Sexta-feira Nostálgica | Outubro — Optimismo & Esperança
Há palavras às quais regressamos muitas vezes ao longo da vida. Não porque continuemos no mesmo lugar, mas porque crescemos e aprendemos a entendê-las de outra maneira.
Esperança é uma dessas palavras.
Ao preparar este mês de Outubro e regressar aos textos antigos do Arquivo SoLu@, encontrei-me novamente em 2020.
Desde essa altura, fui acompanhando os calendários da Action for Happiness e levando algumas das propostas diárias para os meus antigos Blogs SAPO.
Eram pequenos desafios.
Parar.
Pensar.
Criar hábitos.
Procurar felicidade.
Ser gentil.
Acreditar.
Cuidar de nós e dos outros.
Eu pegava nessas sugestões e transformava-as em reflexões ligadas àquilo que estava a viver.
Hoje, quando olho para esses textos, percebo que muitas das sementes do actual Calendário SoLu@ já estavam ali.
Ainda sem este nome.
Ainda sem esta estrutura.
Mas já com a mesma vontade:
viver com mais consciência, mais amor e mais sentido.
Outubro de 2020: começar pelas metas
No dia 1 de Outubro de 2020, escrevi:
«Outubro otimista — Dia 1: Escreva as metas mais importantes para este mês.»
Na altura queria recomeçar a conquista dos meus Bons Hábitos.
Um dos meus objectivos era cuidar melhor da alimentação.
Não apenas por mim, mas também pela minha família.
Mas nesse texto aparecia outra preocupação que, olhando para trás, continua muito presente em tudo aquilo que escrevo:
cuidar de mim sem deixar a vida passar ao lado.
Escrevi:
«Sei que há situações que eu não consigo controlar mas tenho que ter força para cuidar de mim, gostar de mim, ter uma melhor auto-estima…»
E recuperei também uma ideia ligada à maternidade:
«Hoje apetece-me dizer-te para não passares ao lado da tua vida com os teus filhos porque é nas pequenas coisas, no quotidiano da vida que o mais importante e o que mais influencia, acontece.»
As minhas metas para Outubro ficaram então muito simples:
cuidar melhor de mim
e
não deixar a vida passar ao lado, vivendo-a com quem amo.
Seis anos depois, continuo a reconhecer-me nestas palavras.
Dia 2: procurar motivos para ter esperança
No dia seguinte, voltei ao calendário.
O desafio era:
«Procure motivos para ter esperança mesmo em tempos difíceis.»
E escrevi cinco razões.
1.º Motivo
Quero ser feliz e fazer os outros felizes.
Na altura escrevi que essa felicidade dependia de mim, dos meus pensamentos, palavras e acções.
Hoje talvez acrescentasse uma nuance.
Nem tudo depende de nós.
Nem sempre conseguimos escolher aquilo que nos acontece.
Nem conseguimos simplesmente pensar positivo e apagar aquilo que dói.
Mas continuamos a poder escolher muitas pequenas coisas.
A forma como tratamos alguém.
A forma como falamos connosco.
O cuidado que colocamos num gesto.
A decisão de procurar ajuda.
A escolha de tentar novamente.
Talvez a felicidade não dependa inteiramente de nós.
Mas podemos participar nela.
2.º Motivo
Tudo o que damos, recebemos em dobro.
Hoje leio esta frase de forma menos literal e mais humana.
Nem sempre recebemos da mesma pessoa.
Nem recebemos imediatamente.
E talvez nem recebamos exactamente aquilo que demos.
Mas acredito profundamente que aquilo que colocamos no mundo importa.
O cuidado deixa marcas.
A presença deixa marcas.
Uma palavra dita na altura certa pode ficar connosco durante anos.
E o amor que damos transforma-nos também a nós.
Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de receber de volta.
3.º Motivo
Ser gentil é grátis.
Esta continua a ser uma das ideias mais simples e mais poderosas.
Não sabemos o que a pessoa ao nosso lado está a viver.
Uma palavra pode aliviar um dia difícil.
Um gesto pode fazer alguém sentir-se visto.
Uma mensagem pode chegar precisamente quando era necessária.
Não conseguimos resolver todos os problemas das outras pessoas.
Mas podemos escolher não acrescentar mais peso.
Às vezes, a esperança também se transmite assim:
através da forma como tratamos alguém.
4.º Motivo
Um belo sorriso é contagioso.
Hoje talvez não dissesse que precisamos de sorrir sempre.
Há dias em que não conseguimos.
E tudo bem.
Mas continuo a acreditar na força daqueles pequenos momentos que mudam o ambiente à nossa volta.
Um sorriso verdadeiro.
Uma gargalhada inesperada.
Uma brincadeira.
Um instante de leveza no meio de uma fase difícil.
Não eliminam aquilo que dói.
Mas lembram-nos que a dor não ocupa necessariamente todo o espaço.
Ainda existe vida ao lado dela.
5.º Motivo
Nunca desistir de conquistar os seus sonhos.
Talvez esta seja a frase que mais mudou comigo.
Em 2020, «nunca desistir» parecia-me uma ideia muito clara.
Hoje continuo a acreditar nos sonhos.
Mas aprendi que não desistir nem sempre significa continuar exactamente pelo mesmo caminho.
Às vezes, precisamos de parar.
Mudar.
Reformular.
Aceitar que determinado sonho já não faz sentido.
Ou perceber que podemos chegar ao mesmo lugar de outra maneira.
Há sonhos que se transformam connosco.
E isso não significa fracassar.
Significa crescer.
Talvez hoje escrevesse:
Não desistas demasiado depressa daquilo que verdadeiramente importa para ti. Mas permite-te mudar a forma de lá chegar.
«Tenha esperança e fé em si, até ao fim.»
Foi assim que terminei aquele pequeno texto em 2020.
E esta talvez seja a frase que mais me tocou quando o reli.
Porque, seis anos depois, continuo a acreditar nela.
Mas hoje entendo melhor o que significa ter esperança.
Não é acreditar que tudo vai acontecer como imaginámos.
Não é garantir que amanhã será fácil.
Não é negar o medo, a perda, a dúvida ou o cansaço.
Esperança, para mim, tornou-se algo mais profundo.
É acreditar que, mesmo quando não conseguimos ver o caminho inteiro, podemos procurar o próximo passo.
A esperança mudou comigo
A vida entretanto aconteceu.
Vieram mudanças.
Filhos que cresceram.
Novos ciclos.
Perdas.
Recomeços.
Planos que resultaram.
Outros que tiveram de mudar.
Dias de muita confiança.
E dias em que a esperança precisou de ser muito pequena.
Talvez por isso hoje tenha mais cuidado quando digo a alguém:
«Vai correr tudo bem.»
Porque não sabemos.
O que podemos dizer talvez seja:
«Não sei como tudo vai correr, mas não precisas de resolver tudo hoje.»
Ou:
«Vamos encontrar o próximo passo.»
Essa esperança parece-me mais verdadeira.
De cinco motivos para uma vida inteira
Quando escrevi aqueles cinco motivos em 2020, provavelmente não imaginava que voltaria a eles seis anos depois.
Mas gosto de perceber que a essência continua aqui.
Felicidade.
Dar.
Gentileza.
Alegria.
Sonhos.
Esperança.
Talvez tenha mudado sobretudo a forma como olho para cada uma destas palavras.
A felicidade deixou de ser uma meta permanente.
A gentileza tornou-se também gentileza comigo própria.
Os sonhos aprenderam a adaptar-se à vida.
E a esperança deixou de ser apenas a certeza de que as coisas melhorariam.
Passou a ser:
a vontade de continuar a procurar sentido, mesmo quando nem tudo faz sentido.
Talvez o Calendário SoLu@ tenha começado antes de ter este nome
Ao reler estes textos, percebo também que existe uma continuidade.
Desde 2020, fui escrevendo sobre muitos dos temas que hoje fazem parte do projecto SoLu@:
felicidade,
hábitos,
amor,
maternidade,
autocuidado,
gentileza,
presença,
sonhos,
optimismo,
esperança.
Na altura, inspirava-me nos calendários da Action for Happiness e transformava algumas das suas sugestões em reflexões pessoais.
Hoje existe o Calendário SoLu@.
Tem uma identidade própria.
Tem os seus temas mensais.
Os seus eixos diários.
As suas perguntas.
As suas práticas.
As suas histórias.
Mas gosto de reconhecer as raízes.
Porque aquilo que somos hoje também é feito das pequenas coisas que começámos muitos anos antes.
Outubro de 2020. Outubro de 2026.
Em Outubro de 2020 escrevia metas.
Queria melhorar hábitos.
Cuidar da alimentação.
Cuidar de mim.
Não deixar a vida passar ao lado.
E procurava razões para ter esperança.
Em Outubro de 2026, o Calendário SoLu@ dedica o mês ao:
Optimismo & Esperança
Talvez pareça coincidência.
Eu prefiro pensar que é caminho.
Há temas que regressam porque ainda temos alguma coisa para aprender com eles.
E talvez seja precisamente essa a beleza de escrever durante tantos anos.
Podemos voltar atrás.
Podemos conversar com quem éramos.
E podemos perceber:
eu não estou no mesmo lugar.
Mas aquela mulher continua a fazer parte de mim.
A pergunta que deixo para este Outubro
Em 2020 procurei cinco motivos para ter esperança.
Hoje quero deixar-te o mesmo desafio.
Mas sem obrigação de encontrares cinco.
Pode ser apenas um.
Pergunta-te:
Qual é, hoje, o meu motivo para ter esperança?
Talvez seja alguém que amas.
Uma possibilidade.
Um projecto.
Um filho.
Uma amizade.
Uma recuperação.
Uma pequena mudança.
Uma fé.
Um sonho que ainda guardas.
Ou simplesmente a certeza de que amanhã é outro dia.
Escreve-o.
Não para fingires que está tudo bem.
Mas para te lembrares de que, mesmo nos tempos difíceis, nem tudo está perdido.
Do Arquivo para o presente
Esta Sexta-feira Nostálgica nasceu da releitura de dois textos que escrevi em Outubro de 2020, no contexto dos calendários da Action for Happiness:
«Outubro otimista – Dia 1: Escreva as metas mais importantes para este mês»
e
“Outubro Otimista – Dia 2: Procure motivos para ter esperança mesmo em tempos difíceis“
Na altura escrevi:
1. Quero ser feliz e fazer os outros felizes.
2. Tudo o que damos, recebemos em dobro.
3. Ser gentil é grátis.
4. Um belo sorriso é contagioso.
5. Nunca desistir de conquistar os seus sonhos.
E terminei:
«Tenha esperança e fé em si, até ao fim.»
Seis anos depois, talvez escolha outras palavras.
Mas não quero perder aquela intenção.
Porque algumas ideias amadurecem.
Outras transformam-se.
E algumas continuam simplesmente a lembrar-nos quem sempre fomos.
Para levares contigo
SoLu@ — «Esperança não é acreditar que tudo vai acontecer como desejamos. É encontrar, mesmo no meio da incerteza, uma razão para continuar a dar o próximo passo.»
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