Porque a autoestima não cabe numa balança
Há uma espécie de ritual silencioso que acontece todos os anos, algures entre maio e junho. Abrimos o armário. Tiramos o fato de banho. Ficamos ali, paradas à frente do espelho, e fazemos aquela coisa que prometemos não voltar a fazer: a avaliação.
A lista corre automática. O que mudou desde o ano passado. O que devia ter mudado e não mudou. O que ainda tenho tempo de mudar antes de ir à praia.
E o verão, que devia chegar como uma promessa de luz e liberdade, começa carregado.
Conheço este ritual. Já o fiz durante anos. E sei o quanto custa — não o esforço de mudar, mas o peso de acreditar que precisamos de mudar para merecer estar lá.
O que aprendemos sobre o nosso corpo no verão
Crescemos com imagens muito específicas do que é um “corpo de verão”. Nas revistas, nos filmes, nas conversas entre mulheres que misturavam comparação e crítica como se fosse linguagem afetiva. Aprendemos que o verão era uma prova — e que o nosso corpo era o resultado.
O problema não é o que os nossos corpos são. O problema é o que nos ensinaram a ver quando olhamos para eles.
Não foi uma aprendizagem neutra. Foi repetida, reforçada, incorporada — e passou de geração em geração com uma naturalidade que assusta. As mães que ouvimos falar dos próprios corpos com dureza. As avós que não se fotografavam na praia. As amigas que recusavam gelados como se recusassem alguma coisa mais profunda.
E agora nós. A perguntar-nos se esta linguagem também passou para as nossas filhas — nos nossos comentários, nos nossos silêncios, na forma como nos cobrimos ou não nos cobrimos em frente a elas.
A autoestima não é uma meta de junho
Há uma ideia muito instalada de que a autoestima é algo que se conquista quando o corpo corresponde. Quando emagreço, vou sentir-me bem. Quando tonificar, vou usar aquele vestido. Quando parecer diferente, vou conseguir ser eu.
Mas isso é uma armadilha. Porque coloca a paz com o nosso corpo sempre no futuro — sempre dependente de uma condição que ainda não foi cumprida. É uma corrida em que a meta se move.
A autoestima não é a recompensa de um corpo transformado. É a prática de habitar o corpo que temos, agora, com menos guerra.
Não estou a falar de amor incondicional instantâneo — esse discurso também pode ser pesado quando não é genuíno. Estou a falar de algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: deixar de usar o corpo como adversário.
O que é cuidar do corpo com leveza
Este especial de verão da SoLu@ tem um nome escolhido com intenção: “com leveza”. Não com levidade — que implica não levar a sério. Com leveza — que implica não carregar mais do que é preciso.
Cuidar do corpo com leveza é hidratar porque o calor exige e porque faz bem, não porque faz parte de um plano de otimização. É mover o corpo de uma forma que não pareça punição. É descansar sem culpa. É comer o gelado sem fazer contas.
É também olhar para o espelho — e, quando o comentário crítico aparecer automático, reconhecê-lo pelo nome: não é a verdade. É um hábito. E os hábitos mudam-se.
Cuidar com leveza não é indiferença ao corpo. É cuidado sem condição. Sem a cláusula “desde que”. Sem o “quando for diferente”.
Viver o verão agora
As memórias de verão que mais fico são raramente sobre como eu parecia. São sobre o sal na pele depois do mar. As gargalhadas que não planeei. As conversas que se prolongaram mais do que o jantar. Os filhos a correr descalços.
Nenhuma dessas memórias exigiu um corpo diferente. Exigiram que eu estivesse presente.
E a presença é difícil quando uma parte de nós está sempre a gerir a imagem que os outros têm de nós. Quando nos cobrimos antes de entrar na água. Quando recusamos a fotografia. Quando ficamos em modo de observação enquanto os outros vivem.
O verão não precisa de esperar. O corpo que tens agora é o corpo com que podes viver tudo isto — o mar, o sol, a mesa partilhada, a tarde sem horas.
Uma pergunta para levares contigo
Se o teu corpo já fosse suficiente — exatamente como está hoje — o que é que isso te daria permissão de fazer este verão?
Guarda a resposta. Ela sabe mais do que a balança.
Uma prática simples para esta semana
Esta semana, antes de começar o dia, coloca uma mão no peito e outra no corpo.
Respira fundo três vezes.
E diz, mesmo que ao início pareça estranho:
“Não preciso de um corpo perfeito para viver este verão.
Preciso de um corpo cuidado, respeitado e habitado com mais amor.”
Depois escolhe uma pequena acção de cuidado.
Só uma.
Beber mais água.
Caminhar dez minutos.
Alongar os ombros.
Preparar uma refeição simples.
Dormir mais cedo.
Usar uma roupa em que te sintas confortável.
Sair à rua sem esperar por te sentires perfeita.
A leveza começa muitas vezes assim:
não quando o corpo muda, mas quando o olhar amacia.
Mini desafio SoLu@
Durante os próximos sete dias, troca uma frase de crítica por uma frase de cuidado.
Em vez de:
“Estou horrível.”
Experimenta:
“Estou a aprender a cuidar melhor de mim.”
Em vez de:
“Não posso vestir isto.”
Experimenta:
“Posso escolher algo que me faça sentir confortável e bonita.”
Em vez de:
“Tenho de mudar depressa.”
Experimenta:
“Posso mudar com respeito pelo meu ritmo.”
Em vez de:
“Só vou aproveitar quando emagrecer.”
Experimenta:
“Posso viver o verão enquanto cuido de mim.”
Para guardar
Não preciso de um corpo perfeito para viver o verão.
Preciso de um corpo escutado.
De um olhar mais gentil.
De escolhas possíveis.
De menos comparação.
De mais presença.
De mais verdade.
De mais vida.
Porque o verão não pertence apenas aos corpos perfeitos.
Pertence aos corpos vivos.
E o meu corpo, com tudo o que é, com tudo o que já viveu e com tudo o que ainda deseja viver, também merece sol.
Também merece mar.
Também merece descanso.
Também merece alegria.
Também merece verão.
Convite final
Este artigo faz parte do Especial Verão com Leveza, uma caminhada simples de autocuidado para Junho, Julho e Agosto.
Sem pressa.
Sem castigo.
Sem perfeição.
Apenas com a intenção de cuidar melhor do corpo, da mente e da vida — um dia de cada vez.
Se este texto falou contigo, guarda-o para voltares a ele nos dias em que precisares de te lembrar:
a tua vida não começa quando o teu corpo for perfeito.
A tua vida já está aqui.
E o verão também.
✦ Este artigo faz parte da rubrica Especial Verão com Leveza • SoLu@ • S4 Junho 2026
Queres viver este verão com mais leveza e menos cobrança? Acompanha o Especial Verão com Leveza e começa por um gesto simples de cuidado por dia.


