Desde que me lembro, comecei a escrever num diário.
O meu primeiro diário foi um presente de aniversário. Tinha uma pequena chave, e isso fazia-me sentir que havia ali um lugar só meu. Um lugar onde podia guardar aquilo que talvez ainda não soubesse dizer em voz alta.
Escrevia sobre os acontecimentos da minha vida, sobre as minhas emoções, sobre aquilo que sentia e nem sempre sabia compreender. Talvez escrevesse mais sobre a tristeza do que sobre a alegria, porque a tristeza, quando não encontra saída, precisa de algum lugar onde pousar.
A escrita foi, desde cedo, uma forma de tentar perceber o que se passava dentro de mim.
Às vezes, ao reler o que tinha escrito, conseguia olhar para trás com alguma distância. Percebia que havia momentos em que era preciso respirar fundo, aceitar o que a vida nos dava e continuar, mesmo sem ter todas as respostas.
A escrita como abrigo
Para mim, escrever foi muitas vezes o meu psicólogo, o meu amigo, o meu confidente.
Era na escrita que eu organizava emoções.
Guardava memórias.
Tentava compreender o amor, a desilusão, a maternidade, a esperança, a fé, a mulher que eu era e a mulher que ainda estava a nascer.
Escrevi porque precisava de me ouvir.
Mesmo quando ninguém lia.
Mesmo quando eu própria ainda não entendia tudo.
Há textos que nascem assim: não para serem perfeitos, mas para nos salvarem um bocadinho.
Quando me fui afastando de mim
Acho que uma pessoa nem sempre percebe o momento exacto em que se afasta de si.
Não acontece de repente.
Vai acontecendo devagar.
Num “sim” dito com o coração cansado.
Numa vontade adiada.
Num sonho colocado sempre para depois.
Numa emoção engolida.
Num silêncio repetido.
Numa tentativa constante de ser suficiente para todos.
E quando damos conta, já quase não perguntamos:
O que é que eu quero?
O que é que eu sinto?
O que é que ainda vive em mim?
Durante muito tempo, talvez eu também tenha escrito para encontrar essas respostas.
Os antigos textos, os blogs e a memória
Quando olho para trás, para os textos antigos, para os blogs, para as palavras que fui deixando ao longo dos anos, vejo muito mais do que publicações.
Vejo fases da minha vida.
Vejo perguntas.
Vejo amores.
Vejo dores.
Vejo esperança.
Vejo uma mulher a tentar compreender o que significa amar e viver.
É por isso que os diários e o arquivo não são apenas passado.
São memória viva.
São raiz.
São testemunho.
São o lugar onde a escrita antiga continua a ter voz, mesmo quando a vida já avançou.
Nem todos os textos antigos têm a maturidade que tenho hoje.
Nem todos foram escritos com a clareza que procuro agora.
Mas todos pertencem ao caminho.
E talvez seja isso que me comove: perceber que, mesmo quando eu não sabia, já estava a regressar a mim através das palavras.
Escrever para voltar a sentir
Há dias em que escrever ainda me devolve partes de mim que estavam dispersas.
Escrevo e percebo o que me dói.
Escrevo e descubro o que me chama.
Escrevo e encontro uma verdade que ainda não tinha conseguido dizer em voz alta.
A escrita tem essa delicadeza: não exige que saibamos tudo antes de começar.
Às vezes, começamos apenas com uma frase.
Com uma memória.
Com uma imagem.
Com uma pergunta.
Com uma saudade.
Com um desconforto.
E, de repente, a alma começa a falar.
A escrita também é propósito
Hoje percebo que escrever faz parte do meu propósito.
Não porque tenha todas as respostas.
Mas porque continuo a acreditar que uma palavra verdadeira pode fazer companhia a alguém.
Eu sei disso porque muitas palavras também me fizeram companhia.
Há textos que acolhem.
Há frases que iluminam.
Há palavras que nos encontram no momento certo.
Há partilhas que fazem uma mulher sentir que não está sozinha.
Talvez seja por isso que continuo.
Pelo amor.
Pela memória.
Pela maternidade.
Pela vida real.
Pela esperança.
Pelas mulheres que também se perderam em algum momento e procuram uma forma de voltar.
Uma pergunta para ti
Talvez a escrita não seja o teu caminho.
Talvez seja a pintura.
A caminhada.
A oração.
O silêncio.
A dança.
A música.
O jardim.
A conversa honesta.
O descanso.
Mas acredito que todas precisamos de um lugar onde possamos voltar a nós.
Um lugar onde não precisamos de representar.
Onde não precisamos de agradar.
Onde não precisamos de ser fortes o tempo todo.
Um lugar onde a verdade possa pousar.
Por isso, deixo-te esta pergunta:
Qual é a forma que a tua alma encontra para voltar a ti?
Para mim, uma das formas é escrever
Para mim, muitas vezes, foi escrever.
Foi escrever quando não sabia explicar.
Foi escrever quando o amor doía.
Foi escrever quando a maternidade me transformava.
Foi escrever quando a vida me pedia mais coragem.
Foi escrever quando precisava de acreditar outra vez.
E talvez continue a ser.
Porque há palavras que não mudam o passado, mas ajudam-nos a compreendê-lo.
Há palavras que não resolvem tudo, mas devolvem-nos presença.
Há palavras que não fazem desaparecer a dor, mas impedem que ela fique sozinha dentro de nós.
Escrever foi a forma que encontrei de voltar a mim.
E talvez, ao partilhar esse caminho, alguém encontre também uma pequena porta de regresso.
Criar também é voltar a mim.
Há emoções que não chegam primeiro em palavras.
Às vezes, chegam em cor, em traço, em silêncio.

Desejo
Se este texto te tocou, visita o Arquivo SoLu@, onde guardo parte da memória viva dos antigos blogs, e acompanha também a página O Meu Livro — Aprender a amar e a viver…, onde a escrita continua a transformar memória em caminho.
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