

20 anos depois… obrigada, meu pequeno Principe!

Obrigada por me teres tornado Mãe.

Por teres sido o meu primeiro grande professor nesta aventura da maternidade.

Contigo aprendi a amar de uma forma que até então não conhecia.

Aprendi que o coração pode crescer muito para além daquilo que imaginamos.

Que ser Mãe é viver com uma parte de nós no mundo, a descobrir a vida através de outros olhos.

Aprendi que não existem mães perfeitas.

Existem mães que amam, que tentam acertar, que também erram, que aprendem, que pedem desculpa e que procuram fazer melhor.

E continuo a aprender.

Há 20 anos, o meu maior desejo era ter-te nos braços.

Hoje, o meu maior desejo é ver-te construir uma vida na qual te sintas realizado, amado, respeitado e verdadeiramente feliz.

Se pudesse pedir-te uma única coisa neste aniversário, seria esta: nunca deixes de cuidar de ti, dos teus sonhos e da tua felicidade.

O mundo pode esperar por muitas conquistas tuas.

Nós queremos, acima de tudo, que vivas.

Que ames.

Que sorrias.

Que encontres paz no teu coração.

E que nunca percas a esperança, mesmo quando os dias forem mais difíceis.

Feliz 20.º Aniversário, meu Príncipe! 🎂❤️

Hoje celebramos os teus 20 anos.

Duas décadas de vida.

Duas décadas de memórias, descobertas, aprendizagens e muito Amor.

E celebro também os meus 20 anos como Mãe.

A mulher que era antes de nasceres já não é a mesma.

Tu transformaste-me.

Fizeste-me descobrir forças que desconhecia, medos que nunca tinha sentido e uma capacidade de Amar que continua a crescer contigo.

Sei que a vida nos reserva ainda muitas mudanças.

Novos caminhos, novas conquistas, novos desafios.

Talvez um dia leias estas palavras, muitos anos depois, e compreendas de outra maneira tudo aquilo que hoje te tento dizer.

Mas quero que, nesse dia, encontres aqui uma certeza que nunca envelhece.

O tempo passa. Os filhos crescem. A vida muda. Mas o Amor verdadeiro acompanha-nos em todas as suas fases.

Há 20 anos, recebemos-te nos nossos braços.

Hoje, continuamos a acompanhar-te com o coração.

Segue o teu caminho, meu Filho.

Sonha muito!

Acredita em ti!

Sê gentil, sê verdadeiro e nunca deixes de ser tu próprio.

E, sobretudo…

Sê Feliz! ❤️

Obrigada por nos teres escolhido a nós como Pais!

Os teus Pais amam-te incondicionalmente!

Ontem, hoje e sempre.

Com todo o meu Amor,

A tua Mãe, SoLu@ ❤️

20 anos de memórias, uma vida inteira de Amor

Desde os antigos Blogs SAPO que tenho guardado palavras para os aniversários do meu primeiro filho. Hoje, no SoLu@, continuo esta tradição, preservando os textos que contam a nossa história.

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  • 19 anos — Amor Incondicional
  • 18 anos — Amor Incondicional
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  • 6.º aniversário do meu pequeno Príncipe

Sexta-feira Nostálgica — Amor de mãe: aquilo que muda quando os filhos crescem

Amor de mãe quando os filhos crescem e começam os seus próprios caminhos

Em 2006 escrevia sobre o amor de uma mãe que ainda estava a nascer. Vinte anos depois, volto a essas palavras quando os meus filhos começam a construir os seus próprios caminhos.

Há textos antigos que são quase fotografias.

Não mostram apenas aquilo que aconteceu.

Mostram quem éramos naquele momento.

O que sonhávamos.

Aquilo que ainda não sabíamos.

E, às vezes, quando voltamos a lê-los muitos anos depois, percebemos que a vida respondeu a perguntas que nem sequer sabíamos que estávamos a fazer.

Foi isso que senti quando voltei ao Arquivo SoLu@ e encontrei um pequeno texto chamado «Amor de Mãe», escrito a 13 de Abril de 2006.

Vinte anos.

É estranho escrever isto.

Porque naquele texto encontro uma mulher no início da maternidade, a tentar imaginar o amor que começava a crescer dentro dela.

Hoje leio-a com os olhos de quem já viveu tantas páginas dessa história.

E há uma frase que me ficou especialmente no coração:

«Vai ser ele próprio.»

Talvez eu ainda não soubesse, naquele momento, tudo aquilo que essas palavras iriam significar.

Eu queria que eles fossem eles próprios

É curioso.

Quando os filhos são pequenos, dizemos tantas vezes que queremos educá-los para serem autónomos.

Queremos que pensem.

Que saibam escolher.

Que tenham valores.

Que tenham coragem.

Que encontrem aquilo que os faz felizes.

Que não vivam apenas para corresponder às expectativas dos outros.

Queremos que tenham asas.

E passamos anos a ajudá-los a construí-las.

Ensinamos a andar.

Depois a atravessar a rua.

A estudar.

A resolver problemas.

A assumir responsabilidades.

A tomar decisões.

A levantarem-se quando alguma coisa corre mal.

Vamos soltando a mão aos poucos, quase sem perceber.

Até chegar o dia em que começam verdadeiramente a voar.

E descobrimos uma coisa para a qual talvez ninguém nos prepare:

desejar que os nossos filhos sejam autónomos e vê-los tornarem-se autónomos são experiências muito diferentes.

Durante muitos anos, amar significou fazer

Ser mãe foi, durante muito tempo, uma sucessão interminável de verbos.

Preparar.

Levar.

Buscar.

Organizar.

Lembrar.

Cuidar.

Perguntar.

Proteger.

Resolver.

Estar.

Havia mochilas, consultas, trabalhos da escola, actividades, horários, refeições, doenças, preocupações, conversas, zangas, abraços e uma infinidade de pequenos gestos que enchiam os dias.

Durante muitos anos fomos necessárias de uma forma muito concreta.

E depois a maternidade começa lentamente a mudar.

Eles já não precisam que façamos tudo.

Não contam tudo.

Tomam decisões sem nos consultar.

Criam rotinas que já não passam pela nossa agenda.

Entram na Universidade.

Vão para os seus alojamentos.

Criam amizades, relações, ideias, escolhas e uma vida que lhes pertence cada vez mais.

Como deve pertencer.

E nós continuamos aqui.

Mas precisamos de descobrir como estar.

O amor não diminui. Muda de lugar.

Talvez seja esta uma das coisas que estou a aprender nesta fase.

O amor de mãe não fica mais pequeno quando os filhos crescem.

Mas deixa de poder manifestar-se sempre da mesma maneira.

Há uma altura em que amar já não é fazer por eles.

É confiar que conseguem fazer.

Já não é evitar todas as quedas.

É saber que terão de cair algumas vezes e confiar que possuem recursos para se levantar.

Já não é escolher o caminho.

É permanecer suficientemente perto para que saibam que podem procurar-nos quando precisarem.

É aconselhar sem decidir.

Acompanhar sem controlar.

Perguntar sem invadir.

Estar disponível sem exigir que precisem de nós.

E talvez esta seja uma das formas mais difíceis do amor.

Porque proteger dá-nos a sensação de que estamos a fazer alguma coisa.

Confiar obriga-nos, muitas vezes, simplesmente a esperar.

«Vai ser ele próprio.»

Volto àquela frase escrita em 2006.

Vai ser ele próprio.

Na altura talvez fosse apenas um desejo.

Hoje percebo a dimensão dessas palavras.

Porque querer verdadeiramente que um filho seja ele próprio significa aceitar que nem sempre escolherá aquilo que escolheríamos.

Terá os seus sonhos.

As suas opiniões.

Os seus amigos.

Os seus erros.

Os seus sucessos.

Os seus medos.

Os seus amores.

Os seus caminhos.

Haverá coisas que compreenderemos.

Outras talvez não.

E amar também será conseguir respeitar aquilo que é deles.

Talvez seja isso o amor incondicional sobre o qual comecei a escrever há tantos anos.

Não um amor que prende.

Não um amor que exige que alguém seja aquilo que imaginámos.

Mas um amor capaz de dizer:

eu estou aqui — e quero que encontres a tua própria maneira de estar no mundo.

Deixar crescer também mexe connosco

Nesta semana do Calendário SoLu@ tenho pensado muito em Deixar Crescer.

Porque quando os filhos crescem, não são apenas eles que mudam.

A maternidade também muda.

E nós mudamos com ela.

Há orgulho.

Muito.

Mas também há saudade.

Há preocupação.

Há silêncio.

Há quartos que ficam vazios mais vezes.

Há horários que já não conhecemos tão bem.

Há histórias das quais recebemos apenas alguns capítulos.

E existe aquela estranha sensação de perceber que fizemos exactamente aquilo que queríamos fazer:

criámos filhos capazes de caminhar sem nós.

Mas o coração precisa de algum tempo para aprender aquilo que a razão já compreendeu.

Talvez seja por isso que deixar crescer também seja um recomeço.

Para eles.

E para nós.

E quem sou eu nesta nova fase?

Há ainda outra pergunta que começa a aparecer.

Quando durante tantos anos uma grande parte da nossa vida se organiza em redor dos filhos, o que acontece quando eles começam a precisar menos dessa organização?

Quem fica?

A mãe continua.

Claro.

Talvez continue sempre.

Mas há também uma mulher que precisa de voltar a encontrar espaço.

Os seus projectos.

O seu corpo.

A sua relação.

Os seus sonhos.

As coisas que gosta de fazer.

O silêncio.

O tempo.

Aquilo que deixou para depois.

Não acredito que esta fase nos peça para sermos menos mães.

Talvez nos peça para aprendermos a ser mães sem deixarmos de voltar a ser também um pouco mais de nós próprias.

Vinte anos depois

Se pudesse falar hoje com a mulher que escreveu «Amor de Mãe», em Abril de 2006, não lhe contaria tudo.

Deixava-a viver.

Deixava-a descobrir os primeiros passos.

Os abraços.

As noites difíceis.

As gargalhadas.

Os medos.

Os irmãos que ainda haviam de chegar.

As alegrias.

As dúvidas.

As adolescências.

Os desafios.

E todos aqueles dias absolutamente normais que, muitos anos depois, percebemos que eram extraordinários.

Mas talvez lhe dissesse uma coisa:

Esse amor de que estás a escrever vai mudar muitas vezes de forma.

Haverá dias em que será colo.

Outros em que será firmeza.

Às vezes será uma conversa.

Às vezes será silêncio.

Um dia será também distância.

Confiança.

Liberdade.

E vais descobrir que deixar alguém crescer não significa amar menos.

Significa acreditar que todo aquele amor serviu também para isto:

dar raízes suficientemente fortes para que um dia possam usar as asas.

Da memória para o presente

Este texto nasceu da releitura de «Amor de Mãe», escrito a 13 de Abril de 2006 e hoje preservado no Arquivo SoLu@.

Vinte anos depois, regresso às palavras daquela mãe que ainda estava a começar e encontro nelas uma pergunta que continua viva:

Como amar profundamente sem impedir que aqueles que amamos encontrem o seu próprio caminho?

Talvez ainda esteja a aprender a resposta.

Mas hoje sei um pouco mais.

Amar também é confiar.

Amar também é dar espaço.

Amar também é deixar crescer.

A eles.

E, talvez agora, também a mim.


Para pensar

Se és mãe ou pai de filhos que já começaram a ganhar autonomia, talvez conheças esta sensação.

O que foi mais difícil para ti à medida que os teus filhos cresceram: deixar de fazer por eles ou aprender a confiar que conseguem fazer sozinhos?

Gostava muito de te ler.

Talvez haja outras mães e outros pais a atravessar exactamente esta fase e a precisar de saber que não são os únicos.


🌿 Continua este caminho

📖 No Arquivo SoLu@
→ Ler o texto original: «Amor de Mãe»

🌿 No SoLu@
→ Quando os filhos vão para a Universidade: um novo ciclo começa
→ Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda

🗓️ Calendário SoLu@ — Setembro: Autocuidado / Recomeço
→ Semana 3 — Deixar Crescer

Porque o Arquivo guarda quem fui.

E o SoLu@ acompanha quem continuo a tornar-me.

Um texto do passado. Um olhar de hoje.

Com carinho,
SoLu@

Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda

Mãe a observar os filhos seguirem o seu caminho numa nova fase da vida

Há momentos em que os filhos começam uma vida nova e, quase sem darmos conta, nós também somos obrigadas a descobrir quem somos nesta nova fase.

Há mudanças que parecem pertencer aos nossos filhos.

A entrada na Universidade.
O primeiro quarto longe de casa.
Novos horários.
Novos amigos.
Mais autonomia.
Decisões que deixam, pouco a pouco, de passar por nós.

Olhamos para eles e pensamos que são eles que estão a começar uma nova etapa.

E estão.

Mas não são os únicos.

Quando a vida dos nossos filhos muda, a nossa também muda.

Talvez esta seja uma das partes menos faladas da maternidade.

Falamos muito sobre preparar os filhos para crescerem.

Falamos sobre lhes dar asas, ensinar responsabilidade, confiar, deixar experimentar, permitir que errem e ajudá-los a tornarem-se adultos capazes de seguir o seu próprio caminho.

Mas falamos menos sobre aquilo que acontece à mãe quando chega finalmente o momento de os deixar voar.

E sobre a pergunta que começa, silenciosamente, a aparecer dentro de nós:

Quem sou eu nesta nova fase?

Passei tantos anos a ensinar-lhes a voar…

Quando os filhos são pequenos, precisam de nós para quase tudo.

Para comer.
Para dormir.
Para atravessar a estrada.
Para organizar a mochila.
Para lembrar horários.
Para escolher.
Para decidir.
Para tranquilizar medos que ainda não sabem nomear.

Depois crescem.

E aquilo que durante tantos anos foi presença diária começa lentamente a transformar-se.

Já não precisamos de saber tudo.

Nem devemos.

Já não somos chamadas para resolver cada dificuldade.

Nem seria saudável fazê-lo.

Passamos de estar no centro da vida deles para aprender a permanecer num lugar diferente: suficientemente perto para que saibam que estamos aqui, mas suficientemente longe para que consigam descobrir quem são.

E talvez seja este um dos exercícios mais difíceis do amor materno:

continuar presente sem impedir que cresçam.

A Universidade muda muito mais do que os horários

Nestes dias, esta reflexão deixou de ser apenas uma ideia para mim.

A Universidade trouxe novos horários, novos caminhos, alojamentos, malas, deslocações, responsabilidades e uma independência cada vez maior.

Um filho já conhece esse mundo e sabe que aquilo que o espera exige trabalho, responsabilidade e muita capacidade para gerir a própria vida.

Outro começa agora esse caminho pela primeira vez.

E eu observo.

Ajudo no que posso.

Preocupo-me, naturalmente.

Pergunto se levaram tudo.

Penso se vão comer bem, se vão dormir o suficiente, se estarão seguros, se conseguirão organizar-se, se vão encontrar as pessoas certas pelo caminho.

Há perguntas que talvez nunca deixemos de fazer só porque somos mães.

Mas percebo também que chegou uma fase em que muitas dessas perguntas terão de ficar comigo.

Porque crescer também significa não ter uma mãe constantemente a antecipar todos os problemas.

E amar também é confiar naquilo que lhes ensinámos.

Mesmo quando custa.

Deixar crescer não é deixar de cuidar

Durante muito tempo podemos confundir cuidado com fazer.

Fazer por eles.
Resolver por eles.
Antecipar por eles.
Evitar que sofram.

Mas há uma altura em que cuidar começa a significar outra coisa.

Significa ouvir sem decidir imediatamente.

Aconselhar sem exigir que sigam o nosso conselho.

Perguntar sem interrogar.

Estar disponível sem invadir.

Aceitar que algumas escolhas não seriam as nossas.

E permitir que descubram, também através dos próprios erros, a pessoa que querem ser.

Isto não significa abandonar.

Muito pelo contrário.

Talvez seja uma das formas mais exigentes de presença.

Porque exige confiança.

Neles.

E em nós.

E quando eles precisam menos de mim?

Há uma pergunta difícil escondida em muitas destas mudanças:

Se eles já não precisam de mim da mesma maneira, onde fico eu?

Não é uma pergunta egoísta.

É humana.

Durante anos, grande parte dos nossos dias é construída à volta das necessidades dos filhos.

Escolas.
Consultas.
Actividades.
Reuniões.
Refeições.
Horários.
Transportes.
Preocupações.
Decisões.

A maternidade ocupa espaço no calendário, na casa, no corpo e na cabeça.

E, quando esse espaço começa a mudar, podemos sentir simultaneamente orgulho e uma espécie de vazio difícil de explicar.

Queríamos que crescessem.

Trabalhámos para isso.

Desejámos que fossem autónomos.

E depois chega o dia em que começam mesmo a sê-lo.

É bonito.

Mas também mexe connosco.

Porque deixar crescer os filhos obriga-nos, de alguma forma, a voltar a crescer também.

Talvez esteja na altura de voltar a perguntar por mim

Setembro tem sido, no Calendário SoLu@, um mês de Autocuidado e Recomeço.

E começo a perceber que este recomeço não precisa de acontecer apenas porque alguma coisa correu mal.

Há recomeços que surgem simplesmente porque a vida mudou.

Os filhos crescem.

As rotinas transformam-se.

A casa ganha outros silêncios.

E nós precisamos de encontrar uma nova forma de habitá-la.

Talvez esta seja uma oportunidade para recuperar perguntas que ficaram adiadas durante muito tempo:

Do que gosto agora?

O que quero aprender?

De que preciso para me sentir bem?

Que partes de mim ficaram esquecidas enquanto estava tão ocupada a cuidar de todos?

Que mulher quero ser nesta próxima fase da minha vida?

Não para deixar de ser mãe.

Nunca deixamos.

Mas para recordar que, antes e para além da maternidade, continua a existir uma mulher com sonhos, curiosidade, necessidades, vontade de aprender, criar, cuidar de si e continuar a crescer.

Os filhos não são o fim da nossa história

Talvez também tenhamos de aprender isto.

Os filhos não vieram preencher toda a nossa vida.

Vieram fazer parte dela.

Profundamente.

Transformaram-nos.

Ensinaram-nos formas de amor que talvez nem soubéssemos existir.

Mas o crescimento deles não pode significar o desaparecimento de quem somos.

Talvez seja exactamente o contrário.

Talvez vê-los construir a sua própria vida seja também um convite para olharmos novamente para a nossa.

Não para preencher depressa o espaço que ficou vazio.

Nem para inventar mil ocupações para evitar sentir saudades.

Mas para perguntar com calma:

O que quero fazer com este espaço novo?

Pode ser pouco.

Um livro que ficou por ler.

Uma caminhada.

Voltar a cuidar do corpo.

Retomar um projecto.

Aprender alguma coisa.

Estar mais presente no casamento.

Encontrar amigas.

Escrever.

Descansar.

Ou simplesmente reaprender a estar connosco sem sentir que precisamos de estar constantemente a fazer alguma coisa por alguém.

Talvez esta também seja uma forma de amor incondicional

Sempre quis que os meus filhos voassem.

Que fossem mais longe.

Que construíssem os seus próprios sonhos.

Que não permanecessem pequenos apenas porque seria mais confortável para mim.

Agora preciso de aprender a viver aquilo que tantas vezes lhes desejei.

Vê-los ir.

Confiar.

Continuar disponível.

E aceitar que há caminhos que terão de percorrer sem mim.

Provavelmente vou continuar a perguntar se comeram.

Provavelmente continuarei a preocupar-me mais do que eles acham necessário.

Provavelmente haverá sempre uma parte de mim que os vê com os mesmos olhos com que os via quando eram pequenos.

Mas quero aprender esta nova forma de maternidade.

Uma maternidade que não prende.

Que não controla para acalmar os próprios medos.

Que não transforma preocupação em vigilância.

Uma maternidade que diz:

Vai. Experimenta. Cresce. Eu estou aqui.

Talvez amar incondicionalmente também seja isto.

Não apenas segurá-los quando precisam.

Mas saber abrir as mãos quando chega o momento de voarem.

E eu também posso continuar a crescer

Há uma imagem bonita nesta fase da vida.

Enquanto os nossos filhos começam novos caminhos, nós não precisamos de ficar paradas no lugar onde os deixámos.

Também podemos avançar.

Eles começam uma etapa.

Nós começamos outra.

Eles descobrem quem são fora da nossa casa.

E talvez nós possamos redescobrir quem somos para além das rotinas que durante tantos anos organizaram os nossos dias.

Não quero olhar para esta fase apenas como aquilo que termina.

Quero olhar também para aquilo que começa.

Para eles.

E para mim.

Uma pequena reflexão para esta semana

Se estás a viver uma mudança semelhante — filhos a crescer, uma saída de casa, uma nova escola, Universidade, trabalho ou simplesmente uma autonomia cada vez maior — experimenta perguntar:

O que mudou na vida deles?

E depois acrescenta uma pergunta que tantas vezes esquecemos:

O que está esta mudança a pedir que mude em mim?

Talvez não seja preciso encontrar já uma grande resposta.

Às vezes um recomeço começa apenas quando temos coragem para fazer uma nova pergunta.


Frase SoLu@

Quando os nossos filhos começam a construir a própria vida, talvez seja também tempo de voltarmos a olhar para a nossa.


Setembro Recomeço

Este texto faz parte da rubrica Setembro Recomeço, um caminho de pequenos regressos a nós próprias durante um mês que tantas vezes nos pede para reorganizar a vida.

E acompanha a Semana 3 do Calendário SoLu@ — Deixar Crescer, dedicada à maternidade, à autonomia dos filhos e à aprendizagem de continuar presente sem impedir que eles sigam o seu caminho.

→ Ler: Calendário SoLu@ — Setembro, Semana 3: Deixar Crescer

Porque deixar crescer os nossos filhos também pode ser uma maneira de voltarmos a crescer com eles.

E talvez este seja o meu recomeço nesta fase: continuar a ser mãe, sem deixar de voltar a ser também eu.

— SoLu@

Chegar a um lugar novo: fazer amigos sem deixar de saber estar sozinho

Jovem a chegar a um lugar novo e a conhecer novas pessoas

Nem sempre encontramos imediatamente o nosso lugar. E talvez uma das coisas mais importantes que possamos ensinar aos nossos filhos seja esta: pertencer é importante, mas nunca deve custar-nos quem somos.

Há alguns anos escrevi no Arquivo SoLu@ sobre os meus filhos, competências sociais e aquela necessidade tão humana de pertencer a um grupo.

Na altura, escrevia como mãe de um filho que tinha sentido a dor de ser excluído.

Doía-lhe a ele.

E doía-me a mim.

Porque há poucas coisas mais difíceis para uma mãe do que perceber que um filho está triste e saber que não há um botão onde possamos carregar para lhe retirar aquela dor.

Eu queria ajudá-lo.

Queria que encontrasse pessoas.

Queria que se sentisse aceite.

Queria que tivesse amigos.

Anos depois, volto ao mesmo assunto de outro lugar.

Os filhos cresceram.

Chegaram outras etapas.

Universidade, alojamentos, turmas novas, pessoas desconhecidas, ambientes diferentes.

E percebo que esta aprendizagem nunca termina verdadeiramente.

Mudam os lugares.

Mudam as idades.

Mudam os grupos.

Mas aquela pergunta continua, de alguma forma, connosco:

Onde é o meu lugar?


Chegar a um sítio novo nem sempre é fácil

Falamos muitas vezes dos novos começos como se fossem apenas entusiasmo.

Uma Universidade nova.

Um novo emprego.

Uma nova cidade.

Uma nova turma.

Uma residência universitária.

Um novo projecto.

Parece tudo cheio de possibilidades.

E é.

Mas também pode ser profundamente desconfortável.

Porque entrar num lugar onde toda a gente é desconhecida obriga-nos a começar de novo nas coisas mais pequenas.

Não sabemos com quem nos sentar.

Não sabemos com quem almoçar.

Não sabemos quem pensa como nós.

Não sabemos quem poderá vir a ser amigo e quem será apenas alguém que passou pela nossa vida.

Há pessoas que parecem integrar-se imediatamente.

Entram numa sala e, poucos dias depois, parece que já conhecem toda a gente.

Outras precisam de tempo.

Observam primeiro.

Aproximam-se devagar.

Criam relações uma a uma.

E não há nada de errado nisso.

Nem toda a gente precisa de entrar num lugar novo e encontrar imediatamente um grupo.


Talvez tenhamos dado demasiada importância à ideia de “ter um grupo”

Quando os nossos filhos são adolescentes preocupamo-nos muito com os amigos.

E compreendo.

As amizades são importantes.

A pertença é importante.

Ter alguém com quem conversar, rir, estudar, sair ou simplesmente estar faz-nos bem.

Mas há uma diferença entre ter relações e sentir que precisamos desesperadamente de pertencer a qualquer grupo.

Hoje diria aos meus filhos:

Não tenham tanta pressa de pertencer que acabem por aceitar lugares onde precisam de diminuir quem são para caber.

Porque nem todas as pessoas que nos rodeiam são amigas.

Nem todas as pessoas com quem almoçamos serão amigas.

Nem todos os colegas serão amigos.

E está tudo bem.

Algumas pessoas serão companheiras de uma cadeira.

Outras de um trabalho.

Algumas estarão connosco durante um semestre.

Outras durante anos.

E talvez uma ou duas fiquem para a vida.

A amizade não se mede pela quantidade de pessoas à nossa volta.

Mede-se muito mais pela qualidade daquilo que conseguimos construir com algumas delas.


Mas como se fazem amigos quando chegamos a um lugar novo?

Talvez comece com coisas muito mais pequenas do que imaginamos.

Um “olá”.

Sentarmo-nos perto de alguém.

Perguntar uma coisa sobre uma aula.

Aceitar um café.

Ir almoçar com colegas mesmo quando ainda nos sentimos um pouco deslocados.

Participar numa actividade.

Juntar-nos a um grupo de estudo.

Perguntar:

“Vais almoçar?”

Ou ter coragem para dizer:

“Queres vir comigo?”

Às vezes ficamos à espera que alguém nos convide.

E a outra pessoa pode estar exactamente do outro lado, igualmente insegura, igualmente nova, igualmente à espera.

Por isso, um dos conselhos que hoje daria aos meus filhos é simples:

não esperem sempre que sejam os outros a aproximar-se.

Façam também um pequeno movimento.

Não precisam de conquistar uma sala inteira.

Basta conhecer uma pessoa.

Depois outra.

As relações constroem-se através da repetição, da confiança e dos pequenos momentos partilhados.

Amizade raramente acontece num instante.

Vai acontecendo.


Não confundam timidez com incapacidade

Também temos de aceitar que não somos todos iguais.

Há quem precise de muita vida social.

Há quem seja feliz com poucas pessoas próximas.

Há quem fale com facilidade com desconhecidos.

E há quem demore semanas até conseguir mostrar verdadeiramente quem é.

Não há apenas uma maneira certa de nos relacionarmos.

O importante é que a timidez, o medo ou a insegurança não acabem por construir uma prisão.

Podemos respeitar o nosso ritmo e, ainda assim, desafiar-nos suavemente.

Hoje falar com uma pessoa.

Amanhã aceitar um convite.

Na próxima semana experimentar alguma actividade.

Pequenos passos.

Sem transformar fazer amigos numa prova que precisamos de passar.


E depois há uma aprendizagem ainda mais difícil: saber estar sozinho

Talvez esta seja uma das coisas que mais desejo ensinar aos meus filhos.

Amem.

Criem amizades.

Procurem pessoas boas.

Construam relações.

Mas aprendam também a estar convosco.

Durante muito tempo ouvi e até repeti a ideia de que nascemos sozinhos e morremos sozinhos.

Hoje talvez diga de outra forma.

Porque não vivemos verdadeiramente sozinhos.

Precisamos uns dos outros.

Amamos.

Somos família.

Criamos laços.

Precisamos de pertença.

Mas há partes da vida que ninguém pode viver por nós.

Há escolhas que são nossas.

Há medos que teremos de atravessar.

Há noites em que teremos de conversar connosco próprios.

Há decisões em que, mesmo rodeados de pessoas que nos amam, somos nós que temos de escolher o caminho.

Por isso, aprender a estar sozinho não significa desistir das pessoas.

Significa não ter medo da nossa própria companhia.


Estar sozinho não é o mesmo que sentir-se abandonado

Esta diferença é importante.

Podemos estar sozinhos durante uma tarde e sentirmo-nos bem.

Ler.

Caminhar.

Estudar.

Ouvir música.

Pensar.

Descansar.

Ir beber um café.

Fazer uma refeição.

E podemos estar no meio de cinquenta pessoas e sentir uma solidão enorme.

Por isso, não quero ensinar aos meus filhos que “não precisam de ninguém”.

Precisamos.

Somos seres de relação.

Quero ensinar-lhes outra coisa:

não precisam de aceitar qualquer companhia apenas para não estarem sozinhos.

Essa diferença pode mudar muitas escolhas.


A autoestima protege-nos quando ainda não encontrámos o nosso lugar

Quando chegamos a um ambiente novo é fácil começar a olhar para os outros como medida de nós próprios.

Eles já têm amigos.

Eles parecem mais confiantes.

Eles saem juntos.

Eles foram convidados.

Eles parecem divertir-se.

E eu?

As redes sociais ainda amplificam essa sensação.

Vemos uma fotografia de dez pessoas a jantar e não vemos os outros vinte que ficaram nos quartos.

Vemos a festa.

Não vemos a insegurança.

Vemos o grupo.

Não vemos quem, mesmo naquele grupo, está a sentir-se sozinho.

É por isso que a autoestima é tão importante.

Porque precisamos de conseguir dizer a nós próprios:

o facto de ainda não ter encontrado as minhas pessoas não significa que haja alguma coisa de errado comigo.

Talvez apenas ainda não tenha passado tempo suficiente.

Talvez aquele não seja o meu grupo.

Talvez esteja a conhecer-me também nesta nova fase.


Como mãe, há coisas que já não posso fazer por eles

Posso ouvir.

Posso aconselhar.

Posso perguntar como correu o dia.

Posso incentivar.

Posso sugerir que convidem alguém.

Posso lembrar-lhes que uma primeira semana não define um ano inteiro.

Posso recordar-lhes tudo aquilo que valem quando algum momento os fizer duvidar.

Mas não posso fazer amigos por eles.

Não posso escolher as pessoas por eles.

Não posso impedir que alguma amizade os desiluda.

Não posso evitar todas as rejeições.

Nem devo.

Porque crescer também é aprender a perceber quem merece ficar perto de nós.

O meu papel mudou.

Talvez antes eu quisesse resolver.

Hoje quero sobretudo estar disponível.

Ser aquele lugar seguro onde podem regressar sem julgamentos.


O conselho que gostaria que levassem para qualquer lugar novo

Se algum dos meus filhos me perguntasse hoje:

“Mãe, cheguei aqui e ainda não conheço ninguém. O que faço?”

Eu diria:

Dá tempo.

Olha à tua volta.

Sorri.

Diz olá.

Faz perguntas.

Aceita alguns convites.

Faz também alguns.

Não julgues as pessoas demasiado depressa.

Mas também não ignores aquilo que sentes junto delas.

Não tentes impressionar toda a gente.

Não mudes aquilo que é importante para ti apenas para caber num grupo.

Procura pessoas com quem possas ser tu.

E, enquanto essas pessoas ainda não aparecem, não transformes esse tempo numa prova de que estás sozinho no mundo.

Vai conhecendo o lugar.

Vai conhecendo as pessoas.

E vai-te conhecendo a ti também.

Não precisas de ser escolhido por toda a gente para ter valor.


Talvez crescer seja também aprender isto

Em 2019 escrevia sobre a dor de ver um filho rejeitado por um grupo.

Hoje continuo a desejar que os meus filhos tenham bons amigos.

Claro que sim.

Desejo-lhes conversas longas.

Risadas.

Pessoas com quem estudar.

Jantares.

Festas.

Confidências.

Amigos que apareçam nos dias bons e, sobretudo, nos difíceis.

Mas desejo-lhes também outra coisa.

Que saibam estar sozinhos sem se sentirem menos.

Que não confundam popularidade com amizade.

Que não confundam quantidade com pertença.

Que tenham autoestima suficiente para sair de uma mesa onde precisam de deixar de ser eles próprios para serem aceites.

E coragem suficiente para se aproximarem de uma mesa nova.

Porque haverá momentos em que ninguém poderá dar esse passo por eles.

Nem mesmo eu.

E talvez deixar crescer seja também isto.

Não lhes retirar todas as dificuldades do caminho.

Mas tentar dar-lhes raízes suficientemente fortes para saberem quem são…

e asas suficientemente seguras para se aproximarem dos outros sem terem de se perder de si próprios.

SoLu@

Para pensar

Quando chegaste pela primeira vez a um lugar onde não conhecias ninguém, o que foi mais difícil?

E que conselho darias hoje a um filho, a um jovem — ou até a ti própria — sobre amizade, pertença e aprender a estar sozinho?

Da memória para o presente

Este texto nasceu também de uma reflexão que escrevi em 2019:

«Filhos — Competências sociais — Pertença a grupo de colegas (não considero amigos)», no Arquivo SoLu@.

Na altura falava da rejeição e da preocupação de uma mãe.

Hoje volto ao mesmo tema noutro momento da vida.

Os filhos cresceram.

As perguntas também.

Mas continuo a acreditar no mesmo essencial:

podemos guiá-los, amá-los e estar disponíveis. O caminho, pouco a pouco, terá de ser deles.

Leituras:

Quando os filhos vão para a Universidade: um novo ciclo começa

Filhos a iniciar um novo ciclo na Universidade e a partir para o alojamento universitário.

Há dias em que ser mãe é preparar malas, engolir a saudade e acreditar que lhes demos asas suficientes para seguirem os seus sonhos.

Hoje começa mais um daqueles ciclos que sabemos que vão chegar, mas para os quais talvez nunca estejamos verdadeiramente preparados.

Hoje, os meus dois filhos mais velhos seguem para os seus alojamentos universitários.

Cada um para o seu.

Cada um para a sua Universidade.

Cada um para a vida que está, pouco a pouco, a construir.

E eu olho para as malas, para tudo aquilo que fomos tentando não esquecer, para as coisas que ainda perguntamos se levaram, para os últimos conselhos — alguns certamente repetidos mais vezes do que seria necessário — e penso:

estão a voar os seus próprios voos.

Era isto que queríamos.

Sempre quisemos que voassem.

E, se possível, que voassem mais alto do que nós.

Que tivessem sonhos.

Que lutassem por eles.

Que encontrassem o seu lugar no mundo.

Só não nos avisaram de que vê-los ganhar asas também apertava assim o coração.


Para um, o caminho já é conhecido

O mais velho começa agora o 3.º ano da Universidade.

Já sabe o que o espera.

Ou, pelo menos, sabe bastante melhor do que sabia há dois anos.

Sabe que vai haver trabalho.

E depois mais trabalho.

E provavelmente ainda mais algum trabalho quando pensar que finalmente terminou.

A Universidade onde está não brinca em serviço.

Enquanto vê amigos que ainda nem começaram as aulas e que, quando começarem, ainda terão pela frente semanas de vida académica, festas, convívios e integração, ele já conhece outro ritmo.

Às vezes até brincamos cá em casa com a diferença.

Parece que alguns cursos conseguem transformar um ano lectivo em seis meses de aulas e muitos momentos de vida académica.

No dele, às vezes parece exactamente o contrário.

Mas também sei tudo o que estes dois primeiros anos lhe deram.

Não apenas conhecimento.

Deram-lhe autonomia.

Capacidade de trabalho.

Persistência.

Responsabilidade.

Ensinaram-lhe que nem sempre conseguimos tudo à primeira.

Que há momentos difíceis.

Que há cansaço.

Que há dúvidas.

E que continuamos.

Talvez seja essa uma das aprendizagens mais importantes da Universidade — e da vida.

Hoje vai com outra segurança.

Já conhece o caminho.

Já conhece as dificuldades.

E talvez seja precisamente por isso que eu saiba que continua a precisar de ouvir:

acredita em ti.


Para ela, tudo começa agora

Com a minha filha do meio, a sensação é diferente.

É o primeiro ano.

A primeira vez que sai assim de casa.

A primeira residência universitária.

As primeiras aulas.

Os primeiros colegas.

Uma nova cidade.

Novas rotinas.

Novas responsabilidades.

Novas liberdades.

E talvez também algumas saudades que só se descobrem quando fechamos a porta do quarto e percebemos que aquele espaço é agora, durante parte da semana, a nossa casa.

Investimos numa residência privada para que pudesse ficar mais perto da Universidade.

Tem todas as condições.

Pensámos na localização.

Na segurança.

No conforto.

Naquilo que poderia facilitar os primeiros meses desta adaptação.

Fizemos o que estava ao nosso alcance.

E, mesmo assim, estamos apreensivos.

Porque há coisas que nenhum quarto confortável consegue resolver por nós.

Não podemos escolher os amigos que vão encontrar.

Não podemos evitar todas as dificuldades.

Não podemos protegê-los de todas as desilusões.

Não podemos garantir que nunca se sintam sozinhos.

Não podemos fazer os trabalhos por eles, enfrentar os professores, resolver os problemas ou escolher os caminhos.

Podemos apenas continuar aqui.

Presentes.

Disponíveis.

A acreditar neles.

Vamos a caminho.

E talvez esta frase diga muito mais do que parece.

Eles vão a caminho da Universidade.

Nós vamos a caminho de uma nova forma de sermos pais.


Deviam entregar-nos uma checklist para esta fase

Enquanto preparávamos tudo, pensei várias vezes:

devia existir um kit para jovens universitários.

Não apenas a lista das coisas que têm de levar.

Lençóis.

Toalhas.

Roupa.

Computador.

Carregadores.

Medicamentos.

Documentos.

Mas uma checklist verdadeiramente útil para quem está prestes a começar a viver longe de casa.

Porque preparar um filho para a Universidade não é só encher uma mala.

É ajudá-lo a perceber que, a partir de agora, terá de cuidar de muitas pequenas coisas que em casa quase aconteciam sem dar por elas.

Por isso, se tivesse de criar hoje uma Checklist SoLu@ para quem vai viver para um alojamento universitário, seria esta.

Checklist prática — o que levar

Documentos e essenciais

  • Cartão de Cidadão;
  • cartão bancário;
  • cartão de estudante ou comprovativo de matrícula;
  • contactos importantes;
  • informações da residência/alojamento;
  • medicação habitual e respectivas receitas, quando necessárias;
  • cópia digital de documentos importantes.

Para o quarto

  • lençóis;
  • almofada, se não estiver incluída;
  • manta;
  • toalhas;
  • cabides;
  • saco para roupa suja;
  • chinelos;
  • extensão eléctrica ou múltiplas tomadas, se forem permitidas;
  • candeeiro de secretária, se necessário;
  • uma fotografia, objecto ou pequena coisa de casa que faça aquele espaço parecer um pouco mais seu.

Higiene e cuidados pessoais

  • produtos de higiene;
  • pequena farmácia com o essencial;
  • termómetro;
  • pensos rápidos;
  • analgésico habitual;
  • protector solar;
  • garrafa de água reutilizável.

Universidade e tecnologia

  • computador;
  • carregadores;
  • auscultadores;
  • mochila;
  • cadernos ou material de escrita;
  • pen/armazenamento externo, se necessário;
  • cópias de segurança configuradas;
  • passwords importantes guardadas de forma segura.

Alimentação

Se o alojamento permitir preparar refeições:

  • alguns recipientes;
  • talheres;
  • caneca;
  • prato e tigela;
  • garrafa de água;
  • alimentos simples para os primeiros dias.

E uma coisa que parece pouco importante até ao dia em que faz falta:

alguma comida de casa.

Porque às vezes uma refeição conhecida também cuida.


A checklist que não cabe dentro da mala

Depois há outra lista.

Talvez a mais importante.

Aquela que não se compra.

Aquela que nenhum supermercado vende.

E que gostava que os meus filhos levassem também com eles.

1. Não precisam de ter tudo resolvido no primeiro dia

Os primeiros tempos podem ser estranhos.

É normal.

Uma nova casa demora a parecer casa.

Uma turma demora a transformar-se em pessoas conhecidas.

Uma cidade demora a deixar de parecer desconhecida.

Dêem tempo ao tempo.

2. Peçam ajuda

Aos colegas.

Aos professores.

Aos serviços da Universidade.

À residência.

A nós.

Pedir ajuda não é sinal de incapacidade.

Muitas vezes é sinal de inteligência.

3. Escolham bem as pessoas

A Universidade traz muitas pessoas novas para a nossa vida.

Algumas ficam.

Outras passam.

Observem.

Conheçam.

Não tenham pressa de pertencer a qualquer grupo apenas para não se sentirem sozinhos.

Estar acompanhado nem sempre significa estar bem acompanhado.

4. Divirtam-se — mas não se esqueçam de porque estão ali

A vida académica também faz parte da Universidade.

Os amigos.

Os jantares.

As festas.

As conversas que ficam pela madrugada.

Há memórias que também se constroem nesses momentos.

Mas liberdade também significa aprender a escolher.

E cada escolha tem consequências.

5. Durmam

Pode parecer um conselho banal.

Não é.

Não há corpo nem cabeça que consigam funcionar indefinidamente à base de noites mal dormidas, cafés e prazos.

Cuidar do sono também faz parte de estudar.

6. Comam

Mesmo nos dias de testes.

Mesmo nos dias em que chegam tarde.

Mesmo quando parece mais fácil viver de qualquer coisa rápida.

O corpo que vos leva até aos vossos sonhos também precisa de ser cuidado.

7. Aprendam a gerir dinheiro

Um orçamento mensal.

As despesas fixas.

Aquilo que podem gastar.

Aquilo que devem guardar.

Talvez esta seja uma das aulas mais úteis que não aparece no horário da Universidade.

8. Não comparem demasiado

Vai haver sempre alguém com melhores notas.

Mais facilidade.

Mais amigos.

Mais confiança.

Mais vida social.

Mais qualquer coisa.

Não façam da vida dos outros uma régua para medir a vossa.

Cada um está a fazer o seu próprio caminho.

9. Telefonem para casa

Não precisa de ser todos os dias.

Nem precisam de contar tudo.

Mas uma mensagem às vezes chega:

“Está tudo bem.”

Nós entendemos o resto.

10. Lembrem-se de quem são

Talvez este seja o conselho que mais gostaria que levassem.

Vão conhecer ideias novas.

Pessoas diferentes.

Vão mudar de opinião sobre algumas coisas.

Vão crescer.

Ainda bem.

Mas, no meio de tudo isso, não deixem que ninguém vos faça acreditar que precisam de deixar de ser quem são para serem aceites.


Também nós temos de aprender a deixá-los ir

Tenho pensado muito nisso.

Durante anos, ser mãe significou fazer.

Preparar.

Levar.

Buscar.

Resolver.

Organizar.

Lembrar.

Perguntar.

Proteger.

Agora começa outra aprendizagem.

Estar sem controlar.

Ajudar sem impedir.

Perguntar sem invadir.

Aconselhar sem decidir por eles.

Confiar.

Talvez criar filhos seja isto:

passarmos anos a segurar-lhes a mão para que aprendam a andar e, depois, termos de aprender a soltá-la para que descubram até onde conseguem chegar.

Não é deixarmos de ser necessários.

É sermos necessários de outra maneira.


Voem

Hoje, quando deixarmos cada um no seu alojamento, sei que provavelmente vou sentir aquele vazio estranho.

A casa fica diferente quando os filhos saem.

Mesmo quando sabemos que voltam.

Mesmo quando só estão a alguns quilómetros.

Mesmo quando podemos telefonar.

Há um silêncio diferente.

Mas quero guardar outra imagem.

Não a dos quartos vazios.

A das asas.

Porque foi para isto que trabalhámos durante tantos anos.

Para que pudessem escolher os seus caminhos.

Para que acreditassem nos seus sonhos.

Para que fossem capazes de partir sabendo que existe sempre um lugar onde podem regressar.

Por isso, aos meus filhos:

voem.

Voem alto.

Trabalhem.

Divirtam-se.

Aprendam.

Enganem-se.

Tentem outra vez.

Escolham bem.

Cuidem de vocês.

Sejam felizes.

E nunca se esqueçam de que, por muito longe que um dia os vossos sonhos vos levem, haverá sempre aqui uma casa, um abraço e alguém profundamente feliz por vos ver crescer.

Desejo-vos um ano cheio de aprendizagem, amizades bonitas, desafios que vos façam crescer e sonhos que continuem a puxar-vos para a frente.

E desejo o mesmo a todos os jovens que começam agora um novo ano lectivo — aos que regressam e aos que entram pela primeira vez neste mundo novo.

E aos pais e mães que hoje fecham malas, verificam pela décima vez se não falta nada e depois regressam a casa com o coração um bocadinho mais apertado:

também nós estamos a começar um novo ciclo.

Talvez o nosso desafio seja confiar nas asas que passámos tantos anos a ajudá-los a construir.

SoLu@

O amor também é isto: dar raízes suficientemente fortes para que um dia tenham coragem de abrir as asas.


Para guardar

Que conselho darias hoje a um jovem que vai viver sozinho pela primeira vez para estudar?

E, se és mãe ou pai de um universitário, conta-me:

o que foi mais difícil quando chegou o momento de o deixar seguir o seu próprio caminho?

Para continuar a ler

Este novo ciclo não começou hoje. Foi sendo construído em muitos pequenos momentos, escolhas e despedidas.

🎓 A Nossa Filha do Meio foi Colocada na Universidade!
O momento em que aquilo que parecia ainda distante se tornou realidade.

📚 O Nosso Primeiro Filho Colocado na Universidade!
No Arquivo SoLu@, a memória da primeira vez que vivemos esta mistura de orgulho, felicidade e a aprendizagem de deixar um filho começar a voar.

🤍 18 anos de Amor Incondicional — Filha do Meio
Sobre crescer, chegar à maioridade, encontrar o próprio caminho e continuar a saber onde é casa.

🌿 Setembro — Autocuidado / Recomeço
Porque os filhos começam novos caminhos — e nós, pais e mães, também precisamos de aprender a viver as mudanças que chegam com eles.

🎓✨ A Nossa Filha do Meio foi Colocada na Universidade! ✨🎓

ovem a iniciar uma nova etapa depois de ser colocada na universidade.

Há momentos na vida dos nossos filhos que parecem chegar devagar.

Vamos falando deles durante meses. Fazemos contas, pesquisamos cursos, universidades, médias, exames, possibilidades. Imaginamos cenários. Tentamos preparar-nos.

E depois chega o dia.

E aquilo que durante tanto tempo foi um “um dia” transforma-se num “é agora”.

Hoje escrevo novamente estas palavras:

Temos uma filha colocada na Universidade. 🎓❤️

Há dois anos escrevi sobre a colocação do nosso primeiro filho na universidade. Foi a primeira vez que vivemos esta mistura tão estranha e tão bonita de orgulho, felicidade, ansiedade e aquela sensação de que alguma coisa dentro da nossa família estava a mudar.

Hoje é diferente.

Não porque seja menos emocionante.

Mas porque cada filho tem o seu caminho. E cada partida toca-nos num lugar diferente do coração.

Desta vez é ela

A nossa filha do meio.

Aquela menina que tantas vezes parece não precisar que lhe digamos para onde deve ir.

Determinada. Independente. Trabalhadora. Persistente.

Com uma força serena muito própria.

Terminou o secundário, fez os exames, escolheu, candidatou-se e esperou.

E nós esperámos com ela.

Talvez os pais saibam bem como são estes dias.

Abrimos páginas, vemos médias, fazemos contas, pensamos nas diferentes possibilidades.

Perguntamos:

“E se entrar aqui?”

“E se não entrar?”

“E o alojamento?”

“E quanto vai custar?”

“Como vamos organizar tudo?”

Porque a entrada na universidade não é apenas uma colocação numa lista.

É uma mudança de vida.

Para eles.

E também para nós.

E o nome apareceu na lista

Colocada.

Uma palavra tão pequena para tudo o que significa.

Por detrás dela estão anos de escola, testes, trabalhos, dias bons e dias menos bons, dúvidas, esforço, escolhas, crescimento.

E estão também os sonhos.

Os dela.

Não os nossos.

Talvez essa seja uma das maiores aprendizagens da maternidade: perceber que chega uma altura em que já não somos nós que escolhemos o caminho.

Podemos orientar.

Podemos aconselhar.

Podemos fazer perguntas.

Podemos ajudar a pensar.

Mas depois temos de confiar.

O caminho é deles.

Ser mãe também é aprender a deixar ir

Quando os nossos filhos são pequenos, passamos grande parte da vida a segurá-los.

Seguramos a mão para atravessar a estrada.

Seguramos quando aprendem a andar.

Seguramos quando têm medo.

Seguramos quando caem.

Mas eles crescem.

E ser mãe passa, pouco a pouco, de segurar para estar disponível.

De decidir por eles para os ajudar a decidir.

De proteger de tudo para confiar naquilo que lhes ensinámos.

Talvez seja esta uma das partes mais difíceis — e mais bonitas — de amar um filho:

dar-lhe raízes suficientemente fortes para que um dia tenha coragem de criar as suas próprias asas.

Agora começa outra aventura

Depois da alegria da colocação chegam as coisas práticas.

A matrícula.

Os horários.

Os transportes.

O alojamento.

As contas.

As mudanças.

Uma nova cidade, novas pessoas, novas rotinas, novas responsabilidades.

E provavelmente alguns medos que ainda nem sabemos que existem.

Mas também chegam oportunidades.

Conhecimento.

Amizades.

Descobertas.

Liberdade.

Erros.

Escolhas.

Crescimento.

Vida.

E é isso que desejo para ela.

Não desejo que tudo lhe corra sempre bem.

Desejo algo maior.

Que saiba encontrar-se quando alguma coisa correr mal.

Que tenha coragem para pedir ajuda.

Que não tenha medo de mudar de opinião.

Que saiba que uma nota nunca define o seu valor.

Que encontre pessoas que lhe façam bem.

Que aprenda muito para além daquilo que estiver nos livros.

Que continue a confiar nos seus instintos.

E que nunca pense que precisa de ter toda a vida decidida aos 18 anos.

Tenho orgulho em ti

Hoje não quero celebrar apenas uma entrada na universidade.

Quero celebrar o caminho que fizeste até aqui.

A menina que foste.

A jovem em que te transformaste.

A tua persistência.

A tua capacidade de trabalhar pelo que queres.

A tua independência.

E essa maneira tão tua de avançar.

Tenho orgulho em ti.

Não porque foste colocada numa universidade.

Mas porque estás a construir o teu caminho.

E isso é muito mais importante.

A nossa família entra também numa nova fase

Há dois anos foi o primeiro.

Agora és tu.

E, inevitavelmente, olho para a nossa família e percebo como o tempo passou.

Durante tantos anos a nossa vida foi feita de levar e buscar filhos, escolas, reuniões, trabalhos, testes, atividades, horários e mochilas espalhadas pela casa.

Parecia que esta fase nunca iria acabar.

Mas acaba.

Ou talvez não acabe.

Transforma-se.

Continuamos a ser pais.

Continuamos preocupados.

Continuamos a querer ajudar.

Só precisamos de aprender uma nova forma de estar presentes.

Mais ao lado.

Menos à frente.

Vai, filha

Vai aprender.

Vai conhecer pessoas.

Vai descobrir lugares.

Vai questionar aquilo que pensavas saber.

Vai errar.

Vai recomeçar.

Vai descobrir quem és quando nós não estivermos ao lado para te dizer o que fazer.

E, sobretudo, vive esta etapa.

Não tenhas pressa de chegar ao fim.

Porque um dia vais olhar para trás e perceber que estes anos também fizeram parte da pessoa em que te tornaste.

Nós estaremos aqui.

Talvez com demasiadas perguntas.

Talvez preocupados com coisas que para ti parecem insignificantes.

Talvez ainda a aprender a deixar-te voar.

Mas estaremos aqui.

Sempre.

Porque há uma coisa que não muda quando os filhos crescem:

o amor não os prende.
O amor dá-lhes um lugar seguro para onde podem sempre voltar.

Parabéns, filha. 🎓✨

Hoje começa um novo capítulo da tua vida.

E eu tenho o privilégio de continuar aqui, a assistir à tua história.

Com orgulho.

Com algum medo.

Com muita esperança.

E, como sempre,

com Amor Incondicional. ❤️


Frase de destaque SoLu@

“Criar um filho também é prepará-lo para um dia seguir um caminho onde já não precisamos de ir à frente — basta que ele saiba que continuamos aqui.”

Ligações internas

18 anos de Amor Incondicional — Filha do Meio

18 anos

A minha menina, a mulher que o mundo tem agora o privilégio de receber.

Meu Amor, minha Princesa,

hoje é o teu dia.

Hoje celebramos 18 anos de ti, do teu belo ser e do amor que trouxeste às nossas vidas.

Dezoito anos.

Parece um número tão grande quando o escrevo. E, ao mesmo tempo, parece que passaram num instante.

Ainda consigo recordar a menina pequena que eras, os teus primeiros passos, os teus gestos tranquilos e essa forma tão tua de estar no mundo: sem fazer muito barulho, mas deixando sempre uma presença bonita em quem te rodeia.

Desde o teu nascimento que tens sido uma filha doce, serena e fácil de acompanhar.

Gostas de ajudar, de colaborar e de não incomodar. Muitas vezes preferes resolver sozinha, guardar para ti ou facilitar a vida aos outros.

Essa generosidade faz parte de quem és.

Mas hoje, ao entrares na vida adulta, quero também lembrar-te de uma coisa importante: não precisas de passar pela vida sem incomodar.

Podes pedir ajuda.

Podes dizer que estás cansada.

Podes precisar de colo, mesmo sendo adulta.

Podes ocupar o teu espaço, expressar o que sentes e deixar que os outros também cuidem de ti.

A primeira neta da família

Foste a primeira neta da família.

A primeira menina a chegar e a despertar uma ternura nova em todos nós.

O teu irmão já tinha aberto o caminho e, contigo, vivi a maternidade de uma forma um pouco mais tranquila. Algumas das inseguranças da primeira vez já tinham passado, embora cada filho traga sempre novas perguntas, novos receios e uma forma diferente de nos ensinar a ser mãe.

Quando nasceste, os teus pés estavam virados para dentro.

Recordo-me de a enfermeira me tranquilizar e de dizer que, com massagens, tudo ficaria bem. Disse até que ainda haverias de ser bailarina.

E foste.

Talvez tenha sido apenas uma coincidência, mas essa pequena memória ficou guardada em mim como se a vida já estivesse, naquele instante, a revelar um pedaço da pessoa que virias a ser.

Sê a bailarina da tua vida

A dança fez parte do teu crescimento.

Ensinou-te passos, ritmo, equilíbrio e disciplina. Mas ensinou-te também a repetir quando não saía bem, a continuar quando o corpo estava cansado e a confiar no trabalho necessário para chegar mais longe.

Aos 15 anos, escrevi-te:

“Sê a bailarina da tua vida feliz.”

Hoje volto a dizer-te o mesmo, mas com um significado ainda maior.

Sê a bailarina da tua vida.

Escolhe os teus passos.

Encontra o teu ritmo.

Não vivas apenas ao ritmo das expectativas dos outros.

Há momentos em que a vida será leve e tudo parecerá acontecer ao som da música certa. Noutros, perderás o equilíbrio, falharás um passo ou terás de parar para aprender tudo de novo.

Isso também faz parte da dança.

O importante não é fazer tudo de forma perfeita. É não deixares de te escutar e de regressar a ti.

Uma força que não precisa de fazer barulho

Sempre soubeste o que querias.

És trabalhadora, persistente, responsável e determinada.

Não és uma pessoa que precise de falar muito sobre aquilo que vai fazer. Preferes mostrar através do teu esforço, da tua dedicação e da forma séria como enfrentas os teus desafios.

Tens uma força serena.

Uma força que nem sempre se vê imediatamente, mas que está presente nas tuas escolhas, na tua capacidade de continuar e na exigência que colocas em tudo o que fazes.

Este ano terminaste o secundário.

Fechaste uma etapa feita de aulas, estudo, desafios, dúvidas, amizades, crescimento e muitas aprendizagens.

Ainda há decisões por tomar, resultados por conhecer e novos caminhos por escolher. Mas hoje não quero falar apenas daquilo que virá.

Hoje quero que pares e reconheças tudo aquilo que já conquistaste.

Chegaste até aqui com o teu trabalho.

Com a tua persistência.

Com os teus passos.

E nós temos muito orgulho em ti.

Um pouco de mim e tanto do teu pai

És, dos nossos três filhos, aquela que fisicamente mais se parece comigo.

Por vezes, olho para ti e reconheço os meus traços, certas expressões e pequenos gestos.

Mas tens também muito do teu pai.

Partilhas com ele muitos gostos, formas de pensar e características que fazem de ti uma mistura bonita de nós dois.

És um pouco de mim.

És um pouco do teu pai.

Mas és, acima de tudo, tu.

Única.

Com os teus sonhos, os teus gostos, as tuas escolhas e a tua maneira tão própria de caminhar pela vida.

E um dos maiores desafios de ser mãe é exactamente este: dar raízes suficientemente fortes para que os filhos saibam onde é casa e, depois, encontrar coragem para lhes permitir abrir as asas.

A minha menina, a mulher que o mundo recebe

Hoje atinges a maioridade.

Para a lei, tornas-te adulta.

Para mim, continuarás sempre a ser a minha menina.

A menina doce que gostava de ajudar.

A primeira neta.

A bailarina.

A jovem trabalhadora, persistente e responsável.

Mas és também uma mulher que o mundo tem agora o privilégio de receber.

Desejo profundamente que o mundo te trate bem.

Tenho-te escrito este desejo ao longo dos anos porque sei que a vida nem sempre é tão justa ou tão delicada como gostaríamos.

Desejo que encontres pessoas que respeitem a tua bondade, que reconheçam o teu valor e que não confundam a tua tranquilidade com fraqueza.

Que encontres amizades verdadeiras.

Que conheças um amor que cuide de ti, que te respeite e que nunca te peça para seres menos do que és.

Que tenhas oportunidades para crescer, aprender e mostrar tudo aquilo de que és capaz.

E, quando o mundo não te tratar como mereces, espero que tenhas força para te proteger, coragem para estabelecer limites e confiança para te afastares do que te faz mal.

Não precisas de ter tudo decidido aos 18 anos

Fazer 18 anos é entrar numa nova fase, mas não significa que tenhas de saber imediatamente todas as respostas.

Não precisas de decidir hoje quem serás para sempre.

Terás tempo para escolher, experimentar, aprender, mudar de ideias e recomeçar.

Alguns sonhos vão acompanhar-te durante muitos anos. Outros poderão mudar à medida que tu própria fores crescendo.

E está tudo bem.

Mudar de caminho não significa desistir. Por vezes, significa apenas conheceres-te melhor.

Desejo que conquistes os teus sonhos, mas desejo ainda mais que sejas feliz no caminho até eles.

Que não te percas de ti para corresponderes às expectativas de ninguém.

Que continues a ser responsável, como tens sido até agora, mas que não transformes a responsabilidade num peso permanente.

Que trabalhes pelo que desejas, mas que saibas descansar.

Que cuides dos outros, mas que não te abandones.

Que tenhas coragem para dizer “sim” às oportunidades e maturidade para dizer “não” ao que não respeita os teus valores.

O orgulho de sermos teus pais

Tenho um orgulho imenso em ser tua mãe.

Temos um orgulho imenso em sermos teus pais.

Não apenas pelas tuas conquistas, pelo teu trabalho ou pela responsabilidade que sempre demonstraste.

Temos orgulho na pessoa que és.

Na tua sensibilidade.

Na tua persistência.

Na forma como ajudas.

Na tua força tranquila.

No belo ser que nos tens oferecido ao longo destes dezoito anos.

Amamos-te não pelo que fazes, pelo que alcanças ou por aquilo em que te tornarás.

Amamos-te simplesmente porque existes.

Porque és nossa filha.

Porque és tu.

Obrigada por nos teres escolhido como pais.

Obrigada por nos ensinares outra forma de amar, de cuidar e de ser família.

Feliz maioridade, minha Princesa

Desejo-te um aniversário muito feliz e uma bonita maioridade.

Aproveita esta nova fase da tua vida.

Vive-a com responsabilidade, como sempre viveste até agora, mas também com alegria, curiosidade e liberdade.

Sonha muito.

Trabalha pelos teus sonhos.

Dança ao teu ritmo.

Não tenhas medo de mudar os passos quando a vida mudar a música.

E lembra-te sempre:

não importa a idade que tenhas, o caminho que escolhas ou a distância a que a vida te leve, haverá sempre um lugar onde não precisas de provar nada para seres amada.

Esse lugar é junto de nós.

Feliz 18.º aniversário, minha menina.

O mundo tem o privilégio de te receber como mulher. E nós temos, há dezoito anos, o privilégio de te amar como filha.

Amo-te incondicionalmente.

A Mãe e o Pai

Uma vida escrita, aniversário após aniversário

Desde os teus 13 anos que tenho guardado neste espaço algumas palavras para ti.

Cada texto é uma fotografia escrita da menina e da jovem que eras naquele momento. Juntos, formam uma pequena história do teu crescimento — e também da mãe que fui aprendendo a ser ao teu lado.

O Arquivo SoLu@ guarda estas palavras como memória viva. O solua.pt recebe agora um novo capítulo: a chegada da minha filha à maioridade.

A minha mãe faz anos: quando a memória também é uma forma de amor

Há pessoas que são raiz.

Hoje volto ao arquivo para reencontrar um texto muito especial: “80 anos vividos com a minha mãe”.

Há textos que não envelhecem. Apenas mudam de lugar dentro de nós.

Quando os escrevemos, pertencem a um momento. Anos depois, quando os revisitamos, já trazem outra luz: a luz do tempo que passou, da vida que continuou, das pessoas que permanecem connosco de outra forma.

No dia 10 de Julho, a minha mãe volta a ser presença central neste espaço. Não apenas porque faz anos, mas porque representa uma parte essencial da minha história: a raiz, a memória, a família, a força discreta, o amor imperfeito e verdadeiro que nos acompanha.

Neste mês de Julho, em que o Calendário SoLu@ nos convida à resiliência e ao descanso, revisitar este texto é também uma forma de reconhecer que nem sempre precisamos de ser fortes sozinhas.

Às vezes, a resiliência começa exactamente aqui: em falar com alguém em quem confiamos, em partilhar sentimentos, em lembrar que há colos, vozes e presenças que nos ajudam a respirar melhor.

O arquivo guarda essa memória.

E hoje, eu trago-a de volta ao presente.

Sexta-Feira Nostálgica — Dia 10 de Julho: A mulher que sempre soube em quem confiar

Há dois anos, o dia 10 de Julho já era, para mim, sinónimo de uma só coisa: o aniversário da minha Mãe. Em 2024, escrevi sobre confiança — sobre como a família também pode ser o nosso porto de abrigo, sobre como ter alguém a quem contar os nossos sentimentos é um dos maiores presentes da vida. E, sem surpresa nenhuma, foi exactamente nesse dia que percebi, mais uma vez, que essa pessoa, para mim, é a minha Mãe.

Um ano depois, em 2025, celebrei os 80 anos dela com um texto que ainda hoje me emociona reler: sobre uma vida de amor, sabedoria e presença. Sobre uma mulher que canta desgarradas com o irmão, que tem um pé de dança leve, que sabe rir de si mesma e que continua, com toda a simplicidade, a ensinar-nos a viver.

Hoje, em 2026, ela faz 81 anos. E esta semana, aqui no Calendário SoLu@, temos falado sobre limites — e sobre como eles também são amor-próprio. Talvez seja por isso que volto sempre a este dia: porque foi ela quem primeiro me ensinou que confiar em alguém, e deixar-nos cuidar, não é fraqueza. É, também, uma forma de nos respeitarmos.

Parabéns, Mãe. Obrigada por seres o meu porto de abrigo, ontem e hoje.

E tu, que lês isto: hoje, permite-te falar com alguém em quem confies. Partilhar não é pedir demais — é, muitas vezes, o maior gesto de amor-próprio que podemos ter.

Com carinho, SoLu@

16 Anos de Amor Incondicional — Filha mais nova

16 anos de amor incondicional — filha mais nova

Meu Amor, Minha Princesa! 👑

Hoje é o teu dia. Hoje celebramos 16 anos de ti.

Dezasseis anos em que me tens ensinado — com a tua intensidade, com a tua teimosia, com a tua ternura — o que é amar sem reservas. Também me tens ensinado que o amor incondicional não é amar apenas quando é fácil.

Só para memória tenho te escrito neste dia aos doze, aos treze, aos catorze, aos quinze.

Hoje eu estou aqui outra vez, a olhar para ti — já não princesa pequena, mas uma jovem que ocupa o espaço com uma presença que não passa despercebida. Com essa vontade muito tua de chegares antes do tempo, de viveres antes da hora, de fazeres tudo à tua maneira.

Continuas a ser a rebelde de coração grande. A que fala, questiona, discorda — e eu já sei que os cabelos brancos que tenho são, em parte, obra tua. 😄 Com muito amor, claro.

A adolescência tem sido uma terra nova para nós as duas, e há dias em que comunicar contigo é uma arte que ainda estou a aprender. Quando estás com sono, cansada, com fome, ou quando o período está para vir, o melhor que posso fazer é respirar fundo e esperar que a tempestade passe. Não te culpo. O corpo fala mais alto do que qualquer palavra.

Há dias em que ainda vejo em ti a menina pequena, sensível, curiosa, cheia de energia, que falava sem parar e queria ajudar todos os animais indefesos.
Noutros dias, vejo a jovem que estás a tornar-te: mais reservada, mais dona de si, mais exigente com o mundo, mais consciente das suas escolhas, mais difícil de alcançar.

E eu, que sou tua mãe, fico muitas vezes no meio desse caminho:
entre a vontade de te proteger e a necessidade de te deixar crescer;
entre o desejo de te compreender e o medo de não conseguir chegar a ti;
entre a saudade da menina que foste e o orgulho pela rapariga que estás a ser.

A alimentação continua a ser uma batalha silenciosa que já aqui trouxe. Não desisto, não desistirei. Porque tu também não desistes — mesmo quando é difícil, mesmo quando o teu corpo parece ir contra ti.

Mas há uma coisa que me encanta neste teu Ser crescido: a forma como olhas para os outros. Preocupas-te. Com os animais, com os amigos, com o mundo — às vezes mais do que com tu mesma. Tens essa capacidade rara de sentir o que está à tua volta, de te indignar com a injustiça, de querer fazer algo. Não percas isso, por favor.

E continuas a fazer-me pensar. Lembras-te quando me perguntaste se o mundo onde vivemos é apenas uma simulação com falhas? Fiquei sem resposta nessa altura. Hoje respondo-te assim: seja este mundo real ou simulado, o que sinto por ti é completamente real. O teu riso, a tua raiva, as tuas perguntas impossíveis — são a coisa mais concreta que existe na minha vida.

Vejo a vida a passar depressa demais.

Dezasseis anos. Já não és criança. Ainda não és adulta. Estás naquele lugar estranho e bonito onde tudo parece urgente e tudo parece possível ao mesmo tempo. Aproveita isso — mesmo que doa, mesmo que seja confuso.

Hoje não te peço que sejas perfeita.
Nunca quis isso para ti.

Peço-te apenas que continues a descobrir quem és.
Que aprendas a cuidar de ti.
Que respeites o teu corpo, o teu ritmo, as tuas emoções e a tua verdade.
Que saibas pedir ajuda quando precisares.
Que não confundas força com ter de aguentar tudo sozinha.
Que nunca percas essa capacidade tão tua de te preocupares com os outros, mas que também aprendas a olhar por ti com a mesma ternura.

A vida vai pedir-te escolhas.
Vai trazer-te dúvidas.
Vai desafiar-te.
Vai mostrar-te que crescer nem sempre é simples.

Mas eu desejo que saibas sempre isto:

não precisas de conquistar o meu amor.
Ele já é teu.

Mesmo nos dias difíceis.
Mesmo quando discutimos.
Mesmo quando não nos entendemos.
Mesmo quando a adolescência fala mais alto do que o coração.
Mesmo quando eu própria me sinto cansada e sem a paciência que gostava de ter.

O meu amor por ti não depende do teu humor, das tuas notas, das tuas escolhas, da tua forma de comer, da tua forma de comunicar ou da fase em que estás.

És minha filha.
E isso basta.

Obrigada por estes 16 anos de amor, de aprendizagem, de sustos, de gargalhadas, de desafios, de ternura escondida e de vida verdadeira.

Obrigada por me ensinares que ser mãe é também crescer.
É também mudar.
É também pedir desculpa.
É também tentar de novo.

Que os teus 16 anos sejam vividos com alegria, saúde, amor e verdade.
Que continues a ser tu — com menos peso nos ombros, mais confiança no coração e mais calma dentro de ti.

Obrigada por me escolheres como mãe. Uma vez mais, e sempre.

Amo-te incondicionalmente. 💖

Mãe

Artigo integrado na rubrica Ser Mãe