Nem sempre encontramos imediatamente o nosso lugar. E talvez uma das coisas mais importantes que possamos ensinar aos nossos filhos seja esta: pertencer é importante, mas nunca deve custar-nos quem somos.
Há alguns anos escrevi no Arquivo SoLu@ sobre os meus filhos, competências sociais e aquela necessidade tão humana de pertencer a um grupo.
Na altura, escrevia como mãe de um filho que tinha sentido a dor de ser excluído.
Doía-lhe a ele.
E doía-me a mim.
Porque há poucas coisas mais difíceis para uma mãe do que perceber que um filho está triste e saber que não há um botão onde possamos carregar para lhe retirar aquela dor.
Eu queria ajudá-lo.
Queria que encontrasse pessoas.
Queria que se sentisse aceite.
Queria que tivesse amigos.
Anos depois, volto ao mesmo assunto de outro lugar.
Os filhos cresceram.
Chegaram outras etapas.
Universidade, alojamentos, turmas novas, pessoas desconhecidas, ambientes diferentes.
E percebo que esta aprendizagem nunca termina verdadeiramente.
Mudam os lugares.
Mudam as idades.
Mudam os grupos.
Mas aquela pergunta continua, de alguma forma, connosco:
Onde é o meu lugar?
Chegar a um sítio novo nem sempre é fácil
Falamos muitas vezes dos novos começos como se fossem apenas entusiasmo.
Uma Universidade nova.
Um novo emprego.
Uma nova cidade.
Uma nova turma.
Uma residência universitária.
Um novo projecto.
Parece tudo cheio de possibilidades.
E é.
Mas também pode ser profundamente desconfortável.
Porque entrar num lugar onde toda a gente é desconhecida obriga-nos a começar de novo nas coisas mais pequenas.
Não sabemos com quem nos sentar.
Não sabemos com quem almoçar.
Não sabemos quem pensa como nós.
Não sabemos quem poderá vir a ser amigo e quem será apenas alguém que passou pela nossa vida.
Há pessoas que parecem integrar-se imediatamente.
Entram numa sala e, poucos dias depois, parece que já conhecem toda a gente.
Outras precisam de tempo.
Observam primeiro.
Aproximam-se devagar.
Criam relações uma a uma.
E não há nada de errado nisso.
Nem toda a gente precisa de entrar num lugar novo e encontrar imediatamente um grupo.
Talvez tenhamos dado demasiada importância à ideia de “ter um grupo”
Quando os nossos filhos são adolescentes preocupamo-nos muito com os amigos.
E compreendo.
As amizades são importantes.
A pertença é importante.
Ter alguém com quem conversar, rir, estudar, sair ou simplesmente estar faz-nos bem.
Mas há uma diferença entre ter relações e sentir que precisamos desesperadamente de pertencer a qualquer grupo.
Hoje diria aos meus filhos:
Não tenham tanta pressa de pertencer que acabem por aceitar lugares onde precisam de diminuir quem são para caber.
Porque nem todas as pessoas que nos rodeiam são amigas.
Nem todas as pessoas com quem almoçamos serão amigas.
Nem todos os colegas serão amigos.
E está tudo bem.
Algumas pessoas serão companheiras de uma cadeira.
Outras de um trabalho.
Algumas estarão connosco durante um semestre.
Outras durante anos.
E talvez uma ou duas fiquem para a vida.
A amizade não se mede pela quantidade de pessoas à nossa volta.
Mede-se muito mais pela qualidade daquilo que conseguimos construir com algumas delas.
Mas como se fazem amigos quando chegamos a um lugar novo?
Talvez comece com coisas muito mais pequenas do que imaginamos.
Um “olá”.
Sentarmo-nos perto de alguém.
Perguntar uma coisa sobre uma aula.
Aceitar um café.
Ir almoçar com colegas mesmo quando ainda nos sentimos um pouco deslocados.
Participar numa actividade.
Juntar-nos a um grupo de estudo.
Perguntar:
“Vais almoçar?”
Ou ter coragem para dizer:
“Queres vir comigo?”
Às vezes ficamos à espera que alguém nos convide.
E a outra pessoa pode estar exactamente do outro lado, igualmente insegura, igualmente nova, igualmente à espera.
Por isso, um dos conselhos que hoje daria aos meus filhos é simples:
não esperem sempre que sejam os outros a aproximar-se.
Façam também um pequeno movimento.
Não precisam de conquistar uma sala inteira.
Basta conhecer uma pessoa.
Depois outra.
As relações constroem-se através da repetição, da confiança e dos pequenos momentos partilhados.
Amizade raramente acontece num instante.
Vai acontecendo.
Não confundam timidez com incapacidade
Também temos de aceitar que não somos todos iguais.
Há quem precise de muita vida social.
Há quem seja feliz com poucas pessoas próximas.
Há quem fale com facilidade com desconhecidos.
E há quem demore semanas até conseguir mostrar verdadeiramente quem é.
Não há apenas uma maneira certa de nos relacionarmos.
O importante é que a timidez, o medo ou a insegurança não acabem por construir uma prisão.
Podemos respeitar o nosso ritmo e, ainda assim, desafiar-nos suavemente.
Hoje falar com uma pessoa.
Amanhã aceitar um convite.
Na próxima semana experimentar alguma actividade.
Pequenos passos.
Sem transformar fazer amigos numa prova que precisamos de passar.
E depois há uma aprendizagem ainda mais difícil: saber estar sozinho
Talvez esta seja uma das coisas que mais desejo ensinar aos meus filhos.
Amem.
Criem amizades.
Procurem pessoas boas.
Construam relações.
Mas aprendam também a estar convosco.
Durante muito tempo ouvi e até repeti a ideia de que nascemos sozinhos e morremos sozinhos.
Hoje talvez diga de outra forma.
Porque não vivemos verdadeiramente sozinhos.
Precisamos uns dos outros.
Amamos.
Somos família.
Criamos laços.
Precisamos de pertença.
Mas há partes da vida que ninguém pode viver por nós.
Há escolhas que são nossas.
Há medos que teremos de atravessar.
Há noites em que teremos de conversar connosco próprios.
Há decisões em que, mesmo rodeados de pessoas que nos amam, somos nós que temos de escolher o caminho.
Por isso, aprender a estar sozinho não significa desistir das pessoas.
Significa não ter medo da nossa própria companhia.
Estar sozinho não é o mesmo que sentir-se abandonado
Esta diferença é importante.
Podemos estar sozinhos durante uma tarde e sentirmo-nos bem.
Ler.
Caminhar.
Estudar.
Ouvir música.
Pensar.
Descansar.
Ir beber um café.
Fazer uma refeição.
E podemos estar no meio de cinquenta pessoas e sentir uma solidão enorme.
Por isso, não quero ensinar aos meus filhos que “não precisam de ninguém”.
Precisamos.
Somos seres de relação.
Quero ensinar-lhes outra coisa:
não precisam de aceitar qualquer companhia apenas para não estarem sozinhos.
Essa diferença pode mudar muitas escolhas.
A autoestima protege-nos quando ainda não encontrámos o nosso lugar
Quando chegamos a um ambiente novo é fácil começar a olhar para os outros como medida de nós próprios.
Eles já têm amigos.
Eles parecem mais confiantes.
Eles saem juntos.
Eles foram convidados.
Eles parecem divertir-se.
E eu?
As redes sociais ainda amplificam essa sensação.
Vemos uma fotografia de dez pessoas a jantar e não vemos os outros vinte que ficaram nos quartos.
Vemos a festa.
Não vemos a insegurança.
Vemos o grupo.
Não vemos quem, mesmo naquele grupo, está a sentir-se sozinho.
É por isso que a autoestima é tão importante.
Porque precisamos de conseguir dizer a nós próprios:
o facto de ainda não ter encontrado as minhas pessoas não significa que haja alguma coisa de errado comigo.
Talvez apenas ainda não tenha passado tempo suficiente.
Talvez aquele não seja o meu grupo.
Talvez esteja a conhecer-me também nesta nova fase.
Como mãe, há coisas que já não posso fazer por eles
Posso ouvir.
Posso aconselhar.
Posso perguntar como correu o dia.
Posso incentivar.
Posso sugerir que convidem alguém.
Posso lembrar-lhes que uma primeira semana não define um ano inteiro.
Posso recordar-lhes tudo aquilo que valem quando algum momento os fizer duvidar.
Mas não posso fazer amigos por eles.
Não posso escolher as pessoas por eles.
Não posso impedir que alguma amizade os desiluda.
Não posso evitar todas as rejeições.
Nem devo.
Porque crescer também é aprender a perceber quem merece ficar perto de nós.
O meu papel mudou.
Talvez antes eu quisesse resolver.
Hoje quero sobretudo estar disponível.
Ser aquele lugar seguro onde podem regressar sem julgamentos.
O conselho que gostaria que levassem para qualquer lugar novo
Se algum dos meus filhos me perguntasse hoje:
“Mãe, cheguei aqui e ainda não conheço ninguém. O que faço?”
Eu diria:
Dá tempo.
Olha à tua volta.
Sorri.
Diz olá.
Faz perguntas.
Aceita alguns convites.
Faz também alguns.
Não julgues as pessoas demasiado depressa.
Mas também não ignores aquilo que sentes junto delas.
Não tentes impressionar toda a gente.
Não mudes aquilo que é importante para ti apenas para caber num grupo.
Procura pessoas com quem possas ser tu.
E, enquanto essas pessoas ainda não aparecem, não transformes esse tempo numa prova de que estás sozinho no mundo.
Vai conhecendo o lugar.
Vai conhecendo as pessoas.
E vai-te conhecendo a ti também.
Não precisas de ser escolhido por toda a gente para ter valor.
Talvez crescer seja também aprender isto
Em 2019 escrevia sobre a dor de ver um filho rejeitado por um grupo.
Hoje continuo a desejar que os meus filhos tenham bons amigos.
Claro que sim.
Desejo-lhes conversas longas.
Risadas.
Pessoas com quem estudar.
Jantares.
Festas.
Confidências.
Amigos que apareçam nos dias bons e, sobretudo, nos difíceis.
Mas desejo-lhes também outra coisa.
Que saibam estar sozinhos sem se sentirem menos.
Que não confundam popularidade com amizade.
Que não confundam quantidade com pertença.
Que tenham autoestima suficiente para sair de uma mesa onde precisam de deixar de ser eles próprios para serem aceites.
E coragem suficiente para se aproximarem de uma mesa nova.
Porque haverá momentos em que ninguém poderá dar esse passo por eles.
Nem mesmo eu.
E talvez deixar crescer seja também isto.
Não lhes retirar todas as dificuldades do caminho.
Mas tentar dar-lhes raízes suficientemente fortes para saberem quem são…
e asas suficientemente seguras para se aproximarem dos outros sem terem de se perder de si próprios.
SoLu@
Para pensar
Quando chegaste pela primeira vez a um lugar onde não conhecias ninguém, o que foi mais difícil?
E que conselho darias hoje a um filho, a um jovem — ou até a ti própria — sobre amizade, pertença e aprender a estar sozinho?
Da memória para o presente
Este texto nasceu também de uma reflexão que escrevi em 2019:
«Filhos — Competências sociais — Pertença a grupo de colegas (não considero amigos)», no Arquivo SoLu@.
Na altura falava da rejeição e da preocupação de uma mãe.
Hoje volto ao mesmo tema noutro momento da vida.
Os filhos cresceram.
As perguntas também.
Mas continuo a acreditar no mesmo essencial:
podemos guiá-los, amá-los e estar disponíveis. O caminho, pouco a pouco, terá de ser deles.
Leituras:


