Sexta-feira Nostálgica — Como fazer um recomeço na tua vida?

recomeçar não é apagar o caminho anterior — é continuar de outra maneira

Um texto do passado. Um olhar de hoje.

Há textos antigos que reencontramos e parecem pertencer a outra pessoa.

E há outros que, apesar dos anos, continuam a fazer-nos perguntas.

“Como fazer um recomeço na tua vida?” é um desses textos.

Quando o escrevi, acreditava — como continuo a acreditar — que há momentos em que precisamos de parar, olhar para a nossa vida e perceber que alguma coisa tem de mudar.

Mas hoje há uma palavra nesse título que leio de maneira diferente:

recomeço.

Porque talvez recomeçar não seja apagar tudo o que ficou para trás.

Talvez não seja começar do zero.

E certamente não significa termos finalmente descoberto a fórmula para fazer tudo bem.

Hoje, em Setembro de 2026, depois de escrever “Não fiz tudo. Mas voltei a cuidar de mim.”, percebo o recomeço de outra forma.

Mais pequena.

Mais possível.

Mais verdadeira.

Recomeçar, para mim, é voltar a escolher o caminho, mesmo levando comigo tudo aquilo que ainda não está resolvido.


1. O texto que reencontrei

“Como fazer um recomeço na tua vida?”

Só o título parece conter uma promessa.

A possibilidade de mudar.

De virar uma página.

De deixar alguma coisa para trás e começar novamente.

Talvez seja por isso que a ideia de recomeço nos atrai tanto.

Gostamos da ideia de uma página em branco.

De uma segunda-feira.

De Setembro.

De Janeiro.

De um aniversário.

De uma data que nos permita dizer:

“Agora vai ser diferente.”

Também eu já fiz isso muitas vezes.

Criei planos.

Defini objectivos.

Prometi a mim própria que iria mudar hábitos, organizar melhor os dias, cuidar mais de mim, fazer exercício, alimentar-me melhor, escrever mais, parar mais, preocupar-me menos.

Algumas coisas consegui.

Outras não.

Algumas comecei e abandonei.

Outras ficaram pelo caminho.

E houve ainda aquelas que só consegui muito mais tarde do que tinha imaginado.

Talvez seja exactamente por isso que hoje consigo regressar a este texto sem sentir que tenho de provar que aprendi finalmente “como se faz um recomeço”.

Não sei se existe uma fórmula.

Sei apenas que já recomecei muitas vezes.

E que cada recomeço me ensinou alguma coisa.


2. Quem eu era quando o escrevi

Quando escrevi este texto, olhava para o recomeço sobretudo como uma oportunidade de mudança.

Havia qualquer coisa bonita nisso.

A esperança de podermos escolher outro caminho.

A convicção de que o passado não tinha de determinar tudo aquilo que ainda viria.

Continuo a acreditar profundamente nisso.

Mas penso que, nessa altura, ainda havia em mim uma certa ideia de que recomeçar significava fazer diferente — e fazer melhor.

Como se fosse possível estabelecer uma fronteira:

antes e depois.

Antes, aquilo que não resultou.

Depois, a nova vida.

Antes, os erros.

Depois, as decisões certas.

Antes, a mulher que não conseguiu.

Depois, a mulher que finalmente conseguiria.

Hoje sorrio um pouco perante essa ideia.

Não porque estivesse errada.

Mas porque a vida me ensinou que não existem fronteiras assim tão perfeitas.

Nós não acordamos numa manhã completamente diferentes.

Não deixamos as inseguranças todas para trás.

Não abandonamos de uma só vez os hábitos que nos fazem mal.

Não passamos a cuidar de nós todos os dias só porque decidimos que chegou o momento.

Levamos connosco muitas coisas.

As boas e as difíceis.

As aprendizagens e os medos.

As conquistas e as fragilidades.

Recomeçamos com a pessoa que já somos.

E talvez seja precisamente isso que torna um recomeço verdadeiro.


3. O que ainda reconheço neste texto

Apesar de tudo o que mudou, há uma coisa que continuo a reconhecer profundamente:

a esperança.

Acredito em recomeços.

Talvez até mais hoje do que acreditava quando escrevi aquelas palavras.

Acredito que podemos mudar de opinião.

Mudar de hábitos.

Mudar prioridades.

Voltar a estudar.

Voltar a amar.

Voltar a escrever.

Voltar a mexer o corpo.

Voltar a cuidar da saúde.

Voltar a sonhar.

Voltar a tentar uma coisa que não conseguimos da primeira vez.

E acredito, sobretudo, que nunca precisamos de esperar por uma data especial para o fazer.

Às vezes o recomeço acontece numa segunda-feira.

Outras vezes acontece numa quinta-feira qualquer, depois do jantar, quando percebemos simplesmente:

“Eu não quero continuar assim.”

Há recomeços que toda a gente vê.

Uma mudança de casa.

Um novo trabalho.

Uma separação.

Um casamento.

Um nascimento.

Uma viagem.

Um projecto.

E há outros que ninguém vê.

Decidir voltar a cuidar de nós.

Parar de falar connosco com tanta dureza.

Aprender a dizer não.

Perdoar alguma coisa.

Aceitar outra.

Voltar a caminhar.

Dormir melhor.

Pedir ajuda.

Escolher paz onde antes escolhíamos conflito.

Esses recomeços quase não fazem barulho.

Mas podem mudar uma vida inteira.


4. O que hoje vejo de maneira diferente

Há poucos dias escrevi no SoLu@:

“Não fiz tudo. Mas voltei a cuidar de mim.”

Esse texto nasceu do balanço dos 30 dias para me sentir melhor no meu corpo.

Eu tinha feito um plano.

Tinha ideias.

Tinha artigos pensados.

Tinha intenções.

E a vida não aconteceu exactamente como estava no calendário.

Não fiz tudo.

Durante muito tempo, talvez tivesse olhado para isso começando pela parte que ficou por fazer.

Hoje tentei olhar primeiro para aquilo que aconteceu.

Voltei ao movimento.

Voltei ao ginásio.

Voltei a prestar atenção ao meu corpo.

Comecei novamente a pensar na importância de ganhar força, de cuidar da alimentação sem viver em culpa e de fazer escolhas que possam contribuir para a qualidade da minha vida no futuro.

Não cumpri o plano todo.

Mas alguma coisa mudou.

E foi aí que percebi uma coisa que se liga profundamente a este texto antigo:

um recomeço não precisa de ser perfeito para ser um recomeço.

Talvez seja esta uma das maiores diferenças entre a mulher que escreveu “Como fazer um recomeço na tua vida?” e a mulher que o relê em 2026.

Antes, eu procurava talvez uma maneira de começar outra vez.

Hoje sei que, muitas vezes, não precisamos de começar outra vez.

Precisamos de continuar.

Continuar de maneira diferente.

Ajustar.

Parar durante algum tempo.

Voltar.

Fazer menos.

Escolher melhor.

Perdoarmo-nos pelo caminho que não cumprimos exactamente como imaginávamos.

Porque começar do zero é uma ilusão.

Nunca começamos do zero.

Começamos com tudo aquilo que vivemos.

Com as quedas.

Com as escolhas erradas.

Com aquilo que funcionou.

Com aquilo que descobrimos sobre nós.

Com as pessoas que amámos.

Com as perdas.

Com as cicatrizes.

Com a experiência.

Começamos exactamente onde estamos.


5. O que esta memória me ensina agora

Setembro chegou ao Calendário SoLu@ com duas palavras:

Autocuidado / Recomeço.

E não poderia haver melhor momento para reencontrar este texto.

Porque Setembro tem essa sensação de início.

As férias terminam.

As escolas recomeçam.

As rotinas reorganizam-se.

Os dias começam lentamente a mudar.

E parece existir no ar aquele convite para voltar a pôr a vida no lugar.

Mas este ano não quero entrar em Setembro com uma lista interminável daquilo que preciso de melhorar.

Quero entrar com outra intenção:

perceber o que vale a pena continuar.

Porque recomeçar também pode ser isto.

Não lançar fora Agosto.

Não considerar os planos incompletos um fracasso.

Não olhar para tudo o que ficou por fazer.

Mas perguntar:

O que aprendi que quero levar comigo?

Quero continuar a mexer o meu corpo.

Quero continuar a cuidar de mim sem transformar esse cuidado numa obrigação pesada.

Quero continuar a aprender que descanso não é preguiça.

Quero continuar a aceitar que há semanas melhores do que outras.

Quero continuar a fazer planos — porque gosto deles e ajudam-me — sem esquecer aquilo que escrevo tantas vezes:

o calendário é um guia, não uma prisão.

E quero continuar a compreender que uma vida com sentido não se constrói apenas nas grandes decisões.

Constrói-se naquilo que repetimos.

No pequeno gesto.

Na escolha de hoje.

No “vou tentar outra vez”.

Talvez um recomeço verdadeiro comece exactamente aí.


6. E tu, o que precisas de recomeçar?

Não vou perguntar:

“Se pudesses mudar a tua vida, o que mudarias?”

É uma pergunta demasiado grande.

Pode até assustar.

Quero perguntar-te outra coisa:

Se pudesses recomeçar apenas uma coisa neste Setembro, qual seria?

Talvez cuidar mais de ti.

Talvez dormir.

Talvez mexer o corpo.

Talvez voltar a ler.

Talvez terminar alguma coisa.

Talvez começar aquilo que tens adiado.

Talvez recuperar uma amizade.

Talvez pôr um limite.

Talvez organizar as tuas finanças.

Talvez procurar ajuda.

Talvez voltar a escrever.

Talvez simplesmente criar dez minutos por dia em que não tens de cuidar de ninguém além de ti.

Escolhe uma coisa.

Não tentes reconstruir a vida inteira numa segunda-feira.

Escolhe um pequeno começo.

E depois pergunta:

Qual é o gesto mais pequeno que posso fazer hoje nessa direcção?

Pode parecer pouco.

Mas a vida também se transforma através das coisas pequenas que decidimos repetir.


7. Da memória para o presente

É talvez esta a parte de que mais gosto nesta Sexta-feira Nostálgica.

Poder olhar para uma pergunta antiga sem sentir que preciso de lhe dar exactamente a mesma resposta.

O texto fica.

A memória fica.

A mulher que o escreveu também fica.

Mas eu continuei a viver.

E viver mudou algumas das minhas respostas.

O Arquivo SoLu@ guarda aquilo que escrevi e aquilo que fui pensando ao longo dos anos.

O SoLu@ de hoje permite-me regressar a essas palavras e perguntar:

Ainda acredito nisto?

Às vezes acredito exactamente da mesma maneira.

Outras vezes acrescentaria alguma coisa.

E, de vez em quando, diria à mulher que escreveu aquelas palavras:

“Espera. A vida ainda te vai ensinar outra forma de olhar para isto.”

Hoje, se tivesse de responder novamente à pergunta:

Como fazer um recomeço na tua vida?

talvez já não escrevesse uma lista muito longa.

Diria apenas:

Começa onde estás.

Não onde gostarias de estar.

Não onde achas que já devias ter chegado.

Não na versão perfeita de ti que imaginaste.

Aqui.

Com aquilo que conseguiste.

Com aquilo que não conseguiste.

Com o que aprendeste.

Com o que ainda dói.

Com o que ainda queres mudar.

E dá um passo.

Só um.

Porque, como escrevi há poucos dias:

Não fiz tudo. Mas voltei a cuidar de mim.

Talvez seja esta a resposta que o meu texto antigo ainda não conhecia.

Não temos de fazer tudo para recomeçar.

Não temos sequer de ter tudo resolvido.

Às vezes basta voltarmos a escolher-nos.

E amanhã escolhermos outra vez.


🌿 Da memória para o presente

📖 No Arquivo SoLu@:
Como fazer um recomeço na tua vida?

🌿 No SoLu@:
Não fiz tudo. Mas voltei a cuidar de mim.

🗓️ Calendário SoLu@ — Setembro – Autocuidado / Recomeço

Este mês não te convida a mudares tudo.

Convida-te a escolher uma coisa que merece ser cuidada — e a começar por aí.

Porque o calendário é um guia, não uma prisão.

E porque talvez recomeçar não seja mudar a vida toda.

Talvez seja apenas voltar a escolher-nos, um pouco de cada vez.

Sexta-feira Nostálgica — Um texto do passado. Um olhar de hoje.

Com carinho,
SoLu@

Não fiz tudo. Mas voltei a cuidar de mim.

Não fiz tudo. Mas voltei a cuidar de mim.

O que ficou dos 30 dias para me sentir melhor no meu corpo

Quando criei os 30 dias para me sentir melhor no meu corpo, imaginei um caminho com princípio, meio e fim.

Trinta dias.
Pequenos desafios.
Movimento.
Alimentação.
Reflexões.
Novas rotinas.

E, naturalmente, imaginei também os textos que iria escrever, as experiências que iria partilhar e tudo aquilo que gostaria de cumprir.

Não aconteceu assim.

Não fiz tudo.
Não publiquei tudo.
Não consegui acompanhar todos os dias como tinha pensado.

Durante algum tempo, poderia ter olhado para isso como mais uma coisa que deixei por terminar.

Mas seria injusto.

Porque, quando olho verdadeiramente para estas semanas, percebo que talvez tenha acontecido aquilo que mais importava:

voltei a cuidar de mim.

O calendário é um guia, não uma prisão

Há uma frase que tenho repetido muito no Calendário SoLu@:

O calendário é um guia, não uma prisão.

Talvez estivesse na altura de a aplicar também a mim.

É muito fácil transformar até aquilo que criamos para nos fazer bem numa nova obrigação.

Fazer exercício torna-se uma meta.

Comer melhor transforma-se numa lista de regras.

Descansar passa a ser mais uma tarefa para cumprir.

E até um desafio criado para nos aproximar de nós próprias pode acabar por nos fazer sentir que falhámos quando não conseguimos cumprir todos os dias.

Não quero isso.

Nem para mim, nem para quem acompanha a SoLu@.

Porque a vida não acontece organizada em quadradinhos perfeitos.

Há dias bons.

Há dias cansados.

Há férias, trabalho, filhos, preocupações, imprevistos, mudanças, emoções e momentos em que simplesmente não conseguimos fazer aquilo que tínhamos planeado.

E isso também é viver.

O meu corpo não precisa de ser perfeito

Comecei este caminho porque queria sentir-me melhor no meu corpo.

Não necessariamente ter um corpo diferente.

Sentir-me melhor nele.

Esta distinção tornou-se cada vez mais importante para mim.

O corpo muda.

Mudou com as gravidezes.

Mudou com os anos.

Mudou com as alterações hormonais.

Mudou com a cirurgia.

Mudou com momentos em que me mexi mais e outros em que me mexi menos.

E continua a mudar.

Durante demasiado tempo somos ensinadas a olhar para o corpo quase sempre através daquilo que falta corrigir.

O peso.

A barriga.

As pernas.

A roupa que já não serve.

O número que aparece numa balança.

Mas quero aprender a fazer uma pergunta diferente:

O que precisa o meu corpo de mim para me acompanhar bem nos próximos anos?

Talvez essa seja hoje uma das perguntas mais importantes.

Voltar ao movimento

Uma das mudanças concretas deste período foi o meu regresso ao ginásio.

Não foi um regresso perfeito.

Nem sequer começou da forma ideal.

Já contei a experiência que tive com as avaliações físicas e nutricionais e a sensação de que, muitas vezes, aquilo que deveria ajudar-nos a cuidar melhor de nós acaba envolvido em serviços adicionais, planos e mais pagamentos.

Mas essa experiência também me trouxe uma certeza:

não quero desistir de cuidar de mim só porque o contexto não é perfeito.

O ginásio é apenas um lugar.

O verdadeiro compromisso é comigo.

Quero mexer o corpo.

Quero ganhar força.

Quero preservar músculo.

Quero melhorar a mobilidade.

Quero conseguir subir escadas, caminhar, viajar, carregar sacos, brincar, dançar e viver com autonomia durante muitos anos.

Hoje vejo o exercício muito menos como uma forma de emagrecer e muito mais como uma forma de preparar o meu futuro.

E esta mudança de perspectiva talvez seja uma das maiores conquistas destes 30 dias.

Alimentação sem culpa

Também quis que este caminho tivesse espaço para falar de alimentação.

Mas não queria entrar novamente naquele ciclo que tantas pessoas conhecem:

restrição, culpa, compensação, desistência.

Comer é muito mais do que contar calorias.

É saúde, claro.

Mas também é família.

É memória.

É prazer.

É convívio.

É férias.

É um jantar especial.

É uma mesa cheia de pessoas de quem gostamos.

Quero continuar a aprender a fazer escolhas melhores sem transformar cada escolha menos perfeita numa acusação contra mim própria.

Há espaço para legumes e para sobremesas.

Para água e para um jantar especial.

Para dias muito equilibrados e outros menos.

O importante é aquilo que fazemos na maior parte do tempo.

Cuidar não é castigar.

E quero recordar-me disso.

Fazer o possível também conta

Talvez esta tenha sido a maior aprendizagem.

Durante anos, tive tendência para pensar que, quando começamos alguma coisa, devemos fazê-la bem.

Até ao fim.

Como planeámos.

Hoje começo a perceber que existe outra forma.

Podemos começar.

Interromper.

Adaptar.

Voltar.

Fazer menos.

Recomeçar.

E continuar.

Não publicar todos os artigos desta rubrica não apaga aquilo que vivi.

Não cumprir todos os desafios não transforma estes 30 dias num fracasso.

Porque houve movimento.

Houve consciência.

Houve perguntas.

Houve escolhas diferentes.

E houve sobretudo uma mudança que quero preservar:

comecei novamente a olhar para mim como alguém de quem também preciso de cuidar.

O que quero levar comigo daqui para a frente

Não quero terminar estes 30 dias com uma nova lista impossível.

Quero levar apenas algumas coisas simples comigo:

— mexer o corpo com regularidade;

— trabalhar a força, pensando também no futuro;

— caminhar sempre que puder;

— escolher melhor a alimentação sem transformar a comida em culpa;

— ouvir os sinais do meu corpo;

— respeitar o descanso;

— não esperar pelo corpo perfeito para começar a viver;

— e lembrar-me de que cuidar de mim também é uma forma de cuidar daqueles que amo.

Não sei se conseguirei fazer tudo sempre.

Provavelmente não.

E talvez esteja tudo bem assim.

Não fiz tudo. Mas alguma coisa mudou.

Se tivesse cumprido cada um dos 30 dias, escrito todos os artigos e seguido exactamente aquilo que tinha planeado, talvez este texto fosse outro.

Mas gosto mais desta verdade.

Não fiz tudo.

A vida atravessou o calendário.

Vieram outros acontecimentos, outras prioridades, outros dias.

Mas não voltei exactamente ao ponto de partida.

Alguma coisa ficou.

Estou mais consciente da importância de mexer o corpo.

Percebo melhor que preciso de força para envelhecer com qualidade.

Estou a reaprender a cuidar de mim sem fazer da balança o centro desse cuidado.

E estou a tentar trocar a exigência pela consistência possível.

Talvez seja isso que significa verdadeiramente sentirmo-nos melhor no nosso corpo.

Não gostar de tudo.

Não corrigir tudo.

Não atingir um número perfeito.

Mas conseguir olhar para ele e dizer:

este é o corpo que me trouxe até aqui.
E eu quero cuidar dele para que possa continuar comigo.


Uma pergunta para ti

E tu?

Quando pensas em cuidar melhor do teu corpo, o que seria mais importante neste momento?

Emagrecer?
Ter mais força?
Dormir melhor?
Mexer-te mais?
Comer com menos culpa?
Ou simplesmente voltar a dar atenção a ti própria?

Não precisas de começar com trinta mudanças.

Escolhe uma.

E começa por aí.

Porque talvez cuidar de nós seja exactamente isto:

não fazer tudo.

Mas não nos abandonarmos.

— SoLu@

Ligações SoLu@

→ 30 dias para me sentir melhor no meu corpo
→ Calendário SoLu@
→ Setembro — Autocuidado / Recomeço
→ Começa Aqui

Se também estás a tentar cuidar mais de ti, sem dietas impossíveis, metas perfeitas ou pressa, acompanha o Calendário SoLu@.

Todos os meses encontramos um novo tema, pequenas práticas e perguntas que nos ajudam a viver com mais consciência.

Porque aqui continuamos a acreditar numa coisa simples:

o calendário é um guia, não uma prisão.

O ginásio é fitness… mas a carteira é que fica mais magra?

Mulher a regressar ao ginásio para cuidar da saúde e ganhar força

Voltei ao ginásio porque quero cuidar do meu corpo, da minha saúde e da mulher que quero ser nos próximos anos. Mas descobri que, entre ter acesso às máquinas e saber verdadeiramente o que fazer com elas, pode existir uma mensalidade extra.

Como sabem, voltei ao ginásio.

Não foi propriamente um regresso simples.

Quando este ginásio apareceu, ainda estava em construção. Acreditei no projecto e tornei-me sócia fundadora. Durante mais de um ano paguei a mensalidade sem praticamente usufruir do espaço.

A vida aconteceu.

Fui operada e, durante algum tempo, por indicação médica, tive de evitar determinados exercícios. Os seis meses passaram, depois passaram outros meses e, quando dei por isso, tinham passado quase dois anos.

Entretanto, o meu corpo também mudou.

O peso aumentou. As alterações hormonais fizeram-se sentir. A idade foi trazendo outras necessidades e eu fui percebendo, cada vez mais, uma coisa que racionalmente já sabia:

preciso de cuidar do meu corpo não apenas para emagrecer, mas para envelhecer melhor.

Foi também por isso que decidi regressar.

E houve ainda uma motivação bonita: acompanhar o meu filho durante as férias e começarmos juntos esta rotina.

Não regressei à procura de um corpo perfeito.

Regressei à procura de saúde.

De força.

De mobilidade.

De resistência.

De qualidade de vida.

De um corpo que consiga continuar a acompanhar-me durante muitos anos.

Quando a avaliação incluída serve sobretudo para dizer aquilo que já sabemos

No meu contrato estavam incluídas duas avaliações: uma nutricional e outra física.

Achei importante.

Depois de tanto tempo parada, com alterações no meu corpo e depois de uma cirurgia, parecia-me até uma excelente forma de recomeçar com alguma orientação.

Fui.

E foi aqui que surgiu a minha desilusão.

Na avaliação nutricional fiquei, essencialmente, a saber aquilo que já sabia:

tenho excesso de peso.

Se quisesse verdadeiro acompanhamento nutricional, com orientação continuada, teria de pagar um valor adicional todos os meses.

Na avaliação física aconteceu algo semelhante.

Avaliaram.

Explicaram.

Mas, se quisesse acompanhamento personalizado e um plano adequado às minhas necessidades, teria igualmente de pagar mais.

Saí dali com números.

Mas sem um plano nutricional.

E sem um plano de treino verdadeiramente estruturado para mim.

E fiquei a pensar:

afinal, o que estava realmente incluído?

A avaliação?

Ou a oportunidade de me vender outro serviço?

Não tenho nada contra pagar por um serviço

Quero deixar isto claro.

Um nutricionista estudou e trabalha. Um personal trainer trabalha. Um profissional que acompanha individualmente uma pessoa deve ser remunerado pelo seu conhecimento, pelo seu tempo e pela sua responsabilidade.

Não espero acompanhamento personalizado ilimitado incluído numa mensalidade básica.

Isso também não seria justo.

Mas talvez exista um espaço entre estas duas realidades.

Entre:

“Tem direito a uma avaliação.”

e:

“Agora que já lhe dissemos o que está mal, se quiser saber o que fazer, terá de pagar mais.”

É essa diferença que me incomoda.

Porque uma pessoa entra num ginásio precisamente porque quer melhorar alguma coisa.

Muitas vezes chega sedentária.

Com excesso de peso.

Sem conhecer as máquinas.

Sem saber qual a carga adequada.

Sem saber quantas repetições deve fazer.

Sem perceber como organizar um treino equilibrado.

Algumas regressam depois de anos sem exercício.

Outras têm limitações que precisam de ser respeitadas.

E há quem simplesmente nunca tenha treinado.

Dizer a alguém que precisa de perder peso ou ganhar massa muscular não é propriamente dar-lhe um caminho.

É identificar o ponto de partida.

O que muitas de nós procuramos é saber:

e agora, como começo de forma segura e possível?

O ginásio é fitness, mas a carteira é que emagrece

Confesso que pensei, com alguma ironia:

o ginásio é fitness, mas a carteira é que fica mais magra.

Mensalidade.

Mais acompanhamento nutricional.

Mais acompanhamento físico.

Mais personal trainer.

Mais isto.

Mais aquilo.

E aquilo que começou como uma decisão para cuidar da saúde pode facilmente transformar-se num conjunto de extras que nem todas as famílias conseguem suportar.

Foi então que me surgiu uma pergunta desconfortável:

cuidar melhor da nossa saúde está a tornar-se um privilégio de quem pode pagar?

Não falo de ter acesso a luxo.

Falo de orientação básica.

De aprender a usar correctamente os equipamentos.

De ter um ponto de partida.

De compreender o que devemos fazer para ganhar força, melhorar a condição física e criar uma rotina que consigamos manter.

Porque aconselhar as pessoas a fazer exercício físico é fácil.

Dar-lhes condições para conseguirem fazê-lo com confiança é outra coisa.

Mexer o corpo é demasiado importante para depender de um pacote premium

A importância do exercício não é uma invenção dos ginásios.

A Direção-Geral da Saúde recomenda aos adultos entre 150 e 300 minutos semanais de actividade física aeróbia moderada, juntamente com exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias por semana.

E quanto mais envelhecemos, mais percebemos que força não é apenas uma questão estética.

É autonomia.

É conseguir levantar-nos.

Carregar compras.

Subir escadas.

Manter equilíbrio.

Brincar com os filhos e, um dia, talvez com os netos.

Continuar independentes.

Viver melhor.

Por isso voltei.

Não para lutar contra o espelho.

Mas para estar do lado do meu futuro.

E se eu não puder pagar acompanhamento?

Esta foi talvez a aprendizagem mais importante deste regresso:

não podemos deixar que a impossibilidade de pagar todos os extras nos convença de que já não vale a pena fazer nada.

A própria DGS lembra que não precisamos obrigatoriamente de frequentar um ginásio para termos uma vida activa.

Caminhar conta.

Subir escadas conta.

Dançar conta.

Andar de bicicleta conta.

Mexermo-nos mais durante o dia conta.

E isto é importante lembrar.

Porque a saúde não pode ficar presa à ideia de que só cuidamos de nós se tivermos a mensalidade certa, o relógio certo, a roupa certa, o personal trainer certo e o plano perfeito.

Podemos começar pelo que temos.

Pelo que conseguimos.

Pelo que cabe na nossa vida e também na nossa carteira.

Faz por ti

Foi esta a conclusão a que cheguei.

Vou continuar a ir ao ginásio.

Vou continuar a tentar aprender.

Vou procurar informação credível.

Vou respeitar as limitações do meu corpo.

Vou perguntar quando tiver dúvidas.

Vou observar aquilo que me faz bem.

E, sobretudo, vou tentar criar consistência.

Porque não quero desistir de cuidar de mim só porque fiquei desiludida com a forma como o acompanhamento funciona.

Talvez tenha de fazer parte do caminho com menos ajuda do que imaginava.

Mas continuo a acreditar que vale a pena.

E se estás desse lado e também sentes que não podes pagar todos os extras que aparecem pelo caminho, quero dizer-te isto:

faz exercício por ti.

Não pelo peso que apareceu na balança.

Não para caberes numa fotografia.

Não porque alguém te mostrou uma percentagem de gordura corporal.

Não para corresponderes ao corpo que te dizem que deverias ter.

Faz por ti.

Pela tua força.

Pelos teus ossos.

Pelos teus músculos.

Pela tua mobilidade.

Pela tua cabeça.

Pela tua autonomia.

Pela mulher ou pelo homem que queres continuar a ser daqui a dez, vinte ou trinta anos.

Começa com aquilo que consegues.

Uma caminhada.

Um treino simples.

Umas escadas.

Uma música na sala.

Um passeio de bicicleta.

Ou o ginásio, se fizer sentido para ti.

Mas não deixes que o marketing transforme o cuidado contigo numa sensação permanente de que ainda tens de comprar mais alguma coisa para poderes começar.

Saúde não devia ser um luxo

Não acredito que todos os ginásios funcionem da mesma forma.

Nem acredito que todos os serviços devam estar incluídos numa mensalidade.

Existem profissionais excelentes cujo acompanhamento personalizado vale, naturalmente, o preço que cobram.

A minha reflexão é outra.

Talvez os ginásios possam perguntar-se se uma pessoa que chega — especialmente depois de muito tempo parada — não deveria sair da avaliação inicial pelo menos com algumas orientações práticas para começar.

Um pequeno plano base.

Indicações sobre as máquinas.

Alguns exercícios adaptados ao seu nível.

Cuidados a ter.

Objectivos realistas.

Depois, quem quiser ou precisar de acompanhamento individual mais aprofundado poderá naturalmente contratar esse serviço.

Isso seria diferente.

Seria uma avaliação que acrescentava conhecimento e autonomia, e não apenas números.

Porque promover actividade física não deveria significar apenas abrir a porta de uma sala cheia de máquinas.

Deveria também ajudar as pessoas a perceber como podem começar.

Eu voltei. E desta vez quero ficar.

Talvez este regresso ao ginásio não esteja a acontecer exactamente como imaginei.

Mas há uma coisa que mudou.

Desta vez não quero pagar e não ir.

Não quero esperar pelo corpo certo.

Pelo peso certo.

Pelo momento perfeito.

Quero simplesmente aparecer.

Fazer o possível.

Aprender.

Ganhar força.

E cuidar de mim.

Agosto, no Calendário SoLu@, tem-me falado muito de simplicidade: retirar o excesso e regressar ao essencial.

Talvez isto também seja simplificar.

Retirar a pressão.

Retirar a ideia de perfeição.

Retirar a necessidade de ter tudo antes de começar.

E ficar com o essencial:

mexer o corpo porque quero continuar a viver dentro dele com qualidade durante muitos e muitos anos.

O resto vou aprendendo pelo caminho.

— SoLu@

E contigo?

Quando te inscreveste num ginásio, sentiste que tiveste orientação suficiente para começar?

As avaliações incluídas ajudaram-te verdadeiramente ou acabaram sobretudo numa proposta para contratar outros serviços?

Gostava muito de conhecer outras experiências, porque talvez esta conversa seja maior do que a minha.

Também podes ler:

Antes que o café arrefeça — não podemos mudar o passado, mas podemos mudar o que fazemos com ele

Livro Antes que o Café Arrefeça de Toshikazu Kawaguchi — leitura SoLu@

Uma leitura delicada sobre o tempo, o amor, as palavras que ficaram por dizer e aquilo que ainda podemos escolher viver.

Há títulos de livros que, por si só, já nos fazem parar.

Antes que o Café Arrefeça, de Toshikazu Kawaguchi, foi um deles.

Talvez porque um café seja uma coisa tão simples e quotidiana. Sentamo-nos, bebemos, conversamos. Às vezes demoramo-nos. Outras vezes deixamo-lo arrefecer enquanto a vida acontece à nossa volta.

E talvez seja precisamente essa simplicidade que torna tão bonita a ideia deste livro.

E se pudéssemos voltar atrás no tempo?

A história leva-nos até um pequeno café em Tóquio onde existe uma possibilidade muito especial: viajar no tempo.

Mas há regras.

Muitas regras.

E a mais importante talvez seja também a mais difícil de aceitar:

aquilo que fizermos no passado não vai mudar o presente.

Quando percebi isto, pensei:

Então para quê voltar?

Se não podemos impedir uma partida, evitar uma escolha, mudar uma despedida ou corrigir aquilo que aconteceu, qual é o sentido de regressar?

E é precisamente aí que, para mim, começa a verdadeira história deste livro.

Porque talvez nem sempre precisemos de mudar aquilo que aconteceu.

Talvez precisemos de compreender.

De ouvir.

De dizer.

De perdoar.

Ou simplesmente de ter mais alguns minutos com alguém.

As palavras que ficaram por dizer

Ao longo do livro encontramos diferentes histórias e diferentes formas de amor.

Amor entre duas pessoas.

Amor dentro de um casamento.

Amor entre irmãs.

Amor entre mãe e filha.

E, apesar de todas serem diferentes, existe algo que as une: aquilo que ficou por dizer, por compreender ou por viver.

Quantas vezes acontece também connosco?

Pensamos que haverá tempo.

Tempo para dizer que amamos.

Tempo para pedir desculpa.

Tempo para esclarecer uma mágoa.

Tempo para fazer aquela pergunta.

Tempo para estar verdadeiramente presente.

Tempo para voltar.

E depois descobrimos que nem sempre existe um “depois”.

Um livro simples, mas não superficial

A escrita de Antes que o Café Arrefeça é simples.

Não é um livro cheio de grandes descrições, reviravoltas extraordinárias ou personagens construídas ao longo de centenas de páginas.

É quase como assistir a pequenas cenas da vida de várias pessoas sentadas à volta de uma mesa.

Talvez se note até a origem teatral da história na forma como tudo acontece naquele espaço limitado.

No início, confesso que algumas regras do café e determinadas repetições podem parecer excessivas.

Mas, à medida que fui avançando, percebi que o verdadeiro centro da história não era a viagem no tempo.

Era aquilo que cada pessoa fazia com os minutos que lhe eram concedidos.

E isso tocou-me.

Afinal, para que serve voltar atrás?

Esta foi a pergunta que mais ficou comigo depois da leitura.

Se o passado não pode ser alterado, porque haveríamos de querer regressar?

Talvez porque conhecer o passado de outra maneira possa mudar a pessoa que regressa ao presente.

Os acontecimentos continuam a ser os mesmos.

A perda continua a existir.

A despedida aconteceu.

A escolha foi feita.

Mas nós podemos regressar diferentes.

E talvez seja essa uma das ideias mais bonitas do livro.

Não podemos reescrever todas as páginas da nossa vida.

Mas podemos olhar para algumas delas com outros olhos.

Podemos compreender coisas que antes não compreendíamos.

Podemos deixar de carregar certas culpas.

Podemos perceber que fomos amados mesmo quando não soubemos reconhecer esse amor.

E podemos escolher viver de maneira diferente a partir daí.

O tempo que ainda temos

Talvez por isso Antes que o Café Arrefeça não me tenha feito pensar tanto no passado como poderia imaginar.

Fez-me pensar no presente.

Nas pessoas que ainda estão aqui.

Nas conversas que ainda podemos ter.

Nos abraços que ainda podemos dar.

Nos telefonemas que podemos fazer.

Nas palavras que ainda vamos a tempo de dizer.

Porque, na vida real, não conheço nenhum café onde possamos sentar-nos numa cadeira e regressar ao passado.

Mas temos uma coisa que as personagens daquele café também acabam por descobrir:

temos este momento.

E enquanto estamos aqui, ainda podemos escolher aquilo que fazemos com ele.

A minha opinião

Gostei de Antes que o Café Arrefeça sobretudo pela mensagem que deixa.

Não o considero um livro perfeito. Por vezes é repetitivo, algumas situações são previsíveis e a escrita é muito simples.

Mas talvez seja também essa simplicidade que lhe dá encanto.

É um livro que não precisa de gritar para nos emocionar.

Vai deixando pequenas perguntas.

Sobre o amor.

Sobre a família.

Sobre as despedidas.

Sobre o arrependimento.

Sobre aquilo que não dissemos.

E sobre aquilo que ainda estamos a tempo de dizer.

Terminei-o com uma certeza muito simples:

não precisamos de voltar ao passado para amar melhor quem está connosco hoje.

Precisamos apenas de não deixar que o nosso café arrefeça enquanto esperamos pelo momento perfeito para viver.

Uma pergunta que ficou comigo

Se pudesses voltar ao passado apenas durante alguns minutos, sem poderes mudar absolutamente nada…

quem escolherias encontrar?

E, talvez ainda mais importante:

há alguma coisa que gostarias de dizer a essa pessoa que ainda podes dizer hoje?

Às vezes, os livros não nos dão respostas.

Dão-nos perguntas.

E algumas delas ficam connosco muito depois de fecharmos a última página.

SoLu@

Aprender a amar. Aprender a viver. Um dia de cada vez.

Sugestão de Leituras:

Eclipse Solar de 12 de Agosto de 2026 — quando a Lua nos lembra que até a luz pode parar por instantes

Eclipse solar de 12 de Agosto de 2026 visível em Portugal ao pôr-do-Sol

Hoje o céu oferece-nos um daqueles momentos que atravessam gerações: um eclipse solar visível em todo o território português e total numa pequena zona do nordeste de Portugal. Um fenómeno que a ciência sabe explicar, mas que, desde sempre, também despertou medo, admiração, histórias e perguntas sobre a vida.

Há acontecimentos que nos fazem levantar os olhos.

Interromper por alguns minutos o que estamos a fazer.

E lembrar que, enquanto seguimos ocupados com horários, problemas, planos e preocupações, existe um Universo inteiro a acontecer acima de nós.

Hoje, 12 de Agosto de 2026, é um desses dias.

Ao final da tarde, a Lua vai passar diante do Sol e Portugal assistirá a um eclipse solar extraordinariamente profundo. Em grande parte do país não será total — mas o Sol ficará quase completamente escondido.

E talvez haja algo de bonito nisso:

a luz não desaparece. Fica apenas, por alguns instantes, escondida.

O que é, afinal, um eclipse solar?

A explicação científica é muito mais simples do que o espectáculo que vemos no céu.

Um eclipse solar acontece quando a Lua passa entre a Terra e o Sol.

Quando o alinhamento é suficiente para a Lua tapar apenas uma parte do disco solar, observamos um eclipse parcial.

Quando o alinhamento é perfeito para quem está numa determinada faixa da Terra, a Lua cobre totalmente o disco solar e acontece um eclipse total.

É então que, por breves momentos, o dia pode parecer transformar-se em crepúsculo e se torna possível observar a ténue coroa solar que normalmente fica escondida pelo brilho intenso do Sol.

A Lua não apaga o Sol.

Apenas se coloca entre nós e ele.

Talvez seja precisamente essa imagem que mais me encanta.

Porque também na vida há momentos assim.

Momentos em que não conseguimos ver a luz e podemos acreditar que ela desapareceu.

Quando, na verdade, apenas existe alguma coisa a passar à nossa frente.

O eclipse de hoje é total ou parcial em Portugal?

As duas coisas.

A faixa de totalidade deste eclipse atravessa a Gronelândia, a Islândia, o Atlântico, Espanha e uma pequena área do nordeste de Portugal.

Em Portugal, o eclipse será visível em todo o país.

No território continental, a ocultação do Sol será aproximadamente de 92% a 99%.

Nos Açores e na Madeira ficará aproximadamente entre 74% e 77%.

E existe um lugar muito especial onde será possível observar 100% de ocultação: uma pequena área do Parque Natural de Montesinho, no distrito de Bragança.

É aí que, por alguns segundos, Portugal conhecerá verdadeiramente a totalidade.

Na cidade de Bragança, por exemplo, a ocultação será ligeiramente inferior a 100%; a totalidade acontece apenas numa área limitada do Parque Natural de Montesinho.

A que horas podemos observar?

No continente, o espectáculo começa aproximadamente entre as 18h30 e as 18h40, atingindo o máximo perto das 19h30–19h40.

Em Lisboa, por exemplo, o eclipse começa cerca das 18h39, atinge o máximo às 19h36, com aproximadamente 95% do Sol ocultado, e termina por volta das 20h29.

Em Constância, onde a ocultação será de cerca de 96%, começa aproximadamente às 18h37 e prolonga-se até cerca das 20h29.

Mais a norte, as percentagens aumentam, aproximando-se cada vez mais da totalidade.

E há ainda um pormenor bonito: estaremos a assistir ao fenómeno já ao final da tarde, com o Sol a aproximar-se do horizonte, criando em muitos lugares uma espécie de pôr-do-Sol eclipsado.

Por isso, se puder, procure um local com horizonte desimpedido a oeste.

Mas faça-o em segurança.

Muito importante: não olhe directamente para o Sol

Um eclipse não torna o Sol seguro para os nossos olhos.

Durante todas as fases parciais é necessário utilizar óculos próprios para observação de eclipses, que devem cumprir a norma internacional ISO 12312-2, ou métodos seguros de observação indirecta.

Óculos de Sol comuns — mesmo muito escuros — não protegem os olhos.

Também nunca devemos observar o eclipse através de binóculos, telescópios ou câmaras sem filtros solares próprios instalados no equipamento. A concentração dos raios solares pode provocar lesões graves nos olhos.

Na maior parte de Portugal o eclipse será sempre parcial, por isso os óculos devem permanecer colocados durante toda a observação directa.

A excepção aplica-se apenas aos brevíssimos segundos de totalidade e exclusivamente a quem estiver realmente dentro da estreita faixa de eclipse total.

Antes de sabermos a ciência, inventámos histórias

Hoje sabemos calcular eclipses com enorme precisão.

Sabemos quando acontecerão, onde serão visíveis e durante quanto tempo.

Mas imagine o que significaria, há milhares de anos, estar num campo em pleno dia e ver o Sol começar misteriosamente a desaparecer.

É fácil compreender porque os eclipses foram envolvidos em mitos.

Em várias culturas antigas foram considerados presságios, mensagens dos deuses ou momentos de profunda transformação.

Em tradições hindus, por exemplo, surge o mito de Rahu, uma entidade que engole temporariamente o Sol ou a Lua durante os eclipses.

Entre alguns povos da África Ocidental, como os Batammaliba do Togo e Benim, a tradição interpretava o eclipse como uma discussão entre o Sol e a Lua. Curiosamente, a resposta humana deveria ser a reconciliação: era um momento para acabar conflitos e restaurar a paz entre as pessoas.

Também existem relatos históricos em que os eclipses foram entendidos como sinais suficientemente poderosos para interromper guerras ou alterar decisões de governantes.

A ciência mudou a nossa compreensão do fenómeno.

Mas talvez não tenha retirado aquilo que sempre existiu dentro de nós:

o espanto.

E o que significa este eclipse na astrologia?

Aqui entramos noutro território.

A astronomia é uma ciência e explica fisicamente o eclipse.

A astrologia é uma tradição simbólica e interpretativa. Não existe evidência científica de que a posição dos astros durante um eclipse determine acontecimentos ou provoque mudanças na nossa vida.

Ainda assim, ao longo dos séculos, muitas pessoas utilizaram o céu como linguagem simbólica para pensar sobre si próprias, sobre ciclos e sobre mudança.

E podemos olhar para essa dimensão exactamente assim:

não como previsão, mas como metáfora e convite à reflexão.

Astrologicamente, o eclipse solar de hoje acontece durante uma Lua Nova em Leão, aproximadamente aos 20 graus deste signo.

Leão está tradicionalmente associado ao coração, identidade, criatividade, coragem, expressão pessoal, confiança e capacidade de ocupar o nosso próprio lugar.

Por isso, nas interpretações astrológicas, este eclipse é associado a temas como:

  • deixar cair versões de nós que já não fazem sentido;
  • perceber onde estamos a viver demasiado para corresponder às expectativas dos outros;
  • recuperar criatividade e autenticidade;
  • reconsiderar a forma como procuramos reconhecimento;
  • encontrar coragem para ocupar o nosso lugar sem diminuir o espaço de ninguém;
  • iniciar um novo capítulo relacionado com identidade e expressão pessoal.

Mas talvez nem precisemos acreditar em astrologia para aproveitar o simbolismo.

Porque há uma pergunta muito humana escondida num eclipse:

O que permanece quando aquilo que normalmente ilumina o caminho fica, por momentos, escondido?

Talvez hoje não seja preciso manifestar nada

Vivemos num tempo em que tudo parece precisar de ser transformado numa tarefa.

Até os momentos de contemplação.

Fazer uma lista.

Definir intenções.

Manifestar.

Decidir.

Mudar.

Melhorar.

Mas talvez o eclipse não precise de nada disso.

Talvez possamos simplesmente estar.

Olhar.

Sentir.

Perceber a mudança da luz.

Reparar nas sombras.

Ouvir o silêncio diferente dos animais e da natureza.

Segurar a mão de alguém.

Mostrar aos nossos filhos aquilo que está a acontecer.

E guardar a memória.

Porque alguns momentos não precisam de produzir nada para terem significado.

Um pequeno ritual SoLu@ para o eclipse

Não é um ritual astrológico.

É apenas uma pausa consciente.

Quando o eclipse estiver a aproximar-se do máximo, encontre um lugar tranquilo.

Respire.

Olhe para o céu em segurança.

E faça três perguntas a si mesma:

O que estou pronta para simplificar?

O que tem estado a esconder a minha luz?

O que continua dentro de mim, mesmo quando não consigo vê-lo?

Não precisa de encontrar respostas imediatamente.

Há perguntas que precisam apenas de espaço.

Talvez esta seja a verdadeira mensagem de um eclipse

A Lua passará.

O Sol continuará onde sempre esteve.

E a luz regressará.

É extraordinário pensar que um fenómeno tão gigantesco nos pode recordar uma coisa tão simples:

nem toda a escuridão significa ausência de luz.

Às vezes existe apenas alguma coisa entre nós e ela.

E talvez crescer seja também aprender isto.

Esperar.

Confiar.

Olhar com atenção.

E recordar que aquilo que fica escondido por instantes não deixou necessariamente de existir.

Hoje, se puder, olhe para o céu.

Com os olhos protegidos.

Mas com o coração bem aberto.

Porque durante alguns minutos estaremos todos debaixo do mesmo céu, a assistir à Lua passar diante do Sol.

E haverá qualquer coisa de profundamente humana nesse instante:

sermos tão pequenos diante do Universo e, ainda assim, capazes de parar para o contemplar.

SoLu@

Um dia de cada vez. Até quando o céu muda de luz.


Pergunta SoLu@

Se pudesse deixar simbolicamente na sombra uma coisa da sua vida e trazer outra novamente para a luz, o que escolheria?

Sugestão de Leituras:

Quando eu complicava o que o coração já sabia

Quando eu complicava
o que o coração já sabia

Há seis anos, o meu corpo já me pedia aquilo que hoje procuro escolher conscientemente: menos peso, menos exigência, mais espaço para viver.

Há textos antigos que, quando os volto a ler, não me parecem antigos.

Mudaram os anos.
Mudaram algumas circunstâncias.
Mudei eu.

Mas há palavras que continuam a reconhecer-me.

Nesta Sexta-feira Nostálgica, voltei a um texto que escrevi a 13 de Março de 2020: “Help/Ajuda — Quando o seu corpo lhe diz: Estou a chegar ao limite?”

Começava assim:

“Já há algum tempo que tenho sinais de que estou a chegar ao limite das minhas forças.”

E talvez esta seja uma daquelas frases que só compreendemos verdadeiramente quando passam alguns anos.

A mulher que estava cansada de aguentar

Quando releio aquele texto, encontro uma mulher consciente de que estava cansada.

Falava de sobrecarga, de exigências, de dar demasiado, de não conseguir descansar verdadeiramente. Falava também de perfeccionismo, da dificuldade em delegar e daquela sensação de ter a cabeça sempre a funcionar depressa demais.

Hoje consigo ver algo que talvez, naquela altura, ainda não soubesse nomear tão claramente:

eu estava a tentar sustentar demasiadas coisas ao mesmo tempo.

E quando fazemos isso durante muito tempo, acabamos por acreditar que o problema está em não conseguirmos fazer mais.

Talvez precisemos de organizar melhor.

Ser mais eficientes.

Ter mais disciplina.

Encontrar outra solução.

Pensar mais um bocadinho.

Fazer mais um esforço.

Só mais este dia.

Só mais esta tarefa.

Só mais esta responsabilidade.

E vamos complicando.

Até que o corpo, o coração ou a própria vida nos obrigam a fazer a pergunta que evitámos durante demasiado tempo:

E se eu não precisar de fazer mais?
E se precisar simplesmente de carregar menos?

O coração talvez já soubesse

Há uma coisa que hoje reconheço naquela mulher de 2020:

ela já sabia.

Talvez ainda não soubesse como mudar.

Talvez ainda procurasse respostas demasiado complicadas.

Mas sabia que não podia continuar da mesma maneira.

O coração costuma perceber algumas coisas antes de conseguirmos transformá-las em decisões.

Sabe quando estamos cansadas.

Sabe quando uma relação, uma rotina ou uma responsabilidade deixou de nos fazer bem.

Sabe quando estamos a dizer demasiados “sim” enquanto alguma coisa dentro de nós pede um “não”.

Sabe quando precisamos de descansar.

Sabe quando é tempo de pedir ajuda.

Sabe quando aquilo que estamos a tentar controlar já não está nas nossas mãos.

O difícil nem sempre é saber.

Às vezes, o difícil é confiar no que já sabemos.

Durante muito tempo, simplificar pareceu-me fazer menos

Hoje penso de outra forma.

Simplificar não é desistir.

Não é abandonar responsabilidades.

Não é deixar de cuidar.

Não é tornar a vida vazia ou indiferente.

Simplificar é retirar o ruído para conseguir perceber aquilo que verdadeiramente importa.

É escolher melhor onde coloco o meu tempo.

É perceber que nem tudo precisa de uma resposta imediata.

É deixar algumas coisas por fazer.

É delegar.

É dizer “não consigo agora”.

É aceitar que outra pessoa pode fazer de maneira diferente da minha.

É parar antes de chegar ao limite.

É não transformar cada problema numa missão pessoal para resolver.

É perceber que descansar não precisa de ser merecido.

E, sobretudo, é deixar de confundir amor, responsabilidade e dedicação com a obrigação de carregar tudo.

Hoje já não quero chegar ao limite para me escutar

Talvez esta seja uma das maiores diferenças entre a mulher que escreveu aquele texto e a mulher que o lê hoje.

Não quero precisar de chegar ao limite para perceber que estou cansada.

Não quero esperar que o corpo grite aquilo que eu poderia ter escutado enquanto ainda era apenas um murmúrio.

Quero reparar antes.

Perguntar-me:

O que está a pesar demasiado?

O que estou a fazer apenas porque acho que tenho de fazer?

O que posso simplificar?

O que posso deixar de controlar?

Onde preciso de pedir ajuda?

O que é realmente essencial neste momento da minha vida?

Nem sempre conseguirei fazê-lo.

Continuarei a ter dias demasiado cheios.

Continuarei a preocupar-me.

Continuarei a querer resolver coisas para aqueles que amo.

Continuarei, provavelmente, a complicar algumas situações que poderiam ser mais simples.

Faz parte de mim.

Mas agora reconheço mais depressa o caminho de regresso.

Uma aprendizagem que os anos me deram

Ao reler o texto de 2020 há também algo que quero deixar registado.

Hoje não escreveria algumas das recomendações práticas sobre saúde exactamente da mesma forma.

Também isso é crescer.

O Arquivo SoLu@ não existe para fingir que eu sempre soube aquilo que sei hoje.

Existe precisamente para guardar o caminho.

As palavras certas.

As dúvidas.

Os erros.

As tentativas.

Aquilo em que acreditava.

Aquilo que fui aprendendo.

E aquilo que entretanto escolheria explicar de outra maneira.

Porque crescer não é apagar versões antigas de nós.

É conseguir olhá-las com ternura e dizer:

“Naquele momento, fizeste o melhor que sabias.”

Talvez simplificar comece aqui

Agosto tem-me feito pensar muito sobre simplicidade.

Não naquela simplicidade bonita das fotografias perfeitas, das casas impecáveis ou das vidas sem problemas.

Falo de outra.

Da simplicidade possível.

Aquela que começa dentro de nós.

Escolher uma coisa de cada vez.

Não resolver hoje aquilo que só poderá ser resolvido amanhã.

Deixar de antecipar todos os cenários.

Pedir ajuda.

Descansar.

Estar verdadeiramente com alguém sem pensar na tarefa seguinte.

Fazer espaço.

Dizer não.

Dizer sim apenas ao que merece verdadeiramente esse sim.

E talvez perceber que uma vida mais simples não é necessariamente uma vida com menos responsabilidades.

É uma vida onde aprendemos a distinguir melhor aquilo que merece o nosso peso daquilo que podemos finalmente pousar.

Para esta Sexta-feira Nostálgica

Hoje não quero olhar para aquela mulher de 2020 e dizer-lhe:

“Devias ter feito diferente.”

Quero dizer-lhe:

“Tu já estavas a perceber.”

Estavas cansada porque tinhas carregado demasiado.

Estavas a procurar respostas porque querias continuar.

E talvez ainda não soubesses que uma das respostas seria aprender, devagar, a não te abandonares enquanto cuidavas de tudo e de todos.

Se pudesse sentar-me hoje ao lado dela, talvez não lhe desse uma lista de coisas para fazer.

Talvez lhe dissesse apenas:

Não tens de resolver tudo.

Não tens de carregar tudo.

Nem tudo depende de ti.

Descansa antes de chegares ao limite.

E escuta-te.

Porque, muitas vezes,

aquilo que passamos anos a tentar compreender, o coração já sabia.


Pequena reflexão para levares contigo

Há alguma coisa na tua vida que estás a tornar mais complicada do que precisava de ser?

Uma decisão?

Uma obrigação?

Uma expectativa?

Uma preocupação?

Uma tentativa de controlar aquilo que não depende de ti?

Não precisas de mudar tudo hoje.

Escolhe apenas uma coisa.

E pergunta:

Como poderia tornar isto um pouco mais simples?

Às vezes, a mudança começa aí.

Não numa grande decisão.

Mas num peso que finalmente decidimos pousar.


Do Arquivo para o presente

Este texto nasceu da releitura de “Help/Ajuda — Quando o seu corpo lhe diz: Estou a chegar ao limite?”, publicado originalmente em Março de 2020 no antigo universo dos Blogs SAPO e hoje preservado no Arquivo SoLu@.

O Arquivo guarda quem fui.

O SoLu@ acompanha quem estou a tornar-me.

E entre uma mulher e a outra há anos de vida, amor, maternidade, erros, aprendizagens, perdas, recomeços e uma vontade que permanece:

aprender a amar e a viver com mais consciência — e, talvez, com um pouco menos de peso.

Com carinho,
SoLu@

Sugestão de Leitura:

  • Ler o texto original no Arquivo SoLu@
  • Calendário SoLu@ — Agosto: Altruísmo / Simplicidade
  • Agosto Simples — Semana 1: Descomplicar
  • Como descomplicar a vida sem transformar a simplicidade em mais uma obrigação
  • Começa Aqui

Há livros que esperam por nós

Livro O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion, segurado junto à praia durante uma leitura de verão.

Cinco anos depois, consegui terminar uma leitura que, durante muito tempo, me falou demasiado de perto sobre aquilo que eu mais temia.

Há cinco anos, quando mudei de cidade e comecei uma nova etapa da minha vida profissional, alguém que marcou profundamente esse momento ofereceu-me este livro: “O Ano do Pensamento Mágico”, de Joan Didion.

Guardei não apenas o livro, mas também o gesto.

Guardei a pessoa, o tempo vivido, a mudança de cidade, o medo e a esperança que acompanham todos os recomeços.

Comecei a lê-lo nessa altura. Mas não consegui continuar.

Não porque o livro não me interessasse. Talvez precisamente porque me tocava demasiado.

Falava de temas que, para mim, eram difíceis de enfrentar: a morte, a perda inesperada, a doença do coração, a fragilidade da vida e aquele instante em que tudo o que parecia seguro pode mudar.

Fechei-o.

Durante cinco anos, ficou à espera.

Talvez alguns livros façam isso. Não chegam apenas às nossas mãos. Ficam silenciosamente ao nosso lado até termos espaço interior para os receber.

O mesmo livro, uma leitora diferente

Este ano, durante esta pausa, depois de acontecimentos que me voltaram a lembrar como a vida pode ser frágil e imprevisível, senti que tinha chegado o momento de regressar àquelas páginas.

O livro era o mesmo.

Mas eu já não era a mesma mulher.

Entre a primeira tentativa e esta leitura aconteceram mudanças, perdas, medos, recomeços e aprendizagens. A vida ensinou-me, muitas vezes sem pedir autorização, que não conseguimos controlar tudo.

Não controlamos o tempo.

Não controlamos as doenças.

Não controlamos as despedidas.

Não conseguimos proteger todas as pessoas que amamos de todas as dores.

E talvez uma das partes mais difíceis de crescer seja reconhecer essa impotência sem deixar que ela nos impeça de viver.

Aceitar não é deixar de sentir medo

Terminar este livro não significou vencer o meu medo da morte.

Também não me deu respostas simples para aquilo que não as tem.

Mas ajudou-me a permanecer junto das perguntas.

A aceitar que a vida contém beleza e perda, presença e ausência, esperança e incerteza. Que podemos fazer planos e, ainda assim, ser surpreendidos. Que podemos amar profundamente e continuar sem conseguir proteger tudo o que amamos.

Aceitar esta realidade não é desistir.

É aprender a adaptar-nos quando a vida muda.

É reconhecer que há acontecimentos que não conseguimos evitar, explicar ou reparar. E que, mesmo assim, precisamos de encontrar uma forma de continuar.

Talvez não voltemos a ser exactamente quem éramos.

Talvez passemos a ser alguém que conhece melhor a fragilidade da vida — e, por isso mesmo, começa a valorizar mais a sua presença.

Há leituras que precisam de tempo

Na praia, com o som do mar ao fundo, terminei finalmente o livro que comecei há cinco anos.

E percebi que algumas leituras não ficam inacabadas.

Ficam apenas à espera de que a vida nos prepare.

Talvez eu precisasse destes anos para compreender que não tenho de controlar tudo para continuar a viver. Que posso sentir medo e, ainda assim, amar. Que posso não ter respostas e continuar presente. Que posso adaptar-me às mudanças sem negar a dor que elas trazem.

Fechar este livro foi também fechar um pequeno ciclo.

Um ciclo que começou numa mudança de cidade, num novo momento profissional e no gesto de alguém que deixou uma marca bonita na minha história.

Hoje, guardo esse gesto com ainda mais gratidão.

Porque há pessoas que nos oferecem livros.

E há livros que, muito tempo depois, nos ajudam a ler a nossa própria vida.

Nem todos os livros são lidos quando chegam. Alguns esperam até estarmos preparadas para aquilo que têm para nos dizer.


Pergunta para terminar

Já tiveste um livro que precisou de esperar por ti?

Talvez não fosse ainda o momento de o compreender. Talvez tenhas precisado de viver um pouco mais antes de conseguires regressar às suas páginas.

Sugestão de leituras:

Esta semana, não consegui escrever

Esta semana, não consegui escrever.

Quando a dor nos deixa sem palavras: parar também é cuidar.

Esta semana, não consegui escrever no blog.

Também não consegui preparar publicações, escolher imagens ou encontrar frases bonitas para partilhar.

Não foi falta de organização.
Não foi falta de vontade.
Foi a vida a pedir-me silêncio.

Há acontecimentos que chegam sem aviso e nos deixam sem palavras. Que nos fazem parar tudo o que parecia urgente e olhar, com outra consciência, para as pessoas que amamos.

Nos últimos dias, uma notícia muito dolorosa tocou de perto a vida da nossa família. Por respeito por todos os envolvidos, não partilharei pormenores. Há dores que não nos pertencem para contar.

Mas há uma reflexão que não consigo guardar apenas para mim.

Nem sempre conseguimos ver o sofrimento de alguém.

Uma pessoa pode conversar connosco, sorrir, fazer planos ou parecer viver um dia normal e, ainda assim, estar a carregar uma dor que não sabemos reconhecer.

Isto assusta-nos. Faz-nos procurar sinais, respostas e explicações. Faz-nos perguntar se poderíamos ter percebido, dito alguma coisa ou feito mais.

Talvez nunca tenhamos todas as respostas.

Mas podemos escolher estar mais presentes.

Podemos perguntar:

“Como estás?”

E, depois da resposta automática, perguntar novamente:

“Mas como estás mesmo?”

Podemos ouvir sem corrigir, sem minimizar, sem apressar conselhos.

Podemos lembrar aos nossos filhos, aos nossos amigos e a quem caminha ao nosso lado que pedir ajuda não é fraqueza. Que nenhuma dor precisa de ser enfrentada completamente a sós. Que há sempre alguém a quem telefonar, alguém que pode ficar, alguém que pode acompanhar até chegar ajuda.

Esta semana, o Calendário SoLu@ ficou em silêncio.

E talvez este silêncio também faça parte de Julho, um mês dedicado à resiliência e ao descanso.

Porque resiliência não é continuar a publicar como se nada tivesse acontecido.

Às vezes, resiliência é parar.
É cuidar de quem amamos.
É aceitar que não temos palavras.
É ficar perto.
É atravessar um dia de cada vez.

Hoje volto devagar.

Não com uma resposta, nem com uma frase capaz de explicar o inexplicável.

Volto apenas com este lembrete:

Olhemos uns pelos outros com mais atenção.
Escutemos com mais tempo.
Abracemos sem exigir explicações.
E nunca tenhamos medo de pedir ajuda quando a vida se tornar pesada demais.

Há semanas em que não conseguimos escrever.

Mas podemos continuar a dizer, de todas as formas possíveis:

Estou aqui. Tu és importante. Não precisas de passar por isto sozinha ou sozinho.

Não precisamos de ter sempre as palavras certas.
Às vezes, basta ficar, ouvir e lembrar a alguém: “Estou aqui.”

Se esta reflexão te tocou, podes partilhá-la com alguém que precise de saber que não está sozinho. E, se quiseres caminhar comigo ao longo deste mês, conhece o Calendário SoLu@ de Julho — um guia de resiliência e descanso, sem pressão.

Há alguns anos, no antigo Calendário Resiliente, escrevi também sobre a importância de falar com alguém em quem confiamos e partilhar o que sentimos.

A alimentação que dá energia e não culpa

ruta e refeição simples, simbolizando alimentação sem culpa e autocuidado.

A alimentação que dá energia e não culpa

Há uma fase da vida em que o corpo começa a pedir-nos outra escuta.

Não é castigo.
Não é falha.
Não é falta de força de vontade.

É vida a mudar de ritmo.

Na menopausa — ou no caminho até ela — muitas mulheres sentem o corpo diferente: mais cansaço, mais retenção, mais fome emocional, menos paciência, mais vontade de açúcar, sono mais irregular, digestões mais lentas, peso que parece aparecer onde antes não aparecia.

E, quase sem darmos conta, começamos a falar connosco com dureza.

“Tenho de fechar a boca.”
“Tenho de compensar.”
“Não devia ter comido isto.”
“Estou cada vez pior.”

Mas talvez a pergunta não seja:
“Como posso comer menos?”

Talvez a pergunta seja outra:
“Como posso alimentar-me de uma forma que me dê energia, equilíbrio e paz?”

Esta é a proposta do Especial Verão com Leveza:
uma alimentação sem culpa, sem castigo e sem dietas impossíveis.

Uma alimentação que cuida.
Que sustenta.
Que hidrata.
Que dá força ao corpo — e descanso à cabeça.

Comer melhor não tem de ser começar uma dieta

Durante muito tempo, aprendemos a olhar para a alimentação como uma prova.

Ou estamos “a portar-nos bem”, ou estamos “a estragar tudo”.
Ou comemos “limpo”, ou sentimos culpa.
Ou seguimos um plano perfeito, ou desistimos.

Mas a vida real raramente cabe nesse tipo de rigidez.

Há filhos, casa, trabalho, férias, praia, cansaço, compras por fazer, refeições em família, dias bons e dias em que só queremos algo simples.

Por isso, nesta caminhada, comer melhor não significa viver em restrição.

Significa fazer escolhas mais conscientes, possíveis e gentis.

Significa perceber que uma refeição equilibrada pode ser simples.
Que beber água também é autocuidado.
Que acrescentar legumes não é castigo.
Que comer proteína suficiente ajuda o corpo a sentir-se mais estável.
Que preparar melhor um lanche pode evitar chegar ao fim da tarde em desespero.

Comer melhor não precisa de nascer da culpa.
Pode nascer do cuidado.

Alimentação sem culpa também é amor-próprio

Há uma diferença muito grande entre cuidar do corpo e lutar contra ele.

Quando cuidamos, escutamos.
Quando lutamos, castigamos.

Quando cuidamos, perguntamos:
“O que é que o meu corpo precisa hoje?”

Quando lutamos, dizemos:
“Não posso.”
“Não mereço.”
“Tenho de compensar.”

A alimentação sem culpa não é comer tudo sem consciência.
É comer com mais presença.

É perceber se temos fome, sede, cansaço, ansiedade ou apenas necessidade de conforto.
É escolher melhor quando conseguimos.
É aceitar com ternura quando não corre como planeado.
É voltar à próxima refeição sem drama.

Porque uma refeição não define uma vida.
Um dia menos equilibrado não apaga todos os gestos de cuidado.
E o verão não tem de ser vivido como uma ameaça ao corpo.

Pode ser vivido como uma oportunidade de cuidar dele com mais leveza.

O que ajuda nesta fase da vida

Na menopausa, o corpo pode tornar-se mais sensível a algumas escolhas do dia a dia.

O sono, o stress, o movimento, a hidratação e a alimentação começam a conversar entre si de forma mais evidente.

Por isso, pequenas mudanças podem fazer diferença no bem-estar geral:

  • beber água ao longo do dia;
  • incluir legumes ou salada nas refeições principais;
  • escolher fruta como lanche simples;
  • juntar proteína às refeições;
  • preferir cereais mais completos sempre que possível;
  • reduzir o excesso de açúcar e alimentos muito processados;
  • ter atenção ao cálcio e à saúde dos ossos;
  • não saltar refeições quando isso leva a ataques de fome mais tarde.

Nada disto precisa de ser feito de forma perfeita.

A ideia não é controlar cada garfada.
É criar uma base mais estável para o corpo se sentir acompanhado.

As regras simples da Semana 2

Esta semana, a proposta é voltar ao essencial.

Não vamos contar calorias.
Não vamos entrar em culpa.
Não vamos começar uma dieta de verão.

Vamos apenas cuidar melhor.

1. Beber mais água

A hidratação é uma das formas mais simples de cuidar do corpo.

Antes de pensar em mudar tudo, começa por observar:
tenho bebido água suficiente?

Às vezes, confundimos sede com fome, irritação ou cansaço.
Outras vezes, chegamos ao fim do dia quase sem ter bebido nada.

Um gesto simples para esta semana:
ter sempre uma garrafa de água por perto.

Na secretária.
Na mala.
Na cozinha.
No carro.
Na praia.

Não como obrigação.
Como lembrete de cuidado.

2. Montar refeições mais equilibradas

Uma refeição equilibrada não precisa de ser complicada.

Pode ter uma fonte de proteína, legumes ou salada, hidratos de carbono que sustentem e alguma gordura saudável.

Por exemplo:

  • ovos, salada e batata cozida;
  • frango, arroz e legumes;
  • atum, grão, tomate e pepino;
  • peixe, batata-doce e brócolos;
  • iogurte natural com fruta e aveia;
  • sopa com leguminosas e uma fonte de proteína.

O prato não precisa de parecer perfeito.
Precisa de alimentar.

3. Trocar sem castigar

Trocar não é proibir.

É facilitar escolhas que nos deixam melhor.

Podemos trocar um refrigerante por água fresca com limão ou hortelã.
Um lanche improvisado por fruta com iogurte.
Pão branco por pão mais escuro, quando fizer sentido.
Bolachas todos os dias por frutos secos, fruta ou uma opção mais saciante.
Um jantar pesado por uma sopa rica e um prato simples.

Não para emagrecer à pressa.
Mas para sentir mais energia, menos peso e mais equilíbrio.

4. Preparar antes da fome chegar

Muitas vezes, não comemos “mal” por falta de vontade.
Comemos o que aparece porque chegámos demasiado cansadas, demasiado atrasadas ou demasiado vazias.

Por isso, um dos maiores actos de autocuidado é preparar o básico.

Ter ovos.
Ter fruta lavada.
Ter sopa feita.
Ter legumes prontos.
Ter iogurtes naturais.
Ter atum, grão, feijão, arroz, massa, saladas simples.
Ter água fresca.

Cuidar da alimentação também é facilitar a vida à mulher que vamos ser mais tarde no mesmo dia.

Comer no verão com leveza

O verão traz encontros, férias, refeições fora, gelados, petiscos, praia, família à mesa.

E ainda bem.

A alimentação sem culpa não nos pede para deixar de viver.
Pede-nos apenas para não abandonarmos completamente o nosso cuidado.

Podemos comer um gelado e beber água.
Podemos almoçar fora e escolher uma refeição que nos deixe bem.
Podemos ir à praia com sandes preparadas em casa e fruta fresca.
Podemos jantar em família sem transformar a comida numa guerra interna.

O equilíbrio não está numa refeição perfeita.
Está na forma como voltamos a nós.

Uma prática simples para esta semana

Durante esta semana, antes de uma refeição, faz uma pausa breve e pergunta:

“O que posso acrescentar a este prato para cuidar melhor de mim?”

Talvez seja água.
Talvez seja salada.
Talvez seja proteína.
Talvez seja comer sentada, sem pressa.
Talvez seja não repetir por ansiedade.
Talvez seja permitir-te saborear sem culpa.

A mudança não precisa de começar por retirar.
Às vezes começa por acrescentar cuidado.

Mini desafio da semana

Durante 7 dias, escolhe uma destas práticas:

  1. Beber um copo de água ao acordar.
  2. Levar uma garrafa de água contigo.
  3. Comer uma peça de fruta por dia.
  4. Acrescentar legumes ou salada a uma refeição.
  5. Preparar um lanche simples antes de sair de casa.
  6. Comer uma refeição com calma, sem telemóvel.
  7. Escrever uma frase de reconciliação com o teu corpo.

Não faças tudo se isso te pesa.
Escolhe uma coisa.
Repete.
Sente.

O cuidado também se constrói assim: devagar, sem barulho, mas com presença.

Frase destaque SoLu@

Não preciso de castigar o meu corpo para cuidar melhor dele.

Para guardar

Comer melhor não é viver em culpa.
É aprender a estar mais presente no prato, no corpo e na vida.

É perceber que a comida pode ser energia, prazer, encontro e cuidado.

É deixar de tratar o corpo como inimigo.
E começar, pouco a pouco, a tratá-lo como casa.

Nesta semana, não te peço perfeição.

Peço-te só isto:

bebe mais água,
come com mais presença,
acrescenta cuidado ao prato,
e fala contigo como falarias com alguém que amas.

Porque a alimentação que dá energia
não precisa de vir acompanhada de culpa.

Precisa de vir acompanhada de amor.

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Dizer não sem culpa: quando os limites também são amor-próprio

Dizer não sem culpa também é amor-próprio.

Há limites que não afastam o amor. Protegem-no. Há “nãos” que não nascem da frieza, mas da necessidade de continuar inteira, presente e verdadeira.

Durante muito tempo, muitas de nós aprendemos a associar amor a disponibilidade total.

Estar sempre presente.
Responder sempre.
Ajudar sempre.
Aguentar mais um pouco.
Calar para não magoar.
Ceder para não criar conflito.
Dizer “sim” quando, por dentro, tudo em nós já estava a pedir descanso.

Mas chega uma fase da vida em que percebemos que viver assim não é amor.
É desgaste.
É esquecimento de nós.
É uma forma silenciosa de ir desaparecendo dentro das necessidades dos outros.

Dizer “não” sem culpa não é fácil, sobretudo quando fomos educadas para agradar, cuidar, resolver e estar sempre disponíveis. Mas aprender a colocar limites é uma das formas mais importantes de amor-próprio.

E também de amor pelos outros.

Porque quando eu respeito os meus limites, deixo de amar a partir do cansaço, da obrigação ou do ressentimento. Passo a amar com mais verdade, mais presença e mais liberdade.

O que são limites?

Limites não são muros frios.
Não são castigos.
Não são falta de amor.
Não são egoísmo.

Limites são linhas de cuidado.

São a forma como dizemos:

“Até aqui eu consigo.”
“Isto faz-me mal.”
“Hoje preciso de descansar.”
“Não posso assumir mais isto.”
“Preciso de tempo para pensar.”
“Gosto de ti, mas também preciso de me respeitar.”

Um limite saudável não serve para afastar quem amamos. Serve para proteger a relação da exaustão, da mágoa acumulada e da sensação de injustiça.

Quando não colocamos limites, muitas vezes acabamos por explodir, guardar ressentimento ou afastar-nos em silêncio. E isso, sim, fere.

Porque sentimos culpa ao dizer não?

Sentimos culpa porque, muitas vezes, confundimos limite com rejeição.

Achamos que, ao dizer “não”, estamos a ser más mães, más companheiras, más filhas, más amigas ou más pessoas. Como se o nosso valor dependesse da nossa disponibilidade permanente.

Mas há uma pergunta importante:

Se eu disser sempre sim aos outros, a que parte de mim estou a dizer não?

À minha saúde?
Ao meu descanso?
À minha paz?
Ao meu corpo?
Ao meu tempo?
À minha verdade?

A culpa aparece, muitas vezes, quando começamos a quebrar padrões antigos. Não significa que estamos erradas. Pode significar apenas que estamos a aprender uma forma nova de nos respeitarmos.

Nem toda a culpa é sinal de erro.
Às vezes, é sinal de crescimento.

Julho pede resiliência, mas também descanso

No Calendário SoLu@, Julho é o mês da Resiliência / Descanso.

E talvez seja importante lembrar isto: ser resiliente não é aguentar tudo.

Resiliência não é viver no limite.
Não é continuar a sorrir quando estamos a desmoronar.
Não é dar sempre mais uma volta à chave do esforço.

Resiliência também é saber parar.

É reconhecer quando o corpo pede cuidado.
É aceitar que os hábitos básicos importam.
É dormir melhor.
É beber água.
É comer com mais atenção.
É caminhar devagar.
É pedir ajuda.
É dizer: “Hoje não consigo carregar isto sozinha.”

O descanso não é uma recompensa para quando tudo estiver feito.
O descanso é uma necessidade para que possamos continuar.

Os hábitos básicos também são limites

Às vezes pensamos em limites como grandes conversas difíceis. Mas há limites muito simples, quase invisíveis, que começam no quotidiano.

Dormir a horas é um limite.
Não responder a mensagens quando estamos exaustas é um limite.
Parar para comer com calma é um limite.
Sair de uma discussão antes de dizer algo que magoe é um limite.
Não assumir tarefas que não cabem em nós é um limite.
Guardar um momento do dia para respirar é um limite.

Os hábitos básicos são uma forma prática de amor-próprio.

Porque o corpo também fala.
E quando não o escutamos, ele acaba por gritar.

Cansaço constante, irritabilidade, ansiedade, dores, falta de energia, vontade de chorar por tudo e por nada… muitas vezes não são fraqueza. São sinais.

Sinais de que talvez estejamos há demasiado tempo a ultrapassar os nossos próprios limites.

Dizer não sem culpa começa por dizer sim a algo maior

Quando digo “não” a uma exigência que me ultrapassa, posso estar a dizer “sim” à minha paz.

Quando digo “não” a mais uma responsabilidade que não consigo assumir, posso estar a dizer “sim” à minha saúde.

Quando digo “não” a uma conversa no momento errado, posso estar a dizer “sim” a uma resposta mais serena depois.

Quando digo “não” a agradar a todos, posso estar a dizer “sim” à minha verdade.

Nem todos vão compreender os nossos limites no início. Sobretudo quem estava habituado à nossa disponibilidade sem fronteiras.

Mas isso não significa que o limite esteja errado.

Significa apenas que a nossa mudança também obriga os outros a ajustarem-se.

Como dizer não com ternura

Dizer não não precisa de ser duro. Pode ser claro, simples e respeitoso.

Podemos dizer:

“Hoje não consigo, preciso de descansar.”
“Gostava de ajudar, mas neste momento não tenho disponibilidade.”
“Preciso de pensar antes de responder.”
“Não me sinto bem com isso.”
“Percebo o que estás a pedir, mas não consigo assumir essa responsabilidade.”
“Agora não é um bom momento para mim.”
“Preciso de cuidar de mim para conseguir estar melhor.”

A ternura não está em dizer sempre sim.
A ternura está em sermos verdadeiras sem ferir de propósito.

E há uma coisa que precisamos de aprender: não temos de justificar tudo até à exaustão.

Às vezes, uma explicação simples chega.

A partilha emocional também ajuda

Colocar limites não significa fechar o coração.

Pelo contrário. Muitas vezes, os limites tornam-se mais fáceis quando conseguimos partilhar o que sentimos.

Podemos dizer:

“Tenho andado muito cansada.”
“Sinto que estou a carregar mais do que consigo.”
“Preciso de algum tempo para mim.”
“Não estou zangada, só estou no meu limite.”
“Quero estar presente, mas preciso de descansar primeiro.”

A partilha emocional aproxima, quando é feita com verdade e sem acusação.

Em vez de dizermos apenas “não”, podemos explicar o que está por trás desse não. Não para pedir autorização, mas para sermos compreendidas.

O amor saudável precisa de espaço para a verdade.

Limites na maternidade, nas relações e na família

Na maternidade, colocar limites pode parecer especialmente difícil.

Porque queremos estar disponíveis. Queremos cuidar. Queremos proteger. Queremos acompanhar. E, muitas vezes, sentimos que se falharmos um pedido, falhamos como mães.

Mas os filhos também aprendem através da forma como nos vêem tratar de nós.

Quando uma mãe diz “preciso de descansar”, ensina que o descanso é legítimo.
Quando uma mãe diz “agora não consigo, falamos daqui a pouco”, ensina regulação emocional.
Quando uma mãe pede ajuda, ensina humildade.
Quando uma mãe não se abandona, ensina amor-próprio.

Nas relações, os limites protegem o vínculo.
Na família, ajudam a evitar mágoas acumuladas.
Na amizade, distinguem presença verdadeira de obrigação.

Amar não é estar sempre disponível.
Amar é estar com verdade.

Pequena prática SoLu@ para esta semana

Esta semana, escolhe um limite pequeno e possível.

Não precisa de ser uma grande decisão. Pode ser algo simples:

Ir dormir 30 minutos mais cedo.
Não responder imediatamente a uma mensagem.
Pedir ajuda numa tarefa.
Dizer que hoje não consegues.
Fazer uma pausa antes de aceitar mais um compromisso.
Reservar 10 minutos só para respirar.

Depois pergunta a ti mesma:

Que culpa apareceu quando tentei respeitar-me?
Essa culpa está a proteger-me ou está a prender-me a um padrão antigo?
Que parte de mim precisa de mais cuidado neste momento?

Escreve a resposta sem julgamento.

Às vezes, o primeiro limite que precisamos de colocar é com a voz dura que vive dentro de nós.

Frase destaque SoLu@

Dizer não sem culpa é aprender a não me abandonar para caber nas expectativas dos outros.

Reflexão final

Os limites também são amor.

São amor por nós.
São amor pela nossa saúde.
São amor pelas relações que queremos preservar com verdade.
São amor pelo corpo que nos sustenta.
São amor pela vida que não pode ser vivida apenas em esforço.

Nem sempre vamos conseguir dizer não com calma.
Nem sempre vamos acertar na forma.
Nem sempre a culpa vai desaparecer logo.

Mas podemos começar.

Um limite pequeno.
Uma pausa.
Uma frase honesta.
Um pedido de ajuda.
Um descanso sem pedido de desculpa.

Porque há uma versão de nós que não precisa de aguentar tudo para merecer amor.

E talvez Julho nos venha lembrar exactamente isso:
ser resiliente também é aprender a descansar antes de partir.

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